Ginjal e Lisboa

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14 abril, 2014

Quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde só depois de estar maduro



Pintura mural numa parede do Ginjal


Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro

e o ouro íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados 
ou disso a que chamam demónio da analogia 

quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro

quem baixa a mão para quebrar um selo
há-de baixá-la para quebrar os outros e há-de fechar os olhos

e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los

e como pão e bebo água de olhos fechados
como se fosse para sempre

e assim adeus a quem vê
que eu morro inteiro para dentro

e vejo tudo só de entendê-lo



Vídeo de Cine Povero - "Quem fabrica um peixe, fabrica duas ondas" de Herberto Helder in «Servidões» dito por Fernando Alves 


com música Arvo Pärt, "Silentium", Parte 2 de «Tabula Rasa»


Fotografado em Petra (Jordânia), em 2010.



17 fevereiro, 2014

E estou tão leve porque não tenho nenhum segredo e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo. [Herberto Helder na voz de Fernando Alves pela mão do Cine Povero - uma maravilha]


Veleiro no Tejo, a ponte Vasco da Gama ao fundo
Avistado a partir do Ginjal


Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.
Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que daqui a um pouco depois
estarei morto
e só de pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo-me nos nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.
E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do que alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água que toca os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.


Poesia dita

Fernando Alves diz Herberto Helder - 'Levanto à vista' in 'Servidões'

Vídeo da autoria de Cine Povero


(Filmado em São Julião e na Senhora do Monte (Lx.)).

17 novembro, 2013

Esta mão que escreve a ardente melancolia


Com estas minhas mãos escrevo. Delas nascem palavras que não chegam a passar pela minha cabeça. Não as filtro, não as controlo. Soltam-se de mim, livres, voadoras. Quanto mais idade tenho, mais livre me sinto, mais livres as minhas mãos, mais livres as minhas palavras. 

Estas minhas mãos que deslizam pelo teclado é como se bordassem, é como se pintassem, e eu olho admirada para o que delas nasce, palavras que, entre elas, formam flores, nuvens, pássaros, barcos, sombras. São palavras que não me pertencem, palavras que olham admiradas as cores, a música, as lágrimas que delas se soltam.

O mundo é largo, por vezes assustador, por vezes muito belo e as minhas palavras espreitam-no, ora tímidas, ora em festa. Um céu imenso nasce do rio e avança sobre mim, vem carregado de luz e de palavras. 

(Tantas saudades, tantas. Tento iludi-las com palavras e nisso as minhas mãos são exímias, disfarçam tão bem a melancolia.)

É que, sabes, há também o coração e esse não me obedece mesmo. Tantas vezes ele sai do peito para se aninhar na concha das mãos, para que as palavras transportem a sua batida, o seu calor, o seu amor. 

(Tantas, tantas saudades. Não sabes, por acaso, como precisa de carinho o meu coração? Vem, volta, fala comigo, diz-me baixinho coisa nenhuma.) 



[Debaixo de um céu imenso, quase irreal, está parte de um poema imenso do Poeta imenso, Herberto Helder. A seguir, um duo inesperado, Jorge Palma e Pierre Aderne, e uma canção de amor]


O Tejo 


                                               

                                                 Esta mão que escreve a ardente melancolia
                                                 da idade
                                                 é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
                                                 que à imagem do mundo aberta de têmpora
                                                 a têmpora
                                                 ateia a sumptuosidade do coração.


[Excerto de '(a carta da paixão)' de Herberto Helder in Photomaton & Vox]



16 agosto, 2013

nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca


Arde o país. As searas ondulam sob o quente estio. Os ventos transportam as chamas, o calor ardente, a injustiça inclemente. Caem homens, ardem, troncos caídos, impotentes, corpos jazentes.

As mulheres gritam, têm medo, a vida inteira, pés de vinha, oliveiras seculares, os animais junto à casa, os parcos haveres, recordações. Choram, pedem ajuda.

Mas não há ajuda possível quando de um lado está a força hercúlea do fogo e do outro a fragilidade de uma humanidade indefesa.

Dentro do corpo devastado de um país bate um coração cansado. Os amantes já não cantam gemidos de amor, os poetas já não dizem penas abstractas. Pelos corações passa, pesado, um sangue turvo, sem salvação, e as mães já nada podem. 

Pelas paredes sorriem corações poéticos que guardam ainda a inocência de outros tempos. Mas as crianças são sombras que vagueiam de cabeça baixa, as asas brancas caídas, escorrendo como um sangue incolor. 




