Ginjal e Lisboa

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01 outubro, 2013

O portugal futuro - poema de Ruy Belo dito por Mário Viegas sobre música de David Lynch e voz de Chrysta Bell, num belo filme realizado por Cine Povero


Tenho andada um bocado afastada do meu Ginjal e Lisboa. O calor desconcentra-me e, para estar aqui, como gosto de estar, tenho que estar inteira, mergulhada mesmo, e depois deixar que as palavras sigam o seu próprio rumo. Talvez, agora que a chuva voltou, eu consiga retomar a minha assiduidade.

Hoje ainda não são as minhas histórias, as minhas reinterpretações de poemas, os meus voos sem rede.

Hoje é um dos belos filmes do Cine Povero no qual, entre outras fotografias (ver texto abaixo), podem ver-se imagens colhidas pelo próprio realizador no Ginjal. 




Permito-me transcrever o texto que se pode ver junto ao filme:

Quatro estrelas brilham neste vídeo.

(1) "O portugal futuro" (grafado com minúscula no original), poema de Ruy Belo publicado em «Homem de Palavra(s)» (1970). 
(2) A sua declamação por Mário Viegas, em «Poemas de Bibe» (1990), album em parceria com Manuela de Freitas. 
(3) Algumas fotografias (cinco) de um dos maiores fotógrafos de sempre, Henri Cartier-Bresson. 
(4) E o "Polish Poem", escrito por David Lynch e Chrysta Bell e cantado pela última. O vídeo reproduz os últimos versos, com que termina o filme «Inland Empire»: 

"I sing this poem to you
Is this mystery unfolding
As a wing floating?
Something is coming true
The dream of an innocent child...
Something is happening
Something is happening"


POEMA DE RUY BELO

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

*

04 maio, 2013

Ruy Belo - poesia dita por Luís Miguel Cintra, Lula Pena e Elisabete Caramelo (neste caso com imagens do Poeta e da sua bela caligrafia) e recordado na poesia por Eugénio de Andrade, dita por Mário Viegas




Tu estás aqui de Ruy Belo, dito por Luís Miguel Cintra


Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
                                                                                                    o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
                                                                                                  outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
                                                                                        que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
                                                                                        outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
                                                                                                   a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui



O Portugal Futuro de Ruy Belo, dito por Lula Pena


O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro




E tudo era possível de Ruy Belo, dito por Elisabete Caramelo



Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer





À Memória de Ruy Belo de Eugénio de Andrade dito por Mário Viegas



Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na norte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.


11 abril, 2013

Tu trazes até mim a tua longa mão


O teu braço alonga-se e abraça-me pela cintura. Retribuo: o meu braço alonga-se também, a minha mão aconchega-se no bolso das tuas calças. Seguimos rente ao rio, ao longo do rio, como se fossemos entrar na água, caminhar até à linha do horizonte.

Quem nos veja caminhar assim, como se andássemos abraçados, dir-nos-ia apaixonados, envoltos numa suave luz azul.

Vamos em silêncio. Não há pontes entre nós e nem as palavras tentam alongar-se para tecerem laços que nos unam. Há muito que o silêncio ocupou o espaço antes ocupado pela intimidade e pelo amor.

No entanto, continuamos a caminhar, unidos, levados pela ilusão de ainda sermos um casal. Mas não somos. Por vezes ainda me dizes que na tua mão que me afaga está um gesto do coração, por vezes ainda sorrio para fazer de conta que, também eu, coloco o meu coração no olhar com que pareço despir-te. Reminiscências de outros tempos. Apenas.

A verdade é esta: vamos sozinhos, uma solidão disfarçada de enamoramento, uma mulher sozinha abraçada a um homem sozinho, sem palavras, sem um bater conjunto de corações.

Digo-te, a partir de agora és apenas meu irmão. Não dizes nada. Insisto, ouviste? Nada mais! Irmão! Ouviste?

Não dizes nada.

Insisto, não ouves? Acabou! Podemos ficar amigos, irmãos, mas mais nada e que isto fique muito claro. Ouviste?

Viras-te então para mim, calmo, calmo como sempre. Nada dizes. Parado, à minha frente, seguras a minha cara entre as tuas mãos. E dizes, sabes qual é o teu mal, não sabes?

Espero. Agora sou eu que não digo nada.

Continuas, não dormes, andas cheia de sono e eu que te ature. A ver se hoje te deitas mais cedo. Esse mau humor já não se atura. E agora fecha os olhos, dorme, dorme mesmo de pé, dorme que é para não dares pelo beijo que o teu irmão te vai dar.

