Ao espelho, passa a sombra e o eyeliner nas pálpebras, aplica baton e une e desune os lábios para que a cor e o brilho melhor se espalhem, com um pincel macio espalha o rouge nas maçãs do rosto, a seguir solta o cabelo, escova-o, agita a cabeça para que melhor se solte, olha-se de frente, depois de lado, a seguir aplica perfume em spray na orla do pescoço, nos pulsos, calça as botas, vê-se no espelho de corpo inteiro, veste um casaco sobre o vestido justo, uma última mirada ao espelho, gosta, ensaia um sorriso, está tudo bem.
Fecha a porta, chama o elevador, sai para a rua. Passa da meia noite. Está frio, a respiração forma um halo à sua volta. Mãos nos bolsos, decidida, caminha pela noite. Sozinha avança na noite. Receia as sombras, teme os vultos, mas avança decidida. Aspira o ar frio, o peito treme de medo, que vai fazer desta vida? mas avança sozinha nesta noite que não foi feita para mulheres sozinhas.
Pensa que o sangue que sente escorrer do seu corpo é bem o espelho da inutilidade que é a sua vida actual. Um fio de sangue quente, inútil. Avança na noite, avança, avança em direcção ao nada. Uma mulher cheia de sementes inúteis atravessa a noite. Pintada, arranjada, perfumada - para ninguém, apenas para atravessar a noite.
Olha as árvores nuas, fantasmas que habitam a paisagem, passa por uma casa grande abandonada, e sente que esta noite desolada e fria não a rejeita e, então, avança, mais tranquila. Ninguém a vê, ninguém a quer, ninguém sentirá a sua falta se mergulhar no poço mais escuro de um bosque, na cova mais funda do mar. E avança sozinha na noite.
Vai em silêncio. Há muito que, à noite, em casa, num quarto silencioso e indiferente, começa por se despir de palavras, dobra-as direitas, arrumadas, sobre a cadeira ao lado da cama. E então despida de palavras, nua, começa a vestir as vestes da noite. Mulher silenciosa vestida para a noite. Mulher que penetra no mato mais solitário, silenciosa, o peito vazio, o sexo inútil, os olhos secos. Apenas o cabelo esvoaça. O cabelo esvoaça - e ao seu lado algumas indómitas palavras que, em silêncio, se levantaram da cadeira e que agora voam, transparentes, para zelar por ela, mulher sozinha atravessando a noite.
[Numa noite fria e triste, convido-vos, meus amigos, a que me acompanhem. Vou ali mais abaixo, a seguir à fotografia e ao belo poema de Ana Duarte, tentar aquecer a alma ao som de Gershwin.]
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| Alguém que caminha na noite |
Mulheres que caminham sozinhas no bosque à noite
mulheres sonoras alagando de calor as copas dos arbustos
mordendo o pânico, iluminando o voo dos insectos
Das suas cabeleiras soltam-se pensamentos
como da folhagem inacessíveis aves nocturnas
Ah, essas mulheres atrás de quem se fecha a noite,
que cosem com um fio de sangue os caminhos
Em frente abre-se o peito das mulheres
na direcção do poço mais negro do bosque
abre-se o peito das mulheres
Despiram-se da voz na primeira encruzilhada
e todo o seu corpo é um seixo que enche a boca da noite,
uma pedra solta forçando a passagem entre os veios da noite,
uma contracção de semente que aperta a orla do bosque
- e a poeira ergue-se em torno dos seus pés como
a respiração da fera ao calor dos herbívoros
['Mulheres que caminham sozinhas no bosque à noite' de Ana Duarte in Criatura]
