Ginjal e Lisboa

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12 fevereiro, 2012

Para além da curva da estrada talvez haja um poço, e talvez um castello


Vou andando na vida, um dia após o outro. Sem pressa, sem vagar, sem inquietação, sem acomodação. 

A cada momento vou descobrindo o momento seguinte, abençoando cada bocado de vida que me vai sendo oferecido. Não me pre-ocupo, resguardo-me para o momento em que, de facto, tenha que me ocupar.

Não sei nem tento antecipar o que vem a seguir. A cada dia se dobra uma nova curva e eu não sei o que está para lá da curva. Alçapões, armadilhas, ameaças? Ou castelos, fantasias, magias, delíquios? Ou um caloroso abraço, mil beijos, carinhosos sorrisos? Não sei, não penso nisso, não me inibo, não me atemorizo, não me iludo. A cada momento estou totalmente disponível para viver com intensidade e total entrega o presente, a oferta, o momento que nos está a ser tão gentilmente oferecido. 

Apenas desejo ter ainda muito caminho para percorrer e tempo e energia para continuar a caminhar, a dobrar curvas, a descobrir o que há depois de cada curva.


[Abre-se hoje a semana que dedico a Franz Liszt. Por isso, permita que lhe dê o braço. Vamos descer um pouco mais, ver o poema de Caeiro (escrito na elegante grafia original) e, logo a seguir, ouvir o 1º concerto para piano? Vamos lá.]



                         Para além da curva da estrada
                         talvez haja um poço, e talvez um castello,
                         e talvez apenas a continuação da estrada.
                         Não sei nem pergunto.
                         Em quanto vou na estrada antes da curva
                         só olho para a estrada antes da curva,
                         porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
                         De nada me serviria estar olhando para outro lado
                         e para quillo que não vejo.
                         Importemo-nos apenas com o logar onde estamos.
                         Ha beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
                         Se ha alguem para além da curva da estrada,
                         esses que se preoccupem com o que ha para além da curva da estrada.
                         Essa é que é a estrada para elles.
                         Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
                         Por ora só sabemos que lá não estamos.
                         Aqui ha só a estrada antes da curva, e antes da curva
                         ha a estrada sem curva nenhuma.


[Poema inédito de Alberto Caeiro in nº 3 da revista Cultura ENTRE Culturas, pag. 126, transcrito na grafia original]
  

23 outubro, 2010

O Tejo é mais belo, o Tejo tem grandes navios, pelo Tejo vai-se para o Mundo

Quando estou ao pé dele, estou só ao pé dele e depois de estar ao pé dele, continuo a estar só ao pé dele


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia



Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.  
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.  

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.  
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.  
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(O Tejo é mais belo, in Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro)