Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

09 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Violino


TCHAIKOVSKY - SERENATA MELANCÓLICA (Меланхолическая серенада)


Itzhak Perlman 

Os primeiros violinos foram construídos em Itália, no séc XVI e o instrumento tem mantido a sua forma original desde então tendo apenas, em finais do séc XVIII, mudado a forma do arco que, inicialmente concâvo, passa então a ser convexo em relação às cordas. O violino, com longa tradição anterior na música popular, passa, no século XVII, a substituir a viola soprano em peças de música de câmara, tornando-se um instrumento fundamental na moderna orquestração e passando a aparecer distribuido por duas secções -primeiros e segundos violinos- tocando os primeiros as partes mais agudas e os segundos as mais graves.

Ytzhak Perlman é frequentemente tido pelo mais prestigiado violinista vivo, devido não só ao seu virtuosismo mas também à vivacidade que põe nas interpretações e ainda, à sua conhecida cordialidade e simpatia.

 

08 novembro, 2011

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre, amor inventado numa indústria de lábios

   
Aqui estamos neste recanto do mundo, neste ninho solitário, aqui em cima onde ninguém nos vê, aqui estamos. É outono, chove, está frio, e nós aqui nesta esquina da vida, sem saída - sabemo-lo bem.

Aqui estamos, meu amor, os nossos braços tocam-nos, precisamos de sentir o calor um do outro. E, quando a noite cai, é uma dádiva, é um manto que cobre os nossos ombros, que nos encobre, e nós iludimo-nos pensando que à nossa volta todas as pálpebras se cerraram para nos deixar a sós, só nós dois e a nossa terna cumplicidade. E então beijamo-nos, e então os nossos lábios tocam-se, sem tempo, sem tempo, e o nosso coração aconchega-se no corpo um do outro.

Palavras de sempre, eu sei, palavras de sempre.

Mas tu, meu amor inventado, sorris e finges que estas são palavras também inventadas, que nunca ninguém antes ouviu. Sorris e eu acredito, sorrio também.

Meu amor.


No terraço, no cimo de uma escada, no jardim do Ginjal vendo o tejo, vendo Lisboa
 - ou, simplesmente, estando.


                           Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
                           amor inventado numa indústria de lábios
                           que mordem o tempo sempre cá
                           E o coração acontece-nos
                           como uma dádiva de folhas nupciais
                           nos nossos ombros de outono
                           Caiam agora pálpebras que cerrem
                           o sacrifício que em nossos gestos há
                           de sermos diários por fora
                           Caiam agora que o amor chegou



('Acontecimento' de Ruy Belo in 'Cidadão de longe e de ninguém - Antologia Poética')
 

MÚSICA NO GINJAL - O violoncelo


PETERIS VASKS - GRAMATA CELLAM 




Sol Gabetta   

Uma das mais antigas referências ao emprego do violoncelo como instrumento de orquestra, é uma coleção de sonatas italianas anónimas do séc XVII; porém, é com os Concertos Espirituais, de Luigi Boccherini, que o instrumento passa a ser reconhecido como instrumento solista, deixando definitivamente, a partir do séc XVIII, de ser visto como um mero componente indiferenciado do naipe de cordas.
 
Sol Gabetta nasceu na Argentina. Começou por estudar canto e piano em Cordoba mas veio depois a dedicar-se ao estudo do violoncelo, em Buenos Aires e em Berlin. Ensina actualmente em Basel e desde 2005, organiza em Olsberg o seu próprio festival de música de câmara - o Solsberg. A peça que aqui se ouve foi tocada há poucos dias em Lisboa, num encore que obteve um enorme aplauso do público da Fundação Gulbenkian.

 

07 novembro, 2011

Para que conste: sorrio agora perante as marés

      
Percorro as margens do rio. Às vezes está frio, o vento quase corta, outras vezes está uma aragem suave que me faz ter vontade de voar. Outras vezes chove, outras faz um sol que nunca queima porque o ar do rio nos refresca, e eu vou pensando em ti, nas tuas palavras que ainda sei de cor, na tua voz sorridente. Tenho-te amado de memória, mansamente como sei que tu, meu amor, me amas ainda a mim, um amor cada vez mais desfocado, mais longínquo. Recordas também ainda as minhas palavras? Ainda te sentes amado, aindas sentes um súbito estremecimento quando assomo à tua memória? E, se acordas de madrugada, ainda pensas em mim, ainda te lembras do meu perfume? Adormeces sorrindo, abraçado à memória de mim?

Vou andando por aqui e é nisto que vou pensando, vê tu. E, de vez em quando, paro, olho o rio, e, pensando em nós, tão ternamente adolescentes, sorrio perante as marés. Outras vezes não consigo sorrir, preferia que aqui estivesses comigo, vê tu.

No Ginjal, mulher olha o rio, pensa e não sorri - está triste


                             Para que conste:
                             dentro de ti ouve-se
                             um súbito estremecimento,
                             mas não sou capaz de dizer
                             de cor a tua poesia reunida,
                             e tenho a impressão de que
                             apenas me amas de memória.
                             Tendo amado mansamente
                             a morte, e no escuro esquecido
                             a arte e a madrugada, sorrio
                             agora perante as marés.


