Um dia olhaste o rio e disseste que querias ver o seu azul reflectido nesta parede. Fui buscar o azul mais igual que encontrei. Depois disseste que gostavas que a parte de baixo fosse da cor da luz do sol à hora do maior calor, aquela hora que traz as gaivotas até aqui, em busca de sombra. Fui, então, buscar o amarelo mais dourado que encontrei.
Chegaste-te para trás, olhaste de lado, de frente, de perto, de longe, semicerraste os olhos e disseste, a meio deverá haver uma linha branca, a linha do distante horizonte. Fui buscar o branco mais intangível, um rasgo de luz invisível.
Depois, de dia, enquanto dormias, pintei para ti esta parede.
Quando acordaste, antes do anoitecer, trouxe-te até aqui.
Nada disseste mas as lágrimas começaram a correr-te, depois ajoelhaste sobre as águas do rio, juntaste as mãos, agradeceste comovida, trouxeste até às minhas mãos o rio e o céu e o sol e a lonjura.
Tudo eu fazia por ti. Durante muito tempo, quando acordavas ao entardecer ou a meio da noite quando os gritos das gaivotas te traziam até ao rio, eu via-te junto a esta parede, rezando.
Mas isso foi há muito tempo.
Um dia saíste e não mais voltaste, não sei se voaste para longe ou se entraste nos labirintos do fundo do mar.
Por vezes, de madrugada ainda penso que vejo um vulto ajoelhado junto a este teu altar mas talvez seja apenas um sonho, ou um daqueles anjos que habita estas velhas casas.
Agora as tintas estão gastas, têm líquenes, vestígios de maresia, restos de tristeza, têm as minhas lágrimas, e têm as palavras que, em silêncio, lá deixo todos os dias para ti. E todos os dias, de manhã, junto a esta parede, eu procuro uma resposta, uma palavra, um sinal de ti, qualquer coisa que alimente o resto dos meus dias; mas apenas encontro o silêncio que habita entre os apelos que eu aqui te deixo.
[Abaixo do belo poema de Maria Andresen que fala de um poeta que me prende para além do que é racional, Mark Rothko, o piano maravilhoso de Bach nas mãos desse fantástico menino, David Fray, que tem apenas 31 anos]
| Parede do velho casario do Ginjal |
Os papéis ardem como arde a casa
e ardem cidades que dentro de mim guardava
em nomes alheados que articulo como
prece levantada ao encontro dos acasos. Mark Rothko
elevava as cores à ignorância de Deus
[Poema de Maria Andresen in 'Livro das Passagens']