[Abaixo do pequeno anjo temos no Ginjal, uma vez mais, as palavras invisíveis e implacáveis de Herberto Helder. E, logo a seguir, uma outra menina que canta tanto, tanto: Aline Frazão]


Pintura numa parede - a caminho do Ginjal



                                                     - oh coração escarpado,
                                                     que lhe toquem através do sangue turvo,
                                                     nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
                                                     súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
                                                     mas só a ele o queimará por entre as searas que amadureceram,
                                                     invisíveis, implacáveis,
                                                     alta noite




                                                     [Excerto de Servidões de Herberto Helder]


20 junho, 2013

rosa esquerda, plantei eu num antigo poema virgem


Um poeta deu-me, um dia, uma rosa e eu aconcheguei-a no meu regaço. Estava dentro de um livro e era feita de palavras. Depois ele disse que era uma rosa brava e que eu a deveria guardar no meu ventre e eu assim fiz. Depois, quando do meu ventre saía sangue, eu pensava que ele diria que eram as pétalas vermelhas da rosa. Eu gostava de pensar que assim era. Um sangue fértil e perfumado, um ventre aconchegado, florido e puro.

As mulheres têm uma assombrada roseira, disse ele. As mulheres pensam como uma impensada roseira que pensa rosas. Pensam de espinho para espinho, param de nó em  nó. As mulheres dão folhas, recebem um orvalho inocente. Depois sua boca abre-se. 

E a minha boca abria-se de espanto e desejo - porque as mulheres são assim, inocentes fêmeas. E a boca do meu corpo também, porque as mulheres são assim, sequiosas e maternais. 

A minha roseira brava está dentro de mim, ninguém ma pode roubar. Talvez esteja no meu útero. Ou talvez seja a minha alma, única e simples. Que sei eu do meu corpo? Nada. E, da alma, ainda menos. 

A rosa esquerda do Poeta foi-lhe levada mas ele diz que esse seu pequeno achado florirá para sempre dentro dele pois, fora dele, ela não existe. Levaram a parte exterior da rosa mas a parte interior, feita de carne e sangue, essa ficou-lhe nas mãos suaves, no peito amplo, generoso, floral. E das suas mãos nascem palavras floridas como rosas, direitas e belas.



[Abaixo da flor do cardo que mostra a sua espampanante beleza no meio das roas bravas, parte de um belo poema de Herberto Helder. A seguir prossigo com a descoberta de José Valente]



Não é uma rosa mas estava entre rosas na barreira do Ginjal,
talvez fosse afinal a rosa esquerda de Herberto Helder


                                                (...)
                                                rosa esquerda, plantei eu num antigo poema virgem,
                                                e logo ma roubaram,
                                                logo me perderam o pequeno achado,
                                                mas ninguém me rouba a alma,
                                                roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
                                                um umbigo, um nó,
                                                um nome que só em mim era floral e único



                                                [excerto de poema de Herberto Helder in Servidões]

04 junho, 2013

acautela a tua dor que se não torne académica


Espera um pouco, um pouco, deixa-me dizer-te, assim devagar, que a vida é pouca, pouca, para o tanto que tenho para te dizer. 

Escrevo, rescrevo, apago, escrevo, deleto - olha como eu já falo - e escrevo de novo, mil vezes, mil, mil, rasuro, escrevo, mil palavras tentadas e nenhuma tão perfeita como a que procuro.

O tempo esvai-se, o rio corre, as palavras que te digo voam. Um sopro, um fugaz instante. Breve é a vida. Tão pouco o tempo, tão pouco. 

Espera, não feches os olhos, olha-me, guarda-me dentro de ti antes que eu me vá.

Olhas-me perplexa, calada, tantas vezes já me ouviste nestas demandas, nestas lamúrias, cansada de me dizeres que pare com isto, que viva, que viva o tempo que é pouco.

Mas não posso calar-me, não tarda as minhas palavras estarão mortas. Que terei para te oferecer, então? 

Olhas para o lado, já não me ouves.

Insisto: não olhes a luz que não é verdadeira, não olhes o rio que é efémero. Olha para mim, olha, ajuda-me, procura comigo a palavra mais limpa. Espera, espera, ajuda-me, tão pouco o tempo, tão pouco.