                             (Poema de Ricardo Gil Soeiro in 'Espera vigilante'

  

MÚSICA NO GINJAL - Duo de contrabaixo


BOTTESINI - GRAN DUETTO Nº2 FINALE




Boguslaw Furtok e Johannes Stahle 


O contrabaixo terá sido inventado no séc XV mas a sua função orquestral manteve-se indistinta até ao séc XVIII, devendo-se a Domenico Dragonetti a sua individualidade e divulgação. Tocado com arco ou dedilhado, em pizzicato, é o maior instrumento de cordas -com excepção do piano- e é também o de registo mais grave pelo que raramente tem na orquestra função de solista, havendo todavia peças escritas para contrabaixo em que este singular instrumento aparece com esse destaque.

Os três grandes duetos de Bottesini, dedicados ao seu mestre Luigi Rossi, são obras de grande inventividade, deixando transparecer a notável 'intuição melódica' do compositor e a sua predilecção pelo bel canto.

(Parece-me oportuno aqui informar que Patrick Süskind -também pianista, antes de escritor- escreveu 60-e-tal páginas de um divertido monólogo/lição-de-música, cujo título é 'O Contrabaixo' e cuja leitura vivamente sugiro)
 

06 novembro, 2011

O que não pode ser dito guarda um silêncio feito de primeiras palavras

  
Passeio à beira deste rio que une as nossas duas margens e as palavras recolhem-se, ajoelhadas perante uma beleza que não sei descrever.

A aragem fria pica as águas que correm ágeis, roça-me o rosto, transporta as gaivotas que abrem as suas longas asas ou mergulham, doidas, e o meu olhar percorre os espaços - e não quero palavras, preciso de um silêncio que venere a lonjura, um silêncio que venha do início dos tempos.

Neste caminho que percorro, não estou só - ao meu lado voam todas as palavras que saem dos livros, que se soltam dos poemas, para aqui virem voar nestes mesmos grandes espaços em que voam as gaivotas de longas asas, em que voam as palavras que não sou capaz de dizer.


Gaivotas no Ginjal numa manhã fria, o Tejo de um azul vivíssimo, Lisboa já ali

                     O que não pode ser dito
                     guarda um silêncio
                     feito de primeiras palavras
                     diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

                     quando já a incerteza
                     e o medo se consomem
                     em metros alexandrinos.
                     Na biblioteca, em cada livro,

                     em cada página sobre si
                     recolhida, às horas mortas em que
                     a casa se recolheu também
                     virada para o lado de dentro,

                     as palavras dormem talvez,
                     sílaba a sílaba,
                     o sono cego que dormiram as coisas
                     antes da chegada dos deuses.

                     Aí, onde não alcançam nem o poeta
                     nem a leitura,
                     o poema está só.
                     E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
                 

                     ('Na biblioteca' de Manuel António Pina in 'Poesia, saudade da Prosa')

  
 

MÚSICA NO GINJAL - Orquestra de câmara



GRIEG - SUITE HOLBERG (Fra Holbergs tid) PRELUDE




Chamber Orchestra 'Orpheus'


Esta orquestra é constituída por músicos que tocam instrumentos de arco, de braço não trasteado e com quatro cordas afinadas em intervalos de quinta - é a 'família dos violinos'. Aparece ainda o contrabaixo, também um instrumento de arco mas que não é da mesma família, pois tanto a sua forma como a afinação, em intervalos de quarta, são diferentes.
A origem remota destes instrumentos terá sido as vielles e rebecs usadas pelos músicos medievais para acompanhar cantos e danças; já no séc XV, surge a lira da braccio, com número variável de cordas (geralmente sete) e finalmente, já em fins do século XVI, aparecem então os primeiros violinos.

O agrupamento Orpheus tem desenvolvido um intenso trabalho de divulgação, tanto da clássica música de câmara, como de peças de autores contemporâneos. Aparece aqui dirigida por Ivan Marcovic mas é sua peculiar característica atribuir a direcção a um músico diferente de cada vez, de modo a encorajar a reflexão sobre o tradicional papel/posição do conjunto de músicos perante a música e sobre o modo como esta é geralmente entendida pelo público.

 

03 novembro, 2011

Quando escreves com uma das mãos prendes o papel

    
Quando escrevo aqui, escrevo com sentimento mais do que com pensamento. Quer a minha mão direita, quer a esquerda são o prolongamento do meu coração. As minhas mãos escrevem, correndo velozes sobre o teclado, semeiam palavras, sem intenção, sem ambição, sem cautela, sem medo. Tento nem pensar, não quero distanciamento, não quero ser cerceada, e escrevo como se falasse, ávida, volátil. Quero que as minhas palavras carreguem tempestades, desejo, paixão ou luz, silêncio, simplicidade.

As minhas palavras sou eu, sem reservas, sem filtros, sem véus, as minhas palavras são laços que estendo a quem as ouve, a quem as lê. Quem segura a ponta desses laços não tem apenas as minhas palavras - segura a minha mão, tem um pouco de mim.



[Se acredita na qualidade dos meus conselhos, peço-lhe então que, depois de ler o belo poema de José Bento, desça um pouco mais. É com saudade que hoje me despeço do ciclo musical que aqui decorreu durante estas semana, 5 Árias e Duetos, e despeço-me com um grande de Portugal, Tomaz Alcaide. Ouçamos juntos a sua fantástica voz num líndissimo trecho de Bizet]

Homem no Ginjal

                         Quando escreves com uma das mãos prendes
                         o papel, que a outra vai lavrando,
                         semeando a palavra e a turbação
                         no impulso que excede
                         a força que as unifica e as separa,

                         sob a luz a prometer que teu ardor
                         ausculta um chão ávido e volátil.

