Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
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15 junho, 2017

Procura a nudez da página, tem um orgasmo de seda





Não te escondas. Não faças saber que desapareceste. Não vale a pena. Sei-te aí. Ouço a tua respiração. Sinto o calor do teu bafo. Sei-te escondido, espreitando as minhas palavras. Sinto-te. 

Quando a noite cai, pressinto os teus passos silenciosos, conheço os teus disfarces.

Gostavas de poder tocar as minhas mãos que escrevem, não digas que não. Gostavas de poder visitar a minha toca e sentir a minha pele e que eu não te visse. Não digas que não. 

Querias, talvez, lamber a água salgada com que o meu corpo aceso mostra que não te esquece, querias despir uma e outra alça para que a aragem fresca da tua saudade me aquietasse a alma.

Querias, talvez, que eu me deitasse, rendida, perdida, querias que eu deixasse que as tuas pernas se enleassem nas minhas, que os teus dentes cravassem a minha pele, a minha carne, e, mais fundo, o coração que tantas vezes te neguei. Não digas que não. Não digas.

Abeira-te, lince meu, abeira-te, não tenhas medo, deixa que a minha mão percorra o teu pêlo arisco, deixa que a minha boca sinta as palavras que me escondes, deixa que te puxe para mim e te deite na página branca e silenciosa onde te espero. Vem, lince, lince meu, traz poemas, rimas, traz a pena, traz a seda do teu verbo, conquista-me, vence-me com o teu estranho amor. Lince, lince meu.


O lince da tua boca
deitado no meu poema

bebe o corpo dos meus versos
devora-lhe a alma acesa

Com as pernas puxa e enlaça
a linguagem desvenda

com as garras desce-lhe as alças
aceita a febre descalça

Crava os dentes na sintaxe
lambe devagar as letras

sente a rima onde e enreda
possui a escrita sem pena

Procura a nudez da página
tem um orgasmo de seda


['O lince do meu poema' de Maria Teresa Horta in Poesis]



_____________

Fotografias feitas no Ginjal

Edward Elgar - Salut d'Amour Op.12

_________________

26 março, 2016

Solitário no meu pequeno barco, canto no meio do mar da felicidade




Estás do outro lado do mundo, invisível, tão longe das minhas mãos cegas. Se fecho os olhos, vejo-te entre sombras, vagueando entre palavras, adivinhando músicas longínquas, tecendo fios perfeitos de sedas suavemente coloridas, frases límpidas, tão límpidas. Outras vezes, o teu olhar perde-se entre verdes, azuis, deleita-se com os caprichos das flores e, então, vejo-te guardando tesouros, com a minúcia dos antigos, cada coisa em seu cuidado compartimento, isto para um dia de luz, aquilo para um dia de névoa, isto para te contar um dia, aquilo para esconder de todos. Com a delicadeza dos generosos, afagas memórias, sonhos, sorrisos de um carinho tão distante.

Abro a janela e, na noite, adivinho as estrelas adormecidas, as nuvens em sonos aquietados, as tuas mãos pensando naquela que o teu coração chama, paradas, expectantes. São brancas e pensativas as tuas mãos. Apenas a respiração, agora, te prende à vida que os outros conhecem. O resto, todo tu, está nos esconderijos onde a tua vida se guardou.

Mas deixa que eu, que não te conheço, te diga: não penses com saudade naquela que o teu coração chama. Não penses. 

Eu conto-te. Ela vive entre o brilho das águas, sobre os ramos floridos das árvores, voa sem destino certo, perde-se entre os caminhos frescos de bosques que mais ninguém conhece, ela é outra e ninguém sabe quem é, ela é um reflexo, ninguém, uma mulher inventada. 

Respira de olhos abertos, respira. E olha as tuas mãos, levanta-as, deixa-as voar, abre a janela, sacode as asas, sai e voa. Procura um barco, deixa-te deslizar, vai com ele, olha os mil sóis, deseja a tua felicidade, encosta o ouvido à frescura da noite, escuta como ela te pede que sorrias. Sorri. Agora. Sorri. 

Estou a ver-te. Ainda não estás a sorrir. Sorri. Sorri para mim.

Assim está melhor. Gosto de te ver a sorrir. É bonito o teu sorriso.


O amado está dentro de ti e de mim
a árvore está escondida dentro da semente
Todos lutam    Ninguém chegou muito longe
Abandona a tua arrogância    Olha à tua volta

O céu azul prolonga-se pelo infinito
A diária sensação de fracasso esbate-se
Um milhão de sóis começa a brilhar
enquanto piso com firmeza este mundo

Ouço o som de uma campainha que ninguém agita
chove embora não haja nuvens no céu
Fluem rios de luz

Solitário no meu pequeno barco
canto
no meio do mar da felicidade

[in 'O nome daquele que não tem nome' de Kabir numa versão de Jorge Sousa Braga]


______

A música é  Look at the world de John Rutter numa interpretação de The Cambridge Singers 

As fotografias foram feitas no Ginjal
...