Então olhas-me, séria, e dizes, Não espero coisa nenhuma! Estou farta, farta, farta! Tanta literatice já enjoa. Não voltes a dirigir-me a palavra enquanto não tiveres inquietações a sério. Ou quando tiveres uma dor de cabeça que se trate com uma aspirina. E esquece essas dores académicas da treta que só servem para me maçar. Bolas para tanta conversa! Deixa-me em paz, quero simplesmente olhar o rio. Chato do caraças!



[(Eu hoje não me recomendo... ) Adiante. Abaixo do casal muito bonito, bonitos os dois, que conversam sobre o Tejo, um poema de Herberto Helder. A seguir, mais uma música que me deixa perplexa, mais uma composição de Luciano Berio]



Casal à beira Tejo, Lisboa, a bela, do outro lado, um veleiro negro deslizando com o vento



                                          vida aguda atenta a tudo
                                          e contudo para acabar mais depressa no escuro
                                          escrevo rescrevo
                                          e enfim reluzo e desmorro
                                          (finjo pensá-lo)
                                          um pouco um pouco

                                          acautela a tua dor que se não torne académica



                                          ['vida aguda atenta a tudo' de Herberto Helder in Servidões]

*

Percorri 
despido de mim
os teus poemas.
Enrolaram-se-me no olhar
as tuas palavras.
Feri-me
no fragor surdo
dos teus versos.
Exausto 
não tive mais forças
para buscar
um sentido qualquer!


['Blasfémia! de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

29 maio, 2013

nada pode ser mais complexo que um poema


O homem ajoelha perante a bravura do rio. Ajoelha em silêncio. Com o olhar, o homem percorre as águas, espia os pássaros, espreita a bela cidade. Nada diz.

Estou em frente dele, longe mas de frente. Espreito-o pela lente, espreito-o de frente, sem lente. Não me vê, para ele sou invisível. A maré está muito cheia, a água varre o estreito caminho, agiganta-se, quase grita quando bate na muralha. Mas o homem não a ouve, não se mexe.

Está sozinho, imóvel, silencioso. Talvez o seu olhar se desfaça na água, talvez o seu corpo voe para muito longe. Ou talvez junto dele voem palavras invisíveis. Ou talvez as palavras ajoelhem a seu lado ou brinquem como os pombos que ali pousaram. Talvez as próprias vogais e consoantes se tenham evadido das palavras, aquietadas, brincando aos pés do homem. Ou talvez estejam também em silêncio, solitárias, esperando que o homem as junte, lhes dê uma razão de ser. Talvez esperem que o homem, que é um poeta, as tome nas mãos com a graciosidade de uma menina, como se as palavras fossem pombas, e depois faça a magia que costuma fazer quando a lua se afoga no rio: com um suave movimento de mão, deixa que as pombas voem e, com elas, as palavras e, dentro delas, ele, poeta invisível.



[No dia em que aqui trago pela primeira vez um poema do mais recente livro de Herberto Helder, o Poeta Invisível, continuo a escolher para música os sons quentes de Cesária Évora.]


O Tejo embravecido ao fim do dia no Ginjal com fotógrafo ao fundo




                                       nada pode ser mais complexo que um poema,
                                       organismo superlativo absoluto vivo,
                                       apenas com palavras,
                                       apenas com palavras despropositadas,
                                       movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
                                       nada mais que isso,
                                       música,
                                       e o silêncio por ela fora


['Nada pode ser mais complexo que um poema' de Herberto Helder in Servidões]

04 março, 2013

Do ouro terá a luz interior


Num dia frio, chuvoso, uma cinza molhada caindo sobre o rio, as gaivotas gritando sobre os beirais, os gatos fugindo das sombras, vejo junto ao chão, encostados a uma parede caiada, uns focos de luz dourada, quente.

Aproximo-me e são pequenas ilhas sumarentas, certamente muito doces, pequenos sóis, cercadas de névoa e de desolado frio. Eu, também rodeada de sombras e neblina, vou-me chegando, busco a luz, o calor luminoso, o suco doce, apetece-me mergulhar as mãos nesta luz estelar, rodeio as pequenas e pesadas laranjas. Sinto tanta sede de doçura. 

Num cesto feito de finos vimes que alguém carinhosamente entrançou, repousam as ilhas de sumo laranja. De onde veio este sumo? Da seiva da árvore-mãe, da terra, do sol. E, quando as noites caem e o sol se recolhe, as laranjas repousam, frias, pacientes, perfumadas, esperando que a luz volte, cheia de doçura. Cheiram tão bem estas laranjas.

