Ginjal e Lisboa

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04 janeiro, 2013

É com vozes que o silêncio ganha


O homem parte sozinho no seu pequeno barco, atravessa o Tejo. Vejo-o junto a Lisboa, vejo-o do lado de lá, vejo-o agora aqui, já perto de terra. É uma pequena figura que se levanta num pequeno barco. Lisboa a magnífica é o cenário à frente do qual o pescador solitário se recorta enquanto caminho e o olho. Fotografo-o.

Com quem é que este homem fala quando atravessa o Tejo sozinho, rente às águas belas que correm para o mar? Quando vem o peixe e ele quer festejar, fala com quem? Ri sozinho? Grita? Chora quando se sente desacompanhado?

Terá deixado o seu amor em terra firme, terá dado um abraço a alguém que lhe dirá em dias de carinho, tu vê lá, tem cuidado com o rio que ele pode ser traiçoeiro, tu não te deixes ir na conversa das sereias. Ou, se o dia é de fúria, talvez lhe agoure, tomara que vás e não voltes, que eu antes só que em má companhia, fica com a que metes no barco, fica com a que te puxa para ela, deixando-me aqui sozinha, tão vadio és tu como é ela.

E ele vai, sentindo as palavras no seu peito, guardando no coração o olhar de quem ficou em casa, esperando.

Ao cair do dia, o pescador regressa. Mas hesita, por aqui fica. É aqui que agora o vejo, de pé ainda. Erguido, solitário.

No entanto, reparo que, afinal não está só. À sua volta uma gaivota voa, não se afasta dele, acompanha-o. E ouço as suas palavras: o pescador conversa. É com ela que o pescador conversa, é a ela que o pescador confessa as suas mágoas, as suas alegrias. Ela é a grande rival do amor que fica em terra. Ela é a que dança, a que não abandona, a que é livre e não quer prendê-lo.

Ela é a que escuta os seus segredos na luz e na escuridão, ela é a que o leva nos braços até à noite, ela o levará um dia para longe. São os seus gritos que o salvam do silêncio.



[Abaixo do pescador com gaivota, um excerto de O poema contínuo e ia dizer belíssimo mas inibo-me, as palavras parecem menores quando por perto de Herberto Helder. A seguir, mais um momento feliz, agora é Jorge Palma e Cristina Branco com um arranjo de Rui Massena e hoje o tema tem que ver, é a Estrela do Mar]


No Tejo, junto a Cacilhas, pescador com gaivota


                                              Uma canção de agora dirá que as noites
                                              esmagam
                                              o coração. Dirá que o amor aproxima
                                              a eternidade, ou que o gosto
                                              revela os ritmos diuturnos, os segredos
                                              da escuridão.
                                              Porque é com nomes que alguém sabe
                                              onde estar um corpo
                                              por uma ideia, onde um pensamento
                                              faz a vez da língua.
                                              - É com as vozes que o silêncio ganha.


                                             [Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Hélder]

23 dezembro, 2012

Não digo do Natal - digo da nata do tempo que se coalha com o frio


O domingo está a começar e eu hesito em desejar-vos já um bom Natal. É dia 23 de Dezembro, ainda faltam dois dias. E, depois, para mim, Natal é a tradição do dia em família, da troca de presentes, é a alegria e a surpresa das crianças, é a ternura dos olhares e dos sorrisos. Não há religiosidades que nos façam ter outras interpretações para este dia.

Recordo vagamente o nascimento de uma figura corajosa da história de todos os tempos e lembro que os heróis são assim, defendem os seus com a força interior que lhes permite vencer medos, dores, abandonos.

Mas, porque sei que, para a maioria das pessoas, o dia é um dia com uma importância muito especial, sinto-me no dever de desejar uns dias muito felizes, vividos com muito sentimento e alegria.

No entanto, as minhas palavras vão em especial para as pessoas para quem o Natal é um dia como todos os dias, ou um Natal vivido em solidão, ou um dia em que sentem, como um peso terrível, a ausência de sonhos e de sorrisos.

Para vocês, queridos Leitores, que não têm crianças e alegrias por perto, que gostariam de receber abraços calorosos, presentes festivos, e que, pelo contrário, têm lugares vazios à mesa, sombras, ausências, saudades, ou para os que estão doentes, para os que não encontram felicidade num dia assim, vão as minhas palavras.

Recebam, da minha parte, um abraço feito de palavras, recebam o meu carinho e a minha companhia, recebam as minhas imagens de gaivotas rodeando o rio e os homens, recebam os cânticos de crianças (abaixo) que encontrei para vos acompanhar. Entendam, por favor, estas minhas palavras como uma visita, como um abraço caloroso. Estou aqui, deste lado, pensando em vós, agradecendo a vossa companhia, tentando que as minhas palavras cheguem até vós. 

E, apesar de tudo, desejo-vos também um bom Natal.



Este sábado de manhã no Tejo, com o Terreiro do Paço do outro lado e eu no Ginjal



                                        Não digo do Natal – digo da nata
                                        do tempo que se coalha com o frio
                                        e nos fica branquíssima e exacta
                                        nas mãos que não sabem de que cio

                                        nasceu esta semente; mas que invade
                                        esses tempos relíquidos e pardos
                                        e faz assim que o coração se agrade
                                        de terrenos de pedras e de cardos

                                         por dezembros cobertos. Só então
                                         é que descobre dias de brancura
                                         esta nova pupila, outra visão,

                                         e as cores da terra são feroz loucura
                                         moídas numa só, e feitas pão
                                         com que a vida resiste, e anda, e dura.


                                        [Soneto de Pedro Tamen in Memória Indescritível]

25 abril, 2012

As nossas pequenas imposturas são uma perda, um delito, uma culpa


E se um dia te cansares, meu amigo, não te canses cedo demais, não te vás depressa demais. Cansa esta vida, eu sei, cansa, verga as costas até aos mais fortes, seca os olhos até aos mais sensíveis, eu sei.

E se olhares para os outros e te parecer que é fácil o caminho que trilham, tão oposto ao teu, deixa que te diga, meu amigo: é tudo uma ilusão porque nada é fácil nesta vida, nada.

E se, meu amigo, te apetecer desistir, ir para longe, deixar de ouvir, deixar de ver, se te apetecer um lugar de silêncio e luz onde o tempo é sublime e bondoso, deixa que te diga, meu amigo, sombrios são, por vezes, os nocturnos atalhos, carregados de culpas, de perdas, sombrios são os atalhos que é preciso atravessar para chegar a esse lugar de sonho onde tudo é perfeito. 

Por isso não te vás já, não, fica por mais algum tempo, continua a partilhar connosco esta vida dura e difícil porque, por vezes, no meio de todo este peso tão difícil de suportar aparecem inesperados sorrisos, poemas, músicas, tocantes palavras e gestos de afecto. Por vezes, meu amigo, este caminho é tão bom de percorrer. Fica, fica.



[Abaixo deste pescador que tem um porte tão digno, poderão ler um poema cheio de significado de José Tolentino Mendonça, poeta e sacerdote, e logo a seguir um belíssimo trecho de Bellini]


Regresso do pescador do Ginjal quando o Tejo e Lisboa começam a envolver-se no véu da noite


                                    O que de sublime e doloroso o tempo guarda
                                    precisava disso de maneira que até é difícil
                                    porque se sentia só nos campos
                                    onde os outros triunfam
                                    descia o sombrio, o nocturno atalho

                                    assim chegava cedo de mais à beira não do fim
                                    mas do informulável
                                    para quem as nossas pequenas imposturas
                                    são uma perda, um delito, uma culpa

                       
['O nocturno atalho' de José Tolentino Mendonça in 'A noite abre meus olhos']
                                 

04 abril, 2012

Desconfio dos poetas que falam muito de luz, das manhãs e das árvores

 
Gosto das manhãs, gosto da luz, dos dias abertos, desnudos, impúdicos. Gosto de flores, de árvores, de folhas, de frutos, do sumo que escorre dos frutos, gosto dos pássaros que se passeiam entre nós, ou que se escondem nas árvores ou que atravessam os céus. Gosto de crianças correndo nas manhãs floridas, gosto de animais brincando no meio das crianças, gosto do sol iluminando as crianças ao pé das flores perfumadas, gosto da beleza inocente e pura.

Gosto.

Mas gosto ainda mais da tarde e da noite, gosto do mistério das sombras, gosto do mar encapelado, do rio indómito, bravio, gosto das árvores desenhadas contra os céus escuros, gosto da gente que se recorta, com sobranceira valentia, contra a magnífica paisagem, gosto das sombras que avançam solitárias para dentro da noite.

Aos sorrisos bentos, às vozes mansas e temperadas, aos meio gestos e às palavras brandas, prefiro a gargalhada, o grito, os peitos abertos, os murros na mesa, os beijos apaixonados.

Gosto de ver a vida de frente, gosto de entrar por dentro do cenário, gosto de ver a gente corajosa que avança mar adentro, que apanha frio, que sofre o vento, tempestades se necessário for, apenas para apanhar um pequeno peixe. (O peixe que alimentará a família)

E gosto de palavras, gosto de poemas que gostam de palavras, gosto de pessoas que gostam de poemas, gosto de pessoas que se perdem por palavras, que olham de frente as palavras, que as defrontam, as desafiam. E gosto, ah mas quanto eu gosto...!, gosto muito da vida, da vida  inteira, da vida que não se rende à brandura dos dias.



[E logo abaixo do homem suspenso sobre o Tejo, pode encontrar toda a emoção de Uma lágrima - Mussorgsky, claro]

Pescador sobre um Tejo agitado, de frente para Lisboa, num fim de dia frio, com pouca luz


                              Desconfio dos poetas
                              que falam muito de luz, das
                              manhãs e das árvores
                              na sua obsessão hospedeira
                              de frutos   aves   e
                              folhas. Desconfio dos que cantam
                              lareiras e vozes mansas, tentando
                              apaziguar o poema com a sua
                              indústria de incensos. Eles
                              encenam como velhos profetas
                              tardias formas de beleza
                              extinta - e fazem do verso
                              um ritual nado-morto
                              de pequenos afectos,
                              indiferentes à faca
                              incandescente que separa
                              o corpo das palavras
                              da substância do mundo.


                              [Quebra-luz de Inês Lourenço in Câmara Escura]

"Desconfio dos poetas"
que desconfiam dos poetas que cantam a paz das manhãs claras
ou as árvores que renascem
as águas que murmuram
antigas histórias de amor ou de saudade

deixem em paz os poetas
na sua eterna inquietação
na revolta
no silêncio
no grito
ou apenas na contemplação...em liberdade



[Poema da autoria da Poeta 'Era uma Vez' in comentários aqui abaixo]

03 janeiro, 2011

Sonho-te real, em lágrimas de mar, repiso os passos

Conto e reconto as horas que passámos, beijo-te outra vez em silêncio, em sonho.

Acho que sou louca por pensar assim, e acho que sou louca por ainda ser feliz.

Mas renasço em cada gesto que fizémos e renasço em cada novo gesto que faço sem ti.


(Num dia de denso nevoeiro, Pescador no Ginjal, quase ajoelhado - e não é caso para menos: há que venerar o Tejo... e os seus peixes)

Sonho-te real, em lágrimas de mar,
refaço as mãos, tuas raízes verdes,
conto e reconto as horas que passámos.
Repiso os passos, rasgo a estrada branca,
renasço em cada gesto que fizemos,
beijo-te outra vez, ajoelhado...

Enquanto longos, dolorosos versos
nas veias vão doendo

17 outubro, 2010

Quarto Poema do Pescador - um momento feliz no Ginjal

O Homem e o Mar

(Dois peixes de uma só vez - a cana vergada, a alegria de uma dupla vitória)

Sei agora que Deus rola nas ondas
vem na última onda ei-lo na espuma
é reflexo brilho incadescência.
Se vou à pesca é para o procurar
se lanço a linha é para ver se o pesco
quando pesco um robalo eu pesco Deus
e é com ele que falo em frente ao mar
ele é o seixo a alga o vento leste
a nuvem que lentamente cobre a lua
ele é a minha dispersão e a minha comunhão
o fragmento da estrela que se vê ainda
a tainha que salta
ele é o grão de areia e a imensidão da noite
o finito e o infinito
vai na corrente corre-me no sangue
não sei que nome dar-lhe
digo Deus
ele é o laço que me prende e me desprende
o que palpita em mim e o que em mim morre
vem na sétima onda e bate no meu pulso
ele é o aqui o agora o nunca mais
a morte que está dentro
rola na onda
bate na sétima costela do meu corpo
chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.
Ele é o vento a noite a solidão
o robalo que luta contra a morte
e é a minha ligação magnética com Deus
esse umbigo do mundo
que rola sobre as ondas e cai do firmamento
com sua espuma e sua luz e sua noite
chamo-lhe Deus porque não sei como o chamar
ao meu ser e não ser
de noite junto ao mar
quando regulo a amostra e sua fluorescência
pescando robalos
ou talvez Deus
e sua ausência.

Manuel Alegre, Senhora das Tempestades

(Once in a life time uma história para contar, a prova de que Deus existe, Lisboa lindíssima em fundo como testemunha, um sábado tranquilo no Ginjal, Cacilhas)
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