                         Tua destra segue o coração, prolonga-o;
                         a outra, mais perto dele um infindo nada,
                         nunca se distancia nem alheia
                         da matéria da fala

                         que, em tenso adágio ou numa tempestade,
                         de teu sangue transbordam, incorporam
                         desejo e posse, ruína e despedida.



                         (Poema de José Bento in Sítios)

MÚSICA NO GINJAL - I pescatori di perle



TOMAZ ALCAIDE



I pescatori di perle - Georges Bizet


Tomaz de Aquino Carmelo Alcaide foi o maior tenor português de sempre.

Nasceu em 1901 em Estremoz e começou a revelar-se em tertúlias de natureza privada, mostrando uma voz de belo timbre; a conselho de alguns amigos e de alguns críticos decide dedicar-se à carreira lírica e inicia lições de canto, primeiro com Alberto Sarti e posteriormente com Francisco de Sousa Coutinho.

A sua primeira apresentação pública faz-se no Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz e Alcaide prossegue os estudos agora com Eugenia Mantelli que lhe proporciona uma sólida preparação musical e o inicia nos papéis mais apropriados para a sua voz.

Em Abril de 1925 Tomaz Alcaide parte para Milão, para se aperfeiçoar e onde estudará com o Maestro Fernando Ferrara que o encaminha para o reportório “di grazia”, recomendando o estudo dos papéis de Almaviva, Elvino, Ernesto, Nadir, De Grieuz e Werther e em Dezembro desse ano, estreia-se no Teatro Carcano de Milão, interpretando o papel do Maestro Wilhelm, da ópera “Mignon” de Ambroise Thomas, dando início a uma carreira que o leva a ser, em 1930, o tenor escolhido para a estreia mundial de “As Preciosas Ridículas” de Felice Lattuada e de “Il Re” de Umberto Giordano, ambas no Teatro Reale de Roma. Após estas récitas, Alcaide apresenta-se no Scala de Milão, em “As Preciosas Ridículas” e também em “Il Gobbo del Califfo” de Franco Casavola e em “Madonna Imperia” de Franco Alfano; o seu desempenho é de tal modo imponente que o Scala propõe-lhe um contrato para primo tenore por 3 temporadas consecutivas.

Nos anos 30 do século XX, sendo já reconhecido por toda a Europa, Alcaide estreia-se na zarzuela e na ópera vienense.

Em Montecarlo, interpreta em 1934 “Doña Francisquita”, do espanhol Amadeo Vives e em Boulogne sur mer, Bruxelas e Paris, interpreta, em 1937, a opereta “O País dos Sorrisos”, de Franz Lehar. Ficarão ainda famosas as suas interpretações de personagens libertinas, apoiadas na dinâmica da sua voz de timbre cristalino.
Com o início da 2ª Guerra Mundial, Tomaz Alcaide parte para a América do Sul, sendo recebido no Teatro Colón, de Buenos Aires e depois na Ópera do Rio de Janeiro e no Teatro Municipal de São Paulo.

Terminado o conflito, volta a actuar nos palcos europeus, regressando em definitivo a Portugal em 1947.

Admirado pelos seus incontestáveis dotes naturais – os seus 'pianíssimi' eram de uma delicadeza extrema – e pelo seu virtuosismo técnico e grande escola vocal, Tomaz Alcaide apresentou-se durante mais de duas décadas nos mais importantes teatros líricos da Europa e América, constando do seu repertório quase todos os grandes papeis para tenor.

Na última década de vida, Alcaide realizou ainda diversas conferências, publicou uma autobiografia intitulada “Um Cantor no Palco e na Vida”, colaborou em programas de rádio, ao lado de João de Freitas Branco e de Maria Helena de Freitas e dirigiu a Escola de Canto do Teatro da Trindade, acumulando os cargos de mestre de canto e de encenador da Companhia Portuguesa de Ópera.

Tomaz Alcaide viria a falecer a 9 de Novembro de 1967 em Lisboa.


(adaptado de uma biografia publicada por António Ferreira)

  

02 novembro, 2011

Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração

 
O tempo extinguiu-se para nós. Éramos tão felizes dentro do exíguo casulo que construímos para nós. Aí o tempo dilatava-se para nos acolher, para acolher os nossos sorrisos namorados, as nossas palavras generosas, os nossos sonhos desencantados. Era sempre dia lá no nosso acolhedor casulo, havia um sol que nos iluminava, que colocava a minha saia em contraluz, que dourava o meu cabelo, que dourava a tua pele. Falavas-me do mar, das tuas viagens no mar, das tuas noites no mar, o céu, as estrelas que vias e eu ouvia-te deliciada.

Agora que o nosso tempo acabou e eu já não te vejo, não ouço a tua voz recortar o desenho das estrelas, tudo me parece tão distante, parece que te deixei lá atrás no fim do mundo.

Agora a noite abateu-se sobre os nossos corpos e nós estamos sozinhos.

Mas, pudesse eu, entregar-te-ia ainda o meu coração.



