Ginjal e Lisboa

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13 novembro, 2013

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez - (acrescentado com os preciosos contributos de dois leitores)


De cada vez que vivo um instante, vivo como se pudesse não voltar a vivê-lo. Ainda há pouco. Já era quase noite, o rio escuro, um céu que se despedia furtivamente do dia, barcos que chegam e partem sem parar, gente apressada, carregada, silenciosa. O ar frio. Um cheiro a castanhas assadas, um fumo perfumado envolvendo as gentes devoradas por vidas difíceis.

E eu no meio de todos. Transparente como sempre. Passo por entre as pessoas, detenho-me tocada pela admiração que sinto pela sua determinação e força, vejo como correm vergadas pelo cansaço e pelos sacos, andam sempre tão carregadas. Não há crianças a esta hora. Faz tanta falta o riso das crianças nestas noites escuras junto ao rio. 

Ninguém me vê enquanto por ali ando. 

E penso. Tenho que fixar dentro de mim estes momentos. Amanhã podem não ser estas as pessoas, podem passar de uma outra forma. Ou posso eu não poder voltar aqui a misturar-me com estes meus iguais.

Depois continuo o meu caminhar, levada pela maresia nocturna, tão fresca, tão limpa, a noite a tombar carregada de saudades. Um casal abriga-se no muro, abraça-se enquanto olha a magnífica cidade. Talvez pensem como eu que têm que gravar na sua memória esta imagem de uma beleza tão efémera, de uma tal quietude, de uma elegância quase excessiva. Ou podem temer que amanhã a mulher não possa sair de casa, ou que o homem possa não chegar a tempo.

E posso eu não poder estar aqui para testemunhar o amor que os une neste escurecer tão frio. 

A vida é um breve instante e nem sempre acaba bem. 

Quantos abraços não ficam por dar, quantos amores não ficam por confessar, quantos, quantos. Tantas as vezes em que os instantes se interrompem para nunca mais. Por isso, porque amanhã posso também não poder estar aqui a escrever palavras como estas, vos peço que sejam fiéis depositários dos afectos que por aqui, enquanto posso, vou partilhando convosco.

E que dure por muito tempo este nosso breve encontro.



[Abaixo do casal que olha Lisboa, a bela, mais um poema de Inês Lourenço. A seguir a voz suave de Waldemar Bastos.]


Em Cacilhas, de frente para Lisboa


                                                         Nunca se sabe
                                                         quando estamos num lugar
                                                         pela última vez. Numa casa
                                                         que vai ser demolida, numa sala
                                                         provisória que vai encerrar, num velho
                                                         café que mudará de ramo, como
                                                         página virada jamais reaberta, como
                                                         canção demasiado gasta, como
                                                         abraço tornado irrepetível, numa
                                                         porta a que não voltaremos.


                                                         ['Sala provisória' de Inês Lourenço in 'Câmara Escura']

***

Quantas vezes caminhamos entre iguais,
e o silêncio que nos une tem a dimensão de mil palavras que se perderam.
Na volatilidade dos nossos gestos e olhares,
 atravessamos os sentimentos alheios
e vivemos a empatia dos seus sonhos e desejos. 
No interior das nossas ausências,
nunca estamos verdadeiramente sós.  
Passamos e repassamos a ternura das nossas sombras pela existência circundante,
mas permanecemos os mesmos seres sensíveis e solidamente etéreos. 
Os lugares permanecem para além da nossa presença.
Apenas a nossa memória resistirá à verdadeira ausência
e reconstruirá mil futuros em cada passado esquecido.
Ubíquos na imaginação,
jamais esqueceremos a vaga sinestesia das vivências e dos lugares dum passado evanescente.

[De dbo num comentário aqui abaixo]

***

se eu adormecer e não acordar diz-lhes que o sol é imenso
e regressa em cada madrugada
que o mar, essa grande paixão, será sempre um mistério
de fúria e mansidão 
que o Outono por mais belo e dourado
traz o vento
a debandada
o prenúncio do fim 
e que eu não voltarei mais
mas as palavras que deixo
(mal arrumadas, eu sei)
desajeitadamente falarão por mim

[De Era uma Vez num comentário aqui abaixo] 

18 junho, 2013

Ficam sombras nem sempre as nossas


Se caminhas por entre o arvoredo, por entre a névoa, só tu, só tu e as tuas memórias, e não sabes se vais perdido, se o caminho tem um sentido, não pares, não te desvies, vai onde os teus passos te levam.

São tantas e tão altas as árvores, tanta a sombra e não sabes se a sombra é abrigo, se é um limite. Mas não penses nisso, esquece as sombras.