Mais tarde a seiva escorrerá pela boca sequiosa de alguém que se encherá de luz, de ouro muito doce. A doçura que veio da terra e a luz que veio do sol entrarão no corpo sedento de alguém que passeia rente ao rio num dia envolto em névoa. Assim é a vida. Transitória. Bela, dourada, perfumada. Delicada.



[Abaixo das laranjas de Herberto Helder, mais uma grande interpretação. Continuamos com Martha Algerich, desta vez tocando Domenico Scarlatti]


Laranjas num cesto no Ginjal



                                               Nesta laranja encontro aquele repouso frio
                                               e intenso que conheço
                                               como um dom impossuído.
                                               Do ouro terá a luz interior, terá
                                               a graça desconhecida daquilo que mal pousa
                                               na mesa, no mundo.
                                               - Passar nocturno da água que o sangue
                                               mudamente imita. Ilha cercada
                                               de todos os lados
                                               por uma inumerável, inominável
                                               sede humana.


                                               [Poema de Herberto Helder in Textos e Pretextos Nº 17]
                                             

11 fevereiro, 2013

Eu penso mudar estes campos deitados, criar um nome para as coisas.


Olho o mundo a ficar sem graça, as pessoas a ficarem cinzentas, as ideias a ficarem medrosas e iguais umas às outras, as árvores a quebrarem, tristemente frágeis, os gatos a fugirem do frio, o futuro a ficar sombrio, longínquo, e penso que assim não vale.

Quero que os jovens tenham vontade de fazer não apenas amor, muito amor, mas também novas vidas, mais vidas, que sintam muita vontade de embalar sorrisos. E que as mulheres tenham vontade que o seu corpo seja o leite que alimenta as crianças de amanhã e que os homens se sintam realizados sabendo que um pouco de si viverá para além da sua vida.

E quero gente a fazer o pino, a dançar e a cantar, mulheres de sorriso aberto e cabelos com vida e cor, crianças com moinhos de papel na mão em dias de vento, quero flores, muitas flores e barcos brancos, o rio cheio de velas brancas. E quero que marido e mulher não fiquem de costas viradas, corpos adormecidos, mãos estrangeiras. Quero que se beijem mas com beijos de língua e que se acariciem com paixão adolescente e quero que as mulheres e os homens que vivem sozinhos saiam para a rua a sorrir, de braços abertos, coração aberto e que os cães saltem e corram a rir e a abanar o rabo e os gatos fitem as pessoas com compreensão e que as gaivotas voem com grandes asas brancas sobre os velhos que se sentem sós e tristes.

Quero que as ruas se encham de gente a conversar e a rir, quero que a música invada o corpo de todos, quero que o sol se solte sobre os céus enchendo de luz o olhar dos apaixonados, quero que as estrelas soltem o seu pó dourado sobre as inocentes mãos das crianças e que, por magia, ele se transforme em ouro, flores, pão, pássaros às cores, imensos rios.

E quero que os deuses não nos esqueçam, que nos tragam sempre no seu pensamento, que nos protejam de nós próprios, que nos mostrem o caminho do futuro, o caminho onde nunca, nunca se anda para trás, um caminho de inebriante felicidade, o leito dos prazeres, o infinito labirinto do saber, um caminho onde a terra seja tão fértil que das árvores nasçam palavras e sorrisos. 

É isso que eu quero. 

(É querer muito...? Eu acho que não.)



[De novo aqui no Ginjal Herberto Helder, o homem cujo corpo é feito de terra e do qual nascem palavras como indómitos arbustos. Logo a seguir, no ciclo dos Grandes Intérpretes, David Fray, pianista, virtuoso. Chegou-me pela mão de um Leitor a quem muito agradeço]


O Cristo rei avistado do Jardim do Ginjal




                                     Eu penso mudar estes campos deitados, criar
                                     um nome para as coisas.
                                     Onde era estábulo, na doce morfologia,
                                     fazer
                                     com que as estrelas mugissem e as poeiras
                                     ressuscitassem.
                                     Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas,
                                     que minha inteligência se torne terrífica.
                                     Unir a ferocidade da noite ao inebriado
                                     movimento da terra.
                                     Posso mudar a arquitectura de uma palavra.
                                     Fazer explodir o descido coração das coisas.



