Ginjal e Lisboa

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20 maio, 2013

Todo o amor do mundo não foi suficiente, vou para a cama estou doente, nunca ninguém apagou este lume


A Naifa é um grupo composto por: João Aguardela (entretanto desaparecido, tão precocemente), Vasco Vaz, Luís Varatojo e Maria Antónia Mendes. Leio na Wikipedia que conjuga as linguagens clássicas do fado com a pop-Rock mas eu conheço-os por cantarem alguns poetas. 

E poesia é poesia, seja lida, dita ou cantada - e aqui, no Ginjal & Lisboa, é sempre muito bem vinda.




"Todo o amor do mundo", letra de José Luís Peixoto, música de João Aguardela e Luis Peixoto, voz de Maria Antónia Mendes - do disco "3 minutos antes de a maré encher" (2006)


todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada. 
ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.




"Porque me traíste tanto", letra de Adília Lopes, música de João Aguardela e Luís Varatojo e voz de Maria Antónia Mendes - do disco "3 minutos antes de a maré encher" (2006)


porque tenho eu 
frieiras se nunca tiro as luvas? 
porque tenho eu arranhões 
se os meus gatos são meigos? 
como dizia uma pobre rapariga 
que era criada e mal sabia ler 
também eu vou dizer 
coração partido 
pé dormente 
vou para a cama 
que estou doente 
porque me traíste tanto 
se os meus gatos são meigos? 
porque me traíste tanto 
se eu nunca tiro as luvas?





"Rapaz a arder" letra de Eduardo Pitta do disco "Canções Subterrâneas" (2004)



Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
arde indiferentemente à neve que o encharca

Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar
nunca ninguém apagou esse lume


&

29 novembro, 2011

Nomeado inominável: ternura a levedar na polpa dos meus dedos. Uma vontade muito branca.

  
Paredes brancas, lisas, a história à espera de escrever-se sobre elas. Escadas, caminhos, labirintos, veredas. Por onde ir, como vir?  Como chegar a tempo agora que a pressa me começa a percorrer a corpo? Detenho-me, hesito, perigosos caminhos, a ternura nos dedos, a inquietação no corpo, as veias impacientes, um latejar surdo, uma vontade sem nome.

E depois lá estás tu, espelho de mim, eu do outro lado, eu à minha espera, tu e eu iguais, o mesmo sorriso, o mesmo desejo de ir pelo caminho errado da vida. Ignoramos o olhar oblíquo dos outros, o olhar carregado de crueldade, ignoramos a fria  pedra onde estendemos o corpo apressado. 

Mas que claridade que vem, rente à terra, que luz se levanta do mais íntimo da pedra que os corpos cobrem percorridos pelo fogo. E, então, a pedra é quente, é seda, e então as árvores são as cortinas que envolvem a nossa intimidade, e o vento não é senão um afago de ternura, e então, depois, sorrimos porque brando e amoroso é o Outono.


 

[Talvez devessemos, aqui chegados, descer um pouco, até ali onde um violoncelo nos traz a Sonata de Chopin e depois voltar aqui para ouvirmos Eduardo Pitta a ler-nos o seu poema.] 

No Ginjal, junto à praia, caminhos e escadas que nos levam até ao Tejo


                  Nomeado inominável: ternra a levedar
                  na polpa dos meus dedos. Uma vontade muito
                  branca para o crime. Os dentes nas espáduas.

                  Contenção de espelhos: as espadas acesas
                  nos nevoeiros de Setembro. Palavras nítidas, velozes,
                  a claridade rente à terra. De uma crueldade sedosa, diluindo-se
                  pelo romper do dia
                  - e delas devir em pedra.

                  Veredas percorridas pelo fogo. Um brilho fugaz no
                  ar. Um perfil de árvores nuas, dispersas, austeras,
                  adiadas. O vento, implacável, de uma doçura de lâmina.



                  (Poema de Eduardo Pitta in 'Desobediência, Poemas Escolhidos'

29 agosto, 2011

Há ainda ali um rosto muito belo, que a luz ilumina com o antigo ardor - é o rosto da minha mãe


Poderia dizer que o poema descreve a minha mãe mas não, não revejo a minha mãe nestas amorosas palavras de Eduardo Pitta.

A minha mãe não é assim. O rosto da minha mãe não é um mapa saqueado, não está coberto por uma teia, por uma finíssima máscara.

Não. A minha mãe não tem muitas rugas e é ainda uma bela mulher.

Também não posso dizer que a luz se reduziu para a banhar. Não. A minha mãe é uma mulher alegre, ri-se muito (apesar da vida que, tantas vezes, lhe pesa).

