Ginjal e Lisboa

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07 abril, 2013

Respondo com palavras ao silêncio


A luz ainda é branca, meu amor, e a serra desenha-se ao fundo, suave, esbatida e não sei se é ela, se é a sua evocação. 

(Também não sei se é contigo, amor, que falo se é com a memória de ti que vive dentro de mim. Mas que importa isso?)

O rio, amor, está muito suave, azul muito claro, quase cor de prata, talvez algum amigo nosso o tenha assim pintado. Hoje está todo pintalgado com pequenos barcos de brincar, velas umas brancas, outras inocentemente coloridas. Ias gostar, tenho a certeza. O teu sorriso triste esbater-se-ia perante um desenho tão deliciosamente infantil.

E os monumentos estão em silêncio, pequenos, imortais, exangues. Mas os ciprestes estão bem vivos, sempervirens, pontuam com elegância o desenho aqui à minha frente. Sempre gostaste de ciprestes, lembro-me bem. 

Contemplo esta cidade e este rio que tanto amamos, esta luz branca e silenciosa. Nada mudou, amor. Acredita. Está tudo igualmente belo.

(Falo no presente como se ainda aqui estivesses, reparaste? Sempre assim será, podes ter a certeza, amor)

Mas a verdade, amor, é que não estás. Não te tenho aqui comigo para poder passar o braço pelos ombros, para te puxar a mim, para ver os teus longos cabelos ondulando ao vento. Voas algures por aqui, sei. Voas sobre o rio, sobre a cidade, sobre mim, entre a luz branca e suave que me cobre.

Falar em esperança é que não posso, amor. Olhávamos o horizonte e os nossos sonhos ali se aninhavam, num futuro que imaginávamos. Agora, amor, esse futuro não existe. Não me perguntes, amor, qual o exacto momento em que isso aconteceu. Não sei. Talvez que quando olhássemos o silêncio, estivéssemos já, sem o saber, a assistir a uma mudança terrível, silenciosa, larvar, medonha.

Mas não tenhas medo que eu também não. Continua aqui junto a mim, dentro de mim, voa solta pelos largos espaços e depois vem aninhar-te dentro do meu peito: ajuda-me a acreditar, ajuda-me a ter esperança, amor, ajuda-me a não ter medo. Preciso tanto de ti. Não me deixes cair no silêncio, não deixes, amor, não deixes. Não me deixes.



[Abaixo do poema de Gastão Cruz e da esperança segundo S. Paulo, visita hoje o Ginjal pela primeira vez um grande e versátil intérprete, Uri Caine. Vou gostar de o ter por cá.]


Os Jerónimos à direita, o Centro Cultural de Belém ao centro, o Padrão dos Descobrimentos à esquerda,
e o Tejo enfeitado de pequenos veleiros



                                          Respondo com palavras ao silêncio,
                                          não sei se são respostas ou se apenas
                                          pergunto o mesmo respondendo
                                          o que nunca mudou ou mudou sempre:
                                          se realmente existiu essa espera de dias
                                          a que chamar queríamos esperança;
                                          acreditámos que não mudaria
                                          o grito que era apenas
                                          afinal o silêncio da mudança


                                          [Poema 32 de Gastão Cruz in Fogo]


Placa no Jardim das Oliveiras do Santuário do Cristo Rei


11 fevereiro, 2013

Eu penso mudar estes campos deitados, criar um nome para as coisas.


Olho o mundo a ficar sem graça, as pessoas a ficarem cinzentas, as ideias a ficarem medrosas e iguais umas às outras, as árvores a quebrarem, tristemente frágeis, os gatos a fugirem do frio, o futuro a ficar sombrio, longínquo, e penso que assim não vale.

Quero que os jovens tenham vontade de fazer não apenas amor, muito amor, mas também novas vidas, mais vidas, que sintam muita vontade de embalar sorrisos. E que as mulheres tenham vontade que o seu corpo seja o leite que alimenta as crianças de amanhã e que os homens se sintam realizados sabendo que um pouco de si viverá para além da sua vida.