Obedeço, fecho os olhos, deixo-me beijar e nem sei se é incesto, se é sonho, se é apenas mais um dia na vida de um casal.



[Ruy Belo, o Homem de Palavra(s) juntou-se hoje a nós, e já é a 11ª vez que o faz - e é sempre muito bem vindo. A seguir a ele, Uri Caine, numa fantástica onda jazística, tem mais uma bela interpretação ao piano]


No passeio do Ginjal, bem junto ao Tejo
(desejo uma vida longa, feliz e muito enamorada a este casal)




                                           Tu trazes até mim a tua longa mão
                                           estende-la como uma ponte entre nós dois inverno e verão
                                           garantes que ela tem por trás o coração
                                           e no entanto só te chamo irmão
                                           Cada um de nós é como antes uma solidão
                                           e nada significa a nossa saudação


                                            ['Inverno e Verão' de Ruy Belo in 'Homem de Palavra[s]]

/\



Acomodaste-me
num cantinho resguardado
do teu peito
Aqueço-te
Aqueço 
a superfície rugosa dos teus dias
Sinto-me útil
como um bálsamo,
um manipulado farmacêutico
Chamas-me 
Chamas-lhe 
amor?


[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]


22 novembro, 2012

Portugal não é pátria mas país



Deste rio partiam, antes, grandes homens em pequenas embarcações. Grande e desconhecido era o mundo, mas grande era também o sonho e a ambição. Partiam e enfrentavam as ondas, as marés, os ventos, os rochedos, os medos, os ameaçadores medos. Lá iam. E vinham as carências, as doenças, a morte. Mas os grandes homens em pequenas embarcações não se apequenavam. Levantavam a cabeça, entregavam o peito às intempéries e lá iam, mãos rijas, pernas fortes, lá iam cruzando os mundos.

Há tanto tempo foi isso. Terão sido mesmo portugueses? Éramos tão diferentes assim?

O homem que, de torso nu, de pé no cais, tira o peixe da água, vê os veleiros que regressam de tão longínqua odisseia e pensa que tomara que o peixe morda o isco para ter comida para o jantar.

Para bem dele não se lembra de perguntar: onde a pimenta e o açafrão? onde o ouro? onde? onde os outros mundos? onde o futuro? onde a coragem, a bravura, a ambição da nossa gente? onde? onde os grandes portugueses? 

O homem espera o peixe que tarda e pensa ah se o peixe não vem, que comida ponho em cima da mesa? 

Mas depois, cansado de esperar, solta um sentido lamento, ah rio que não te fazes ao mar, ah português que não te agigantas...!



[E, por lamento, logo abaixo do belo poema de Ruy Belo, temos o Lamento de Dido. É Purcell que se vai despedindo aqui no Ginjal]



No cais do Ginjal, sobre o Tejo, de frente para Lisboa



                                           Plantados como árvores no chão
                                           ao alto ergueis os vossos troncos nus
                                           e o fruto que produz a vossa mão
                                           vem do trabalho e transparece à luz

                                           Nenhum passado vale o dia-a-dia
                                           Sonho só o que vós me consentis
                                           Verdade a que de vós só irradia
                                             - Portugal não é pátria mas país



                                          ['Aos homens do cais' de Ruy Belo in Homem de palavra(s)]


18 abril, 2012

Até que as chuvas lhe molharam os olhos e deles saíram rios que foram desaguar ao grande mar do princípio

 
Repara. 

Há um muro branco de topo arredondado, é um muro macio, sem arestas agressivas, uma superfície onde o sol se reflecte, ou por onde escorre a chuva. É um muro que apetece afagar, um muro por onde o tempo passa com enorme dignidade.

Quando aqui venho, gosto de ver o mundo para além dele. Este muro branco marca uma fronteira entre o mundo real e o mundo quase excessivamente belo que se vê a seguir a ele.

E vejo então um chão macio, húmido, cheiroso a terra molhada, e vejo árvores muito verdes, árvores que tombam, belas, cortinas verdes que escondem a paisagem e albergam pequenos pássaros.

E, logo a seguir, o terreno debruça-se e rende-se a este rio majestoso, largo como um mar e, então, vejo o rio ora azul, ora verde, ora escuro, conforme o tempo que nele se reflecte, o rio belíssimo que atrai as gaivotas que dançam voando, que gritam enquanto mergulham ou, então, que olham a paisagem com um olhar embevecido como nós.