Olho para ela e por vezes reparo, com surpresa, que aparecem algumas manchas de idade nas suas mãos ou que os braços já não têm a firmeza que tinham antes. Mas isso não esbate a sua jovialidade de rapariga.

E os seus belos olhos azuis têm ainda alegria espontânea e o seu riso tem a frescura e inocência de sempre.

E tem a boa disposição de quem tem a vida pela frente.

Quando era jovem adolescente, louríssima, conheceu Sebastião da Gama que um dia lhe entregou um papelinho com um poema:

Os cabelos são de oiro
para que vejam bem
que o coração
é de oiro também.

Ela guardou o poema dentro dum livro e, anos depois, quando o procurou, já não o achou. Mas nunca se esqueceu dele e hoje, aqui, o volto a trazer à vida.


Há pouco, junto ao Tejo, bela Senhora
              
                                                                                                    A minha mãe

Houve ali um rosto
muito belo, mal disfarçado
na teia geométrica
de uma finíssima máscara.

Sulcos de um antigo
ardor.
Tranquilo e arbitrário
desapego.

A luz baixou tanto.
Aquele rosto é
um papa: um mapa
crivado de cidades saqueadas.


(Afectuoso poema de Eduardo Pita, dedicado a sua mãe, in Desobediência)

03 março, 2011

Nenhum de nós passeia impune pelos retratos: fazem-nos doer a memória

Não gosto de passear pela memória, tu sabes. Não que me faça doer mas porque gosto do tempo que vem, não do que foi.

Mas como ter-te só meu se não for assim?

Trago-te pois para junto de mim.

O olhar, os sustos, as secretas loucuras e a ternura, e a voz e os lábios (agora distantes).

Ainda és como te recordo?

Se calhar és outro e não já aquele. Se calhar és outro. Se calhar.

Velas brancas quase inventadas como os retratos das nossas memórias: as Descobertas, o Tejo, Lisboa, avistados do Ginjal num dia com uma luz assim, mágica.

Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.

Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.

Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.

A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.

Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.


('Nenhum de nós passeia impune' de Eduardo Pitta no recente e imperdível Desobediências)

01 março, 2011

Tropeço no ensurdecedor silêncio da tua voz. Um tempo adiado.

Nestes dias brancos, sem memória, em que, dia após dia, adio a tua voz, acompanha-me o silêncio.

Escondo as lágrimas pelas cartas que não escrevo, pela voz que não procuro.

Pouco ou nada tenho de ti, apenas a memória do teu sorriso, das tuas palavras, do teu olhar.

Avistado do Ginjal, barco atravessa o Tejo numa manhã branca, ao largo de uma Lisboa branca

Tropeço no ensurdecedor
silêncio da tua voz. Um tempo
adiado. Tempo de cicatrizes.

O desaconchego do orgulho
nas tuas esquinas im
pacientes. O teu sorriso pouco.

Ainda ontem aprendiz
ainda ontem navegante.
Mareante a amar-te mais.

Recordo agora
o sobressalto relojoado,
o choro que me sobrou

a carta que não escrevi.
Pouco ou nenhum
era o espólio consentido.


(Sentido 'Tropeço no ensurdecedor silêncio' de Eduardo Pitta in Desobediência)

07 janeiro, 2011

Adivinhamos inquietos os olhos e o poema dos dois corpos

Numa noite de chuva e relâmpagos, inquietos os meus olhos, inquieta eu, relembro o tempo em que os nossos corpos eram um poema.

É isto, afinal a vida, um dia passando após outro.


(Dois corpos no Ginjal, sobre o Tejo, Lisboa logo ali)


Adivinhamos inquietos os olhos
e o poema dos dois corpos.

A nossa vida tem sido um passar
sem pedir licença.

Um dia e outro dia depois,
como quem adestra relâmpagos.


(de Eduardo Pitta)

11 novembro, 2010

Agora que as palavras secaram e se fez noite entre nós dois, que nunca caiam as pontes entre nós

Agora que as palavras secaram e se fez noite entre nós dois (que a nossa nem sequer foi uma história diferente) resta-nos este poema de amor e solidão.

Agora eu tenho a noite, tu tens a dor, tens o silêncio que, por dentro, sei de cor. Eu tenho o medo, tu tens a paz, tens a loucura que a manhã ainda te traz. Mas que, embora perdidos e sós, amantes distantes, nunca caiam as pontes entre nós.                      


(Nops... Um distinto Comandante de Cacilheiro numa manhã azul no Ginjal)

Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente,
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.


(in Marcas de Água de Eduardo Pitta)