21 dezembro, 2015

Ah, eu sei agora que é magia





Olhou-me nos olhos como se me inquirisse. Dócil, eu, aproximei-me, devagar. Continuou a olhar-me. Baixei-me, tentei perceber. Olhava-me como se me quisesse dominar, como se me quisesse fazer sentir que tinha que ser eu a ceder. E eu ali, em silêncio, disposta a todos os olhares.

Então desviou os olhos. Olhei-o bem de frente, eu já quase de joelhos, que me olhasse, bchhh, bchhh, bichinho, bchhh, bchhhh, bichinho lindo... Nada. Olha, olha para mim, bchhh, olha, bichinho, bchhhh. Nada.

Não insisti. Tenho o meu orgulho. Não queres, não queiras. 

Mais à frente ainda pensei voltar-me para trás, ver se me seguia, se queria, afinal, a minha companhia. Mas não o fiz. Orgulho, esse grande inimigo dos acasos. Segui o meu caminho.

Dia de gaivotas pensando na vida, contemplando o mundo, dia de gatos sob as árvores, trepando aos muros, deslizando entre sombras. Dia de veleiros brancos, vermelhos, deslizando no azul, entre árvores. Dia de deslumbramentos.


E eu vou caminhando. A terra está macia, a relva está verde, o rio corre azul, o céu abre-se para receber aqueles que querem sentir a serenidade das nuvens que correm devagar ou dos amantes que se abraçam rente às águas, abençoados por quem passa.

Não sei ainda onde me levam os meus passos. Não sei como vim aqui parar. Não sou daqui. Que raízes são estas que se estendem até ao mar? Que asas são estas que se levantam para me levar a voar? Que amor é este que sinto por tudo? 
Pelas palavras, pelas águas, pelos céus, pelos pássaros, pelos barcos, pelos gatos, pelas paredes, pelos olhares recordados, pelos sorrisos imaginados, por quem o meu coração bate, por quem o meu coração aconchega. 
Um amor assim não tem explicação. Parece ilimitado, parece intemporal. E é inocente, alegre, livre. 

E eu caminho, sem explicações, como se fosse uma gata, uma gata deslizando sobre o azul, como se me nascessem asas, como se pudesse ir para o alto, para lá de onde se vêem as belas cidades, os pequenos homens, para lá onde as angústias perdem o motivo, onde os medos são injustificados, lá onde as saudades aumentam, aumentam tanto, lá onde me sinto tão longe, tão perto, tão livre, tão ilimitada, tão tua.

Não sei explicar, não sei mesmo. Mas dizem-me que é  magia, que é imagiação a explicação -- e eu acredito porque é bom acreditar no que não tem explicação.


Ah, eu sei agora que é magia,
que é imagiação a explicação
disto de estar aqui e não ali,
de vir aqui parar,
de vir aqui andar
e ter um chão onde os meus passos
de gazela insegura
se aventuram no escuro.
Eu sei agora algumas coisas
que explicam o que nada poderia explicar,
e o que não sei ainda
irei imaginá-lo numa não sei que paz
que é imagiação.

....

Fiz as fotografias este fim-de-semana no Ginjal.
O poema é 'Ela', poema 33, de Um Teatro às Escuras de Pedro Tamen.
Barenboim interpreta de Bach: Goldberg Variations - Aria
..

23 março, 2015

Teus dedos recolhendo gaivotas no raso voo sobre o meu peito.


Se eu pudesse abrir agora a janela e procurar na noite o lugar onde dorme o teu coração. Se eu pudesse levar as minhas palavras e deixá-las pousadas junto aos teus sonhos. Ah se eu pudesse dizer-te que as palavras não são só palavras, são bocados de mim. Ah se eu pudesse dizer-te que tenho medo que as palavras um dia se transformem em gente de verdade e queiram mergulhar no mar mais fundo, abraçadas a ti.

As gaivotas suspendem-se no ar e deixam que eu aprenda a voar e eu quero atravessar a noite, atravessar o tempo, sentar-me junto a ti, ver o rio, sentir a leveza do silêncio, e não esperar nada e não querer nada, apenas que agarres as minhas palavras e as tomes para ti, que agarres as minhas mãos e não as soltes mais, que te desfaças no meu olhar, em mim.

Não quero nada de mais. Não quero grutas, labirintos, jardins, espelhos, bibliotecas, não quero livros, barcos, casas, não quero o céu, não quero o mar, não quero a luz nem a sombra, nem a música que se desprende das asas, das velas, dos ventos. Quero apenas um instante, o preciso instante em que o teu coração pousaria junto ao meu. Para sempre, mesmo que apenas por um instante.