E, logo a seguir ao rio, vejo a visão da beleza suprema: Lisboa, a magnífica, a luminosa, que se estende ao longo do rio, que tem colinas suaves cheias de casas e ruas e jardins e um castelo e igrejas e que tem uma cor que é uma mistura de ternuras.

Daqui vemos como o tempo passa, renovando-se, árvores despidas, árvores verdejantes, frio e chuva e vento e sol, mas vai passando, vai passando o tempo em direcção a um destino que apenas podemos imaginar. Será um qualquer deus quem desenhou tanta perfeição? E que por aqui ainda paira, afagando quem por aqui passa? Será?

E, tal como eu, por entre a vegetação, há por vezes, outras pessoas que se sentem devedoras por poderem receber tanta graça. Essas pessoas, tal como eu, deslizam em silêncio, como gatos, e as lágrimas quase afloram ao olhar e essas pessoas que por aqui andam em estado de sentida devoção, quase ajoelhando perante tanta pureza, perante tanta beleza, uma beleza tão pura como se estivéssemos ainda no princípio de todas as coisas.


[Há um pequeno jardim verde que se avizinha do rio e, a seguir, há um belo poema de Ruy Belo. A seguir duas vozes fazem uma festa a partir da música de Rossini] 


O Tejo avistado por detrás da cortina verde do jardim do Ginjal


                                O senhor deus é espectador desse homem
                                Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
                                nos olhos o tempo suave das árvores
                                Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
                                cada uma das quatro estações
                                A primavera veio e ele árvore singular
                                à beira do tempo plantada
                                vestiu-se de palavras
                                E foi a folha verde que deus passou
                                pela terra desolada e ressequida
                                Quando as palavras o deixaram de cobrir
                                ficaram-lhe dois dos olhos por onde
                                o senhor olha finitamente a sua obra
                                Até que as chuvas lhe molharam os olhos
                                e deles saíram rios que foram desaguar
                                ao grande mar do princípio


['A multiplicação do cedro' de Ruy Belo, Cidadão de longe e de ninguém, in Antologia Poética]                           

26 março, 2012

Que nome dar ao poeta, esse ser dos espantos medonhos?

 
Um homem vai e sente a terra húmida e mole sob os seus pés, pousa os pés com muito cuidado, quase como se andasse sobre um ventre fecundado, não vá magoar. E, um pouco mais à frente, sente o véu ainda por cumprir de uma árvore ainda quase nua. E, mais à frente, ouve um pássaro que murmura doces e quase inaudíveis palavras, e continua e vê um rio parado, suave, esperando que seu olhar se encontre saciado. E o homem assim vai.

Um homem anda, e vai carregado de palavras, de sons, de choros, de risos, de silêncios. Este homem caminha por caminhos ainda não percorridos e vai sozinho, nem o pai, nem a mãe o podem ajudar porque ele caminha num tempo que é só seu, de uma forma só sua. E o homem assim vai. 

Este homem que por aqui anda, quase árvore, quase rio, quase pedra, quase grito, transporta junto ao peito, dentro da camisa fechada (para que não voem), todas as palavras que vai apanhando por onde passa. Desenterra-as com as suas mãos gretadas, apanha-as nas árvores, pesca-a nas profundezas do mar, segura-as entre as mãos quando elas passam em bando, voando à sua volta. 

A este homem, os miúdos da rua e os da beira da praia, as mulheres escondidas atrás das janelas, os velhos dos bancos da praça, os pescadores da orla do rio, chamam José, o homem dos sonhos, o homem dos espantos medonhos. Eu, que o espreito de longe, com envergonhada veneração, chamo Poeta, sagrado Poeta. E bebo-lhe as tão amadas palavras.



[Ruy Belo, aqui em baixo, explica melhor que eu quem é este homem e, um pouco mais abaixo, a grande música de Mendelssohn invade este espaço tão amado]

No Jardim do Ginjal, com o Tejo e Lisboa em manhã de neblina


                              Que nome dar ao poeta
                              esse ser dos espantos medonhos?
                              Um só encontro próprio e justo:
                              o de josé o homem dos sonhos.