[Excerto do poema IV do Poemacto de Herberto Helder in Textos e Pretextos, uma publicação de grande qualidade]

04 janeiro, 2013

É com vozes que o silêncio ganha


O homem parte sozinho no seu pequeno barco, atravessa o Tejo. Vejo-o junto a Lisboa, vejo-o do lado de lá, vejo-o agora aqui, já perto de terra. É uma pequena figura que se levanta num pequeno barco. Lisboa a magnífica é o cenário à frente do qual o pescador solitário se recorta enquanto caminho e o olho. Fotografo-o.

Com quem é que este homem fala quando atravessa o Tejo sozinho, rente às águas belas que correm para o mar? Quando vem o peixe e ele quer festejar, fala com quem? Ri sozinho? Grita? Chora quando se sente desacompanhado?

Terá deixado o seu amor em terra firme, terá dado um abraço a alguém que lhe dirá em dias de carinho, tu vê lá, tem cuidado com o rio que ele pode ser traiçoeiro, tu não te deixes ir na conversa das sereias. Ou, se o dia é de fúria, talvez lhe agoure, tomara que vás e não voltes, que eu antes só que em má companhia, fica com a que metes no barco, fica com a que te puxa para ela, deixando-me aqui sozinha, tão vadio és tu como é ela.

E ele vai, sentindo as palavras no seu peito, guardando no coração o olhar de quem ficou em casa, esperando.

Ao cair do dia, o pescador regressa. Mas hesita, por aqui fica. É aqui que agora o vejo, de pé ainda. Erguido, solitário.

No entanto, reparo que, afinal não está só. À sua volta uma gaivota voa, não se afasta dele, acompanha-o. E ouço as suas palavras: o pescador conversa. É com ela que o pescador conversa, é a ela que o pescador confessa as suas mágoas, as suas alegrias. Ela é a grande rival do amor que fica em terra. Ela é a que dança, a que não abandona, a que é livre e não quer prendê-lo.

Ela é a que escuta os seus segredos na luz e na escuridão, ela é a que o leva nos braços até à noite, ela o levará um dia para longe. São os seus gritos que o salvam do silêncio.



[Abaixo do pescador com gaivota, um excerto de O poema contínuo e ia dizer belíssimo mas inibo-me, as palavras parecem menores quando por perto de Herberto Helder. A seguir, mais um momento feliz, agora é Jorge Palma e Cristina Branco com um arranjo de Rui Massena e hoje o tema tem que ver, é a Estrela do Mar]


No Tejo, junto a Cacilhas, pescador com gaivota


                                              Uma canção de agora dirá que as noites
                                              esmagam
                                              o coração. Dirá que o amor aproxima
                                              a eternidade, ou que o gosto
                                              revela os ritmos diuturnos, os segredos
                                              da escuridão.
                                              Porque é com nomes que alguém sabe
                                              onde estar um corpo
                                              por uma ideia, onde um pensamento
                                              faz a vez da língua.
                                              - É com as vozes que o silêncio ganha.


                                             [Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Hélder]

07 novembro, 2012

E o céu. Basta-nos o nome para lidar com ele. O céu.


Suspensos no silêncio, quase imóveis, os homens esperam. Na sua imensa sabedoria, os homens esperam. O tempo avança, as águas correm num frémito de mil brilhos, o céu reflecte o rio, e os homens quase se anulam. Pequeno, pequeno, eu, dizem num dócil e respeitoso murmúrio.

E, na verdade, não se sabe se o tempo avança ou se o tempo está suspenso. Talvez esteja preso às folhas verdes da árvore que cobre a boca de cena, talvez esteja desfeito nos brilhos que cobrem as águas do rio, talvez percorra as veias dos pescadores ou lhes escorra por entre os dedos, tal como o fio que mergulha nas águas, tal como o olhar que busca a nuvem ou a ave.

As águas passam e levam, ocultas, árvores arrancadas, raízes desfeitas, tábuas, telhas, pedras, restos de casas, amores perdidos, levam a morte e a vida, levam a génese e o ocaso, levam palavras que se afogaram em dias de tormenta.

E o céu, silencioso, limpo, cúmplice, olha. Um pano branco, transparente, um regaço macio, um leito de amor, a casa das muitas asas, o último refúgio.

O tempo, a casa, o mar, o céu, o silêncio. A última palavra. O princípio de todas as coisas. O pecado original. O prazer essencial. O imenso tudo e o infinito nada unidos num incestuoso abraço. E, sempre, o silêncio, o longo, longo silêncio.