Mas sei que isso é querer demais porque esse instante não existe, esse instante está preso no fundo do mar e eu não sei onde, o mar é tão imenso, ah tão imenso, ou talvez esteja numa casa inventada, perdida, algures a sul onde o mar se desfaz no azul do céu.

Ah meu querido, como eu queria esse inexistente instante. 


Guincho* sobre o Tejo junto ao Ginjal com Lisboa ao fundo
(*que eu pensava que era uma gaivota diferente e que, em comentário abaixo, aprendi que não)



Não quero o mar.

Quero o instante
em que o oceano inteiro
se enrosca numa só onda.

Não quero rios.

Um redondo de lágrima me basta:
teus dedos
recolhendo gaivotas
no raso voo sobre o meu peito.

Eu quero um deserto.
Mas de vastidão mindinha.

Desses que cabem num grão de areia.



[Exíguos anseios de Mia Couto in 'Vagas e Lumes']


______


A música é Nana de Manuel de Falla, Violencelo: Javier Albarés e guitarra:Marisa Gómez


12 março, 2015

Amanheceu a minha vida no teu rosto de uma doçura intensa e tão suave







Caminhava e não sabia que era na tua direcção que caminhava. Nem sequer sabia de ti. E, no entanto, sem que o soubesses, era também na minha direcção que caminhavas. 

Eu julgava que era uma mulher normal embora soubesse das minhas asas e das palavras que voam em minha volta. Mas agora sei que não sou normal. As asas cresceram muito e quase não me pertencem e o chão parece que está prestes a desaparecer.

De ti sei que te sentas com palavras junto aos braços e que a cabeça está lá bem alto, onde as nuvens transportam a água mais limpa, os sonhos mais imateriais e puros, onde a luz é doce como um sorriso. E que tens asas também.

E caminhamos na direcção um do outro. Por vezes, as palavras de um e do outro voam, perdem-se de nós, brincam, buscam-se, encontram-se e beijam-se sem que as possamos controlar, são pássaros livres, tão livres, tão livres como talvez gostássemos de ser.

Enquanto assim caminhamos, sem sabermos bem em que ponto pararemos, os pássaros brincam também, imitam-nos, riem e dizem as palavras de David:

Nós temos cinco sentidos: 
são dois pares e meio de asas. 

- Como quereis o equilíbrio?

e nós, de longe, ouvimos essas vozes e já nem sabemos se são os pássaros, se os anjos, se somos nós que as sonhamos.

Caminhamos. Não sei se estamos longe, se algum dia nos encontraremos, nada sei. Sei apenas que é na direcção um do outro que caminhamos. Levados nas asas dos sonhos, levados por um estranho e inconfessado desejo, por abraços que inventamos, por beijos que tememos querer, vamos voando, caminhando pelos céus.

E então as palavras de ambos, feitas pássaros tresloucados, ardentes de um amor que sabem não poder ser seu, dizem, como se sonhassem,

Amanheceu a minha vida no teu rosto
De uma doçura intensa e tão suave
Como se um divino fundo nele brilhasse
Eu era o que nascia soberanamente leve
E encontrava na limpideza centro do equilíbrio
Só em ti cheguei amanhecendo na minha madurez
Entrei no templo em que a luz latente era a secreta sombra
Foste sonhada por meus olhos e minha mãos
Por minha pele e por meu sangue
Se o dia tem este fulgor inteiro é porque existes
E é porque existes que se levanta o mundo
Em quotidianos prodígios
Em que ao fundo brilha o horizonte certo.


E eu fecho os olhos: sim, deixa que as palavras sonhem, deixa. Deixa que elas nos digam que talvez um dia entremos num templo só nosso e nos descubramos, as mãos impacientes, inocentes, a pele e o sangue em chama, e os olhos despidos, prontos para a nudez que brilhará, secreta, em dias só nossos, plenos de prodígios também só nossos.



.....

O primeiro poema é de David Mourão-Ferreira, o segundo é de António Ramos Rosa, Lilac Wine é interpretado por Nina Simone e as fotografias são, como tantas vezes, feitas no Ginjal.

...

28 abril, 2014

Vasco Graça Moura, uma das grandes presenças no 'Ginjal e Lisboa' - para sempre a acompanhar quem por aqui passar. E o que vos digo é que 'relembro o que escreveu: as suas rimas nítidas de aço e dúcteis como a pele, encontros, desencontros, corpos que ele despia e enredava nas esgrimas'


Sim, fui-me dedicando sucessivamente, sobretudo no plano literário, a fazer muitas coisas e muito variadas. Comecei pela poesia, depois fui para a crítica, para o ensaio, para a ficção, entretanto passei para a polémica. Mas não deixei de fazer um conjunto de actividades ligadas à vida prática de todos os dias. Não conseguia entender-me só no plano de nefelibata a pensar na minha escrita. Tinha que ter uma base concreta.