Não sabes onde te levam os teus passos, e as sombras navegam, perdidas, à tua volta. Não sabes para onde vais mas que isso não te deixe preso ao passado. Podias estar a andar em círculo, tantas as dúvidas, tantas vezes os mesmos pensamentos. Mas avança, avança. Nem olhes para trás. Se deixas um rasto, se passas como um vulto imaterial, que interessa isso? 

Não penses.

Nada sabes, nada saberás. Se tentas perceber o que te trouxe aqui, não sabes bem. Foram os teus passos, sim, mas foram mil acasos, mil, mil, nem sabes quantos mil. Não interessa, avança, procura o que está à tua frente.

Ouves vozes que te prendem, sombras que te enleiam, memórias que nem sabes se são tuas, se são alheias, se apenas as sonhaste ou temeste. Não interessa. Avança. Mantém-te de pé. Nada temas. A vida é uma passagem. Breve. 

Talvez lá mais à frente esteja um abismo mas deixa. Se estiver, voa. Voa. Voa no meio do imenso silêncio.




[Estreia-se aqui hoje um Poeta. Nunca antes tinha ouvido falar dele mas agora não o vou largar: João Vasco Coelho. A seguir uma música muito bela composta e interpretada por José Valente, em memória de Bernardo Sassetti]


Homem caminha num dia cinzento no Jardim do Ginjal



                                                       As árvores crescem como o passado

                                                       o passado não é fácil
                                                       ficam sombras

                                                       nem sempre as nossas.



                                                      [Árvore' de João Vasco Coelho in 'Na ordem do dia']

---

As árvores crescem como o passado…
… passado que cresce na dor das raízes que vais pisando enquanto caminhas por entre o arvoredo, envolto na névoa do esquecimento das tuas silentes memórias. 
Perdido, segues um fio de luz, na busca de um trilho, sem desvios, que mostre a linha que faça sentido e te leve onde o passado te clama.

O passado não é fácil…
… quando caminhas entre o arvoredo e não vês o limite entre a fantasia das sombras e o teu próprio medo. Desconheces o rumo de teus passos, a incerteza das tuas dúvidas e o ónus dos teus pensamentos. Segues a tua jornada de busca e vais deixando, na leveza da viagem, o aroma do teu rasto.

Ficam sombras…
… ignotas vozes e memórias que dormem entre a marginal dos teus anseios e o cerne dos teus sonhos. No entanto, avanças, sem temor, na busca de uma breve passagem que te mostre a essência das sombras. Deslumbrado voas para além da quietude do abismo onde, outras sombras, haverá…

Nem sempre as nossas…
… sim, nem sempre as nossas sombras fazem resplandecer o nosso passado deixando recordações auspiciosas. Contudo esse passado continuará a crescer como as árvores…e vice-versa.



[Texto de dbo num comentário aqui abaixo]

27 maio, 2013

Descendo, sim, dos que hão-de vir - diz, na sua biografia, Mia Couto, o Prémio Camões 2013


Andas como se voasses, mansinho, suave passarinho, olhos doces, respirando o calor morno que vem do ventre da terra. Andas por entre as árvores, os teus pés entrançados nas raízes, os teus braços cobertos de flores, as tuas ideias entrançadas na folhagem, as tuas ideias voando como pássaros aninhados nos recantos das ramagens. 

E depois sorris, um animal macio, bom para afagar, leal, a quem as palavras vão comer à mão. Menino, menino, não escondas as palavras nos bolsos. Tão carregados eles ficam que ainda se descosem. Sorris, tiras as palavras dos bolsos como quem solta borboletas, sentas-te com elas em volta, e o sol põe-se, rosado, e é festa de dançar e cantar e bater palmas, batuque, batuque, e os corpos soltos, o calor, o suor, o perfume. Sorris.

Depois deitas-te na terra, tapas-te com flores, com o luar. Olhas as estrelas, inventas histórias, saltas de uma para outra, soltas balões coloridos, embalas palavras.

Mas, logo depois, mil mulheres nuas saem das águas e vêm refrescar o teu corpo, deitam-se sobre ti, despem-te, lavam-te e tu, sedutor, sorris, sabes dos mil encantos do amor. Mas elas pedem-te: salva-nos, salva-nos com as tuas palavras, com a tua poesia. Sorris, doces são as ternas tentações. Fechas os olhos e pensas, é um sonho, é um sonho. Abençoado sonho. 

Mas depois elas puxam por ti, levantam-te, levam-te pela mão, e, enquanto entras nas águas, ouves-te a dizer: 

                                           No início,
                                           eu queria um instante.
                                           A flor.