E quero gente a fazer o pino, a dançar e a cantar, mulheres de sorriso aberto e cabelos com vida e cor, crianças com moinhos de papel na mão em dias de vento, quero flores, muitas flores e barcos brancos, o rio cheio de velas brancas. E quero que marido e mulher não fiquem de costas viradas, corpos adormecidos, mãos estrangeiras. Quero que se beijem mas com beijos de língua e que se acariciem com paixão adolescente e quero que as mulheres e os homens que vivem sozinhos saiam para a rua a sorrir, de braços abertos, coração aberto e que os cães saltem e corram a rir e a abanar o rabo e os gatos fitem as pessoas com compreensão e que as gaivotas voem com grandes asas brancas sobre os velhos que se sentem sós e tristes.

Quero que as ruas se encham de gente a conversar e a rir, quero que a música invada o corpo de todos, quero que o sol se solte sobre os céus enchendo de luz o olhar dos apaixonados, quero que as estrelas soltem o seu pó dourado sobre as inocentes mãos das crianças e que, por magia, ele se transforme em ouro, flores, pão, pássaros às cores, imensos rios.

E quero que os deuses não nos esqueçam, que nos tragam sempre no seu pensamento, que nos protejam de nós próprios, que nos mostrem o caminho do futuro, o caminho onde nunca, nunca se anda para trás, um caminho de inebriante felicidade, o leito dos prazeres, o infinito labirinto do saber, um caminho onde a terra seja tão fértil que das árvores nasçam palavras e sorrisos. 

É isso que eu quero. 

(É querer muito...? Eu acho que não.)



[De novo aqui no Ginjal Herberto Helder, o homem cujo corpo é feito de terra e do qual nascem palavras como indómitos arbustos. Logo a seguir, no ciclo dos Grandes Intérpretes, David Fray, pianista, virtuoso. Chegou-me pela mão de um Leitor a quem muito agradeço]


O Cristo rei avistado do Jardim do Ginjal




                                     Eu penso mudar estes campos deitados, criar
                                     um nome para as coisas.
                                     Onde era estábulo, na doce morfologia,
                                     fazer
                                     com que as estrelas mugissem e as poeiras
                                     ressuscitassem.
                                     Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas,
                                     que minha inteligência se torne terrífica.
                                     Unir a ferocidade da noite ao inebriado
                                     movimento da terra.
                                     Posso mudar a arquitectura de uma palavra.
                                     Fazer explodir o descido coração das coisas.



[Excerto do poema IV do Poemacto de Herberto Helder in Textos e Pretextos, uma publicação de grande qualidade]

03 junho, 2012

Para quê os espaços vazios?


Abres os braços aos que, em baixo, te ignoram e aos que te louvam. Observas, com tua infinita compaixão e compreensão, o desamparo de quem se vê no fundo das escarpas, de quem se isola no alto dos mais desabrigados penedos, de quem se perde no labirinto vazio de espaços frios, desolados.

Em dias de vendaval, de chuva intensa ou de inóspita ventania, ou de inclemente soalheira, ou de névoa, ou de brisa, tu abres sempre os teus braços e, sem uma pergunta, sem uma censura, acolhes junto ao teu coração as preces, os agradecimentos, os choros, os segredos.

A vida corre sem propósito, apressada e tu abres os teus braços, pedindo à vida alguma paz, algum tempo. Ou, a quem a vida corre lenta, sofrida, tu abres os teus braços generosos e levas, a quem te espera, carinho e amparo.

Um corpo de pedra, um rosto esculpido, um olhar imaginado. E, no entanto, no leve inclinar da cabeça, no gesto fluido que a pedra mal disfarça, quanta bondade, quanto calor...

Não é de pedra, não, este corpo que se veste de vestes tão leves, que respira com tanto afecto, em cujo peito um coração bate, que abre os braços com tamanha generosidade, abraçando o ar, abraçando-nos a todos nós. 

Em dias de solidão, quando por aqui passo, ouço uma voz silenciosa que vem do interior de um corpo que não é de pedra e que pergunta ao vento: Para quê tanta amargura, para quê tantos corações vazios, para quê?

Sigo devagar pela beira do rio e nada respondo. Mas a voz persiste: Para quê tantos espaços tão tristes, tão vazios, no corpo de tanta gente? Porque não têm, antes, um coração cheio de amor?




