Ginjal e Lisboa

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07 fevereiro, 2012

Sobram poesia e inconclusão a quem sempre se refugiou no futuro

 
Saio do trabalho exausto, desgastado, seco, vazio. E há dias em que de tal forma o vácuo inundou todo o meu inteiro ser que não consigo ir para casa. Se fosse, correria o risco de ficar colado à cama, uma pele seca sem nenhum homem dentro. Então, nesses dias, caminho junto ao rio e vagueio como turista, aspiro o ar frio e azul, deslizo como um gato vadio, silente e subtil, vou rente ao cais, olhos carentes, mãos vazias. Sou, nesses dias, um exigente executivo que, ao fim da tarde, caminha solitário rente ao rio.

Caminho, pois, sem destino, sem companhia, sem objectivos, nada. Apenas respiro, sou um ser vivo no limiar da sobrevivência.

Depois, quando o ar limpo do rio começa a fazer efeito, começo a ter pena de mim, penso que tenho tanta falta de um gentil afago, de um qualquer gesto de carinho, ou, apenas, um simples olhar pousado em mim. Começo, então, a procurar um qualquer corpo de ocasião ou nem isso: já me bastaria um qualquer olhar de ocasião.

Até que, um dia, inesperadamente te vejo. Primeiro um olhar incrédulo, depois um olhar de espanto, de alegria - reconheço-te, tanto tempo sem te ver e logo agora tu. Tanto tempo a fugir de ti, tanto tempo a viver no futuro, na ambição, sempre a querer subir, sempre a querer mais e, afinal, o que consegui foi apenas mais solidão, mais distanciamento da vida, o que consegui foi só inconclusão, distanciamento, dividendos.

Olhas-me também incrédula, tanto que me quiseste, tanto que te evitei e agora estou aqui parado, nu, o meu olhar pedindo-te que me tomes nos teus braços, sem condições. 

Olhas-me, hesitas, nada dizes, braços caídos, viras-me as costas e olhas o rio. E então, como um gato aflito, encosto-me a ti, nada digo, olho também o rio, espero que percebas que, neste momento, a única coisa que quero é que me deixes ficar aqui, calado, sentindo o calor que vem do teu corpo.



[Continue o meu Caro Leitor o seu passeio, detenha-se no poema e, a seguir, no concerto para violino de Prokofiev]




                          Por aqui,
                          sim, trabalhando no sentido de adquirir
                          um lavado olhar de turista
                          ou um gentil afago de ocasião
                          até que chegue um dia propício
                          a pilhagem e dividendos

                         Por aqui,
                         e trocamos o nosso melhor olhar incrédulo
                         Protocolar mas pertinente interrogação, aqui
                         onde me encontro
                         e reconheço que, há mais tempo do que o certo,
                         encontro em ti a medida   o recorte   o meu reflexo

                         Por aqui,
                         repetes, porque sobram em boa verdade
                         poesia e inconclusão
                         a quem sempre se refugiou no futuro
                         ou que se entregou sem condições a esta perseguição
                         e a mais alguns olhares incrédulos


                         ['Carrie-Ann Moss' de Luís Pedroso in criatura]
 

06 fevereiro, 2012

Carrego entre os dentes um alfinete com a espessura dos teus cabelos

 
Amigos comuns vieram dizer-me que, quando a noite cai, tu sais de casa e vais, rente ao Tejo, percorrer os caminhos que, durante tanto tempo, foram os nossos. 

Dizem que estás velho, magro, curvado e que te vêm a carregar sacos, livros, pequenas peças que terão sido minhas. Dizem que caminhas lentamente ao longo das paredes gastas das quais, à noitinha, saem vultos esguios e sombrios, dizem que os cães ladram à tua passagem e que tu segues, silenciosamente, nem dás por eles, nem dás pelos amigos com quem te cruzas.

Dizem que, quando a noite cai, e apenas as luzes dos navios que cruzam o rio ou a luar em noites de lua cheia ilumina esta rua desolada, tu passas como um fantasma, e, dizem, parece que, por vezes, te ouvem a cantar.

Amigos comuns contam-me, com tristeza, que nem pareces tu, que quase não falas, quase não sais, quase não te arranjas. Dizem que por vezes te abeiras do rio e ali ficas olhando o rio negro quase como se tentasses ver a tua imagem nas águas espelhadas. Dizem que, por vezes, te sentas, livros e sacos e demais recordações aos teus pés, acendes um cigarro e ali ficas, distante, vendo o fumo elevar-se no ar. Dizem que, no fim, apagas o cigarro nas mãos, como se fosse natural, como se nem sentisses dor.

Dizem-me isso e eu não reconheço nesse homem o homem que tu foste.

Dizem que, se te quiser ver, é ir ali ao cair da tarde, quando os gatos recolhem às ruínas mágicas, quando os pescadores abandonam os cais, quando o rio bate nas muralhas e esse é o único som que  se ouve, que, nessa altura, tu passas por ali e já não se sabe se vais vivo, se vais morto. E dizem que, por vezes, se alguma gaivota, por acaso, por ali passa, te ouvem a gritar o meu nome.

Mas eu peço que não me contem, não quero ouvir, prefiro nem saber. Nem quero pensar nisso. 

É que, sabes, se eu lá for é para te trazer para casa porque eu não passo sem ti, porque te amo como uma louca, porque já nem me lembro porque me zanguei contigo, porque me quero esquecer do dia em que jurei que te ia esquecer, porque quero esquecer o dia, tão longínquo, em que te vi e virei a cara para o outro lado, porque quero esquecer o dia em que bateste aqui à porta e me viste, sorridente, com um outro homem. Sei que um dia, antes que seja tarde demais, vou lá ter contigo, vou dizer-te que tu, só tu, és o meu amor e que a tua casa, meu amor, sou eu.



[Logo abaixo do belo poema de Luís Pedroso, poderão encontrar uma belíssima interpretação ao piano de uma inesperada intérprete de Prokofiev - venha comigo, vamos ouvir.]

No Ginjal, mesmo rente ao Tejo, homem ao cair da noite


                         Carrego entre os dentes um alfinete
                         com a espessura dos teus cabelos
                         e passo tranquilo entre os pingos da chuva.

                         Dispo-me em frente ao espelho
                         e com a ponta dos dedos em chamas
                         toco ao de leve no vidro as minhas mãos.

                        Toco o meu avesso.
                        O meu vulto caminhando e cantando
                        através de um espelho liquefeito.

                        Estou de partida para lugares inacabados.
                        Pressiono com a mão direita intensamente
                        o peito esquerdo e sinto a máquina.
                        Funciona.

                        Viva.


                        ['Declaração académica' de Luís Pedroso in criatura]