Ginjal e Lisboa

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18 janeiro, 2014

Saltam ao caminho a sangrar-me a veia do poema.


As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos

Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.


['As sofridas amoras' de Luíza Neto Jorge]




Filme de João Roque sobre Luiza Neto Jorge

*

Poema
construído
palavra a palavra,
lentamente.
Decantado
dos medos e das sombras,
dos ruídos e dos sorrisos,
das chuvas e dos amanheceres
da música que se não ouve.
Dia a dia
dia após dia
um pouco mais
ou quase nada
quase todos os dias.


[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

16 abril, 2013

Nas cidades do sul há violência e há excesso


Há lugares onde os rios são dóceis. Passam, citadinos, sossegados, entre margens maquilhadas. Por ele descem frágeis barcos e são frágeis porque podem ser frágeis, porque os rios são inofensivos, quase inertes, cansados. 

Nas cidades do norte os rios que passam a meio das cidades são rios estreitos, pacíficos. Civilizados, claro. Nunca se exaltam, não ultrapassam as margens, não arrancam árvores à passagem, não devoram frutos, não carregam restos de vida no seu ventre.

Aqui, no sul, é o que se vê: uns dias o rio traz árvores inteiras, outras traz frutos, outros traz pedras, tijolos, restos de casas, restos de carros. Um desatino, estes rios das cidades do sul.

Aqui no sul há um rio como este, ágil, voluntarioso, que desliza e salta indómito, uns dias azul, outras verde, outras chumbo, e corre, ligeiro, a misturar-se no mar. Por isso, aqui o rio é salgado, cheira a maresia, tem algas, tem mexilhões agarrados às colunas do cais, tem limos verdes, e tem grandes cargueiros e suaves veleiros e pequenos barquinhos e pobres pescadores. E por ele saíram navegadores que desafiaram monstros, que descobriram mundos. Loucos, valentes.

Um rio excessivo, violento, vibrante, carregado de vida, este.

Este, tal como outros rios das cidades do sul, fala muitas línguas: fala português, espanhol, italiano, grego, cipriota. Um rio que uns dias está cheio de sol, inundado de luz, outras tolda-se perante uma chuva pesada, outras salta levado pelo vento. Sempre o mesmo, irrequieto, volúvel, irreflectido. Dizem. 

Não sabem o que dizem.

Não é o mesmo. São águas que nascem do fundo da terra e, por isso, são outras, sempre outras, correm diferentes, estrangeiras, nativas, o que for. Inocentes, puras, fortes, vigorosas estas águas. Sempre dispostas a irem correr à procura de mundos novos.

Que nenhuma apagada figura do norte sombrio venha pretender parar estas águas felizes que aqui correm no sul. As águas vibrantes do sul jamais se deixarão prender entre margens soturnas, tristes.

Porque aqui há corações que não se vendem, há braços cheios de força, há colunas direitas, corpos inteiros. 

E há poetas que inventam palavras cheias de luz e há gaivotas passeando entre os escombros, entre as marés, indiferentes à espuma dos dias. Séculos de história não se apagam facilmente, pensa a gaivota. E penso eu também, mas eu, é sabido, sou meio gaivota.



[Abaixo do belo poema de Luiza Neto Jorge, uma mulher pássaro, poderemos ouvir, uma vez mais, uma menina maravilhosa, Yuja Wang, desta vez numa virtuosa interpretação de Rachmaninov]


Gaivota na beira do tejo, numa das pequenas praias do Ginjal



                                                   Nas cidades do sul
                                                   há violência e há excesso,
                                                   de semente.
                                                   Estalam os rios e foge a água.
                                                   O corpo, encortiçado, racha.

                                                   Lendas vêm de há séculos assoreando
                                                   as margens.
                                                   E quando à boca de um poço vamos
                                                   provar o nosso eco,
                                                   águas puras irrompem,
                                                   noutra língua.