[As horas caem verdes sobre o rio. E, abaixo, as palavras de Herberto Helder mexem no silêncio que há dentro de nós. Logo depois a Passacaille de Lully]



Tarde no Ginjal, o Tejo coberto de pétalas brilhantes


                              Por trás da imobilidade, horas verdes
                              caem de espaço a espaço
                              - gotas de água no fundo de um subterrâneo.
                              E em volta um círculo de montanhas atentas.
                              No alto da noite côncava e branca,
                              uma camélia gelada. E metem as árvores
                              para o interior
                              a tinta e os ramos.
                                                        Absorção
                              dolorosa, diamante polido, vegetação
                              criptogâmica.
                                                 - O tempo.

                               E o céu. Basta-nos o nome para lidar
                               com ele.
                                           O céu.

                               Mar inesgotável que desliza no silêncio.




[Excertos de Húmus de Herberto Helder in Poesia Toda 2]

11 abril, 2012

Levam o sangue cheio de letras, as patas floridas sobre a cabeça, correndo, pensando

 
Resoluta a jovem mulher vai estrada acima. Tal como ela, vou eu. Caminhando ao encontro da noite, ideias voando em volta, palavras em torno de um corpo que se apressa a entrar na noite.

E depois outra mulher aparece correndo, firme, correndo como uma égua de fibra, patas pisando o chão e flores nascendo do chão pisado pelas patas, o chão, a terra fertilizada pelo sangue desta e doutras mulheres. As mulheres correm, entram na noite, levam os seus ventres ao encontro da noite, das estrelas. E no seu corpo limpo e livre entra o luar, a maresia, as palavras que voam.

E eu olho o céu que escurece e olho as mulheres que correm na noite, que levam os seus sonhos fortes, que cantam as suas dores e alegrias, e tudo voa, tudo voa - é que as mulheres têm que ter o coração sempre livre. 

As mulheres correm na noite e o céu enche-se de estrelas, de flores, de crianças, de novos sorrisos, e ao lado das mulheres que correm, corre também a lembrança daqueles, daqueles tão queridos, nunca esquecidos, daqueles que para sempre, para sempre, viverão dentro do coração das mulheres livres que atravessam a noite porque há amores transparentes e intangíveis que não morrem.



[Abaixo encontrarão um excerto de um poema que venero (se é que faz sentido dizer que se venera um poema) e logo a seguir uma gravação que não tem grande qualidade mas que é fantástica, Jesye Norman interpreta Berlioz]

Subindo a estrada que sai do Ginjal, a caminho da Boca do Vento


                               Ouço: são elas que partem. E levam
                               o sangue cheio de letras, as patas floridas
                               sobre a cabeça, correndo, pensando.
                               Atiram-se para a noite com o sonho terrível
                               de um lenço vivo.
                               E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
                               a cabeça branca, as patas lembrando
                               pela noite dentro.
                               O rosto sufocado, o som abrindo, muito
                               lembrado. E a cabeça correndo, e ouço:
                               são elas que partem, pensando.



[Excerto de 'Mulheres correndo, correndo pela noite' de Herberto Helder in 'Poesia toda 2']
       

26 março, 2012

Doce demência arrancada à monstruosa inocência da terra

  
Dizes laranja e olhas-me com o suco a escorrer-te na garganta, dizes lua e eu vejo os teus olhos a cerrarem-se de suave amor.

Dizes doçura e apalpas a laranja e eu vejo que adivinhas como é doce o sangue que corre dentro de mim, dizes leveza e eu vejo que olhas com carinho as minhas brancas asas.

Dizes delicadeza e afagas a casca dourada da laranja e eu vejo que os teus braços se enternecem esperando por mim.

E, então, eu digo matéria e olho as cordas que vieram do fundo do mar, e digo inocência e vejo a terra, as pedras, os fios que vieram do ventre do mundo, do fundo do mar, e digo frescura e sinto a demência profana de todas as coisas que jazem aos nossos pés e vieram do fundo do mar e digo assombro e pego com veneração nas cordas entrançadas, nos restos de limos, nas cores esvaídas e em tudo o que o sol dourou e o fundo do mar amaciou.

Abraçamo-nos os dois, então, e perguntamo-nos se será isto a doce demência que une os seres inocentes que por aqui vagueiam. Talvez seja, talvez. E, então, sorrindo, cortas a laranja ao meio e o doce sumo dourado ilumina as nossas palavras.