                                           Depois,
                                           nem a eternidade me bastava.
                                           E desejava a vertigem
                                           do incêndio partilhado.
                                           O fruto.

                                          Agora,
                                          quero apenas
                                          o que havia antes de haver vida.
                                          A semente.



[O poema acima chama-se 'Idades'. No dia em que foi atribuído o Prémio Camões a Mia Couto, trago-o para o Ginjal, para o pé de mim e dos meus Leitores e faço a festa, assim lhe enviando os meus parabéns. Para ajudar à festa escolhi uma música moçambicana. É no post abaixo: vamos dançar]


Homem andando num cais do Ginjal como se estivesse prestes a entrar no Tejo para se dirigir a Lisboa



                                                 Todo o meu nascer
                                                 foi prematuro.

                                                 Agora,
                                                 em meus filhos
                                                 me vou dando às luzes.

                                                 Descendo, sim,
                                                 dos que hão-de vir.



                                                [Biografia de Mia Couto in 'idades, cidades, divindades']

*


cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo 
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo



[Árvore de Mia Couto in 'Raiz de Orvalho e Outros Poemas']

*

A semente
que havia, antes de haver vida,
apenas a quero…
agora.

O fruto,
incêndio partilhado
na vertigem do desejo,
traz a eternidade…
depois.

A flor,
quero-a, num instante…
no início.



[Poema de dbo em comentário abaixo]

13 maio, 2013

Meu eco trocado onde o vagar permite esquecer as ciladas


Passo devagar, em silêncio, rente às casas abandonadas. Do outro lado, o rio belo e indiferente, aquela indiferença de quem se sabe livre, independente, belo demais.

Passa uma ou outra gaivota, passa ao longe, vagaroso, um grande navio, talvez passe um frágil veleiro branco, asas deslizando sobre o rio. E vou eu, sem mais ninguém, eu e os meus pensamentos, as minhas memórias, os meus sonhos.

E, então, inesperadamente, ouço chamar o teu nome. Detenho-me. 

Ouço de novo. Chamam por ti e é a minha voz. 

Estremeço. Não é possível. A medo, a tremer, encosto o ouvido à porta de onde vem o chamamento. Ao encostar-me a porta abre-se, rangendo, um lamento.

Uma parede de onde a tinta branca se descola, restos de um outro tempo. Uma escada íngreme. Ninguém. 

Do fundo, lá de cima, de novo ouço a minha voz chamando por ti. Não percebo. Parece um eco longínquo. 

Começo a subir, o coração aflito, se calhar é uma cilada. Mas continuo. Todos os abismos são atraentes. 

Não sei para onde vou. Talvez para o esconderijo a céu aberto que há depois da porta que, ao fundo da escada, se abre para uma muralha, talvez para o céu. 

Subo seguindo o eco da minha voz, sem saber o que vou encontrar quando chegar ao cimo das escadas. Tremo, transpiro, mas vou. Não sei se estarei à minha espera. Eu ou a minha sombra. Ou o meu corpo imaterial feito de palavras. Ou aquele que um dia, há muito tempo, tu amaste e que pelo teu corpo se perdeu.



[Abaixo da escada que vai da rua até a uma porta que abre para o céu, temos mais um poema de Emerenciano, e eu gosto dos poemas dele, são poemas que me levam para imprevistos esconderijos. Logo a seguir, temos um momento de tranquilidade, de paz, de sombra e frescura, um bom som para nos acompanhar quando buscamos o nosso eco: um coro interpretando Allegri]


No velho casario do Ginjal, casa abandonada



                                                    Meu eco trocado
                                                    onde o vagar permite
                                                    esquecer as ciladas
                                                    volta sempre
                                                    e o corpo revelado
                                                    sem querer, tantas vezes
                                                    quantas as oportunidades
                                                    desperta para o esconderijo
                                                    que começa a ser.



                                                    ['Esconderijo' de Emerenciano in 'Ir e Vir]

*


Vagarosa
silenciosamente
saímos do nosso interior
e
como pássaro acordado
rumámos de encontro 
ao sol 
que deixámos 
para lá
dos nossos sonhos. 

Desconhecemos
o que o medo
nos trará, 
no encontro 
ou desencontro 
com o vazio possível. 
Felizes seremos, 
se esse vazio
guardar
a razão dos nossos anseios. 

Assim, 
valerá subir, 
voar… 
procurar
o mundo ignoto, 
quase imaterial, 
que nos espera.



[Texto/Poema do Leitor dbo em comentário aqui abaixo]