                              Eu canto os pássaros e as árvores
                              Mas uns e outros nos versos ponho-os
                              Quem é que canta sem condição?
                              É josé o homem dos sonhos

                              Deus põe e o homem dispõe
                              E aquele que ao longo da vereda vem
                              homem sem pai e sem mãe
                              homem a quem a própria dor não dói
                              bíblico no nome e a comer medronhos
                              só pode ser josé o homem dos sonhos


                              ['José o Homem dos Sonhos' de Ruy Belo in 'Homem de palavra(s)']

14 dezembro, 2011

E abre os braços para deixar cair na cidade um ano favorável ao senhor


Um homem passa com majestade, o andar desenvolve-se com serenidade, é um cardeal que se desloca, vai com vagar, o casaco pende-lhe quase como se fosse uma pesada veste pregueada, vagamente ondulante. O homem avança e vai sereno, rosto aberto, peito feito ao frio do entardecer, passos de assombro e desprendimento. Olha a paisagem, olha as pessoas, olha os pássaros, olha com compaixão, com um afecto contido que não pertence aos dias comuns e nós não lhe vemos os olhos. Mas a sua compaixão pousa nos nossos ombros, uma mão forte e quente que se imagina.

Este homem que eu olho caminha contra o vento, caminha para dentro da noite.

E então pára.

De perfil, com nobreza no porte, altivez no olhar que se esconde, deixa-se ficar imóvel, superior, ele é o homem que olha a paisagem, ele é o homem que domina a paisagem, pensamentos voando em seu redor, palavras rodopiando em silêncio, palavras sopradas por um deus que se esconde no vento, palavras que as crianças que passam agarram, palavras como folhas de outono, palavras, palavras, palavras. Palavras de poeta.  

Este homem que aqui se entrega à noite que chega, que segura nos braços as palavras de um qualquer deus, é um poeta, um poeta quase apostólico como são todos os poetas.



[Leia, por favor, o poema abaixo do Ruy Belo e depois desça um pouco mais - verá então o que é irreverência e joie de vivre. É Mozart, claro, mas um Mozart muito peculiar]


Belo tronco e belo perfil num fim de dia rente ao Tejo


                               Está sereno o poeta
                               Desprende-se-lhe dos ombros e cai
                               depois em pregas por ele abaixo a manhã
                               Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
                               não morrerão na noite seus assombrosos passos
                               Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
                               de crianças de atitudes desmedidas
                               que o vento varreu e parque algum queria
                               E abre os braços para deixar cair na cidade
                               um ano favorável ao senhor
                               E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras
                               Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar 



                               ('Poema quase apostólico' de Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates" )

 

08 novembro, 2011

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre, amor inventado numa indústria de lábios

   
Aqui estamos neste recanto do mundo, neste ninho solitário, aqui em cima onde ninguém nos vê, aqui estamos. É outono, chove, está frio, e nós aqui nesta esquina da vida, sem saída - sabemo-lo bem.

Aqui estamos, meu amor, os nossos braços tocam-nos, precisamos de sentir o calor um do outro. E, quando a noite cai, é uma dádiva, é um manto que cobre os nossos ombros, que nos encobre, e nós iludimo-nos pensando que à nossa volta todas as pálpebras se cerraram para nos deixar a sós, só nós dois e a nossa terna cumplicidade. E então beijamo-nos, e então os nossos lábios tocam-se, sem tempo, sem tempo, e o nosso coração aconchega-se no corpo um do outro.

Palavras de sempre, eu sei, palavras de sempre.

Mas tu, meu amor inventado, sorris e finges que estas são palavras também inventadas, que nunca ninguém antes ouviu. Sorris e eu acredito, sorrio também.

Meu amor.


No terraço, no cimo de uma escada, no jardim do Ginjal vendo o tejo, vendo Lisboa
 - ou, simplesmente, estando.


                           Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
                           amor inventado numa indústria de lábios
                           que mordem o tempo sempre cá
                           E o coração acontece-nos
                           como uma dádiva de folhas nupciais
                           nos nossos ombros de outono
                           Caiam agora pálpebras que cerrem
                           o sacrifício que em nossos gestos há
                           de sermos diários por fora
                           Caiam agora que o amor chegou



('Acontecimento' de Ruy Belo in 'Cidadão de longe e de ninguém - Antologia Poética')
 

13 outubro, 2011

Quando toda a alegria for clandestina, alguém te dobrará em cada esquina?

  
Já não sei de ti. Já não sei se quando olhas as outras mulheres, mentalmente as comparas comigo. Dizias que lhes analisavas o rosto, o riso, a voz e que nenhuma era como eu. Dizias isso, voz baixinha, uma confissão, sorrias devagarinho, e eu acreditava e sorria: tontinho. E ficava enternecida. Dizias que, se ouvias alguém falar de mim, escutavas com atenção e ficavas todo orgulhoso se diziam bem, e eu ficava contente, acreditava, tu sorrias, um menino que confessava as suas fraquezas, uma menina que se sentia amada.