Hoje a minha escrita não tem o propósito, de um modo geral, de ir buscar esses materiais [escritos há 50 anos]. Se têm que surgir, eles emergem naturalmente. Há 50 anos talvez eu tivesse um pedantismo um pouco mais sofisticado e procurasse mostrar que conhecia isto ou aquilo. Hoje isso não me preocupa absolutamente nada. 



Gaivota levanta voo na beira do Tejo, no Terreiro do Paço em Lisboa


relembro o que escreveu: as suas rimas
nítidas de aço e dúcteis como a pele,
encontros, desencontros, corpos que ele
despia e enredava nas esgrimas
de angústias e palavras (aproxima-as
o jogo aliterado mas cruel
do cursivo do tempo no papel
a amalgamar memória e tensos climas)
e o perseguido amor em seus contrários,
como um rosto perdido que era o seu
procurando o fulgor e o sentido
que outros rostos lhe davam e esses vários
relances em que acaso apercebeu
que era ele e não era, reflectido.







*

  • Os dois primeiros parágrafos fazem parte da entrevista que Vasco Graça Moura concedeu a Ana Sousa Dias para a Revista Ler em Janeiro de 2014

  • O poema é David (no capítulo Mortes) do Volume I da sua Poesia Reunida

  • O primeiro vídeo mostra um excerto da presença de Vasco Graça Moura com Fernando Alvim no 5 para a Meia-Noite em que lê parte de uma poesia sua na qual refuta ser o autor de 'O segredo do meu pipi'

  • O segundo vídeo mostra-o falando do Livro da Sua Vida para  Ler Mais, Ler Melhor - Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões

  • O terceiro vídeo mostra Joana Amendoeira interpretando o fado Era a  noite que caía, cuja letra é justamente da autoria de Vasco Graça Moura.

*

17 abril, 2014

Que o poema seja microfone e fale uma noite destas de repente às três e tal para que a lua estoire e o sono estale e a gente acorde finalmente em Portugal.


Abril é chegado. Vem fatigado este mês, o povo de pernas quebradas, o rosto tombado, os cabelos baços, as mãos vazias.

Andaram cinzentos os tempos, chorosos, e das paredes nasceu um bolor triste e dos ossos veio uma dor surda.

Mas é Abril e Abril é Abril e é em Abril que a força renasce, as cabeças se levantam, as pernas se erguem, os punhos se cerram.

É Abril e em Abril os cravos tornam-se vermelhos sangue, e perfumam-se com o cheiro da liberdade e as vozes erguem-se e os corpos, antes cansados, unem-se agora, prontos para cantar. Prontos para amar. E para lutar. Portugal é o nosso país e por ele temos que nos dar.


Lisboa hoje ao pôr do sol


Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema. 
Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa. 
Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.
Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês. 
Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar. 
Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal. 
Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua. .
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas. 
Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos. 
Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.  
Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar. 
Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui. 



Poemarma de e dito por Manuel Alegre


08 abril, 2014

No centro da cidade, um grito


Manhã silenciosa no Ginjal, manhã branca. Podia estar no céu, habitar uma nuvem, podia deslizar no dorso de uma gaivota, podia, podia deslizar nas velas de um veleiro, podia, podia sonhar num recanto secreto de Lisboa. 

Mas afinal apenas caminhava junto ao Tejo, os pés no chão, e não se via ninguém, parecia que estava eu, só eu, e as minhas memórias brancas.

O silêncio junto a um casario puído pela maresia e junto a um rio envolto em névoa é um alimento que eu e todos os amantes secretos procuram para sentir o doce fluir do tempo. Para lá caminho uma e outra e outra vez. Sempre - especialmente quando o mundo parece envolto em solidão e silêncio.


Manhã de neblina no Ginjal,
um cacilheiro atravessando o Tejo em silêncio, Lisboa mal de avistando

No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar
e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado.
Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos
são uma sinalização em direcção à morte.
Mas hoje, ainda longe daquele grito,
sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi,
e uma abelha pousa-me no azul do lírio
e no cardo que sobreviveu à geada.
Bebo, fumo, mantenho-me atento,
absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez,
e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte,
acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria,
e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo
no esplendor da noite do mundo que nos foge



O poeta Al Berto (1948 - 1997), diz vinte poemas na "Casa Fernando Pessoa" em 1 de Julho 1995 e um poema no "Salão nobre dos Paços do Concelho", em 25 de Maio 1996


**

O grito raso
que se esconde
no verbo aceso
que se expande.
Fuga aberta
de palavras
cobrindo de sons
o Nada.
Aquilo que fica
depois da escrita
para além dos versos 
para além dos livros 
para além do pó.


[Poema de Joaquim Castilho num comentário abaixo]


24 março, 2014

Difícil fotografar o silêncio


Um gato no Ginjal - em silêncio
O Tejo e Lisboa já ali


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.



