Ginjal e Lisboa

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22 julho, 2019

A poucos é dado conhecer o inimigo, o duplo




Um jogo. Uma respiração que se pressente, uma inquietação latente. Um desafio que vai e vem e vai e vem. O espelho e o espelho. A imaterialidade das palavras como instrumentos de um jogo de espelhos.
Eu avanço, tu avanças, eu avanço, tu recuas, eu recuo, tu avanças. Uma dança que talvez seja infinita. Eu provoco, tu reages, eu desafio, tu perguntas, eu não respondo, tu quase adivinhas, eu dou pistas, tu não as queres ver, eu escondo, tu espreitas, eu disfarço, tu arriscas.
E, agora que escrevo, tu que tudo sabes, diz-me: escrevi como se fosse eu ou como se fosses tu? Quem é o duplo nesta história? Eu? Tu?

Adivinha.

Olha, e se eu te dissesse que sei? E se te dissesse que sei quem está atrás de todas as máscaras? E se te dissesse que podes continuar a jogar, a fazer de fantasma, a aparecer como um nobre chevalier, como um trobadour ou como um lobo solitário que saberei sempre quem se esconde sob os mais diversos disfarces?

Não é preciso grande fé, sequer a little leap of faith, porque, de facto, não passa de um tiny, frivolous mystery. Conheço a tua respiração. 

Há quanto tempo? Há quantos anos? 

E, no entanto, dear ghost, há a questão da verdadeira chave que permitiria descodificar as palavras escritas no vento, que permitiria arrancar a máscara ao duplo para que o verdadeiro rosto aparecesse, que permitiria perdoar o inimigo que um dia...

Tento recuar. Qual o dia? Qual a palavra? 

Tento reconstruir a cartografia de desencontros embora saiba que não há coordenadas que possam verdadeiramente explicar esta sinuosa dança. O tempo esbate os dias, as palavras, a semente de tudo; mas não interessa. São dois mundos paralelos, jamais se encontrarão, tu sabes.

Tantas vezes parecemos não perceber que há ecos que se propagam até ao infinito sem que nunca encontrem o que esteve na sua origem.

Mas assim é, assim será. E a chave que descodificaria de vez todo o enigma, dear ghost, believe me, I will never use it, never ever. 


Estas palavras são o eco de uma outra coisa
que provavelmente nunca encontrarás.
A poucos é dado
conhecer o inimigo,
o duplo,
o que espera por nós (quase sempre em vão) até ao fim.

Fantasma adiado,
só ele tem a chave
deste jogo.


['Ainda a poesia' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Lendas da Índia']


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As fotografias, como sempre, foram feitas por mim no Ginjal

04 setembro, 2016

E se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio





Em silêncio espero a tua visita. Há tanto tempo. Não peço, tão pouco mostro que sinto a tua falta. Sou assim. Posso até parecer despegada. E sou. Mas não de ti, de ti custa-me a despegar-me. Sinto a tua falta.

Vem. Esquece o que lá vai.

Podes aparecer-me aqui vindo do escuro rio que corre ali em baixo, podes aparecer-me ainda escorrendo, coberto de limos, trazendo o cheiro da maresia colado à pele, ou podes enviar antes uma longa carta, longa, em que me contes lembranças de ti, pensamentos soltos, os teus medos ou sonhos, e se ainda te lembras de mim, ou podes fazer-te anunciar através de música, ou podes bater à porta e vir devagar, sentar-te à minha beira e desenrolar livros, apontamentos, palavras tuas ou não, podes falar-me do que gostarias de me ensinar na secreta esperança que eu aprenda mais do que confesso, ou poderias com os teus dedos nervosos fechar os meus olhos e, para que oiça apenas com o coração, dizer-me poemas até que a noite dê lugar ao dia. 

Tudo estará bem para mim. Quero apenas ter notícias de ti, saber que, para ti, ainda existo, saber que, mesmo que apenas em pensamento, eu ainda sou a tua amada, a tua eterna e secreta amada.

É que, sabes, temo que, se não o fizeres, um dia me esqueça de ti, não consiga mais recordar-me do teu rosto, não consiga já que o meu corpo se acenda com a memória das tuas mãos e do que fazias com elas para me fazer vibrar, nem consiga sentir como a minha pele estremecia ao som ciciado da tua voz convidando-me a pecar.

Não te quero esquecer. Vem. Sinto tanto a tua falta. 



Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio.


[in Fogo, Gastão Cruz]


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Fotografias feitas no Ginjal

Katica Illényi, no teremim, interpreta Once upon a time in the West de Ennio Morricone sob condução de István Silló com a Győr Philharmonic Orchestra

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21 dezembro, 2015

Ah, eu sei agora que é magia





Olhou-me nos olhos como se me inquirisse. Dócil, eu, aproximei-me, devagar. Continuou a olhar-me. Baixei-me, tentei perceber. Olhava-me como se me quisesse dominar, como se me quisesse fazer sentir que tinha que ser eu a ceder. E eu ali, em silêncio, disposta a todos os olhares.