[Desça um pouco mais, por favor, prove a laranja doce de Herberto Helder e siga depois até à grande música de Mendelssohn cuja música, esta semana, vai povoar este nosso espaço.]


No Ginjal, despojos de pesca, despojos de vida 
     
      
                Laranja, peso, potência.
                Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
                A matéria pensa. As madeiras
                incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
                tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
                recebe soberania.
                E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
                A ferida que a gente é: de mundo
                e invenção. Laranja
                assombrosamente. Doce demência, arrancada à
                         monstruosa
                inocência da terra.


               [Laranja, peso, potência' de Herberto Helder]

09 outubro, 2011

A minha vida é assim - verde, sentada. Tocando para baixo as raízes da eternidade.


Estou aqui, sentada, tranquila à beira deste rio que tanto amo. As minhas raízes estão aqui, na beira da água, dentro da água. Alimento-me da maresia, da aragem, do azul, do espaço. Por isso os meus pensamentos mergulham nas águas, voam nas asas das grandes aves.

Estou aqui e espero, espero. O tempo espera também. Desfruto lentamente os sentimentos, recordo as doces recordações, sonho com doces futuros.

Penso em sorrisos, penso em palavras de amor, penso num olhar que me afaga, penso em mãos que me percorrem com vagar, penso em mãos sempre disponíveis.

Os homens têm mais pressa, têm uma voracidade impaciente. Mas sossegam quando aprendem que o amor é bom quando há tempo para vivê-lo. É a um homem assim que eu espero quando me sento aqui, ao sol, olhando o azul.

Eu, talvez pela idade que tenho, sei que o tempo espera por aqueles que o sabem usar, por aqueles que deixam que as suas raízes mergulhem fundo no mar e as suas asas se levantam para voar livres pelos largos espaços, espera pelos amantes que sabem que os beijos são eternos, que as doces lembranças são eternas.


[A seguir ao Herberto, vamos andando os dois, está bem? Vamos até ali abaixo que há jazz, a fantástica Eureka Brass Band está à nossa espera para começar]

Mulher sentada à beira do Tejo, no Cais do Sodré


           A minha idade é assim - verde, sentada.
           Tocando para baixo as raízes da eternidade.
           Um grande número de meses sem muitas saídas,
           soando
           estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
           A minha idade espera, enquanto abre
           os seus cndeeiros. Idade
           de uma voracidade masculina.
           Cega.
           Parada.
           Algumas mãos fixam-se à sua volta.

          
           (Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Helder)

14 setembro, 2011

E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo


Custa-te dizer as palavras do carinho. Perdeste esse hábito e agora não sabes como recomeçar.

Mas esforças-te, eu vejo, e arrancas do peito palavras como 'a tua boca é um lugar luminoso, arterial'.

Vejo os teus olhos doces que me olham, sinto as tuas mãos cheias de ternura que me afagam e vejo como te esforças para me dizeres palavras de amor: 'a paixão é voraz'.

Eu sorrio-te e agradeço, vejo como te esforças. Tens nas mãos o coração que ainda sangra mas esforças-te, eu vejo.

E eu digo Obrigada, gosto de ouvir as tuas palavras. Fala mais.

E tu suspiras, quero sempre mais, eu sei, e tentas fazer-me a vontade, esforças-te ainda mais mas parece que já não consegues, encolhes os ombros e, para minha surpresa, dizes: agora já chega, agora 'sou um cometa e quero envolver-te as ancas com o meu beijo'.

E eu sorrio, encantada, conseguiste dizer uma frase grande, uma frase bonita e então 'como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas'.

Fim de tarde à beira do Tejo, olhando Lisboa, a iluminada

                                        (...)
                                        Nenhuma
                                        estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
                                        astro
                                        é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
                                        do teu vestido.
                                        As palavras que escrevo correndo
                                        entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
                                        arterial.
                                        E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
                                        A paixão é voraz, o silêncio
                                        alimenta-se
                                        fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
                                        toda
                                        no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

                                        (...)

                                        (excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Helder)

10 agosto, 2011

Espero tirar de mim o mais veloz apaixonamento e a inteligência mais pura

Sim, é verdade: percorro o campo e eu sou as árvores, eu sou as folhas que nascem, que voam, que caem, que nascem de novo.

É verdade, sim, que no meio da noite vejo o sol, e que, quando penso em ti, enfeito de raios o céu, tudo para que tenhamos sempre uma luz que nos guie, que nos ilumine.

