Ginjal e Lisboa

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26 julho, 2019

Nem no cântico dos seios nem no soluço das pernas





Digo-te que sou bicho vindo do ventre da Terra, que ando pelos campos enterrando as mãos no barro, deslizando pelos campos de urze e rosmaninho, raspando as unhas no tronco das árvores, o corpo despido para melhor receber o sol e o canto dos pássaros, o colo contendo o soluço que cala uma saudade desconhecida, as pernas tremendo com o peso de uma ausência indefinida. Digo-te que sou uma mulher que vem do tempo dos silêncios e das trevas, que mergulho as mãos nas águas frias e limpas, no corpo quente das palavras. Digo-te que me entrego ao sonho, ao acaso, ao luar, à noite, à loucura. Digo-te sem saber porque digo e  digo-o de joelhos, digo-o como se dissesse a verdade.

E, então, fecho os olhos, aspiro o ar fresco dos montes, imagino raízes que se enleiam, cânticos de água nascente, encruzilhadas nas florestas, clareiras fulgentes, abismos atraentes. E, quando menos espero, começo a ouvir a tua voz que me chega não sei de onde, uma voz funda e rouca que vem talvez de dentro da Terra, talvez de dentro de mim, e que me traz o perfume dos segredos sem nome, uma voz que transporta todos os perigos do mundo.


É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada das trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos te entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra


[De David Mourão-Ferreira in 'A arte de amar']

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[Fiz as fotografias no Ginjal]

03 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - I pescatori di perle



TOMAZ ALCAIDE



I pescatori di perle - Georges Bizet


Tomaz de Aquino Carmelo Alcaide foi o maior tenor português de sempre.

Nasceu em 1901 em Estremoz e começou a revelar-se em tertúlias de natureza privada, mostrando uma voz de belo timbre; a conselho de alguns amigos e de alguns críticos decide dedicar-se à carreira lírica e inicia lições de canto, primeiro com Alberto Sarti e posteriormente com Francisco de Sousa Coutinho.

A sua primeira apresentação pública faz-se no Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz e Alcaide prossegue os estudos agora com Eugenia Mantelli que lhe proporciona uma sólida preparação musical e o inicia nos papéis mais apropriados para a sua voz.

Em Abril de 1925 Tomaz Alcaide parte para Milão, para se aperfeiçoar e onde estudará com o Maestro Fernando Ferrara que o encaminha para o reportório “di grazia”, recomendando o estudo dos papéis de Almaviva, Elvino, Ernesto, Nadir, De Grieuz e Werther e em Dezembro desse ano, estreia-se no Teatro Carcano de Milão, interpretando o papel do Maestro Wilhelm, da ópera “Mignon” de Ambroise Thomas, dando início a uma carreira que o leva a ser, em 1930, o tenor escolhido para a estreia mundial de “As Preciosas Ridículas” de Felice Lattuada e de “Il Re” de Umberto Giordano, ambas no Teatro Reale de Roma. Após estas récitas, Alcaide apresenta-se no Scala de Milão, em “As Preciosas Ridículas” e também em “Il Gobbo del Califfo” de Franco Casavola e em “Madonna Imperia” de Franco Alfano; o seu desempenho é de tal modo imponente que o Scala propõe-lhe um contrato para primo tenore por 3 temporadas consecutivas.

Nos anos 30 do século XX, sendo já reconhecido por toda a Europa, Alcaide estreia-se na zarzuela e na ópera vienense.

Em Montecarlo, interpreta em 1934 “Doña Francisquita”, do espanhol Amadeo Vives e em Boulogne sur mer, Bruxelas e Paris, interpreta, em 1937, a opereta “O País dos Sorrisos”, de Franz Lehar. Ficarão ainda famosas as suas interpretações de personagens libertinas, apoiadas na dinâmica da sua voz de timbre cristalino.
Com o início da 2ª Guerra Mundial, Tomaz Alcaide parte para a América do Sul, sendo recebido no Teatro Colón, de Buenos Aires e depois na Ópera do Rio de Janeiro e no Teatro Municipal de São Paulo.

Terminado o conflito, volta a actuar nos palcos europeus, regressando em definitivo a Portugal em 1947.

Admirado pelos seus incontestáveis dotes naturais – os seus 'pianíssimi' eram de uma delicadeza extrema – e pelo seu virtuosismo técnico e grande escola vocal, Tomaz Alcaide apresentou-se durante mais de duas décadas nos mais importantes teatros líricos da Europa e América, constando do seu repertório quase todos os grandes papeis para tenor.

Na última década de vida, Alcaide realizou ainda diversas conferências, publicou uma autobiografia intitulada “Um Cantor no Palco e na Vida”, colaborou em programas de rádio, ao lado de João de Freitas Branco e de Maria Helena de Freitas e dirigiu a Escola de Canto do Teatro da Trindade, acumulando os cargos de mestre de canto e de encenador da Companhia Portuguesa de Ópera.

Tomaz Alcaide viria a falecer a 9 de Novembro de 1967 em Lisboa.


(adaptado de uma biografia publicada por António Ferreira)