Então desviou os olhos. Olhei-o bem de frente, eu já quase de joelhos, que me olhasse, bchhh, bchhh, bichinho, bchhh, bchhhh, bichinho lindo... Nada. Olha, olha para mim, bchhh, olha, bichinho, bchhhh. Nada.

Não insisti. Tenho o meu orgulho. Não queres, não queiras. 

Mais à frente ainda pensei voltar-me para trás, ver se me seguia, se queria, afinal, a minha companhia. Mas não o fiz. Orgulho, esse grande inimigo dos acasos. Segui o meu caminho.

Dia de gaivotas pensando na vida, contemplando o mundo, dia de gatos sob as árvores, trepando aos muros, deslizando entre sombras. Dia de veleiros brancos, vermelhos, deslizando no azul, entre árvores. Dia de deslumbramentos.


E eu vou caminhando. A terra está macia, a relva está verde, o rio corre azul, o céu abre-se para receber aqueles que querem sentir a serenidade das nuvens que correm devagar ou dos amantes que se abraçam rente às águas, abençoados por quem passa.

Não sei ainda onde me levam os meus passos. Não sei como vim aqui parar. Não sou daqui. Que raízes são estas que se estendem até ao mar? Que asas são estas que se levantam para me levar a voar? Que amor é este que sinto por tudo? 
Pelas palavras, pelas águas, pelos céus, pelos pássaros, pelos barcos, pelos gatos, pelas paredes, pelos olhares recordados, pelos sorrisos imaginados, por quem o meu coração bate, por quem o meu coração aconchega. 
Um amor assim não tem explicação. Parece ilimitado, parece intemporal. E é inocente, alegre, livre. 

E eu caminho, sem explicações, como se fosse uma gata, uma gata deslizando sobre o azul, como se me nascessem asas, como se pudesse ir para o alto, para lá de onde se vêem as belas cidades, os pequenos homens, para lá onde as angústias perdem o motivo, onde os medos são injustificados, lá onde as saudades aumentam, aumentam tanto, lá onde me sinto tão longe, tão perto, tão livre, tão ilimitada, tão tua.

Não sei explicar, não sei mesmo. Mas dizem-me que é  magia, que é imagiação a explicação -- e eu acredito porque é bom acreditar no que não tem explicação.


Ah, eu sei agora que é magia,
que é imagiação a explicação
disto de estar aqui e não ali,
de vir aqui parar,
de vir aqui andar
e ter um chão onde os meus passos
de gazela insegura
se aventuram no escuro.
Eu sei agora algumas coisas
que explicam o que nada poderia explicar,
e o que não sei ainda
irei imaginá-lo numa não sei que paz
que é imagiação.

....

Fiz as fotografias este fim-de-semana no Ginjal.
O poema é 'Ela', poema 33, de Um Teatro às Escuras de Pedro Tamen.
Barenboim interpreta de Bach: Goldberg Variations - Aria
..

02 outubro, 2015

Um dia prometeste deixar no estuário da nossa cama






Não pensámos, não, que fosse eterno. Por vezes fingíamos acreditar mas ríamo-nos logo a seguir para que ficasse claro que sabíamos que um dia terminaria. O sabermos que era efémero dava mais valor ao que tínhamos. E, enquanto o tínhamos, sentíamos que era eterno mas não o dizíamos, não queríamos que o nosso amor se tornasse risível. 
Tecias sedas com os meus cabelos entre as tuas mãos e dizias vou tecer um manto invisível para nos cobrirmos quando dormirmos na beira do rio e eu deixava que o calor das tuas mãos, desfiando-me lentamente, me transportasse leito fora como se já pelo rio o meu corpo navegasse, junto ao teu, junto ao teu. 
Tanto que eu gostava, na cama, de sentir a pele do teu corpo junto à pele do meu corpo disponível, teu, teu. 
As tuas mãos percorriam os contornos do meu corpo, tão macio, dizias tu, e eu gostava de te ouvir, segredando-me convites indecentes ao ouvido e isso era um segredo teu, só teu, só teu. 
As minhas pernas enleavam-se ainda mais nas tuas, e eu deixava que o teu corpo respirasse sobre o meu, navio suave deslizando por um rio vibrante, água e fogo, flores e vento, pássaros e sonhos, amor meu, amor meu.
Lembras-te? 

Lembras-te dos nomes que usavas para dizer o meu nome? Dos nomes que usavas para dizer o teu amor? Dos nomes que usavas para dizer o teu desejo, o meu desejo? Lembras-te?

Lembras-te de como me abraçavas, a tua boca escondida pelo meu cabelo, e tu, indecoroso amor meu, dizendo maldades, inquietando-me? E do rio, lá em baixo, que não sabia refrescar o calor do meu corpo, lembras-te?

E depois um dia foste-te. Não te despediste. 

Nunca mais te vi. Nada sei de ti. Nem sei se ainda sei o teu nome. Nem sei se ainda sei o meu nome. Nem sei se ainda existo. Sem ti, nem sei se alguma vez existi.

