A jovem mulher retira o chapéu que pousa com cuidado, estende as fitas, alisa-as, e ali fica.
Depois, por nada, pega numa pequena boneca de trapo, afaga-a com jeito maternal. Dura pouco esse gesto de ave: pouco depois pousa-a com desvelos de mãe.
Mas fica de pé, solitária, sem objectivo. Despe, então, o longo e rodado vestido, estende-o sobre a cama vazia. Tira os sapatos, tão pesados, e logo ela que gosta tanto de leveza, arruma-os, um ao lado do outro, dois sapatos tristes. Depois puxa para baixo as meias, retira-as, dobra-as.
Vê-se ao espelho alto no quarto. Agora apenas camisas interiores, roupa de algodão, simples, lisa, branca. Os pequenos seios afloram quando ela abre os atilhos da frente. Deixa descair uma alça. Solta o cabelo. Deixa que o longo cabelo roce ao de leve os mamilos e logo eles se enrijam. Olha-os, rosados, erectos.
Caminha até à janela. Tanta a solidão, tão rasgados e longínquos os voos com que tanto sonha. Abre os vidros, deixa que a maresia entre, aspira-a, os seios resfriados, desafiadores. Deixa cair as camisas que são feitas de nervuras, rendas, pregas, fitas. Despe depois os pequenos calçõezinhos, tufados, com rendinhas. Fica nua, branca, virgem, em frente do espelho, os longos cabelos pudicamente cobrindo o corpo macio, ainda não profanado.
Senta-se, então, na pequena mesa junto à janela aberta, deixa que o som do rio se instale junto a ela, deixa que a luz a acaricie. Começa, então, a escrever
palavras que lhe saem sem pensar,
Alguns Dias dos outros se separaram
Para com distinção adormecer -
O Dia em que um Companheiro chegou
Ou foi forçado a morrer.
Não escolheu as palavras. Saíram das suas mãos como as folhas nascem das árvores. Lê e reconhece-se nelas, fêmea intranquila, mulher tremendo sobre o arame, fugindo do equilíbrio, atraída pelo abismo, pelo doce tumulto das palavas.
Depois fecha o caderno, pousa a caneta, fecha o tinteiro. Olha-se ao espelho. Depois, sem pensar, sobe para o parapeito da janela, aspira o ar fresco que sobe do rio. E voa.
Ainda hesita, pensa que talvez deva pousar na margem, retroceder. Mas não. De novo levanta voo, livre, branca. E pensa que talvez
esta suave sensação seja afinal
l'esthétique de la solitude e, sorrindo, vitoriosa, acrescenta para si própria:
solitaire mais jamais seul. E voa rasgando o ar, breve traço de liberdade cruzando o horizonte.
[Abaixo da gaivota pensadora temos mais um poema de Margarida vale de Gato e, logo a seguir, mais um momento de recolhimento, a música de Palestrina elevando-se em toda a sua imensa beleza e transportando um abraço para os autores dos blogues onde fui beber algumas palavras e inspiração]
 |
Une mouette au Ginjal |
Seria então o esforço para escrever
Sobre o que nos suspende - um traço -
Um rasgo de Ave a soprar
Contra Ar muito denso - breve
O Tumulto, gago o Eco de fêmea
Ímpar, tremendo pelo Arame -
Teu precário equilíbrio - que
Valia? Qualquer Coisa menos
Isto - embora sequer diferente
E até pior - porquanto se
Ressente a solitária Invenção
Do que não se deu a escolher -
['Emily Dickinson, II' de Margarida Vale de Gato
in 'Mulher ao Mar']