Sim, meu amor, é verdade que não sei se é loucura, se é inocência, se é apenas um apaixonamento puro: sei apenas que quero afastar de ti a melancolia, quero depositar em ti as flores que nascem de mim, quero construir uma cidade que nós dois possamos habitar com a doçura do nosso amor.

Há pouco no Ginjal, rapariga junto ao Tejo vira as costas a Lisboa

(A Gare de Sta Apolónia, belo edifício azul celeste, logo ali)

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.


(Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Helder - obra maior da Língua Portuguesa)

27 junho, 2011

De repente, as letras. O rosto no meio das letras, sufocado a um canto.

Mulheres e letras e o seu som, correndo na noite.

Letras correndo na noite, de porta em porta, de país em país, de continente em continente.

Mulheres que dão as letras à luz e as deixam, levadas pelo vento, como lenços.

Mulheres correndo na noite atrás das palavras, decifrando o que está dentro das palavras, para além das letras.

Mulheres que se perdem por palavras.

Mulheres pela tarde dentro, no Ginjal, o céu por cima, o Tejo correndo ao lado

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
de noite, lembrando.


(Fragmento de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Helder - poesia em estado puro, de uma beleza quase excessiva)

15 março, 2011

Não tem amor senão do amor; contudo, o teu ser é destinado à alegria verdadeira

Estás aqui e és tu e mais ninguém. 

Olhas a tua mão e pensas que não estou aí para a afagar; então, com a tua outra mão, substituis a minha, para que elas não ardam de silêncio.

Quase não falas mas, quando ouves a tua voz, pensas que eu estou longe, não a poderei ouvir, e lamentas que eu não esteja aí para te dizer como gosto dela.

Olhas as pequenas coisas à tua volta, tentas entreter-te com esses pequenos afazeres.

Mas sobrevives.

Sabes que eu, mesmo estando longe, estou contigo.

Por isso, alegra-te, deixa que o destino guarde para ti, para um dia,uma alegria verdadeira.

No Ginjal, sobre o Tejo, a Ponte por trás, pescador solitário num dia de chuva

Não tem amor senão do amor.
É um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transportas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.


(Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Helder, obra maior da poesia)

23 fevereiro, 2011

As mulheres pensam como uma impensada roseira que pensa rosas

Ninguém mais fala das mulheres com esta devoção. Herberto Helder, como se bordasse a linha fina, tece um retrato fascinado sobre a Mulher.

E eu, que gosto de ser mulher, gosto de ler estas palavras.

Somos mesmo assim: contraditórias, doces mas capazes de palavras tenebrosas, fechadas e enigmáticas umas vezes, expansivas e alegres outras, cheias de graça, anunciando felicidade ou causando lágrimas, carne e sangue ou apenas encantamento.

Duas mulheres passeiam junto ao Tejo, no passeio do Ginjal

As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho em espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.

Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.


(Excertos do extraordinário 'Ou o poema contínuo' de Herberto Helder)

07 novembro, 2010

Sôbolos rios que vão por Babilónia

Tudo muda, tudo parte, frágil é a memória da paixão. Abro a porta devagar, olho só mais uma vez, é fim da tarde, sopra a brisa, quente como a tua mão e vejo que todo o bem passado não é gosto, mas é mágoa.
Sentada choro as lembranças. Mas nunca me esqueci de ti.


(Dia lindíssimo no Ginjal, claro, fresco, luminoso, Lisboa branca, magnífica, com o Padrão das Descobertas vigiando os navios sôbolo Tejo, calmo, azul)

Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Porque nos pedem cânticos e alegria.
- Entoais, dizem eles, as canções de Sião.


(excerto de Saltério, Salmos do Velho Testamento segundo montagem de Jean Grosjean, tradução de Herberto Helder in O bebedor nocturno)

*

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.
(Primeiras duas Redondilhas de Sião e Babilónia de Luís Vaz de Camões)


Nota 1: "Sôbolos Rios que vão" é também o título do último livro de António Lobo Antunes, livro em que reconhecemos o autor  no Sr. Antunes que jaz numa cama de hospital evocando lembranças do Antoninho.

Nota 2: A forma sôbolo é uma antiga contracção da preposição sobre com o artigo definido o. Significa «em cima, por cima, acima de algo já definido pelo contexto; sobre o» e ocorre na língua culta até ao século XVI.