Fecho os olhos e tento recordar-me do nome que dizias quando dizias o meu nome. Mas o que ouço é apenas uma voz branca, sem palavras. Uma voz vazia, uma voz vazia desfiando memórias sem olhos, perdidas na cama que era nossa e que hoje está vazia.

Meu amor que te amo tanto, não voltes para mim, deixa-te estar no recanto mais profundo do meu sangue, lá onde não poderás voltar para ti. Amor meu, amor meu.




que foi que    de repente     eu disse
para que começasses a dar outros nomes ao que
pensávamos ser eterno    e habitar no
mais profundo recanto do nosso sangue

ouve-me   ouve-me   e dá depois o
nome que quiseres às mãos que um dia
prometeste deixar no estuário
da nossa cama

onde hoje apenas
se desenha o côncavo lugar do que
ardilosamente roubaste na partida


[de Alice Vieira in Os armários da noite]

...

Yiruma interpreta Dream

As fotografias foram feitas no Ginjal

..

24 março, 2014

Difícil fotografar o silêncio


Um gato no Ginjal - em silêncio
O Tejo e Lisboa já ali


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.



Poema O Fotógrafo de Manoel de Barros dito por Eduardo Tornaghi


*

Encontrar o silêncio
quando os dias se rasgam
de gritos ácidos
e os ouvidos se enchem
de bandos loucos de palavras vãs.
Encontrar o silêncio
onde a Paz se acolhe
e o vazio se alaga
com sombras brancas.
Silêncio,
quando a angústia se esvai
e o olhar voa
como chama matutina.
Encontrar o Silêncio e morar nele
até que nos encontremos
e um sorriso se abra em nós.



[Silêncio de Joaquim Castilho num comentário abaixo]



27 fevereiro, 2014

Mas que coisa é homem, que há sob o nome: uma geografia? Um ser metafísico? Uma fábula sem signo que a desmonte? Que milagre é o homem? Que sonho, que sombra?


Que coisa é um homem, também eu gostava de ser. Um acaso da natureza? O golpe de génio de um ser superior? Não sei. Não sei o que sou. Não sei se eu sou a que pensa e escreve ou se sou o corpo que tem vida própria.

Que coisa sou eu? 



Porque se alojou no meu corpo esta que aqui vos escreve e não dentro do homem que cruza o horizonte algures no monte ou dentro da gata, minha irmã, que evita o meu olhar?

Não sei (e acho que se calhar também não é importante saber).





Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia? 
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte? 
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some? 
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome? 
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta´ 
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem? 
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen 
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes 
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai 
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem? 
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho? 
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem 
é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a? 
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo? 
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem 
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono 
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem? 
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida? 
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte? 
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas 
e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem? 
Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata 
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte? 
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte? 
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte? 
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso? 
Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente? 
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente? 
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem? 
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói? 
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói? 
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima? 
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos? 
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem? 
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte? 
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?



'Especulação em torno da palavra homem' (Carlos Drummond de Andrade) aqui dito por Sandra Corveloni



08 janeiro, 2014

A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.


Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar a cabeça e me pôr nua no centro da minha vida
E uivar até me secarem os ossos
Que queres que eu faça Deus?

Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Você é muito sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo

Respira fundo, insistiu!
Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico


Graffiti numa parede perto da ex-Lisnave


Que ex-voto levo à Aparecida se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.

Eu nunca ia ser budista!
Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?

Minas tem coisas terríveis.
A serra da piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.

O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.

Meu coração é bom mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia.
Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?



Gata no Ginjal


Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!
Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.

Me imploram amor Deus e o mundo.
Sou pois mais rica que os dois.
Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.

Quase entendo a razão da minha falta de ar
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.

A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.



Ex-Voto de Adélia Prado, aqui dito por Elisa Lucinda.


29 dezembro, 2013

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Quase a virar o ano, com vontade de despir a pele, de deitar fora as lembranças deste ano que nasceu velho e mal parido, eis que me aproximo do ano novo com flores na alma, vontade de mudanças, ansiosa por espantos bons, voos largos, novidades surpreendentes e aladas, o chão como um suave manto verde, o céu como um tule transparente e misterioso.

Que se enterrem as mágoas, as tristezas, todas as desesperanças, e que avancemos, sem medos e sem delongas, pelos caminhos que se desdobram auspiciosos à nossa frente.

Não me perguntem de onde me vêm este ânimo e estes bons augúrios - não saberia como responder. Mas sei que o mundo bom está aí à espera. Quero descobri-lo e vivê-lo, estou cá para me aventurar. E é só isso que sei - mas isso basta-me.


Uma gata no Ginjal - a serena sabedoria de saber viver o momento




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


['Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades' de Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 

- aqui dito por Rui Reininho]





'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades' aqui com música de José Mário Branco

 - aqui interpretado com toda a cagança, toda a pujança pela Estudantina Universitária de Coimbra



24 dezembro, 2013

Neste Natal, o 'Ginjal e Lisboa' deixa aos seus leitores alguns presentinhos: poesia dita por Herman José; uma canção interpretada pelo Pai Natal; os Jingle Bells numa coreagrafia felina e, finalmente, os Monjes Silenciosos interpretando o Aleluia. Feliz Natal, meus queridos Leitores!