Poema O Fotógrafo de Manoel de Barros dito por Eduardo Tornaghi


*

Encontrar o silêncio
quando os dias se rasgam
de gritos ácidos
e os ouvidos se enchem
de bandos loucos de palavras vãs.
Encontrar o silêncio
onde a Paz se acolhe
e o vazio se alaga
com sombras brancas.
Silêncio,
quando a angústia se esvai
e o olhar voa
como chama matutina.
Encontrar o Silêncio e morar nele
até que nos encontremos
e um sorriso se abra em nós.



[Silêncio de Joaquim Castilho num comentário abaixo]



03 março, 2014

Boa noite. Eu vou com as aves.


Cresci, mãe, cresci mas a menina que fui ainda existe dentro de mim. Tu sabes, mãe, que sou ainda a mesma. Tratas-me pelo mesmo nome com que me tratas desde que nasci. Tu e todas as pessoas que me conheceram então. Para ti e para todas elas sou ainda a mesma. E sou. É estranho porque já não teria idade para o ser. Mas sou. Alegre, curiosa, deslumbrada.Tomara que sempre assim me conserve, não é, mãe? Não quero ser velha, por muitos anos que já tenha e por muitos anos que ainda venha a ter. Não tenho feitio para me sentir e portar como uma velha.

E, quando me for, que vá voando, rindo, feliz, para desfrutar a liberdade dos grandes espaços. Com as aves. Como as aves.


Manhã de chuva no Ginjal - o Tejo picado e Lisboa envolta em névoa

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe 
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos. 
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais. 
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz. 
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura. 
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe! 
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos; 
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura; 
ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal... 
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber, 
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas. 
Boa noite. Eu vou com as aves. 

Gaivota quase parada no ar no céu do Ginjal sobre o Tejo



['Poema à Mãe' de Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"]


Video realizado por Lauro Martins e Manuel Capitão, no âmbito da UC Imagem em Educação, Mestrado Tecnologia Educativa - Universidade do Minho 2012


Voz de Nuno Miguel Henriques


Música: Ave Maria - Gounod/Bach


10 fevereiro, 2014

O europeu do Norte não gosta de nos ver comer peixe fresco do alto. Um carapau, uma sardinha, vá.



Abandono numa manhã fria no Ginjal. Lisboa do outro lado.



A expressão é um diamante bem lapidado que transcendeu o "apertar do cinto", expressão que sobreviveu não sei como à miséria real do Estado Novo. Espero que passe à reforma, porque se a língua não muda, o povo estagna, ou vice-versa.

Agora ninguém aperta o cinto, até porque a comida de segunda, rápida, obriga a alargá-lo. Agora faz-se um downsizing, ou seja, não se compra cherne fresco ao sábado: vai-se à secção de congelados do Jumbo e manda-se cortar uma perca do Nilo em postas finas duras. Cherne fresco era viver acima das nossas possibilidades, e que interessa que os pescadores não vendam?! O europeu do Norte não gosta de nos ver comer peixe fresco do alto. Um carapau, uma sardinha, vá. Downsizing do lifestyle significa, na prática, continuar a ser os pretos claros dos brancos do norte, como no passado outros foram os nossos pretos, porque não nos interessava que fossem mais do que isso. A história repete-se com diferentes protagonistas, mas essencialmente é sempre isto: quem manda e quem é mandado; quem pode e quem não pode.


[Excerto de 'Downsizing do lifestyle', texto de Isabela Figueiredo no seu Novo Mundo Perfeito]




Isabel Figueiredo é a autora do livro 'Caderno de Memórias Coloniais', um livro que recomendo



03 fevereiro, 2014

Do alto deste monte, numa manhã assim


Manhã muito fria, luminosa mas muito fria. Por aqui ando uma e outra vez vendo Lisboa, a Bela, envolta em céu e rio, suave e branca entre um azul espelhado, percorrido por elegantes veleiros, sobrevoado por graciosas gaivotas.

Há dias em que estes grandes aves gritam, desalmadas, em que se agitam, revoltadas e em que as águas se mostram picadas, insolentes. Este domingo não. Talvez mais à frente, no oceano, as águas estivessem grandes, bárbaras, mas aqui a vida estava tranquila. 

E eu caminho rente ao Tejo, desejando guardar no meu peito esta maresia limpa que os meus olhos bebem. Vou devagar apesar de estar com pressa, não tardaria a casa encher-se-ia e era preciso preparar uma mesa cheia. Mas dilato o tempo e prendo-me a este espaço que está, desde há muito, gravado no meu coração - e, assim, não sinto a urgência do tempo. Estou sempre aqui, dentro deste universo maravilhoso.



[Para se entretecer com este poema e a imagem deste sítio que entrou dentro de mim, só mesmo uma Balada Astral. É Miguel Araújo que, mais abaixo, aqui traz uma música do seu mais recente trabalho.]