[E, um pouco mais abaixo, depois do poema, ouça, por favor, Tatiana e Onegin - digo Renée Fleming e Dimitri Khvorostovsky, excelentes]

No Jardim do Ginjal, homem caminha sozinho, num dia chuvoso



                       A casa onde às vezes regresso é tão distante
                       da que deixei pela manhã
                       no
mundo
                       a água tomou o lugar de tudo
                       reúno baldes, estes vasos guardados
                       mas chove sem parar há muitos anos

                      Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
                      uma viagem se deu
                      entre as mãos e o furor
                      uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
                      sobre o corpo

                      Tivesse ainda tempo e entregava-te
                      o coração


('A casa onde às vezes regresso' de José Tolentino Mendonça in 'A noite abre meus olhos')


 

MÚSICA NO GINJAL - Eugene Onegin



ONEGIN E TATIANA  (DUETO)


Eugene Onegin  - Piotr Tchaikovsky
(Евгений Онегин - Пётр Чайковский)
 

É uma ópera em 3 actos estreada em Moscovo, no Teatro Malhy com libretto de Konstantin Schilowski, baseado numa novela de Aleksandr Pushkin e descreve os acontecimentos desde que Tatiana e Olga vêem chegar Lensky, noivo de Olga e um seu vizinho, Onegin. Tatiana apaixona-se por este à primeira vista mas ele esclarece que a sua vida 'não é de amores' e que se estivesse destinado a casar seria com outra. Perturbado por mexericos virá mais tarde a abater em duelo o seu amigo Lensky após o que reencontra Tatiana, numa festa em casa de Larina; implora-lhe que aceite o seu amor perdido; porém desgraçadamente é agora ela quem o repudia, despeitada e por não acreditar na sua solidez dos seus afectos.

Renée Fleming e Dmitri Khvorostovsski cantam o dueto final numa encenação de 2007, do Metropolitan Opera House -Met- de New York (com a parte inicial que aqui se ouve, informalmente transcrita em caracteres latinos para poder tentar ouvir).


Татьяна                                                         Tatiana
Онегин, я тогда моложе,                             (Oneguin, iá tougdá molojie,)
Я лучше, кажется, была,                              (iá lutchié, kajétçiá, bilá,)
И я любила вас... Но что же,                        (i iá liubilá váce... nô tchtou je,)
Что в вашем сердце я нашла,                      (tchtou v váchiém serdtcé iá nachlá,)
Какой ответ?... Одну суровость!...               (cacoi otviet?... adnu surovosst!...)
Не правда ль, вам была не новость             (nié pravda lhe, vame bîlá nié novosst)
Смиренной девочки любовь?                       (smirénoi dievotchki liubov?)
И нынче — боже! — стынет кровь,               (i nîn'tche -vojé!- stîniet crov,)
Как только вспомню взгляд холодный         (cac tolhco vsspomniu vzgliad kholodnîi)
И эту проповедь!...                                        (i etu propovied!...)
(...)                                                                  (...)

Онегин                                                           Onegin
Ах! О боже! Ужель,                                       (ah! ô boje! ujel,)
Ужель в мольбе моей смиренной                 (ujel v molhbie moiei smirénoi)
Увидит ваш холодный взор                          (uvidit vach kholodnîi vzor)
Затеи хитрости презренной?                        (zatiei khitrossti priezrenoi?)
Меня терзает ваш укор!                                (meniá terzaiet vach ucor!)
(...)                                                                  (...)

   

01 novembro, 2011

E de repente o teu nome deixou de desaguar no rio que te fazia nascer dentro de mim

 
Os dias vão passando, os meses, os anos, e o teu sorriso já não habita o meu olhar. Adormecia contigo no meu coração, acordava preparando-me para as tuas alavras. Até que um dia, sem palavras que nos ferissem, afastámo-nos. Cada um na sua casa, cada um na sa vida e tudo com a naturalidade de quem sempre soube que assim seria.

As noites nunca foram para nós, os despertares também não. O nosso breve encontro seria, sempre o soubémos, fugaz, um amor num beco sem saída. Sem culpa nos amámos, sem culpa nos separámos. Assim quiseram os deuses e nós, obedientes, aceitámos que os deuses decidissem por nós.



[Amores, desamores. Partilhemos o momento com Leonora e Ferdinando em La Favorita que se (des)entendem ali mais abaixo, logo a seguir à Alice Vieira]


Hoje de manhã no Jardim do Ginjal, rente ao Tejo


Feliz é aquele que
tece o seu dia até ao fim
sem lágrimas

Álcman

                       E de repente o teu nome deixou de desaguar
                       no rio que te fazia nascer dentro de mim

                       e de repente ficámos muito longe      e as palavras
                       feriam mais do que as tempestades
                       e tu disseste que no meu corpo se escondiam
                       todas as ameaças e naufrágios      e que
                       nenhum deus conseguia aplacar-te a culpa

                      então entendi que não valia a pena
                      refazer a teia com que iludia a tua vinda
                      porque tinha chegado o momento de voltares para casa
                      entre o ladrar dos cães      e os galos que
                      anunciavam a manhã

                      e o rasto das cidades
                      onde tínhamos sido     deslumbradamente        perfeitos
                      transformou-se num beco sem saída       onde
                      a ira de todos os deuses me denunciava


                     (Poema de Alice Vieira in 'O que dói às aves')

 

MÚSICA NO GINJAL - La Favorita

 

FIA VERO? LASCIARTI!  (DUETTO)



La Favorita - Gaetano Donizetti 


Ópera em 4 actos estreada em Paris na versão original, com libretto de um colectivo de 3 autores e depois transcrita para italiano e estreada em Pádua, em 1842. A trama é baseada num romance de Baculard Arnaut e tendo por pano de fundo as dissensões entre o trono a igreja, expõe as vicissitudes de um triângulo de alcova, constituído por Alfonso XI de Castilla, a sua favorita, Leonora de Guzmán e Ferdinando, um noviço do mosteiro e seu amante secreto, nos braços do qual acaba por morrer.

