Ginjal e Lisboa

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21 fevereiro, 2014

Podereis roubar-me tudo: as ideias, as palavras, as imagens, e também as metáforas, os temas, os motivos, os símbolos . [e a voz de Jel e de Luís Filipe Castro Mendes]


Podem, os pulhas, roubar-nos tudo: o presente, o futuro, o país, a casa, a proximidade dos filhos, a esperança, a confiança, tanta coisa.

Mas não nos tirarão a dignidade, o orgulho, a força, a palavra.

Até que a voz me doa, não me cansarei de falar. Eu e tantos como eu. Unidos e a fazer-vos frente.

Não nos destruirão e cá estaremos para vos dizer como é quando a hora for chegada. Não perdem pela demora, seus pulhas.


Dia de chuva no Ginjal

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.



['Camões dirige-se aos seus contamporâneos' de Jorge de Sena aqui dito por Jel]



Luís Filipe Castro Mendes, o Tim Tim no Tibete, fala de Jorge de Sena




.

13 dezembro, 2013

Aqui no meio de nós une toute petite lumiére, just a little light, una piccola…em todas as línguas do mundo uma pequena luz bruxuleante brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.


('Uma pequenina luz bruxuleante' de Jorge de Sena in FIDELIDADE, aqui dita por Catarina Guerreiro)

16 junho, 2013

O namorado par se alonga em relva de sexo verde aceso na friagem


Não deveriam ser ditas palavras quando se vêem dois corpos aspirando o amor, quando o azul ainda é muito azul, quando as árvores se fazem cortina, quando a intimidade se resguarda dentro do céu, por detrás dos ramos verdes, suaves, dedos cúmplices. 

E as vozes ciciadas que se ouvem talvez sejam dos ternos amantes, talvez sejam da aragem do rio nas ramagens, talvez sejam os suaves anjos que sempre vigiam os que muito se amam. Abraçam-se com ternura e paixão e é deles toda a vida que têm pela frente, todos os caminhos que têm que fazer, caminhando.

Rodeia estes dois que se amam um calor que não vem do sol, que o ar está fresco, da maresia húmida e fria não é: é dos seus corpos que vem este calor cheio de vida e esperança.

Podiam estar deitados na relva que o sexo por vezes assim o pede mas não, voaram pelos céus, e vieram para aqui, pousaram nesta árvore, e aqui estão junto aos pássaros, debicando-se, miminhos na voz e nos gestos, na aventura da descoberta.

Que a sorte lhes seja um vento de feição, que a vida lhes seja um leito suave como um rio que corre docemente para o mar.



[Abaixo do casal de pombinhos, mais um poema de Jorge de Sena, um poeta que tão bem cantou o amor. A seguir um novo compositor e intérprete, certamente também uma boa descoberta: José Valente]


Amar junto às entranhas da água, no Ginjal



para o centenário de Teixeira de Pascoaes


                                             Vento de primavera que assobia
                                              nas árvores e esquinas recortadas
                                              de azul tão pálido no céu varrido,
                                              ao sol sacode as folhas e os cabelos.

                                              O namorado par se alonga em relva
                                              de sexo verde aceso na friagem
                                              que os corpos une em paralela forma.
                                              E no calor menos da luz que seu

                                              se agita imóvel no ranger do vento.
                                              Assim se tocam ramos como dedos
                                              e as vozes se penetram ciciadas.

                                              Não entardece ainda. Está-se o instante
                                              em que declina o sol sem descair-se
                                              ao leito fluido das entranhas de água.


                                             ['Entranhas de água' de Jorge de Sena in 'Antologia Poética']

**


porque o momento é tão intenso
que a cidade, o rio, a passarada
a relva o vento,o por do sol 
tudo afinal fica suspenso
desse imenso beijo

ofegante e belo
na hora inexplicável da "chegada"...



["não entardece ainda" de 'Era uma Vez' num comentário abaixo]

15 maio, 2013

Roubam-me Deus, outros o Diabo - quem cantarei?


Passam em silêncio os velhos. Receiam que os outros percebam a fome e a vergonha. 

Correm as velhas para o balcão da fruta. Receiam que outras velhas se lhes antecipem na escolha da fruta mais pequena, mais murcha e mais barata.

Saem do barco as mulheres de cabeça baixa, cansadas, cheias de sono, carregadas de sacos. Trabalham desde o raiar da aurora e, quase sem forças, têm que ir tratar da sua própria casa. 

Atiram a linha ao rio os homens cheios de frio e desalento esperando que um peixe se acomode ao anzol para terem o que comer ao jantar.

Senta-se no banco da beira do rio o homem sozinho, olhando os pés, sem saber como sobreviver sem trabalho.

Encosta-se ao farol, chorando, a mulher que espera que a noite caia para ir para uma casa sozinha, agora que o filho partiu para tão longe.