Lisboa e o  Tejo avistadas do miradouro da Boca do Vento, sobre o Ginjal



                                            Do alto deste monte, numa manhã assim,
                                            só há duas coisas a fazer:
                                            chatear deus ou deixar deus em paz.

                                            Minto.
                                            É claro que há uma terceira via
                                            (mas dá muito trabalho):

                                            fingir que não o vejo nem o oiço
                                            do alto deste monte
                                            na luz desta manhã.


                                            ['A terceira via' de A. M. Pires Cabral in Gaveta do Fundo]



15 janeiro, 2014

Era uma vez uma mulher que via um futuro grandioso para cada homem que a tocava. Um dia ela se tocou...


Num pontão do Ginjal, sobre o Tejo




Era uma vez uma mulher
 que via um futuro grandioso
 para cada homem que a tocava
 um dia
 ela se tocou...

.  Eu pensava que o amor
 me faria uma rainha
 e quando você chegasse
 não seria mais sozinha.

  Você chega da gandaia
 só pensando numazinha
 seu amor é pouca palha
 para minha fogueirinha.

  O que você jogou fora
 é para poucos
 o meu mal foi jogar
 pérolas aos porcos.

  Eu não sou da sua laia
 não quero sua ladainha
 pra ser mal acompanhada
 prefiro ficar na minha.


 Era Uma Vez poema de Alice Ruiz interpretado por Zélia Duncan


*

No Ginjal, sobre o Tejo, alheada de Lisboa


Já notou que eu te amo
Ou você pensa
Que toda vez que eu ligo
É por engano?

Já sacou que é meu vício
Minha droga
Meu barato
Ou vou ter que curtir a rebordosa
Em algum hospício?

Pra me deixar normal
Só uma overdose de você
Pra me pirar legal
Só uma dose dupla desse mal


   

Overdose poema de Alice Ruiz interpretado por Zélia Duncan


*


Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo 
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre


   

 Milágrimas (Itamar Assumpção e Alice Ruiz) com Alice Ruiz e Anelis Assumpção



12 janeiro, 2014

Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...


Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia. 



Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês. 




Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
 julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.  


E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


['Aviso da Lua que menstrua' de Elisa Lucinda dito pela própria no espectáculo"Parem de falar mal da rotina"]


09 janeiro, 2014

Em que espelho ficou perdida a minha face?


Em Cacilhas, de frente para Lisboa, num dia sombrio, o Tejo escuro, agitado


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?




Poema 'Retrato' de Cecília Meireles aqui dito por Paulo Autran sobre parte do filme UP (Altas aventuras)



15 dezembro, 2013

A presença mais pura


Sou uma mulher que se desfaz de sombras e, vestida de sol, caminha sobre as árvores, entre pássaros, ramos, folhagens, nuvens, horizontes, palavras soltas.

Não tenho peso nem penas nem arrependimentos. Percorre-me o sangue e a pele apenas a vontade de ser e a ilusão de poder espalhar sonhos, alegrias, afectos.

De mim nunca ninguém perguntará 'a que distância deixou aquela mulher o coração?' porque o trago sempre à vista no peito, nas mãos, nas palavras que digo.

Mesmo vocês que estão tão longe de mim o sentem, não sentem? Não ouvem como ele pulsa enquanto vos escrevo estas palavras? 

Mesmo não sabendo o vosso nome, é em cada um de vós que penso quando voo pelos espaços, atravesso a noite e, cheia de mar e de luz, vou pousar junto a cada um de vocês, meus queridos Leitores.


Lisboa e o Tejo vistos do pequeno Jardim do Ginjal




Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?» 
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


['A presença mais pura' de José Tolentino Mendonça dito por Guilherme Gomes] 


19 novembro, 2013

Se tiveres de escolher um reino escolhe o relento


A noite. Meu ninho, meu aconchego. A noite, meu reino.

Quando, como hoje, me sento ao volante e percorro quilómetros e quilómetros - e sozinha vou ouvindo a música, vendo a paisagem, e sei que ainda me esperam horas de trabalho e que ainda falta tanto para chegar a casa - penso que, não tarda, cairá a noite e que, na noite, envolvida pelo veludo macio da escuridão, caminharei rente ao rio. E logo sinto uma expectativa que me anima, uma quietude que me serena.

Depois, mal vejo a hora de me mudar e me dirigir para os cais, para essas fronteiras de onde os solitários espreitam os rios, e enfrentam a frialdade do relento, e enfrentam o medo da solidão, e de onde se vê como os navios deixam um rasto silencioso e branco na negrura das águas.

O ar de noite, rente ao rio, está muito frio. Quase ninguém. As luzes que se reflectem no rio são um alabastro de prata, as pedras da calçada ficam quase douradas, a mulher que sozinha, num banco, de frente para a grande cidade, quase parece feita de pedra macia - e tudo me parece acolher.

Olho com delongas este meu canto, este meu pedaço de mim. Esta é também a minha casa.