[Abaixo do Cristo Rei, mais um poema de Patrícia Aguiar e, logo a seguir, voltamos a Mozart, agora com o canto. Abrimos com um grande momento da Flauta Mágica.]


Avistado do Ginjal, Cristo Rei abrindo os braços contra o ar


                                 Apertar os braços contra o ar,
                                 sentindo estes descobrirem o litoral.
                                 Descrevendo um espaço rígido e raro,
                                 de escarpas íngremes
                                 de penedos inacessíveis
                                 de costas esguias.
                                 Descrevendo aquele lugar
                                 tão veloz quanto dispensável.
                                 Para quê os espaços vazios?



[Poema, pág.61, de Patrícia Aguiar in '190 minutos aqui' com ilustrações de Marisa Benjamim
                       

16 abril, 2012

Volta os olhos para trás, encontrarás as montanhas inertes do teu coração

 
Uma mulher passou de olhos no chão, lágrimas escorrendo pelo rosto, mãos fechadas.

Esta é a mulher que por aqui costuma andar, olhar vazio, fundos vincos nos cantos da boca e uma permanente sombra no mais fundo do seu rosto. Não olha a montanha, não olha o rio, não olha a imensidão do céu, nem a frescura azul do rio, não voa com as gaivotas, não se aninha sob uma mansa árvore, não ri, esqueceu o riso. Esta mulher caminha escutando as sombras que invadem o seu coração. Silenciosa e triste, a mulher pensa no seu coração que um dia albergou tantos sonhos e que agora bate com inerte secura. 

Pássaro negro de bico laranja no Jardim do Ginjal

Mas um dia um pequeno pássaro negro de bico quase encarnado brincou à sua frente na relva, e o pássaro saltitava, corria, olhava para trás, olhava para ela, parecia desafiá-la, e depois voou e pousou num ramo baixo, bem à altura dos seus olhos. E o pequeno pássaro cantou e era apenas para a mulher triste que ele cantava e a mulher sorriu com a inocência deste pequeno pássaro envolto em verde. E a mulher pensou que era uma visão tão pura, tão limpa, tão inocente e o pequeno pássaro parecia sorrir-lhe, cantando para ela e ela aproximou-se devagarinho, muito devagarinho e o pequeno pássaro deixou que ela se aproximasse e, então, ficaram os dois, naquela intimidade tão calma e tão verde, e olharam-se nos olhos, os dois tão iguais, tão à espera de ser felizes.

E então, nesse dia, a mulher ergueu o rosto e, ao erguer, viu que no alto daquela montanha que sempre ignorara estava alguém que a abraçava, um abraço longo de protecção e ela pensou que era ela, ela, só ela, que tinha que caminhar para dentro da terra reinventada e feliz. 

E,então, sentindo-se abençoada pelo abraço que lhe chegava, quente e forte, do alto da montanha, a mulher avançou, sem medo, a caminho da sua terra prometida. E os olhos sorriam-lhe, e os lábios entreabriram-se e as mãos soltaram-se e ela andou, feliz, livre e, ao seu lado voavam gaivotas de grandes asas brancas e, à sua frente, como se marchasse inocente e determinado, seguia o pequeno pássaro preto de bico quase encarnado.



[A seguir ao Cristo-Rei, protector e sereno, poderão encontrar um belo poema de alguém que muito admiro, Luís Filipe Castro Mendes, embaixador e poeta, e, logo depois, Callas, a fantástica, interpretando Rossini]


Avistado do Jardim do Ginjal, o Cristo Rei que abençoa quem se quer sentir abençoado



Nous venons de partout, nous sommes sans limites
(Paul Éluard)


                       Volta os olhos para trás,
                       e irás reencontrar as montanhas inertes do teu coração
                       e tudo o que não soubeste mais reinventar.

                       Mas se olhares na tua frente
                       e as montanhas te oferecerem o seu verde sombreado
                       como uma promessa de felicidade,
                       não feches os olhos,
                       não recordes em vão:

                       nós somos de toda a terra,
                       só isso nos foi prometido.


                       ['Junto aos Himalaias' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Lendas da Índia']