Roberto Alagna e Kate Aldrich, nos papeis de Ferdinando e Leonora, cantam este dueto de confirmações no final do 1º acto

    FERDINANDO 
    Giammai!                          (jamais!)
    Fia vero? Lasciarti!           (é verdade? deixar-te!)
    E tu il chiede a me?          (e tu pedes-me isso?)     
    Mia vita é l'amarti,            (a minha vida é amar-te)
    spirare per te                   (respirar por ti)
    (...)                                   (...)
   
    LEONORA
    Deh vanne! Deh, parti!     (ah vai! ah, parte!)
    Deh, fuggi da me!             (ah, foge de mim!)
    M'è gioia l'amarti               (é para mim um prazer amar-te)
    delitto e per te                  (em pecado e para ti)
    Ah, freddo il cor mio          (ah, frio o meu coração)
    per morte sarà                  (pela morte ficará)
    (...)                                    (...)

  

31 outubro, 2011

amo e logo odeio este poema: lisboa geme e o vento traz-nos açucenas

 
O que eu mais queria, meu amor, era saber que não te deixas ficar assim, de frente para o mar, triste dentro do teu corpo. Queria saber que o teu coração tão doce, que depositavas nas minhas mãos, não está agora envolto em noite. Tenho tanto receio, amor, que as lágrimas escorrram, lentas e pesadas, no teu pensamento.

Dizes que eu fazia de ti um homem melhor, dizes que eu te dava um motivo para viveres cada dia como se fosse sempre um dia novo, dizes que nada substitui a minha ausência. Ouço-te e as tuas palavras caem pesadas no mais fundo de mim, como uma pedra que se atira para dentro de um poço com água lá muito no fundo. Nada te digo, mas sabe, amor, é em ti que penso agora, é em ti que penso nas horas mortas em que o teu sorriso querido, a tua voz quente e macia, mais falta me faz.

Fomos devorados pelas circunstâncias, ficámos submersos pelas nossas vidas normalizadas e felizes. Mas, dentro de nós, as lágrimas escorrem, num coração tantas vezes invadido pelas trevas.



[Isolde chora, lamenta-se, sofre, luta, enternece-se e Waltraud Meier dá-lhe voz, sublime, perfeita. A seguir ao poema de um outro Ricardo desça um pouco mais, ouça por si, é um momento de extrema beleza]

De frente para Lisboa, o Tejo correndo com vagar: há horas assim


                             amo e logo odeio este poema:

                             lisboa geme e o vento traz-nos açucenas,
                             apodrecendo a cidade sob o rio interrompido
                             e nós, nocturnos, sendo devorados
                             pela rosa dos mundos.

                             odeio e logo amo este poema:

                             há horas assim,
                             em que, submerso na parte
                             mais triste do meu corpo,
                             e coração noitedentro,
                             deixo-me escorrer
                             as lágrimas mortas,
                             líquidas trevas transparentes.


                             ('VIII Poema' de Ricardo Gil Soeiro in Espera Vigilante)

MÚSICA NO GINJAL - Tristan und Isolde



ISOLDE LIEBESTOD


Tristan und Isolde - Richard Wagner 


Ópera em 3 actos, com libretto do próprio Wagner e baseada numa épica do séc XII, de Gottfried von Straßburg, foi estreada em Munich em 1865, sob direcção do notável Hans von Bülow.
A história começa durante a viagem de Isolde, que vai ao encontro do Rei Marke para com ele casar. Durante a travessia para Cornwall, os olhares de Tristan e de Isolde cruzam-se, em condições dramáticas e que inelutavelmente os vão ligar num fervoroso desejo que, através de inúmeras peripécias, envolvendo mortes e venenos que afinal eram elixires mágicos, acabará por conduzi-los a uma morte de paixões desencontradas.

Waltraud Meier surge, nesta interpretação do Liebestod, num surpreendente registo de mezzo-soprano, eminentemente wagneriana e com um efeito musical que deverá ser registado como referência.

         Mild und leise                         (sereno e gentil)        
         wie er lächelt                         (como ele sorri) 
         wie das Auge                         (como os olhos)
         hold er öffnet                         (ternamente se abrem)
         seht ihr's, Freunde?               (vêem, amigos?)
         Seht ihr's nicht?                     (não vêem?)

 

30 outubro, 2011

Desentrelaço o amor deslaçando o imprevisto e com ele me visto

    
Tapava a nudez, que tu tanto desejavas, com o meu pudor malicioso. Mas logo tu me forçavas ao impudor, despindo-me de todas as roupas, de toda a timidez. E com a luz que entrava pela janela e com o calor do teu corpo eu me via coberta, impudica e cheia de amor. E se as minhas mãos ainda tentavam cobrir algum recanto de pele, logo as tuas mãos audaciosas brincavam com o meu pudor, louvando a minha nudez, brindando ao nosso amor.