Haja humor, alegria, leveza e muita vontade de sacudir o pó do passado, dos medos e das tristezas. 

Num registo diferente, porque gosto do que é inesperado e do que me faz rir ou sorrir, aqui vos deixo a mensagem do Ginjal e Lisboa para esta véspera de Natal.


Tempo de Poesia - a palavra a Herman José



*

Que entre o Pai Natal. Os votos estão um ano atrasados mas o que conta é a intenção, certo?




*

Sendo o Ginjal um local tão habitado por gatos, não poderiam aqui faltar hoje, certo? Que toquem os sinos.



*

E que entrem os monges silenciosos porque religião e Natal não tem que ser coisa sisuda.



Bom Natal! Festas Felizes!

19 dezembro, 2013

Não faz mal, abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis


Ah, amor, a estranha perdição que nos arrasta para o fundo longínquo de um certo espelho dourado numa tarde imaginada, há tanto, tanto tempo. Vieste de longe, de outros tempos, vieste para logo te ires, curta perdição, remota, saudosa. 

Não. Não aconteceu. 

Perdeste-te de mim e eu de ti. E no fundo dos tempos ficou um abraço muito terno, um olhar muito doce e todos os nossos olhares ficaram fechados, perdidos, no fundo no meu coração. E do teu também, não é? 

Um pretérito muito perfeito. Não. Um passado imperfeito. Inconfessável.



Gato no Ginjal




Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria 
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros 
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes 
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso 
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso  

['de profundis amamus' de Mário Cesariny dito por Guilherme Gomes]


17 dezembro, 2013

De que obscura força és a morada? Qual o crime de que foste testemunha?


Passo em silêncio e ninguém me vê. Espreito veleiros, gaivotas, ventos e ninguém me vê. Invento sombras, gritos, mistérios e ninguém mais os vê ou me vê.

Mas eu sei que, algures, sobre um muro, debaixo da copa de uma árvore, debaixo de uma rocha junto ao bater das ondas, no desvão de uma escada em ruínas, estará sempre um gato que me observa, me vigia, me acompanha.

Ser discreto, ambíguo, livre, vindo de outros tempos, que descende de deuses, de duendes, de sábios, o gato olha-me sem censuras, sem palavras. Sabe muitos segredos, tem muito mundo. No seu olhar eu vejo compreensão, cumplicidade e fraternidade. Reconhecemo-nos e não precisamos senão do nosso olhar para nos percebermos.


Gato num muro no Jardim do Ginjal




Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?


['Gato' de Alexandre O'Neill in Poesias Completas, 1951-1986 dita não sei exactamente por quem]

13 dezembro, 2013

Foi-se injectando a presença a seu lado numa casa, seu íntimo numa viela, sua face numa fachada.


As palavras que penso enquanto caminho entre o rio e as paredes gastas destas casas em ruínas onde apenas um ou outro gato vêm espreitar perdem-se dentro do meu corpo, pétalas caídas, ou evadem-se de mim e vão impregnar-se nas rugas que o tempo desenha na pele destas casas esventradas?


Gato na entrada de uma casa no Ginjal




Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,

para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.

Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;

foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada .

Mas desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;

já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.

A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga. 
Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.

['O profissional da memória" de João Cabral de Melo Neto in "Museu de tudo", poesia dita por Chico Buarque]


01 julho, 2013

A tentação fita-me como um gato


Ah os teus olhos que me tentam, me desafiam, me desequilibram, ah os teus olhos nus, impúdicos, maliciosos. Sorris com ar de quem me está a imaginar nua, de quem sabe, de antemão, que me vou desnudar para ti. Malandro. Convencido. Olhas-me e derrubas-me com o teu olhar vadio, arriscas, ah se arriscas. 

Arriscas tanto. Olha se eu me viro a ti... Quem te diz que o não farei? Sabes lá se não te vou arranhar todo?

Mas arriscas, gostas de arriscar, a tua carne gosta de me tentar.

Passas a língua indecente ao de leve pelos lábios, e olhas-me lentamente, e não sei se sabes que eu tenho tanta dificuldade em resistir a tentações... Espreitas-me o decote e nem disfarças, espreitas-me as pernas e queres que eu veja que me espreitas, guloso, olhos gulosos, lábios gulosos e vejo que o teu corpo todo se levanta para me desafiares ainda melhor. Que descarado, que descarado.

E eu, pobre gata, inocente gata, ingénua, inocente, coquette, olho-te com olhos de menina. E finjo que sou uma menina assustada, uma gatinha inexperiente, temerosa, e finjo que não quero que te aproximes, e deixo que me olhes como se tivesses que vencer o meu pudor. Eu, gatinha, faço de conta que receio esses impúdicos avanços, gatinha de olhos límpidos e virgens. Mas deixo que te aproximes, deixo que me espreites, que me tentes. Deixo, deixo, tu sabes que deixo, mas sabes que eu gosto que me tentes, malandro, vadio.

Ah o que eu gosto de uma boa tentação... Sou uma gata vadia, sabes.




[Abaixo da gata do Ginjal, uma nova Poetisa: Marta Chaves. Boas descobertas as que me estão a aparecer debaixo destes Telhados de Vidro. A seguir a raça de Pavel Sporcl interpretando Tchaikovsky]


Uma gatinha no Ginjal



                                                  A tentação fita-me como um gato.
                                                  Desses que não gostamos
                                                  de ver passear nos parapeitos
                                                  num desafio de gravidade
                                                  que nos parece desnecessário e arriscado,
                                                  embora alto e corajoso.


['Guarda-Mor' de Marta Chaves in Telhados de Vidro, nº 18]


12 junho, 2013

O sol que na página se levanta antes e depois de se ter levantado no corpo amado


Disse que não sabia se voltaria a falar do que se passa nesta casa misteriosa. Mas, afinal, aqui estou. Aconteceu um mistério e eu tenho que o contar, não quero guardar este segredo que me assusta um pouco. Eu conto e agora não pensem que estou a ficcionar: não estou. 

Há coisas inexplicáveis. 

Ao ver as fotografias feitas entre ruínas, gaivotas, gatos, veleiros, eis que me apareceu uma estranha imagem. 

Está exactamente entre um conjunto de fotografias em que o protagonista é um gato negro de olhos muito verdes, um gato que ora fingia ignorar-me, ora me olhava fixamente, ora se lambia, uma língua indecente.



Pantera negra de olhos verdes - no Jardim do Ginjal


Eu andava de volta dele, aproximava-me e o gato ali. Várias fotografias do gato entre verde, o rio em fundo. De tal forma era negro ou de tal forma me hipnotizava, as fotografias, ao contrário do que é costume, apareceram-me mal focadas. 

E, no meio dessas fotografias, uma incompreensível. Não sei o que é. Não sei como ali apareceu. 

Parece uma folha manuscrita. Já ampliei mas perde a definição. Parece uma folha escrita em letra miúda, uma página em branco na qual a vida se derramou, palavras rápidas, recordações, sonhos, amores, rasuras.

Parece que o sol pousou numa folha como pousa, por vezes, nos corpos, no meu corpo desnudo. Não sei.

O que é? Como me apareceu entre fotografias normais?

Não sei. Estive a ver as outras fotografias, tentando perceber se haveria ali algo em que eu não tivesse reparado. Não. Havia um solo coberto de verde, uma árvore, uma rocha, um tronco caído, o rio ao fundo. Nada mais. Não havia nada que se parecesse com isto. Juro.

Digam-me vocês o que acham que é. Digam-me que é uma coisa normal, uma banalidade.


Agora sim, vou ficcionar. Tem que ser. A razão não alcança o que os olhos vêem. 


Foste tu, homem silencioso que percorres os caminhos nocturnos que te trazem até mim, homem silencioso que sobes as escadas e te sentas a ler palavras roucas? Foste tu que as escreveste e, enquanto eu dormia,  as implantaste sob a minha pele? 

Foste tu que, com dedos ágeis e boca tumultuosa, vieste deixar dentro do meu coração esta folha na qual derramaste a tua vida feita de palavras como quem derrama esperma dentro de um corpo que não conhece?

Diz-me. 

Esta noite vou deitar-me, nua, encostada à parede que te separa de mim, vou deitar-me entre os corpos macios das gaivotas, e vou esperar que, do lado de lá, leias, na tua bela voz cava e silenciosa, as palavras que rasgam a minha pele aflita.

Diz-me. Diz que não tenho razão para ter medo. Abraça-me mesmo que apenas com palavras imateriais e misteriosas, mesmo que apenas com palavras lavradas numa estranha folha branca banhada pelo sol. 



[Abaixo da fotografia que tomara que não seja misteriosa, um poema de Casimiro de Brito. A seguir a maravilhosa música de Jacques Loussier dando um ar de jazz a Bach]



Fotografia estranha que não dei por ter tirado. Não sei o que é.
Aparece no meio das fotografias tiradas no Ginjal, é só o que sei.



                                                 O sol que na página se levanta
                                                 antes e depois de se ter levantado
                                                 no corpo amado nas suas fendas e cicatrizes
                                                 não será uma fonte paciente uma boca
                                                 que nas minhas noites tumultuosas
                                                 arde?



                                                 ['O sol nas ilhas, I', de Casimiro de Brito in 'Amar a a Vida Inteira']

05 março, 2013

não te oiço e é como se me achasse dentro de um templo fechado


Chamei-te tanto, tanto, disse-te um por um todos os passos que devias seguir até me encontrares. Mas não vieste. Tanto que te esperei, tanto, tanto, meu amigo. Passavam os dias, passavam as noites, vinha o sol, vinha a chuva, vinha o vento, vinham as estações, os anos, e eu aqui tão só, esperando, esperando. Chamei-te tanto, tanto, meu querido amigo. Não me ouviste nunca? Nunca? Nem um lamento meu chegou até ti? Nem um? Por fim já não tinha forças, já apenas saía de mim um sopro lento. E os pássaros vinham e iam e olhavam-me e era piedade que eu sentia nos seus sábios olhares.

Envolta em silêncio, um tão pesado manto de silêncio, tanto, tanto silêncio, aqui estou tão sozinha. Dirás que foi escolha minha, que poderia ter saído. Bem sei, meu amigo, bem sei. Mas este é o templo em que pensei esperar-te, o templo dos mil labirintos, dos recantos de sombra, dos recantos de luz, o lugar de todos os assombros. Aqui sonhei que um dia virias ao meu encontro. Aqui chegarias até mim, meu amigo, e eu, olhar puríssimo, pele lisa, olhos de água, coração de menina, dir-te-ia palavras de muito amor, palavras inventadas. Assim o sonhei, meu amigo, assim o sonhei.

Hoje a chuva não pára, tenho frio, os meus cabelos longos estão tristes, os meus seios estão trémulos, os meus lábios fecham-se sem esperança e os meus olhos, quase cegos da falta que tenho de ti, choram, choram. Depois de tanto tempo, eis que as forças me faltam, eis que as lágrimas correm como um rio. Não virás. Sei disso.

Há pouco desci do beiral, espreitei do alto das escadas, ouvia passos, um roçar, um respirar. Pensei que podias ser tu, meu amigo, meu amor. E então percebi. Eram gatos, muitos gatos. Também eles perceberam. No alto deste templo, junto às suas arcadas mora uma mulher de outros tempos, sem idade, sem passado, talvez uma louca, talvez. Talvez. É como se já não existisse. Este templo que eu quis que fosse o nosso ninho de amor é agora deles, meu amigo.

Seja.

Quem passa na rua diz que por aqui paira uma alma de outro mundo, outros dirão que é uma santa, ou uma mulher pássaro que vive sem se alimentar, envolta em silêncio. Mas os gatos sabem e eu sei também que é uma mulher, apenas uma mulher, uma mulher que espera o seu amor, uma mulher que espera em vão, que sabe o seu amor não virá mais. Eles sabem e eu sei também que há aqui uma mulher que um dia desaparecerá, se transformará em pó, em nada. E ninguém saberá que existiu. Talvez os gatos, por vezes, parem, olhem para cima, esperando que uma mulher silenciosa de longos cabelos transparentes assome no alto das escadas. Mas só eles se lembrarão de mim.



[Abaixo dos gatos que vieram habitar o templo em que a mulher pássaro espera, um poema de um novo poeta, André Tomé e, logo a seguir, mais uma grande interpretação. Desta vez Martha Argerich não está sozinha e toca Mozart.]



Gatos no velho casario do Ginjal


                                 não te oiço e é como se me achasse dentro de um templo fechado.
                                 o silêncio é a obra através da qual se descobre a memória
                                 e à falta de toque só o teu nome pronunciado e a fé na tua aparição
                                 ilumina as arcadas.
                                 a tua ausência tem-me o corpo vazio, falta-me o milagre da presença
                                 poderia chamar-te deus
                                 estás aqui latente
                                 mas não estás.



                                 ['Meditação' de André Tomé in Insula, belo livro de poemas que dedica aos pais]

18 fevereiro, 2013

Um gato não serve realmente para nada


A mulher que não tem filhos, nem irmãos, nem pais, nem marido, nem amante, nem amigos não serve realmente para nada. 

O homem que perdeu o emprego, a casa, a mulher e a guarda dos filhos não serve realmente para nada. 

O velho que se senta na beira do rio olhando realmente para nada, sem ninguém em casa, sem ninguém em lado nenhum também não serve realmente para nada. 

A velha que se senta no banco da paragem, olhar perdido, sem esperar nada nem ninguém não serve realmente para nada.

O jovem a quem os pais não conseguem pagar os estudos, que não arranja trabalho, que não consegue deixar de sobrecarregá-los, que não consegue ter uma casa sua nem mulher nem filhos também não serve realmente para nada.

O doente que está no hospital sem ninguém que o vá buscar porque ninguém pode fazer-lhe companhia ou pagar por uma ou pagar-lhe os medicamentos ou alimentá-lo não serve realmente para nada.

O homem e a mulher que têm família, casa e trabalho mas a quem os proventos foram de tal forma reduzidos que já não conseguem pagar o empréstimo do carro nem o da casa nem dar todas as refeições aos filhos também já não servem realmente para nada.

Pensando bem, nenhum de nós serve realmente para nada.

E, pensando ainda melhor, acho que está mas é na altura de eu organizar um exército com os gatos todos do Ginjal e avançar com eles pelo conselho de ministros adentro.

A seguir trazia-os comigo e já os imagino de barriga cheia, a rebolarem-se na areia da praia, ao calor, contentes, ronronando de alegria pela desinfestação efectuada e eu, gata como eles, ronronaria também sonhando com um país melhor onde todos nós servíssemos muito para tudo.



[Abaixo de dois dos meus amigos gatos, mais um poema de Inês Lourenço e, logo a seguir, mais uma grande interpretação de Yo-Yo Ma, desta vez numa música de Dvořák - e eu acabei de constatar que, quando, tempos atrás, andei a trazer aqui compositores estupidamente me esqueci deste compositor, falta que, um dia destes, terei que reparar]


Numa das praias do Ginjal, dois dos meus amigos gatos, prontos para avançar



                                                                                                                                                ao Eugénio de Andrade
                                                   

                                                       Um gato não serve realmente
                                                       para nada, vão quase seis séculos
                                                       desde o tempo das caravelas
                                                       onde embarcou com os marítimos para
                                                       extermínio dos roedores que
                                                       infestavam o porão das naus. Agora
                                                       só o dorso oferece às carícias
                                                       ou ao regaço o peso
                                                       do pequeno corpo, ronronando
                                                       a grata beleza de existir


                                                       ['Préstimo' de Inês Lourenço in Câmara Escura]

07 fevereiro, 2013

Que repouse para sempre o uivo desse sexo fulgente


Sabeis, senhora, que vida é a minha?

Sabeis, senhora, das noites mudas e frias, sem outro corpo que me acalente?

Não, não sabeis. Só eu sei dos dias que amanhecem sem outros dedos que se cruzem com os meus, sem outro som que não o meu quando chamo por quem nunca vem.

Amanhece e a relva nasce verde, fresca e eu, silente, invisível, desloco-me por entre as sombras, sinto a erva húmida, olorosa, e não sei o que procuro porque quem eu procuro nunca vem. Passam os gatos pelos caminhos vazios e não me vêem. Chego a duvidar da minha existência, senhora.

Deito-me no chão molhado, cheiro a terra, encosto a boca às raízes das árvores e murmuro o nome que vive dentro de mim. Ninguém me ouve, nem os gatos. Passam indiferentes, como se eu não estivesse aqui. E, se calhar, não estou, senhora. Há muito que sou apenas uma sombra, um vulto cego, inútil.

Sabeis, senhora, a solidão que é viver assim, vazio, quebrado, porcelana velha, imprestável?

Logo ali passa o rio que tão bem conheceis, senhora, e tantas vezes eu me deito a ele, lavai-me, lavai-me, digo eu, lavai-me de pensamentos agres e ímpios. Mas as águas passam e não levam a minha amargura nem os meus pecados, senhora.

Pequei? Achais que pequei, é isso, senhora? É isto, pois, uma é punição? Se é, perdoai-me, perdoai-me, senhora, que já vai longo o meu sofrimento.

Encostai o vosso ouvido à terra, senhora. Se ouvirdes um soluço contido, se ouvirdes o vosso nome como se fosse a terra em sentido choro, sabei, senhora, que sou eu, senhora, que não consigo conter o meu sofrido lamento.

Voltai, voltai, senhora, voltai. Não deixeis que o vosso sexo fulgente continue a atormentar-me com o seu longo uivo que atravessa as noites aqui, junto ao rio. Vinde, senhora, vinde, deixai-me que cheire, beije, acaricie a papoila encarnada e negra que escondeis sob as vossas vestes e que, em tempos, disseste que era minha, senhora, deixai, deixai. Ou, então, deixai que ela repouse, para sempre dormente, na noite grave que para sempre me envolverá.

Mas, senhora, amor meu, não me abandoneis ainda.



[Abaixo do poema de Catarina Nunes de Almeida, podereis encontrar a música de Mozart pelas mãos de Richter. Talvez até que as palavras ganhem uma textura diferente se acompanhadas por essa música]


O jardim do Ginjal, verdemente coberto, o tejo logo ali


                                            Nessa noite grave dia nasceu, senhor.
                                            os dedos atrevendo-se aos dedos
                                            artesanais como a erva.

                                            Que repouse para sempre no tímpano dos seixos
                                            o uivo desse sexo fulgente
                                            porcelana do prado quebrando-se na boca
                                            hábil e agre
                                            como a carne magra
                                            das papoilas.


[Poema incluido em 'Mágoas ou Cantos de Alvoroço' de Catarina Nunes de Almeida in 'Bailias']


30 janeiro, 2013

Não há gesto nem arma que me guarde


Dizias que os meus olhos eram a tua perdição. Olhos verdes são traição, alertava-te eu que sou leal mesmo quando anuncio traições. Mas não me ouvias. Que conhecias as minhas emoções pelos meus olhos, e eu dizia-te que não te fiasses, que sou míope e os olhos das mulheres míopes enganam muito. Dizias que pelos meus olhos conseguias perceber se eu estava longe, ou se eu te queria perto, se te desejava ou não. Olhos verdes são traição, mil vezes te avisei.

