Ginjal e Lisboa

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11 fevereiro, 2014

Dizes que querias ser meu namorado, morar dentro dos meus olhos - mas eu não vejo nada disso.


Dizes que pedes para ser meu namorado e talvez peças mesmo, queixas-te, sentes-te infeliz, e é uma lamúria, uma lamúria, uma ladaínha, que querias, que fazias, que sei lá o quê. Sempre a mesma coisa. 

Não sais desse registo e a nossa história, que nem é história, não passa disto.

Mas não percebeste que não é assim que me vais conquistar? Se queres, avança, arrisca, dá o peito às balas. 

Querias ser meu namorado? E o que já fizeste para isso? Dizes que não vejo o teu desejo. Gostava de saber como chegaste a essa conclusão, gostava mesmo. Não. O que eu gostava mesmo era de outra coisa: é que fosses homem para mim. 

Sempre essa converseta de vestido encarnado aos folhos e de verão e mais não sei o quê. Fantasia. Estamos no inverno, claro que não ando de vestido encarnado aos folhos como uma maria papoila. Pára de ficcionar e vem. Estou é já farta de estar à espera.


Num dos muros rente à praia - Mulheres, Gatos, Tejo


Queria ser teu namorado,
Morar dentro dos teus olhos;
Perder-me nos muitos folhos
Do teu vestido encarnado.
Mas tu ficas à janela
Sem ver sequer quando eu passo;
E a tua frieza gela
O calor do meu abraço.
Queria pegar-te na mão,
Deixar-me levar às cegas;
Perder-me nas muitas pregas
Do teu vestido de Verão.
Mas tu nem olhas para mim
Não sabes que te desejo,
Deixas um gosto ruim
Na doçura do meu beijo.

 

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A Tua Frieza Gela, letra de Maria do Rosário Pedreira e música de António Zambujo

*

Maria do Rosário Pedreira fala da sua Poesia



15 janeiro, 2014

Era uma vez uma mulher que via um futuro grandioso para cada homem que a tocava. Um dia ela se tocou...


Num pontão do Ginjal, sobre o Tejo




Era uma vez uma mulher
 que via um futuro grandioso
 para cada homem que a tocava
 um dia
 ela se tocou...

.  Eu pensava que o amor
 me faria uma rainha
 e quando você chegasse
 não seria mais sozinha.

  Você chega da gandaia
 só pensando numazinha
 seu amor é pouca palha
 para minha fogueirinha.

  O que você jogou fora
 é para poucos
 o meu mal foi jogar
 pérolas aos porcos.

  Eu não sou da sua laia
 não quero sua ladainha
 pra ser mal acompanhada
 prefiro ficar na minha.


 Era Uma Vez poema de Alice Ruiz interpretado por Zélia Duncan


*

No Ginjal, sobre o Tejo, alheada de Lisboa


Já notou que eu te amo
Ou você pensa
Que toda vez que eu ligo
É por engano?

Já sacou que é meu vício
Minha droga
Meu barato
Ou vou ter que curtir a rebordosa
Em algum hospício?

Pra me deixar normal
Só uma overdose de você
Pra me pirar legal
Só uma dose dupla desse mal


   

Overdose poema de Alice Ruiz interpretado por Zélia Duncan


*


Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo 
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre


   

 Milágrimas (Itamar Assumpção e Alice Ruiz) com Alice Ruiz e Anelis Assumpção



29 dezembro, 2013

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Quase a virar o ano, com vontade de despir a pele, de deitar fora as lembranças deste ano que nasceu velho e mal parido, eis que me aproximo do ano novo com flores na alma, vontade de mudanças, ansiosa por espantos bons, voos largos, novidades surpreendentes e aladas, o chão como um suave manto verde, o céu como um tule transparente e misterioso.

Que se enterrem as mágoas, as tristezas, todas as desesperanças, e que avancemos, sem medos e sem delongas, pelos caminhos que se desdobram auspiciosos à nossa frente.

Não me perguntem de onde me vêm este ânimo e estes bons augúrios - não saberia como responder. Mas sei que o mundo bom está aí à espera. Quero descobri-lo e vivê-lo, estou cá para me aventurar. E é só isso que sei - mas isso basta-me.


Uma gata no Ginjal - a serena sabedoria de saber viver o momento




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


['Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades' de Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 

- aqui dito por Rui Reininho]





'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades' aqui com música de José Mário Branco

 - aqui interpretado com toda a cagança, toda a pujança pela Estudantina Universitária de Coimbra



11 dezembro, 2013

Palavras que nos transportam aonde a noite é mais forte, ao silêncio dos amantes abraçados contra a morte.




Há Palavras que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca. 

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'


Poema dito por Luís Gaspar


*


Cristina Branco interpreta 'Há palavras que nos beijam'


20 maio, 2013

Todo o amor do mundo não foi suficiente, vou para a cama estou doente, nunca ninguém apagou este lume


A Naifa é um grupo composto por: João Aguardela (entretanto desaparecido, tão precocemente), Vasco Vaz, Luís Varatojo e Maria Antónia Mendes. Leio na Wikipedia que conjuga as linguagens clássicas do fado com a pop-Rock mas eu conheço-os por cantarem alguns poetas. 

E poesia é poesia, seja lida, dita ou cantada - e aqui, no Ginjal & Lisboa, é sempre muito bem vinda.




"Todo o amor do mundo", letra de José Luís Peixoto, música de João Aguardela e Luis Peixoto, voz de Maria Antónia Mendes - do disco "3 minutos antes de a maré encher" (2006)


todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada. 
ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.




"Porque me traíste tanto", letra de Adília Lopes, música de João Aguardela e Luís Varatojo e voz de Maria Antónia Mendes - do disco "3 minutos antes de a maré encher" (2006)


porque tenho eu 
frieiras se nunca tiro as luvas? 
porque tenho eu arranhões 
se os meus gatos são meigos? 
como dizia uma pobre rapariga 
que era criada e mal sabia ler 
também eu vou dizer 
coração partido 
pé dormente 
vou para a cama 
que estou doente 
porque me traíste tanto 
se os meus gatos são meigos? 
porque me traíste tanto 
se eu nunca tiro as luvas?





"Rapaz a arder" letra de Eduardo Pitta do disco "Canções Subterrâneas" (2004)



Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
arde indiferentemente à neve que o encharca

Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar
nunca ninguém apagou esse lume


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