[Mais abaixo, depois da Maria Teresa Horta, encontrará a diva, a divina - um sublime lamento de amor na voz de Maria Callas]

Numa manhã de sol de outono, fotografando Lisboa, com o Tejo, manso, de permeio

                           Desentrelaço o amor
                           deslaçando o imprevisto
                           e se com ele me visto

                          de novo com as tuas mãos
                          torno a tecer
                          o que dispo

                          Entranço a luz no abraço
                          e o baraço no fulgor
                          desembaraço a nudez

                         tiro e uso o meu pudor
                         ponho o sol a iluminar
                         o corpo seja onde for


                        (Entrelaçar de Maria Teresa Horta in Poesia Reunida)

MÚSICA NO GINJAL - D. Carlo

 
TU CHE LE VANITÀ


Don Carlo - Giuseppe Verdi 


Verdi compôs 'Don Carlo' original com libretto em francês, depois adaptado para italiano, baseado num romance de Schiller e estreada em Paris. A ópera, em 5 actos, dramatiza a desgraça de Carlo, apaixonado por Elisabetta (de Valois) a filha de Henri II e de Caterina de Médici que lhe havia sido prometida e que viria a casar, por força de um tratado de paz e em terceiras núpcias, com seu pai, Filipe II.

Maria Callas, inicia a representaçao desta ária com um longo preâmbulo em que, sem uma palavra, acentua a desgraça moral de Elisabetta, cantada junto ao túmulo de Carlos. 
   
    Tu che le vanità conoscesti del mondo          (tu que conheceste as vaidades do mundo)
    e godi nell'avel il riposo profondo                  (e gozas no túmulo o repouso profundo)
    s'ancor si piange in cielo                               (se ainda se chora no céu)
    piangi sul mio dolore                                    (chora a minha dor)
    e porta il pianto mio                                     (e leva o meu choro)
    al trono del Signor                                        (ao trono do Senhor)
    il pianto mio                                                 (o meu choro)
    porta al trono del Signor                              (leva ao trono do Senhor)


  

27 outubro, 2011

Não volto, não. Isto acabou e foi de vez.

  
Não voltarei. Nem tu. Acabou e ambos sabemos que foi de vez. Mas foi um fogo extraordinário o que nos envolveu, não foi? Sabia-nos tão bem, éramos tão felizes, éramos tão livres na nossa efémera paixão.

Sabia-nos tão bem, dava-nos tamanha calma, sonhávamos tanto, andávamos alegres como jovens namorados. E eram tão bons os nossos beijos, beijos conquistados, beijos escondidos.

Já consigo falar disto, destas doces recordações, destas recordações que jamais esquecerei.



[E a seguir, depois de passar pelo poema, desça um pouco mais para ouvir uma outra mulher cantando Hija mia - conversa de mulheres, cântigos íntimos]

Em Cacilhas, junto ao Tejo, tapete azul, tão pertinho de Lisboa, a Bela


                            Não volto, não. Isto acabou e foi de vez.

                            Atleta de uma única vontade,
                            não quero mais prender-me novamente
                            no fumo de uma triste combustão
                            em que eu andei...

                            Sabe-me bem viver, - ser livre, enfim!

                            Já sei falar de coisas esquecidas.

                            Fui ontem ao cinema.

                            Sentei-me, calmo, à noite, num jardim.

                            Beijei uma mulher
                            sem perguntar quem era...

                            - Agora, dou por mim.


                           (Poema de António Botto in 'Poemas com cinema')

  

MÚSICA NO GINJAL - Canto Sefardita



CANTO SEFARDITA


Hija Mia 


Os cantares sefarditas são também cantos monódicos mas neste caso, são cantigas de mulher, intimistas e sensuais, que refletem 'coisas da vida'. Como é típico da música antiga, contam histórias de aviso ou de intuito moralizante ou trocista. Estes cantares denotam influências da música espanhola, italiana e occitana antiga e aparecem nesta peça em castelhano do séc XIV. 
   
  

26 outubro, 2011

Nada de bom fica de verdade e, então, a pena de viver não vale a pena revivê-la

  
Vem meu querido menino, vem, coloca a tua mãozinha no meu peito, sente o meu coração quase gasto.

Vem, meu menino lindo, dá-me a tua mãozinha branca, com refeguinhos fofos, quentinha, deixa-me enchê-la de beijinhos.

Vem, queridinho pequenino, prende-me a ti, prende-me à vida, não deixes que o meu destino se cumpra já, prende a minha mão.

Diz-me, meu menino mais lindo, diz-me que vale ainda a pena, diz-me que fique, que a vida é boa, diz-me que essa é a verdade.

Ou então brinca aqui ao meu lado, deixa-me ver-te, deixa reviver em ti toda a minha vida.