                                                   [Poema da pág 259 de Luiza Neto Jorge in 'poesia']

*


O RIO ONDE


Rio, mar aconchegado
braço longo de água silenciosa
onde as distâncias se repousam
e repousa também o meu olhar cansado 
sem medo, sem angústia
na água que de si mesma se esquece
caminhando, caminhando sempre
para algum mar.
Tapete de Sol, 
onde barcos lentos deslizam, 
sem pressa de chegar. 
Espelho aberto, onde o dia se reflete, 
corredor que corre sem correr, 
que não se atarda, olhando as margens,
que continua 
mesmo quando 
não tem vontade de continuar.


[De Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]



15 fevereiro, 2013

Ao render da luz


A névoa começa a dissipar-se. Era um véu branco e leve e eu ocultava-me debaixo dele. Suave e frio sobre a minha pele, o véu cobria a minha hesitação.

Mas o sol começa a aparecer. É a primavera que começa a anunciar-se, inocente, tímida, um pequeno rebento aqui, uma pequena flor ali, um pássaro que canta menos arisco, uma criança que corre na areia.

Desapareceu o meu véu. O meu colo começa a desvendar-se, a linha entre os seios, os meus lábios, a minha memória. Tento proteger-me, busco a sombra. Mas o sol começa a percorrer os recantos e eu percebo que não vale a pena esconder-me mais.

Seja.

Abro, então, as janelas: que entre a luz. Olho as paredes brancas, caiadas. Que sobre ela incida o sol, que sobre mim desça o calor do sul.

Coloco as frutas numa cesta, será uma forma de dar as boas vindas, abro a porta, deixo que o gato sinuoso se esgueire, deixo que a maresia suave venha perfumar o quarto.

Entardece. É a hora da rendição da luz, a lenta rendição da luz. Esta é a hora em que Artemes deixa que as crianças saiam, brinquem no quintal, esta é a hora em que Artemes espera que o poeta espreite ao portão, pergunte se pode entrar.

Artemes escondia a memória sob um véu mas o véu dissipou-se, lentamente, lentamente. Artemes lembra agora o poeta que um dia, lá muito atrás, abandonou. Não sabe ainda o que lhe dirá mas sabe que lhe deve uma palavra. 



[Abaixo da cal, da fruta e da luz do poema de Luiza Neto Jorge, mais uma maravilhosa interpretação de David Fray, desta vez com Beethoven]


Num recanto do Ginjal



                                        Portas cerradas mesmo aos deuses.
                                        Postigos por estrear.
                                        O sol, de cal.

                                        Ao render da luz as mães
                                        soltam os filhos à lua
                                        nos quintais.


                                        [Poema de Silves 83 de Luiza Neto Jorge in poesia]

05 fevereiro, 2013

Venho de dentro, abriu-se a porta


Dedico esta história a todas as meninas e meninos que estão para aí feeling blue.



Escuta, menina que aí estás aí, e tu também, menino: escutem, vou contar-vos uma história.


Era uma vez um homem que parecia normal e que vivia sozinho. E era uma vez  uma mulher que também parecia normal e que vivia numa torre triste num local longínquo.

A mulher era muito bonita, sabia histórias muito bonitas, escrevia palavras muito bonitas - e, portanto, afinal não era uma mulher nada normal - mas vivia fechada na sua torre e poucas pessoas podiam ouvir o que dizia. 

O homem era também muito bonito mas também não era nada normal. Era um sonhador solitário. Tinha por única companhia um ganso emplumado.

O homem bonito e sonhador não sabia da existência da mulher bonita e solitária nem ela sabia da existência dele.

