Ginjal e Lisboa

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07 fevereiro, 2014

Teci com os cintilantes fios a misteriosa linguagem dos astros


Habito a noite. Quando a casa sossega e as ruas se calam, eu movo-me como uma gata cheia de silêncios e subtilezas e esgueiro-me até aqui. Brinco com as palavras, afago livros, sento-me numa mesa carregada e onde um pequeno candeeiro tenta não perturbar a quietude da noite. Ouço poetas, dizedores, ponho-me, eu própria, a escrever palavras que não sei que caminhos percorrem ou onde me levam.

Mas tenho sono. Daqui a nada tenho que tentar parecer uma criatura normal, daquelas que vive de dia. Não posso levantar-me mais tarde pois o dia começa cedo. Tenho uma verdadeira vida dupla. Vocês que aqui me lêem não me reconheceriam se me vissem, eficiente e executiva, conduzindo reuniões difíceis. Tal como qualquer das pessoas que comigo se cruza durante o dia jamais suspeitaria que eu, aquela que ali vêem, se deita tão tarde para ler, escrever, ouvir dizer poesia, coisas assim, tão contrárias ao mundo dos negócios.


Gaivota à beira Tejo

estavam os homens as águas os animais e as terras
cansados de luz e de não haver noite
levantei a mão
fiz rodar a terra para que se retirasse o sol
enrolei os dedos nas últimas fulgurações
teci com os cintilantes fios
a misteriosa linguagem dos astros
depois
fui pela escura abóbada
estendi a fantástica tapeçaria
para que lá em baixo ninguém perdesse o seu caminho
e nela pudesse adivinhar o doloroso humano destino
a noite ficou assim tão habitada quanto a terra
os homens podem hoje sonhar com aquilo que mal entendem
e quando o medo atribuiu um nome àquele luzeiro
dei por terminada a obra
cortei os fios como se cortasse um pedaço de mim
fui para outro hemisfério adormecer o dia
construir a pirâmide o quadrado o círculo a linha recta
as cores do mundo
e dar vida a outras incandescentes criaturas


['Dia da Criação da Noite por Carlos Nogueira' de Al Berto dito por Guilherme Gomes]



19 dezembro, 2013

Não faz mal, abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis


Ah, amor, a estranha perdição que nos arrasta para o fundo longínquo de um certo espelho dourado numa tarde imaginada, há tanto, tanto tempo. Vieste de longe, de outros tempos, vieste para logo te ires, curta perdição, remota, saudosa. 

Não. Não aconteceu. 

Perdeste-te de mim e eu de ti. E no fundo dos tempos ficou um abraço muito terno, um olhar muito doce e todos os nossos olhares ficaram fechados, perdidos, no fundo no meu coração. E do teu também, não é? 

Um pretérito muito perfeito. Não. Um passado imperfeito. Inconfessável.



Gato no Ginjal




Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria 
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros 
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes 
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso 
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso  

['de profundis amamus' de Mário Cesariny dito por Guilherme Gomes]


15 dezembro, 2013

A presença mais pura


Sou uma mulher que se desfaz de sombras e, vestida de sol, caminha sobre as árvores, entre pássaros, ramos, folhagens, nuvens, horizontes, palavras soltas.

Não tenho peso nem penas nem arrependimentos. Percorre-me o sangue e a pele apenas a vontade de ser e a ilusão de poder espalhar sonhos, alegrias, afectos.

De mim nunca ninguém perguntará 'a que distância deixou aquela mulher o coração?' porque o trago sempre à vista no peito, nas mãos, nas palavras que digo.

Mesmo vocês que estão tão longe de mim o sentem, não sentem? Não ouvem como ele pulsa enquanto vos escrevo estas palavras? 

Mesmo não sabendo o vosso nome, é em cada um de vós que penso quando voo pelos espaços, atravesso a noite e, cheia de mar e de luz, vou pousar junto a cada um de vocês, meus queridos Leitores.


Lisboa e o Tejo vistos do pequeno Jardim do Ginjal




Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?» 
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


['A presença mais pura' de José Tolentino Mendonça dito por Guilherme Gomes]