E passo eu, máquina fotográfica em baixo, incapaz de fotografar a tristeza e sofrimento alheios. Solidária. Revoltada.

Tanto pesar, tanta falta de esperança. Tanto medo. Tanto, tanto medo. Por todo o lado. As portas fecham, as casas ficam vazias, as ruas silenciosas.

Roubam-nos tudo. O presente e o futuro. A família e o amparo. O trabalho. O país. As certezas e, pior, muito pior, as esperanças. A uns roubam também a casa. A outros roubam a vontade de viver. Roubam-nos tudo. Tudo. Até ao último cêntimo, ao último suspiro, à última lágrima.

Quando todos tiverem desistido, quando todos tiverem perdido as forças, a alma, o coração, quem cantarei?

Quem sorrirá comigo?

Que mãos se juntarão às minhas para abrir novos caminhos?

A quem me queixarei se já me roubaram Deus, o Diabo, se há muito tempo o último Rei se foi? A quem?

A quem chorarei?




[Abaixo das ruínas do Ginjal, agora que os velhos armazéns estão a ser destruídos, temos, uma vez mais, o Poeta do desencanto, Jorge de Sena. Depois José Afonso interpreta a bela canção que resulta deste poema. E, depois, abaixo, um momento de recolhimento. O Antiphonus Ensemble interpreta Carlos Gesualdo. Recolhamo-nos dentro de nós.  Talvez nos surja uma boa ideia para sairmos do negrume onde nos fecharam]


Destruição das ruínas do velho casario do Ginjal




                                                     Roubam-me Deus,
                                                     outros o Diabo
                                                     - quem cantarei?

                                                     roubam-me a Pátria;
                                                     e a Humanidade
                                                     outros ma roubam
                                                     - quem cantarei?

                                                     sempre há quem roube
                                                     quem eu deseje;
                                                     e de mim mesmo
                                                     - todos me roubam

                                                     roubam-me a voz
                                                     quando me calo,
                                                     ou o silêncio
                                                     mesmo se falo
                                                     - aqui d'El Rei!



['Epígrafe para a arte de furtar' de Jorge de Sena in Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço]




28 abril, 2013

Jorge de Sena - a Poesia e o Homem (por si próprio e pelos outros - Ana Luísa Amaral, Mário Viegas, Catarina Guerreiro)


Gaivota num cais do Ginjal ao cair da tarde




Catarina Guerreiro diz 'Uma pequenina Luz'


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

['Uma pequenina luz' de Jorge de Sena in Fidelidade]



 

'Ode para o Futuro' dita pelo próprio Jorge de Sena


Falareis de nós como de um sonho. 
Crepúsculo dourado. Frases calmas. 
Gestos vagarosos. Música suave. 
Pensamento arguto. Subtis sorrisos. 
Paisagens deslizando na distância. 
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, 
e amávamos serena e docemente. 

Uma angústia delida, melancólica, 
sobre ela sonhareis. 

E as tempestades, as desordens, gritos, 
violência, escárnio, confusão odienta, 
primaveras morrendo ignoradas 
nas encostas vizinhas, as prisões, 
as mortes, o amor vendido, 
as lágrimas e as lutas, 
o desespero da vida que nos roubam 
- apenas uma angústia melancólica, 
sobre a qual sonhareis a idade de oiro. 

E, em segredo, saudosos, enlevados, 
falareis de nós - de nós! - como de um sonho. 


['Ode para o futuro' de Jorge de Sena in 'Pedra Filosofal']





Mário Viegas apresenta o excerto de uma entrevista do poeta Jorge de Sena a Joaquim Furtado, em 1976.





Ana Luísa Amaral fala de Jorge de Sena


 

Mário Viegas diz 'Carta a meus filhos Sobre os fuzilamentos de Goya' de Jorge de Sena


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja 
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, 
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém 
de nada haver que não seja simples e natural. 
Um mundo em que tudo seja permitido, 
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, 
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. 
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto 
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, 
ainda quando lutemos, como devemos lutar, 
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, 
ou mais que qualquer delas uma fiel 
dedicação à honra de estar vivo. 
Um dia sabereis que mais que a humanidade 
não tem conta o número dos que pensaram assim, 
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, 
de insólito, de livre, de diferente, 
e foram sacrificados, torturados, espancados, 
e entregues hipocritamente â secular justiça, 
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.» 
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, 
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas 
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, 
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, 
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, 
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. 
Às vezes, por serem de uma raça, outras 
por serem de urna classe, expiaram todos 
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência 
de haver cometido. Mas também aconteceu 
e acontece que não foram mortos. 
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, 
aniquilando mansamente, delicadamente, 
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. 
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, 
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha 
há mais de um século e que por violenta e injusta 
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, 
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria 
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. 
Apenas um episódio, um episódio breve, 
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) 
de ferro e de suor e sangue e algum sémen 
a caminho do mundo que vos sonho. 
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém 
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la. 
É isto o que mais importa - essa alegria. 
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto 
não é senão essa alegria que vem 
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém 
está menos vivo ou sofre ou morre 
para que um só de vós resista um pouco mais 
à morte que é de todos e virá. 
Que tudo isto sabereis serenamente, 
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, 
e sobretudo sem desapego ou indiferença, 
ardentemente espero. Tanto sangue, 
tanta dor, tanta angústia, um dia 
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - 
não hão-de ser em vão. Confesso que 
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos 
de opressão e crueldade, hesito por momentos 
e uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? 
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objecto 
que não fruíram, aquele gesto 
de amor, que fariam «amanhã». 
E. por isso, o mesmo mundo que criemos 
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa 
que não é nossa, que nos é cedida 
para a guardarmos respeitosamente 
em memória do sangue que nos corre nas veias, 
da nossa carne que foi outra, do amor que 
outros não amaram porque lho roubaram.