Olhos de gata, andar de gata, fugidia e arisca, terna e dengosa como uma gata. Vem, minha gata. E eu ia mas que não contasses sempre com isso, ia mas por pouco tempo, apenas para que tentasses ver o meu coração a partir dos meus olhos. Não me ouvias. Olhos verdes são cruéis como punhais, lembrava-te. Mas não me ouvias.

Os teus olhos são verdes mas ardem como fogo, e eu ria com as tuas palavras. Entusiasmado, fazias variações, fico em fogo com o verde dos teus olhos, e eu ria. Sente as labaredas no meu peito, sente, minha gata. E eu dizia miau.

Os teus olhos cheios de água, húmidos de desejo, e eu aqui à espera que me queiras, lamentavas-te. E eu dizia que não era bem assim.

Gosto tanto dos teus olhos, são um oásis verde no meio do deserto que é a minha vida, e tu não matas a minha sede. E eu ria e avisava que, com tanta conversa fiada, ainda me assanhava.

Quase vejo o fundo do mar no fundo do teu profundo olhar, e tu não me deixas mergulhar, suspiravas. Não deixo?! Mas quem é que disse?!, perguntava eu, já fervendo.

Gata, gatinha linda, gatinha de olhos de fogo, porque não apagas o fogo que me devora?, queixoso. Ai, ai, ai...! Sempre essa conversa que já me irrita!, eu já sem paciência.

Até que, farta, completamente farta, te disse que se és lento no gatilho, que culpa tenho eu disso? Que se, em vez de mergulhares ou fazeres o que apregoas, preferes ficar para aí a inventar palavreado da treta, que culpa tenho eu disso?

E, altaneira, pêlo eriçado, afastei-me: gata assanhada, ora pois. E, de longe, ainda miei, e não venhas dizer que não te avisei! Gatos competentes é o que não falta.



[Nem mais. A seguir à gata vadia do Ginjal, um dos poemas-história de David Mourão-Ferreira e, logo abaixo, mais uma grande interpretação de Glenn Gould, desta vez com Prokofiev. ]


Numa praia do Ginjal, numa manhã muito fria




                                      É já o fogo? Apenas o rastilho?
                                      São dois olhos de gata, ou de regato...
                                      De qualquer modo, um verde pouco exacto.
                                      E de fogo, ou de fonte, inquieto, o brilho.

                                      Mas porque me inquieto e porque brilho
                                      de terror ante o seu verde retrato?
                                      Em que fogo, afogado, me debato?
                                      Porque me treme o dedo no gatilho?

                                      Agora é tarde. Agora é mais que tarde.
                                      Não há gesto, nem arma que me guarde;
                                      em deserto nenhum me abrigarei.

                                      Água? Fogo? Não sei o que me invade....
                                      Onde estavas, revólver da vontade,
                                      quando, ao vê-la, de mim não disparei?



                                      ['Revólver' de David Mourão-Ferreira in A Arte de Amar]

*


Palavras de fogo e água
não me atrevo
elementos da natureza oiço dizer
num deles o perigo e a beleza me atormentam
no outro
afogo o primeiro até enlouquecer 


[Poema de 'Era uma Vez' num comentário aqui abaixo]

*

Teus olhos
na raiz pura do Olhar
mensageiros indiscretos
dos teus silêncios.
Olhar que fala
que grita,
que chora em ti.
Tu mesmo,
mesmo sem ti.




['Mulher-gata ou gata-mulher?' de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

31 dezembro, 2012

De toda a matéria escura sufocada e contraída nasce o grito claro - Morra 2012, viva 2013!


Prisioneiros de um mundo que não escolhemos, um mundo triste, soturno, escuro, corrompido por outros que não nós, mas também vítimas das nossas más escolhas, da nossa permissividade e passividade, estamos assustados, receosos, tolhidos. Este é um mundo que encerra um sonho que acabou, que se transformou num pesadelo. Não era isto que queríamos.

Escuridão, solidão, medo.

Mas, do mais fundo de nós, arrancaremos um grito claro e, juntos, ajudaremos a refazer o mundo, construiremos de novo o mundo que sonhámos.

Ergueremos as asas e voaremos e, livres, limpos, puros, traçaremos as rotas que queremos percorrer. Nossos serão os caminhos do futuro.

Feliz 2013!



[E dancemos, e festejemos o amor. Que nossas sejam todas as alegrias! Abaixo o Grupo Corpo dança o amor, uma música de Ernesto Lecuona]



Gato ontem no Ginjal



                                           De escadas insubmissas
                                           de fechaduras alerta
                                           de chaves submersas
                                           e roucos subterrâneos
                                           onde a esperança enlouqueceu
                                           de notas dissonantes
                                           dum grito de loucura
                                           de toda a matéria escura
                                           sufocada e contraída
                                           nasce o grito claro


['O grito claro' de António Ramos Rosa in Antologia Poética]



Gaivota ontem no Ginjal, o Tejo e Lisboa belíssimos, limpos, cheios de futuro