[Meu caro Leitor, se quer ouvir música, está no local certo. Desça um pouco mais - passará pela fotografia, a seguir pelo poema de pedro Tamen e, logo a seguir, estará com Martin Codax que integra o ciclo da música medieval]

Avó e neto no Ginjal, sobre o tejo, de frente para Lisboa


                    Atarda a mão que vai ao rés do colo
                    mexericar no veio da lembrança
                    de brancuras fatais, refegos curtos,
                    olores de tepidez humedecida
                    por suores impalpáveis mas palpados.
                    Atarda: que por mais
                    que a tua mão avance, nunca vence
                    o valor sopesado em loucas e supostas
                    locubrações, destinos. Atarda:
                    nada de bom fica de verdade e, então,
                    a pena de viver
                    não vale a pena revivê-la.


                   (Poema de Pedro Tamen in Memória Indescritível)

   

MÚSICA NO GINJAL - Martin Codax


MARTIN CODAX


Non é gran cousa 


Martin Codax -além de nome deste agrupamento- foi um jogral galego de finais do séc XIII, de quem pouco se sabe mas de quem foi possível recuperar sete cantigas d'amigo - Ondas do mar de Vigo, Mandad'ei comigo ca ven meu amigo, Mia yrmana fremosa treides comigo, Ay Deus se sab'ora meu amado, Quantas sabedes amar amigo, En o sagrad' e Vigo e Ay ondas que eu vin veer - grafadas num valiosíssimo pergaminho encontrado por acaso a forrar a capa de um livro antigo, o Pergaminho de Vindel. 


25 outubro, 2011

Não retomo nos teus braços o calor da tua boca


Gostava tanto de me aninhar nos teus braços, gostava tanto de sentir a tua boca quente e macia.

Gostava tanto das nossas longas conversas ou dos silêncios em que nos olhávamos amorosamente.

Mas sabíamos que um dia terminaria a nossa breve e doce história. Onde existia uma proximidade absoluta, existe agora uma longa e densa ausência. Cedemos ambos, cedemos o nosso terno afecto. Mas não, não existe qualquer rasto de medo. Ambos sabemos que outra coisa não seria possível. Foi com civilizado entendimento que nos despedimos.

Mas, meu amor, não te esqueças nunca que vives como te lembro - puro, bom, meigo, doce, querido - bem dentro de mim, naquele recanto quentinho em que não se sentem as distâncias.



[Depois do Exercício da Maria Teresa Horta, desça um pouco mais, são lindos os cânticos de Santa Maria]



                                       Não retomo nos teus
                                       braços
                                       o calor da tua boca

                                       nem retomo do silêncio
                                       as palavras que se
                                       escoam

                                       Mas se na tua distância
                                       existe um entendimento
                                       na minha lenta cedência
                                       existe um rasto de medo


                                      ('Exercício' de Maria Teresa Horta in Poesia Reunida)

 

MÚSICAS NO GINJAL - Cantigas de Sta. Maria



CANTIGAS DE STA. MARIA


Por que

Afonso X, o Sábio, foi avô de D. Dinis de Portugal o qual foi também, por sua vez, um 'rei sábio' e poeta, além de ter sido ele que estabeleceu as primeiras normas de definição de um Estado moderno no território -Reino de Portugal- que vinha a ser demarcado pela conquista, desde o séc XII. De ambos são conhecidas algumas 'cantigas', uma forma de música de jogral e de trovador cujas variações dependiam do tipo ou do teor da narrativa. Não é clara a dimensão da autoria de Afonso X em Cantigas de Sta Maria; por outro lado, está bem identificada a autoria das sete cantigas de D Dinis - Poys que vos Deus, amigo, quer guisar; A tal estado me adusse, senhor; O que vos nunca cuidei a dizer; Que mui grão prazer que eu hei, senhor; Senhor fremosa, no posso eu osmar; Não sei como me salva a minha senhor; Quis bem amigos, e quero e querrei - que foram encontradas no Pergaminho Sharrer, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
  

24 outubro, 2011

Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te

 
Há dias assim, em que vivemos em função do nosso amor. Adormecemos a pensar na pessoa que amamos, revivemos momentos, sorrimos às doces recordações; no dia seguinte levantamo-nos a pensar no nosso amor, vestimo-nos, perfumamo-nos, preparamo-nos para seduzir, tudo pelo nosso amor. Vamos no caminho a antecipar o momento em que nos encontraremos e todo o tempo é apenas um longo compasso de espera até que conseguimos estar com o nosso amor. Então ficamos felizes por nos revermos e fazemos planos para prolongarmos o tempo juntos, imaginamos cenários em que vamos conseguir estar juntos, eu imagino-nos a passear num jardim, tu imaginas coisas mais prosaicas, e sorrimos e imaginamos, fazendo durar os doces momentos em que podemos estar perto um do outro, aspirar o cheirinho morno que se desprende dos corpos. Sonhamos com a noite que vamos ter só para nós dois, a noite fantástica dos nossos sonhos.

E a noite nunca mais chega. 

(Vou ser realista: a nossa noite, meu terno e saudoso amor, nunca chegou, foi-nos roubada. Mas sempre existirá, sonhada, no mais fundo do meu coração)



[A seguir, desça comigo até aos claustros que esta semana erigi para os meus queridos amigos do Ginjal e Lisboa. Esta é a semana de todos os recolhimentos]

Gruas num cais em Lisboa

                           Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
                           Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
                           Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
                           Destruição contra o caos, destruição contra o caos e eu amo-te.
                           Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
                           Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
                           Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.


