Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Pessoa. Mostrar todas as mensagens

02 janeiro, 2011

Bastava-nos amar, fazermos uma teia, fazermos amor sobre a areia

Houve uma altura em que já não bastava olhar mas bastava-nos amar, bastava-nos ficar.

Mas ninguém volta ao que já deixou, ninguém lembra nem o que sonhou.

Ao largo ainda arde a barca da fantasia mas tão ao largo, meu amor, tão ao largo.


('Congresso de gaivotas' no Ginjal, hoje, num dia de denso nevoeiro no Ginjal, Lisboa oculta sob uma pesada veste branca)

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

(Soneto de Joaquim Pessoa)

07 dezembro, 2010

De bruços me debruço mais ainda até sentir os olhos tumefactos

Com um brilhozinho nos olhos e a saia rodada, trago o cabelo aos ombros e passeio de cá para lá como as ondas do mar.
Com um brilhozinho nos olhos, trocámos de beijos, tão bom, era tão bom.
Tentávamos saber, para lá do que muito se amou, quem éramos nós, quem queríamos ser.
Pedes para não me descalçar porque gostas da cor dos meus sapatos, gostas do brilho que dão às minhas pernas.
E eu, namorada, faço-te a vontade e, com os meus sapatos calçados, ao de leve vou até à fonte dos amores dar de beber aos versos, enquanto espero por ti com um brilhozinho nos olhos.

(Fonte das Pipas, a Fonte dos Amores do Ginjal, milagrosamente respeitada, ainda imaculada, branca)

De bruços me debruço mais ainda
até sentir os olhos tumefactos
para saber até que ponto é linda
a intrigante cor desses sapatos

que às tuas pernas dão um brilho tal
e uma leveza tal ao teu andar,
que eu penso (embore aches anormal)
que nunca te devias descalçar.

Também porquê, se já não há verdura
nem tu és Leonor para correr
descalça, no poema, à aventura?

O mais difícil, hoje, é antever
quem é que vai à fonte em literatura
e que água dá aos versos a beber.

(de Joaquim Pessoa, o poeta da musicalidade das palavras)

28 outubro, 2010

Meu coração não está nas largas avenidas nem repousa à tarde, para lá do rio Tejo

Nada acontece.
Nem, ao menos, tu, neste tempo de angústia vens dizer o meu nome ou cobrir-me de beijos.
Quero amar-te, sim, mas tu hoje não voltas. Tu não virás, nunca mais.
 Onde estás meu amor que não posso confessar? Onde estás meu amor que não posso deixar de amar em pecado?

(Cacilheiro a chegar de Lisboa, no cais de Cacilhas, à beira do Ginjal)

Meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.
Nada acontece. Nada. Nem, ao menos, tu
virás despentear os meus cabelos.

Nem, ao menos, tu, neste tempo de angústia
vens dizer o meu nome ou cobrir-me de beijos.
Ah, meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.

A cidade enlouquece os meus olhos de pássaro.
Eu recuso as palavras. Sei o nome da chuva.
Quero amar-te, sim. Mas tu hoje não voltas.
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

Nada acontece. Nada. E eu procuro-te
por dentro da noite, com mãos de surpresa.
Meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.

E tu, longe, longe. Onde estás meu amor,
que não vens despentear os meus cabelos?
Eu quero amar-te. Mas tu hoje não voltas.
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

(Canção da minha tristeza in Canções de Ex-Cravo e Malviver de Joaquim Pessoa)

11 outubro, 2010

Lisboa tem um vestido feito de mar


(O que foi uma casa, certamente imponente, no Ginjal)


Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra.

E cheira a laranjas maduras.

Quando as gaivotas trazem no bico os primeiros pedaços de sol para acender o dia, Lisboa deixa correr os cabelos pelo Tejo e o Povo pelas ruas.

À mesma hora, a coragem agita no sangue duas grandes asas inquietas.

Por todas as janelas destruídas, já o mar entrou, derrubando acácias, cantando hinos de espuma.

E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.


(de novo, in Canções de Ex-Cravo e Malviver de Joaquim Pessoa)

Nós sabemos do mar a cor violenta


(Velas brancas em frente de Lisboa, a branca, vistas numa manhã no Ginjal)


Nós sabemos do mar a cor violenta
e o sal dentro das veias a latir.
O dia é uma ave lenta, lenta
voando sobre o Tejo. Até cair.

E nas mãos guardamos essa ave
que nos tinge de sangue o litoral.
a cor dos nossos olhos só a sabem
os que nascem aqui. Em Portugal.

Os que lutam às portas de Lisboa
respirando nas ondas e no tempo
este azul tão selvangem que magoa
as gaivotas prenhes pelo vento.

Os que tombam às portas da cidade
sobre um lençol de feridas e de fogo.
Sem nome. Sem culpa. Sem idade.
Que assim morrem os homens deste povo.

(Canção Sexta, in Canções de Ex-Cravo e Malviver de Joaquim Pessoa)



.(Uma gaivota tranquila no Ginjal)
.