Até que um dia a mulher abriu a porta e desceu pelos caminhos das montanhas, atravessou trovoadas, nuvens pesadas, raios e trovões, campos floridos, searas ondulantes, ruas, cidades. Diz quem a viu passar que vinha com a mãe pela mão e vinham conversando, rindo, e a mulher era outra vez uma menina alegre e a mãe era outra vez uma mulher que adorava caminhar e dançar e ver o sol. Vinham as duas, contando histórias uma à outra, e mediam os passos pelas horas do sol e nem davam pelo cair da noite. A mulher bonita dizia à mãe, mãe, vamos ver o mar que eu quero respirar a maresia, quero sentir a areia nos pés quando raiar a manhã.

Nesse dia o homem também saíu de casa, e de cabeça baixa, sem saber para onde os passos o levavam, começou a caminhar. Atrás dele seguia o silencioso ganso. E o homem dizia como se falasse com o ganso, venho de dentro de mim, venho para ver o nascer e o pôr do sol junto ao rio, e quero sentir como soa a minha voz quando a soltar junto às imensas águas.

E, sem saberem, caminhavam um para o outro. A mulher com a sua mãe, o homem com o seu ganso.

Encontraram-se ao fim do dia e, sem que antes se tivessem visto, reconheceram-se de imediato. A aragem soprava e as penas do ganso revolteavam-se, alegres. A mãe disse, as minhas pernas já não são o que eram dantes, sento-me aqui ao pé do ganso que tem ar de ser inteligente e bem disposto

E, então, a mulher e o homem deram-se as mãos e juntos olharam o horizonte e ele disse, gosto tanto de ver o sol quando ele se põe a poente. Gostava de ficar aqui consigo, a noite toda, deixarmo-nos ficar  até que ele nasça a nascente. A mulher riu e disse, olha, dois pleonasmos quase de seguida. E ele riu e disse, até que enfim alguém que me alerte para os pleonasmos, o ganso deixa-os passar a todos. A mulher riu e disse gosto de homens que me façam rir.

Depois ele afastou-lhe do rosto o cabelo que o vento despenteava, abraçou-a e disse, o meu corpo era um labirinto no qual eu me perdia. E ela respondeu, há uma mansidão na minha pele, sinta-a antes que  toda ela fique uma convulsão.

Beijaram-se e era como se toda a vida tivessem esperado um pelo outro. O homem disse então, havia uma sombra sobre o meu coração mas senti que ela acabou de voar. A mulher disse, pois foi, via-a desprender-se de si. Mas foi para longe. 

De longe, a mãe olhava-os e sorrindo disse ao ganso, e nós? vamos ficar aqui a segurar a vela? nem pensar. Estou cheia de fome. Por aqui onde é que se come?

E então o ganso sacudiu as penas e pôs-se a andar. A mãe levantou-se e foi atrás dele. Depois, de longe, olhou para trás e disse para o ganso, olha, que engraçado, estão os dois envoltos em luz e que lindos são, foram feitos um para o outro.

Como estava longe não o ouviu dizer à filha, vamos sair daqui, a luz do candeeiro é muito indiscreta. E ela sorriu, puxou-o pela mão e disse, venha que eu quero sentir a areia em toda a pele do meu corpo.

E foram muito felizes, tanto, tanto, tanto que era como se tivessem sido felizes desde sempre. E logo souberam que o seriam para todo o sempre.



[Abaixo do homem sonhador, um poema de Luíza Neto Jorge e, logo a seguir, mais uma grande interpretação ao piano de Richter, desta vez intrepretando Haydn]



Homem e ganso no Ginjal



                                              Venho de dentro, abriu-se a porta:
                                               nem todas as horas do dia e da noite
                                               me darão para olhar de nascente
                                               a poente e pelo meio as ilhas.

                                               Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
                                               de só imaginá-la a luz fulmina-me,
                                               na outra face ainda é sombra

                                                Banhos de sol
                                                nas primeiras areias da manhã
                                                Mansidões na pele e do labirinto só
                                                a convulsa circunvolução do corpo.



['Venho de dentro, abriu-se a porta...' de Luíza Neto Jorge in ´poesia']


13 fevereiro, 2012

(...) como se ouvisse enfim a língua mais oculta


Nesta manhã fria, afasto-me da gente que avança ruidosa. Desço até à praia, piso a areia molhada, e vou em total solidão, vencendo o silêncio que me rodeia, a caminho do mar.