Daqui a nada, a beira do rio acolherá um novo dia. E eu, deslumbrada, assistirei ao seu nascimento aqui da janela de onde espreito o tempo que passa. A minha casa é, assim, o rio e a janela de onde o espreito, o meu mundo feito de pequenos instantes, eternos e sem nome.



[Abaixo de Lisboa e do Tejo avistadas numa noite muito fria, recebo, uma vez mais, o Poeta Padre José Tolentino Mendonça. A seguir, Jorge Palma e toda a sua emoção com acompanhamento de João Gil]


No cais de Cacilhas, sobre o Tejo, de frente para Lisboa



                                                           Se tiveres de escolher um reino
                                                           escolhe o relento
                                                           a noite tem a brancura do alabastro
                                                           ou mais extraordinária ainda

                                                           Ao que vem depois de ti
                                                           cede o instante
                                                           sem pronunciar
                                                           seu nome


['Versões do mundo' de José Tolentino Mendonça in 'A noite abre meus olhos']



13 novembro, 2013

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez - (acrescentado com os preciosos contributos de dois leitores)


De cada vez que vivo um instante, vivo como se pudesse não voltar a vivê-lo. Ainda há pouco. Já era quase noite, o rio escuro, um céu que se despedia furtivamente do dia, barcos que chegam e partem sem parar, gente apressada, carregada, silenciosa. O ar frio. Um cheiro a castanhas assadas, um fumo perfumado envolvendo as gentes devoradas por vidas difíceis.

E eu no meio de todos. Transparente como sempre. Passo por entre as pessoas, detenho-me tocada pela admiração que sinto pela sua determinação e força, vejo como correm vergadas pelo cansaço e pelos sacos, andam sempre tão carregadas. Não há crianças a esta hora. Faz tanta falta o riso das crianças nestas noites escuras junto ao rio. 

Ninguém me vê enquanto por ali ando. 

E penso. Tenho que fixar dentro de mim estes momentos. Amanhã podem não ser estas as pessoas, podem passar de uma outra forma. Ou posso eu não poder voltar aqui a misturar-me com estes meus iguais.

Depois continuo o meu caminhar, levada pela maresia nocturna, tão fresca, tão limpa, a noite a tombar carregada de saudades. Um casal abriga-se no muro, abraça-se enquanto olha a magnífica cidade. Talvez pensem como eu que têm que gravar na sua memória esta imagem de uma beleza tão efémera, de uma tal quietude, de uma elegância quase excessiva. Ou podem temer que amanhã a mulher não possa sair de casa, ou que o homem possa não chegar a tempo.

E posso eu não poder estar aqui para testemunhar o amor que os une neste escurecer tão frio. 

A vida é um breve instante e nem sempre acaba bem. 

Quantos abraços não ficam por dar, quantos amores não ficam por confessar, quantos, quantos. Tantas as vezes em que os instantes se interrompem para nunca mais. Por isso, porque amanhã posso também não poder estar aqui a escrever palavras como estas, vos peço que sejam fiéis depositários dos afectos que por aqui, enquanto posso, vou partilhando convosco.

E que dure por muito tempo este nosso breve encontro.



[Abaixo do casal que olha Lisboa, a bela, mais um poema de Inês Lourenço. A seguir a voz suave de Waldemar Bastos.]


Em Cacilhas, de frente para Lisboa


                                                         Nunca se sabe
                                                         quando estamos num lugar
                                                         pela última vez. Numa casa
                                                         que vai ser demolida, numa sala
                                                         provisória que vai encerrar, num velho
                                                         café que mudará de ramo, como
                                                         página virada jamais reaberta, como
                                                         canção demasiado gasta, como
                                                         abraço tornado irrepetível, numa
                                                         porta a que não voltaremos.


                                                         ['Sala provisória' de Inês Lourenço in 'Câmara Escura']

***

Quantas vezes caminhamos entre iguais,
e o silêncio que nos une tem a dimensão de mil palavras que se perderam.
Na volatilidade dos nossos gestos e olhares,
 atravessamos os sentimentos alheios
e vivemos a empatia dos seus sonhos e desejos. 
No interior das nossas ausências,
nunca estamos verdadeiramente sós.  
Passamos e repassamos a ternura das nossas sombras pela existência circundante,
mas permanecemos os mesmos seres sensíveis e solidamente etéreos. 
Os lugares permanecem para além da nossa presença.
Apenas a nossa memória resistirá à verdadeira ausência
e reconstruirá mil futuros em cada passado esquecido.
Ubíquos na imaginação,
jamais esqueceremos a vaga sinestesia das vivências e dos lugares dum passado evanescente.

