Ginjal e Lisboa

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24 março, 2015

Talvez seja apenas uma confidência


São instantes mas eu queria que fossem horas. E se são horas eu queria que fossem dias. E os dias somam-se aos dias e já são meses. E em cada instante desenhamos confidências, segredos inocentes, uma verdade tão nossa que parece ter nascido connosco, um pecado original que transportávamos sem o saber. Mas não é pecado, não, parece uma bênção, uma magia.

Afasto-me por vezes, quero ver as palavras de longe, quero ver se brilham como brilham quando em silêncio nos enunciamos secretas descobertas, memórias partilhadas, um registo de uma comunhão que parece imaginada.

E eu quero fechar a minha mão na tua para que feches nelas o nosso segredo, para que as palavras não voem, para que não fiquemos desamparados, sem as nossas asas que são comuns, sem os nossos sonhos que são os mesmos.

Fecha as tuas mãos nas minhas, envolve-me com um abraço, não deixes que os instantes se vão, prende as tuas palavras às minhas, e deixa-te ficar, sereno e alegre, olhando os meus olhos ou os meus sonhos. Guarda bem os nossos segredos. Nas nossas mãos. Meu querido.








Talvez seja apenas uma confidência. Sabemos
que cada vez mais é de nós que essas palavras
se afastam e assim se compreende melhor o sentido
que têm. Depois havemos de esquecê-las, para que se tornem
iguais a um segredo e se possa finalmente dizer
como tudo já cabe noutras mãos tranquilas e abertas.


[de Fernando Guimarães in Os caminhos habitados]




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Hayley Westenra interpreta Bachianas Brasileiras No. 5, Aria,  Heitor Villa-Lobos

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As fotografias foram feitas no Ginjal

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11 novembro, 2013

Recebe o sentido do que se não exprime sequer


Nos dias que precedem o fim de alguém a quem tanto afecto sempre dediquei, a vida parece-me um caminho que acaba numa parede, ou uma página branca, vazia. Onde o sentido da vida que assim trata os seus mais puros? Um caminhar doloroso para um fim que se sabe inevitável e sofrido, um rasgar dorido de laços que ainda tinham tantos mais laços para dar - assim são os dias que se sabem finais de alguém cuja caminhada final não consigo interromper, ninguém consegue interromper.

Ainda não há muito falava da esperança que a sua boa disposição me trazia. Mas, pouco depois, as células descontrolaram-se de forma a cada dia mais apressada. Aceitar o fim pode ser um bom propósito quando não há este assistir a um súbito declínio, tão triste, tão triste, as forças a faltarem, a fala a desaparecer, a respiração a custar, a quase ausência.

Não há metáforas, não há fantasias, não há nada.

Direi um dia destes outras palavras, talvez saudades, reconhecimento, talvez recorde alegrias, talvez conte outra vez como é dourada a memória dos seus risos, das suas palavras sempre tão queridas.

Mas hoje não: hoje apenas aqui tenho palavras brancas para tentar não ver o que se avizinha.



[Peço desculpa por estas palavras mas hoje, aqui, são as que me apetecem dizer. Fernando Guimarães disse as palavras que dedicou a um outro poeta com uma outra intenção e eu agarrei nelas e com elas tento consolar-me. A seguir Waldemar Bastos faz o que pode para me animar.]


Caminhando na ponte de acesso ao miradouro panorâmico da Boca do Vento
(sobre o Jardim do Ginjal)



                                                      Pode sê-lo de si mesma e tornar-se
                                                      vazia. O que dela é nosso
                                                      veio a ser a sua perda? Ninguém
                                                      a pronuncia. Sabemos que só existe
                                                      numa página agora branca,
                                                      quase transparente. Recebe o sentido
                                                      do que se não exprime sequer, e fica
                                                      assim: para lhe pertencerem
                                                      todas as palavras.


['Metáfora' de Fernando Guimarães in 'a vista desarmada, o tempo largo', Antologia, Poetas em homenagem a Vasco Graça Moura]


02 abril, 2012

Talvez venha procurar-nos só para que se compreenda como é inacessível

 
São tangíveis as coisas perfeitas? Devem ser possuídas as coisas muito belas? Devem ser observadas com olhar indiferente as coisas extraordinárias?

Vou caminhando e deparo-me, num sempre renovado assombro, com um horizonte que se desdobra em beleza, um rio que é um mar, e dizer que é um espelho azul é embaratecer o que está para além da vulgaridade das palavras banais. O rio e o céu tocam-se, ambos lisos e belos, e a ponte é um adorno de uma requintada elegância e Lisboa, feminina, suave, quase branca, com as suas curvas mansas, com a sua leveza transparente mostram-se em toda a sua inexcedível beleza (e que me perdoem os adeptos da linguagem no osso que eu hoje estou dada a adjectivos).

E eu, anónima passeante, caminho deslumbrada, todos os dias deslumbrada, e vejo o navio enorme, azul, tranquilo, de que ontem disse que se esconde sob os telhados deste casario dourado mas, depois, detenho-me em algo ainda mais inesperado. Umas pequenas flores que nascem junto à muralha, flores campestres, uma cor inocente, uma cor quente e rosada e a paisagem ganha, então, a mais sofisticada unidade. E as hastes das pequenas flores disputam, então, a beleza maior com as grandes hastes da ponte.

E eu olho-as, comparo-as e só depois me apercebo que não são comparáveis, complementam-se, embelezam-se mutuamente. A unidade entre o muito grande e o muito pequeno.

E, então, sigo, não me aproximo, não me ocorre colhê-las. O que é assim tão perfeito deve ser deixado no altar da contemplação, inacessível. Pequenas flores não terrenas, intangíveis. 

Mas tão breves, tão perigosamente mortais.



[Passeemos junto às muralhas agora floridas de onde se avista uma beleza extraordinária. E logo a seguir ao belo poema de Fernando Guimarães, um coro infantil ajuda-nos a criar o ambiente onde as flores brilharão em toda a sua inocência.]

Na descida para o Ginjal, flores junto ao grande muro que sustém a barreira  sob a qual
o casario se acolhe - o Tejo, a Ponte 25 de Abril e Lisboa tornam o cenário quase irreal



                        Qualquer flor nasce a partir de si mesma. A sua proximidade
                        transforma-se quase em abandono. Há um íntimo acordo
                        que a separa de tudo. É assim que se encontra
                        uma espécie de respiração, o perfume ou o brilho que existe
                        nestas cores. O vento faz com que estremeça. Por isso cresce
                        lentamente. Talvez venha procurar-nos só para que se compreenda
                        como é inacessível. Não lhe podemos tocar: as pétalas ficaram perdidas
                        no ar, a sua haste torna-se frágil. Depois vem outra imagem
                        ao nosso encontro. Uma flor há-de ensinar-nos também a sua ausência.



                        [’Elegias.2’ de Fernando Guimarães in Revista Relâmpago nº27]