Comigo vão os meus pensamentos, ideias que se desenham e se esvaem, e eu caminho, lentamente, sem vozes à minha volta, apenas o mar revolto, as ondas que se debatem vigorosamente. Olho o ar azul, tão límpido, sinto o ar frio, aspiro as gotas que vêm da água batida, da espuma que se evola no ar .

Depois dirijo-me até às rochas, procuro o perfume dos limos de veludo verde, a maresia presa às algas macias e cheirosas. 

E então um bando de gaivotas desce dos ares e começa a voar à minha volta e eu pasmo, dançam, dançam, leves, elevam-se e deslizam no ar, rodeiam-me, amparam-me. São anjos, senhor!

Com as suas longas asas brancas, soltando os seus gritos, brincam, pousam, esvoaçam, e eu sinto que me convidam e, olhando-as assim, livres, belas, sinto-me integrada no seu modo de vida e quase percebo o que dizem quando falam a sua língua mais oculta, a língua da liberdade total que eu tanto gostaria de falar, a língua na qual os sons se misturam de forma encantatória formando palavras aladas.



[Não é a voz das minhas amigas gaivotas mas é o som da música de Liszt - a seguir ao poema, encontrará o piano de La campanella, um som tão leve como um voo branco]



                                     Canta-me ave
                                     arcanjo
                                     com o bico puxa
                                     a farpa que desponta
                                     do meu cérebro

                                     Por montes e vales
                                     transmigre o canto
                                     e quem o escute
                                     se sinta
                                     recompensado
                                     revulsionado
                                     como se ouvisse enfim
                                     a língua mais oculta


                                     [A lume. II. de Luiza Neto Jorge in poesia]

31 janeiro, 2012

Escolho sempre um nome que me soe amante

 
Como falar de ti? Impossível.

E não és um, és um de vários e a todos amo - amores distintos, mas amores intensos em qualquer dos casos. Estás ao meu lado, estás dentro de mim, saíste de mim, saíste de quem saíu de mim. Tens o nome do apóstolo, o nome de reis, o nome de todos os homens especiais na minha vida. 

Como é possível que tenham todos o mesmo nome? Mas assim é. Chegam-se a mim, partem de mim e o nome é sempre este. Joviais, lutadores, vencedores, apaziguadores, brilhantes, belos, bons, fortes e amigos, amantes, eternos amantes, há sempre um junto a mim. Desde há muito que há sempre mais que um no meu coração.

Junto ao oceano, junto ao rio, na montanha, na cidade, em dias de sol, em dias de névoa, em dias de tempestade ou quando o tempo renasce, nunca estou só e a minha companhia mais doce é sempre um ou mais que um de vós. 

Mas hoje é para um em particular que escrevo, hoje é a um em especial que desejo uma vida longa e feliz, uma vida inteira ao meu lado, for everMy love.



[Hoje temos prelúdios de Gershwin, ao piano, e é uma animação que o dia é de festa - desça um pouco mais, por favor.] 

No Ginjal, vendo o Tejo, Lisboa, um cacilheiro

                               
                                 Escolho sempre um nome que me soe amante
                                 retrato de homem nascido
                                 'em plena guerra', de esparsas relíquias
                                 incêndio e incendiador         dor e adaga dolorosa.

                                 Ora brilho com ele em marés vivas
                                 como a água na areia brilha assiduamente
                                 ora nos bebem os inimigos o sangue
                                 os pensamentos
                                 o desvão menos exposto do desejo.

                                 Mas ele brilha            João            em todo o corpo
                                 Fuma, o gladiador.
                                 Luta     amordaça     desfaz            refazemor

                                 Apocalipse segundo João.


                                ['Recanto 7' de Luís Neto Jorge in Poesia]