Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
Mostrar mensagens com a etiqueta mário Cesariny. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mário Cesariny. Mostrar todas as mensagens

19 dezembro, 2013

Não faz mal, abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis


Ah, amor, a estranha perdição que nos arrasta para o fundo longínquo de um certo espelho dourado numa tarde imaginada, há tanto, tanto tempo. Vieste de longe, de outros tempos, vieste para logo te ires, curta perdição, remota, saudosa. 

Não. Não aconteceu. 

Perdeste-te de mim e eu de ti. E no fundo dos tempos ficou um abraço muito terno, um olhar muito doce e todos os nossos olhares ficaram fechados, perdidos, no fundo no meu coração. E do teu também, não é? 

Um pretérito muito perfeito. Não. Um passado imperfeito. Inconfessável.



Gato no Ginjal




Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria 
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros 
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes 
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso 
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso  

['de profundis amamus' de Mário Cesariny dito por Guilherme Gomes]


28 abril, 2013

Eugénio de Andrade, Natália Correia e Mário Cesariny. O sorriso, o romance de paloma - e em todas as ruas te encontro. Poesia dita pelos próprios e cantada por outros (no caso, pela Filipa Pais)



"O Sorriso" dito por Eugénio de Andrade

Creio que foi o sorriso, 
o sorriso foi quem abriu a porta. 
Era um sorriso com muita luz 
lá dentro, apetecia 
entrar nele, tirar a roupa, ficar 
nu dentro daquele sorriso. 
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.                  


^^^^



Transcrevo do Youtube: 

Senhora da Rosa, chamou-lhe Manuel Alegre e falava de Natália Correia. Uma rosa de amor e morte de uma poetisa que não aceitava a ditadura da razão (...). Ela era mais do que isso, era a pitonisa, a vestal iluminada, uma máquina de passar vidro colorido, como disse Mário Cesariny, referindo-se à sua dimensão cromática. Um documentário que nos leva ao encontro de Natália Correia, seguindo um caminho que ela própria traçou - A partir de agora, se alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão.

(Um documentário que nos leva ao encontro de Natália Correia. 
Produção: RTP-Açores
Realização: Teresa Tomé
Autoria: Teresa Tomé
Origem: Portugal - 1999)

*


Filipa Pais - Em Todas as Ruas te Encontro (À Porta Do Mundo_2004), poema de Mário Cesariny

Em Todas as Ruas te Encontro
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, in "Pena Capital"