                          (Poema de José Luís Peixoto in Gaveta de Papéis)
  

MÚSICA NO GINJAL - Hildegard von Bingen

  

HILDEGARD VON BINGEN


Laus Trinitatti 

Hildegard von Bingen nasceu em 1098 e foi decidido pela sua nobre famíla que iria dedicar-se ao serviço divino. Assim, ainda muito nova, foi entregue a uma beata anacoreta, residente num anexo de um mosteiro de obediência beneditina e que ficou encarregada da sua iniciação religiosa; sairia deste retiro para fundar o seu próprio convento, perto de Bingen am Rhein, onde desenvolveu grande parte do seu trabalho, do qual transparece a experiência e o saber conseguidos em inúmeras viagens e muitas leituras. Ficou conhecida pela 'Sibila do Reno', devido não só aos escritos teológicos e descritivos das visões que tinha, como também pelo prestígio que adquiriu como conselheira de bispos e de reis numa época em que raramente as mulheres sabiam ler. Foi cientista, teóloga, pintora, poeta e compositora e morreu com 81 anos, deixando vasta obra de natureza mística e em todos aqueles outros domínios.

23 outubro, 2011

Perder-me-ei para sempre em qualquer sítio fora de qualquer sítio

 
Mal sei de ti. Chegam-me notícias que referem a tua apatia, dizem-me que não tens a alegria de antes. Se um dia te voltar a ver, reconhecer-te-ei? Serás o mesmo que ficou lá atrás, sorrindo na minha memória?

Imagino-te na tua rotina diárias, pontual e indiferente, ocupado e vazio. Perdemo-nos um do outro, mas perdemo-nos também de nós próprios. Aqueles que sorriam, felizes, adolescentes, um rapaz e a sua menina, ficaram lá para trás, nos dias em que a vida tinha um sentido.

Andamos agora aqui, eficientes e presentes, mas só eu e tu sabemos que a ausência está sempre presente dentro de nós. Não somos já os mesmos. É pois melhor que não nos reencontremos - não nos reconheceríamos.



[Depois, venha comigo, vamos recolher-nos. Apetece-me a frescura e a solidão de uns claustros que me acolham. Começa hoje aqui neste nosso ponto de encontro o ciclo 5 Medievais e não podia começar melhor - Canto Gregoriano. Desçamos a seguir ao poema]



                            Ouves os meus passos nas escadas?
                            Quando eu bater à porta
                            não me reconheceremos.

                            Voltarei de um dia de trabalho,
                            subirei as escadas
                            e perder-me-ei para sempre
                            em qualquer sítio fora de qualquer sítio.

                            Não foi o caminho de casa que perdi?
                            Não ficou alguém em qualquer sítio,
                            uma sombra passando diante de nós,
                            e principalmente fora de nós?

                           Agora quem sente
                           isto fora de mim,
                           quem é esse ausente?


                          ('Uma sombra' de Manuel António Pina in 'Poesia, saudade da prosa')

  

MÚSICA NO GINJAL - Canto Gregoriano

 
CANTO GREGORIANO 
    

Victime Paschali Laudes

Canto Gregoriano é uma designação que se deve ao apoio e promoção dados por Gregório I à música sacra de origem pagã, que existiria sob a forma de hinos e antífonas na Roma antiga e que será escolhida por S. Ambrósio, no séc IV, para reforço da liturgia cristã; será todavia referência imprecisa, vista a escassez de documentos anteriores ao séc IX, época em que terá atingido o apogeu do seu desenvolvimento. É escrito em latim, em trechos de estrutura monódica e na forma de 'canto chão', podendo ser interpretado em coro ou a solo e exclusivamente por vozes masculinas a capella, vindo a ser, entre os sécs VIII e X, progressivamente acompanhado por música de orgão e tendo mais recentemente, já na modernidade, passado a incluir vozes femininas.
  

20 outubro, 2011

Deixa o sol entrar pela janela do amor enclausurado

  
Estava tanto sol, lembras-te? O sol brilhava sobre mim e tu sorrias-me. Outra vez eu estava junto a ti e tu olhavas-me, quieto, sorrindo. 'O que é?', perguntei-te e tu disseste que a luz da janela incidia em mim e que era uma luz que me rodeava e eu sorri, porque, naquele momento, senti que uma luz qualquer me iluminava mas talvez fosse apenas o teu sorriso que me iluminava.

Outra vez estavamos juntos, ao lado um do outro, o rio lá em baixo, ao fundo, e o sol sobre nós, e eu sentia que o sol nos abençoava e tu sorrias, amorosos, apaixonado e eu sorria, feliz, quieta. Bastava-me o sol e o teu sorriso ambos pousados sobre mim para me sentir invadida por uma paz imensa, uma infinita confiança, um amor tranquilo.

Lembras-te? Lembras-te do sol e do nosso amor?

Sorri uma vez mais, sorri para mim, sorri, meu terno amor. E lembra-te do que fazíamos quando deixavamos o sol do lado de fora e trazíamos o amor para dentro de portas. 

À beira Tejo, no Cais do Sodré


Deixa
o sol
entrar
pela janela
do amor
enclausurado

Deixa
o amor
e o sol
verem-se
muitas vezes

Deixa-
-os
virem-
-se
à sua livre
vontade


(Poema de Rui Caeiro in 'O quarto azul e outros poemas')