Como se começa um amor? Do chão? Pelos meios sorrisos, pelos olhares falsamente envergonhados mas, de facto, descarados? Pelas meias palavras, pelas mãos que inadvertidamente se tocam (e alguém acredita que é inadvertidamente...?), pelas pernas que, a medo, se aproximam?
É assim? Tem que ser?
Pelos bilhetinhos, pelas mensagens? Pelas noites sem dormir, inquietas? Pelas saudades desatinadas? Pela vontade de ver, rever, tocar o outro?
Por passeios enamorados à beira rio, sob a sombra cúmplice das árvores?
Por um primeiro abraço, ainda hesitante? Por um primeiro beijo, ainda inocente?
Por uma sugestão de intimidade? Por uma insinuação indecente, inocente?
Se não for assim, não crescerá de forma segura e duradoura?
Não sei. Não sou pessoa para dar lições.
O que sei é que nunca é tarde. Mesmo que se comece pelo meio, até mesmo pelo fim, mesmo que se comece com sexo, saliva, fogo tresloucado, mesmo que seja, no início, uma paixão sem rede, está-se sempre a tempo de recuperar um primeiro e inocente beijo, um caloroso abraço, as mãos enlaçadas, uma flor, um sorriso.
Nunca é tarde. A menos que se estejamos a falar de desistentes. A erva cresce depressa, sim, e fica alta, sim. E, por isso mesmo, vos digo: a erva alta, macia, é uma óptima cama.
[Abaixo do melancólico poema do melancólico Pedro Mexia, encontrarão um momento luminoso. A canção, em si, não tem nada a ver com as palavras que por aqui pairam mas, como poderão ver, é o encontro feliz de três seres especiais: Bernardo Sassetti, Nancy Vieira e Rui Veloso]
| No pátio da Fonte das Pipas no Ginjal |
Quando decidimos tomar o mundo de assalto
não sabíamos nada um do outro
e as ramagens das árvores
quase tocavam a tua janela.
Quando desistimos de tomar o mundo de assalto
não falámos disso
e ouvimos discos de 33 rotações.
Nunca começámos do chão
e agora é tarde.
A erva cresce depressa
e em breve
é muito alta.
['Assalto' de Pedro Mexia in 'Menos por Menos']











