Ginjal e Lisboa

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12 abril, 2014

'O Desempregado com Filhos' andou pelo Ginjal mas as gaivotas, os gatos e a maresia não lhe valeram. Coitado deste e de todos os desempregados. [Apesar de tudo, festejemos: chegou um novo vídeo de CINE POVERO]


Apetece dizer: parem tudo! Chegou um vídeo novo do Cine Povero e chega em boa hora. Todos os alertas e chamamentos são poucos quando Abril é chegado.


Gonçalo M. Tavares escreveu e Cristina Branco disse.
Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.
Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda
mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e
baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.



A música é : Eleni Karaindrou, "Medea's Lament I" in «Medea»

e este é mais um dos maravilhosos vídeos do CINE POVERO


31 março, 2013

Em todo o lado é hóspede e em todo o lado é Discreto


Não sei o que há dentro dos grandes espaços vazios. Não sei se há monstros, fantasmas, espíritos. Não sei. Talvez apenas sombras. Talvez a alma de quem ali esteve e partiu.

Mas gosto de espreitar, gosto de imaginar.

Gostava de ter coragem para entrar. Não tenho. Tenho  medo que me agarrem, que não me deixem sair, tenho medo nem sei de quê. Por isso mantenho-me do lado de fora, espreito como uma menina, espreito com medo que uma mão escondida me puxe. Medo de ter medo.

Paredes destruídas, traves tombadas, telhados sem telhas. Nada. Onde antes houve vida agora nada. Onde antes havia vozes, sorrisos, agora há silêncios. Nada. 

E, no entanto, a seguir há a luz. O imenso céu. A vida.



[Abaixo do poema de Gonçalo M. Tavares que aqui veio hoje pela primeira vez, o grande momento de duas vozes que se unem em volta de Pergolesi, interpretando Stabat Mater Dolorosa]


Ruínas no Ginjal, espaços vazios através dos quais se vê a luz



                                              A minha Religião é o Novo.
                                              Este dia, por exemplo; o pôr do sol,
                                              estas invenções habituais: o Mar.
                                              Ainda:
                                              os cisnes a ralhar com a água. A rapariga mais bonita que
                                              ontem.
                                              Deus como habitante único.
                                              Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
                                               verdadeiro é Deus (este bem podia ser o rótulo do nosso
                                               frasco).
                                               Dele também se podia dizer, como homenagem:
                                               Hóspede discreto.
                                               Ou mais pomposamente:
                                               O Enorme Hóspede discreto.
                                               Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
                                               neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
                                               nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
                                               em todo o lado é hóspede,
                                               e em todo o lado é Discreto.


[A Minha Religião é o Novo' de 'Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"