****


[Abaixo poderão ouvir um grande pianista de jazz, Brad Mehldau.]


21 novembro, 2012

E vêm chorar em mim o coração traído, a música perdida em distracções urgentes, umas palavras que ninguém falou.


Os dedos sobre o teclado, os olhos semicerrados, as palavras descendo sozinhas, pingos de cera, mornos, e a chama ardendo devagar, ou a límpida chuva escorrendo na janela, ou as lágrimas de quem me lê. A solidão que gera a solidão. A melancolia que é uma tristeza às vezes doce, outras uma teia que envolve devagarinho. E as palavras escorrendo, devagar, sozinhas. Não são minhas. Não. São de quem as lê. São palavras que contam a história de quem está aí, mãos talvez no regaço, mãos acariciando um gato que não vejo, mãos que imaginam como é macia a penugem de um pássaro colorido que se vê da janela (aí onde agora é primavera e onde os pássaros são tão maravilhosamente festivos). Ou mãos talvez também pousadas sobre o teclado. As minhas mãos e as vossas, juntas. As minhas que escrevem, as vossas que recebem o que escrevo. O calor das minhas palavras junto ao calor do vosso olhar. E eu sinto que o vosso calor é doce, que o vosso olhar é doce, tão cúmplice.

De quem são, pois, estas palavras que vão aparecendo escritas, e eu sem as ver, nascendo sozinhas vindas do meu coração, procurando o vosso olhar? São minhas ou vossas? 

São vossas. Tomem-nas. As minhas palavras são um abraço apertado a todos quantos me lêem. Obrigada.



[Abaixo do homem que olha o mundo de frente, há um belo poema de Jorge de Sena. Logo a seguir há uma música muito bela. Talvez seja boa ideia receberem o meu abraço e lerem o poema ao som do Te Deum de Purcell mas, claro, é uma opção vossa]


No Ginjal, de frente para Lisboa




                              Por que entristeço ao ler o que de meus
                              versos escrevem, se não é de mim
                              que escrevem?

                              Será que chora em mim o que meus versos foram
                              antes de ser meus?
                              Por que pergunto, se já sei por quê?

                              Escuto longamente, leio, espero,
                              e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,
                              não se tendo ouvido, não a sabem sua.
                              E vêm chorar em mim o coração traído,
                              a música perdida em distracções urgentes,
                              umas palavras que ninguém falou.

                              Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,
                              e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.



['Tendo lido uma carta acerca de um seu livro de poemas, que oferecera' de Jorge de Sena in 'Antologia Poética']


26 dezembro, 2011

Diz-me assim devagar coisa nenhuma

 
Estou numa torre de vidro, transparente, e eu, tão rodeada de gente, sinto-me sozinha. Faltam-me as tuas palavras doces, os teus abraços quentes, os teus lábios no meu pescoço, faltam-me o teu olhar marialva e irreverente pousado nas minhas pernas, invadindo o meu decote. Faltas-me tu.

Se te perguntasse, dirias que também sentes a minha falta, dirias que, antes, fazia de ti um homem melhor, que agora te falta a motivação.

Mas não pergunto. Custa-me muito ouvir essas tuas palavras - sou eu ao espelho, eu sem ti ao meu lado, imagem amputada.

Saio do gabinete, desço ao interior da terra e, uns minutos depois, estou a emergir à superfície. A profissional exigente ficou para trás. Dirijo-me à beira do rio. Lá onde o ar é fresco, o horizonte largo, as pessoas desconhecidas, as aves de longas asas brancas atravessam os mares, lá eu respiro fundo, misturo-me na pequena multidão que por ali paira. Ninguém me conhece, ninguém me vê, e isso é bom, sinto-me completamente livre.

Vou falando em silêncio, 'ficaram tantas palavras por dizer, ficaram tantos sorrisos por esboçar, tantos beijos, tanta ternura, tanta emoção por viver, deixámos tantas coisas para trás.' . Mas logo me repreendo. 'Tanto queixume, coisa desagradável. Vá mulher, coração ao alto.'

E então tropeço em ti. Sorris, contente e surpreendido, caloroso, cheio de ternura. Abraçamo-nos felizes, íntimos, só nós dois. E então, sorrindo, numa voz meiga, dizes-me, 'Diz-me devagar coisa nenhuma'. E eu sorrio, aconchego-me no teu ombro e digo-te, baixinho 'eu tenho uma vida e, ao lado, um destino. Não se encontram. E sou fiel ao meu destino, tal como sou fiel à minha vida. O meu destino é um mundo só meu, povoado por memórias, por sonhos, um mundo de abraços, de espelhos luminosos, de sorrisos, um mundo sem mácula, todo e só verdade'. Tu abraças-me, beijas-me o rosto, estás inesperadamente quentinho, sinto que sorris, 'eram outras as palavras que quereria, agora, ouvir mas, ainda assim, obrigado, continua a dizer-me palavras assim, sem mentiras, sem reservas, continua presa a mim e a dizer-me, devagar, coisa nenhuma'.

E deixamo-nos ficar abraçados, sorrindo de ternura, contando um ao outro, vezes e vezes sem conta, coisas nenhumas. E, no entanto, ambos sabemos que é apenas uma miragem. De facto, o que abraçamos é uma miragem, um sonho, coisa nenhuma.



[Desça um pouco, leia o belo poemas de Jorge de Sena e, logo a seguir, deixe que eu, quase desejando ser belle de jour, eu clair-de-lune, o/a leve até à Sonata Moonlight de Beethoven. A semana Beethoven começa hoje e começa envolta em recordações. Veremos o que o resto da semana nos reserva]



                                   Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
                                   como a só presença com que me perdoas
                                   esta fidelidade ao meu destino.
                                   Quanto assim não digas é por mim
                                   que o dizes. E os destinos vivem-se
                                   como outra vida. Ou como outra solidão.
                                   E quem lá entra? E quem lá pode estar
                                   mais que o momento de estar só consigo?
                                   Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
                                   o que à morte se diria, se ela ouvisse,
                                   ou se diria aos mortos, se voltassem.


('Fidelidade' de Jorge de Sena de Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço)
 

02 setembro, 2011

Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou.


Eu não sei dizer mais que estas palavras trôpegas.

Eu não sei explicar mais que este suspirar de mãos pousadas, nesta espera.

Sento-me aqui e sinto um inexplicável temor.

Dizes que virás e, sem que eu perceba, os meus olhos enchem-se de lágrimas, emociono-me e não sei porquê. Durante longos momentos é assim que eu fico.

Talvez venhas, talvez venhas e eu nem saiba, talvez venhas e eu não te queira ou não possa ver, talvez venhas apenas em sonhos.

Eu não sei mais que isto. Sento-me aqui e olho o rio e espero nem sei o quê, se um barco, se um pássaro ou se apenas uma palavra.

Eu espero mas o tempo não espera. Por isso, talvez um dia venhas do fundo do mar, talvez venhas do outro lado do mundo, talvez, e talvez eu já não esteja aqui porque, sabes, é mesmo assim, quando um de nós ou quando o amor chega, muitas vezes o outro já partiu.

É assim quando estamos no Outono.

Homem sozinho, junto ao Tejo, de frente para Lisboa, que agora, ao fim do dia, se veste da mesma cor que o rio


O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.



('Glosa à chegada do Outono' belíssimo poema de Jorge de Sena in '366 poemas que falam de amor', uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura)

11 janeiro, 2011

Só quem procura sabe como há dias de imensa paz deserta

É isto o desencontro, nada coexiste, nenhum gesto a um gesto corresponde, é uma solidão sem fim, sem nome algum.

Em frente deste paredão pergunto: é dor? É saudade?

E nenhuma voz me responde.

(A tristeza de uma árvore morta, arrastando-se pesadamente nas águas barrentas de um Tejo em dia de mau tempo, no Ginjal)


Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
)

outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.


(Desencontro de Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

24 dezembro, 2010

Vens a mim pequeno como um deus, frágil como a terra

Natal é a festa do Nascimento.

Festeja-se aquele de quem os homens viriam a dizer ser filho de Deus.

Feliz Natal a todos.

Mas quero, em especial, dirigir-me àqueles que o passam sozinhos.

E àqueles que, por algum motivo, atravessam um momento de desesperança.

A esses, em particular, deixo uma palavra de estima.

(O milagre da Vida - a Mãe Gaivota olha pelos seus bébés gaivotinhos, no Ginjal, o Tejo como leito, Lisboa do outro lado, protectora)

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

(Eternidade de Jorge de Sena, in Perseguição
)