Agora que estás longe e que já não podes olhar para mim, ainda olhas as outras mulheres, comparando-as comigo? Ainda ficas à espera que alguém te traga notícias de mim? Ainda te lembras de mim?

Ouve, deixa-me contar-te: fazes-me falta para me dizeres tudo isso, faz-me falta a tua voz baixinha, sorridente, todo ternura, a tua voz que guardava uma alegria clandestina, faz-me falta a tua permanente vontade de me dobrar atrás de uma parede, atrás de uma porta, numa qualquer esquina.



[Apetece-me ir até ali abaixo, apetece-me ouvir boa música, desça comigo, vamos.]

Homem que se ausentou de si mesmo, ali, rente ao Tejo

                      Quando eu um dia decisivamente voltar a face
                      daquelas coisas que só de perfil contemplei
                      quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
                      Quem dará o teu nome a todas as ruas
                      que encontrar no coração e na cidade?
                      Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
                      no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
                      Quando toda a alegria for clandestina
                      alguém te dobrará em cada esquina?



('Quanto morre um homem' de Ruy Belo, cidadão de longe e de ninguém, in Antologia Poética)

  

22 julho, 2011

Eu sei que Deanie Loomis não existe mas entre as mais essa mulher caminha

Todos os dias caminhava rente ao pequeno jardim, rente à janela em que, sem te ver, sabia que me espreitavas.

Mas foi há tanto tempo que percorri essa linha que já não sei se não é apenas imaginação minha.

Foi há tanto tempo, eu era tão mais nova que não sei se quero que me vejas de novo. Haverá ainda em mim aquela que eu era, por ser assim para ti?

Não sei.

Mas gosto de pensar que me imaginas ainda a caminhar entre as mais, a caminhar para ti, como se em mim transportasse toda a primavera das nossas vidas.

Junto ao Tejo, mulher caminha na direcção de homem, que a espera


Eu sei que Deanie Loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de Deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em Deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais


('Esplendor na Relva', belíssimo poema de Rui (ou Ruy) Belo  in O Bosque Sagrado)

E, então, abraçam-se, num apertado abraço, certamente abençoado pelo Tejo

10 abril, 2011

És e renasces como a pura linha do amanhecer

Gostavas de me ver rir, gostavas de me fazer rir, gostavas que eu risse para ti.

E o que me fazias rir...

E o que eu gostava de te ver rir...

E todos dias, nas horas puras do amanhecer, eu me vestia para ti, para que me visses renascida; e, todos os dias, quando o sol se punha, eu me preparava para deslizar até ao dia seguinte.

Confiava em ti e tu confiavas em mim e iríamos até ao fim do dia.

No Ginjal, bem junto ao Tejo, mulher espreita...

És e renasces como a pura linha do amanhecer
e como o sol primeiro és incandescente
rosado de repente e logo a pouco
e pouco cada vez mais rubro e mais intenso
até à amarela gema de ovo que é o sol a pôr-se

Quanto eu não dava    deus     por sempre te ouvir rir
riso tão fresco como tilintar de louça

Não confies em mim    mulher    mas desconfio haver de amar-te
até ao fim do mundo   frase conhecida que me surge


(Excerto de 'Elogio e pranto por uma mulher', de Ruy Belo in 'O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor')

27 fevereiro, 2011

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre, amor inventado

 Acontece-nos o amor nestes dias mas é apenas dentro de nós - de resto, sacrificamos o coração e cumprimos a nossa rotina diária.

Mas cerro as pálpebras e as tuas palavras chegam, o teu sorriso pousa em mim: aí estás tu, amor que invento todos os dias.

Aqui estás tu, nesta esquina do Tejo enfeitado de veleiros, aqui estás tu, em frente a Lisboa

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou

(Acontecimento de Ruy Belo in Aquele Grande rio Eufrates)

19 janeiro, 2011

A vida passa e em passar consiste mas, na minha saudade, a primavera persiste

Lembras-te de quando me vias a caminhar e achavas que eu era diferente de qualquer outra?

Hoje estou assim: a saudade a doer, uma dor que ao doer é só minha, como é grande a vontade de te ver.

(Mulher no largo de Cacilhas, à noite)


Eu sei que Deanie Loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste
A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de Deanie quem desiste
na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais
lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em Deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais


 
Esplendor na Relva de Ruy Belo in O Bosque Sagrado e em Poemas com Cinema)