[De dbo num comentário aqui abaixo]

***

se eu adormecer e não acordar diz-lhes que o sol é imenso
e regressa em cada madrugada
que o mar, essa grande paixão, será sempre um mistério
de fúria e mansidão 
que o Outono por mais belo e dourado
traz o vento
a debandada
o prenúncio do fim 
e que eu não voltarei mais
mas as palavras que deixo
(mal arrumadas, eu sei)
desajeitadamente falarão por mim

[De Era uma Vez num comentário aqui abaixo] 

21 outubro, 2013

Vejo o voo brando de uma lágrima


Vejo o voo solto de uma ave que escorre sobre as águas, vejo a paisagem que parece virtual, vejo uma praia abandonada, despojos sobre as areias.

Há um pântano que alastra nas nossas memórias, sonhos que ficam vazios, olhares que se perdem sobre as casas em ruínas.

Nada sei. Nada. Não sei se são paredes gastas, saudades, palavras que se perderam dos corpos, túmulos tristes, não sei.

O meu olhar nada sabe. Se é céu, se são águas, se é uma cidade sem pessoas dentro, pessoas sem coração no peito, mãos gastas, balas perdidas. 

A ave voa em silêncio sobre um rio que outrora foi um destino e que agora quase parece uma imóvel lápide.

Olho. E então vejo um pai e uma filha sozinhos, silenciosos, olhando as águas. E percebo que o que vejo não é o voo de uma ave mas o voo brando de uma lágrima. Uma lágrima que se perdeu de mim e que hesita entre o céu e a água.



[Abaixo da paisagem silenciosa do Ginjal, temos João Miguel Fernandes Jorge, um Poeta que é sempre aqui muito bem vindo. E, a seguir, continuamos com jazz, com o Donny McCaslin Group: uma bela música]



Num dos cais junto a uma das pequenas praias do Ginjal.
E o Tejo imóvel, os veleiros, os grandes cruzeiros, Lisboa



                                       Vejo o voo brando de uma lágrima, eu
                                       que fui o servidor de uma bala perdida
                                       e em cada novo dia o sol sobre a colina,
                                       sino que rebate a ondulante linha - o

                                       som seco e húmido, verão e inverno por
                                       todas as partes, aqui, onde queimaram
                                       gente, e de onde ninguém saíu para
                                       cumprir a lenta panorâmica de um

                                       destino. Na canção da manhã as ruínas
                                       ocupam-se das areias, do pântano da memória, as
                                       pedras derrubadas querem voltar a ser uma

                                       casa - nuvem que obscurece a lápide
                                       de um túmulo vazio. Arde no fogo o
                                       interior da terra. E a água transforma-a no
                                                                    céu verdadeiro.



[Poema XVII de João Miguel Fernandes Jorge in Oferenda, com ilustrações de Jorge Pinheiro]

28 junho, 2013

Às vezes é um sopro que revira o mundo no ventre do tempo


Sou tão mau exemplo. Não consigo dar lições, tirar grandes conclusões. Não sei bem explicar o que faço, porque faço. Não é falsa modéstia, não é mesmo. Não sei citar nomes de personagens, não consigo lembrar-me de excertos que uma vez me prenderam, não consigo decorar poemas. Nada. Gosto, fico presa enquanto leio, vivo ao máximo, e depois apago. Bem, não apago mesmo. Será mais correcto dizer que arquivo. Volta e meia lembro-me de coisas que estão arrumadas no passado. 

Mas desprendo-me do que arquivo porque quero estar sempre muito aberta ao que via acontecendo. Sei, isso sim, que estou disponível para ver o que há para ser visto e viver o inesperado que nos surpreende a cada momento - assim o consigamos perceber.

E não sou dada a saudosismos, não comparo novas situações com anteriores. Recomeço a cada instante e, assim renascendo, vou vendo cada coisa com um olhar que é sempre o primeiro. E assim me deslumbro.

Pode ser uma música, a sonoridade de umas palavras, pode ser uma luz branca tombando sobre o rio, pode ser uma aragem que me levante a saia, pode ser um grito de gaivota, pode ser um gesto, um abraço mais sentido, um beijo dado com o coração. Com tudo me encanto.

Por isso estou sempre preparada para uma nova vida. A ideia do recomeço exerce uma tremenda atracção sobre mim.



[E eis que entra aqui no Ginjal um novo poeta: Nuno Costa Santos, a quem dou as boas vindas. A seguir temos toda a vitalidade esfuziante da orquestra e dos coros juvenis Simón Bolívar conduzida por Gustavo Dudamel que também parece viver em permanente estado de felicidade]



Cair do dia em Cacilhas, rente ao Tejo, de frente para Lisboa



                                                      Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
                                                      um zumbido que detona o coração.

                                                      Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
                                                      uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

                                                      Às vezes é um fósforo
                                                      que resplandece venturosas entradas
                                                      no dicionário dos dias.

                                                      Às vezes nem isso.

                                                      Às vezes é um sopro que revira o mundo
                                                      no ventre do tempo
                                                      como quem se prepara para uma nova vida.



['Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme' de Nuno Costa Santos in 'Resumo- a poesia em 2012]