Ginjal e Lisboa

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03 dezembro, 2014

Ninguém tem nome: apenas uma escura corda de sons


Tantas vezes a ouvir que sou anónima. Tantas vezes a ouvir que me escondo atrás da ausência de nome como se o nome fosse as vísceras, o sangue, o pensamento, o olhar, o gesto, o sorriso, as lágrimas que me haveriam de revelar. Como se o nome pudesse ser a minha réplica, o meu espelho, o meu adn, o meu descodificador. Que ideia. O nome é nada.

E, no entanto, o meu nome não podia ser outro. É a marca que os meus pais escolheram para mim; e logo lhe apuseram um diminutivo que é o que usam e o que usam os que, da minha infância, ainda vivem. Do meu nome derivou, mais tarde, o nome que o meu amor criou para me nomear e desse outro nome nasceu, depois, outro que os meninos recriaram. Para que querem, pois, vocês saber o meu nome original se ele não é um mas vários e é desse conjunto e de outras variantes que estão por vir que eu sou feita? E se eu estou mais desnudada perante vós quando de mim saem estas palavras do que se me fechasse e exibisse o nome de registo?

Quando quiserem referir-se a mim pensem naquela que é todos os nomes e nenhum, todas as palavras ou o silêncio.


Vista de Lisboa, com o Tejo e namorados,
no Jardim do Ginjal





Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento


de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
que fere o corpo e finalmente o veste
do nome que é o dele





['Corda' de Gastão Cruz in Relâmpago, nº34]





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Two (Rise and Fall) - Sylvie Guillem




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27 setembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Sylvie Guillem


Os entendidos que me perdoem. Estarão habituados a textos técnicos, secos, clean, e não a palavreados de quem escreve sem conhecimentos e com o coração na ponta dos dedos.

Estou a ver estas imagens pela primeira vez. Sou leiga. E delicio-me com a inocência de um primeiro olhar. Quando era menina, fiz ballet e adorava rodopiar, elevar as pernas, usar vestidinhos de tule e deslizar, toda eu sonho e ilusão. Parei. Depois foi a minha filha que queria fazer ballet. Acabou por fazer aeróbica, nada a ver. Mas a música no corpo, o corpo todo leveza, é uma coisa que adoro ver, sentir. E se me permite ter a ilusão de que estou a ver uma pessoa a voar, algo que tanto eu gostava de fazer, então fico presa.

Sylvie brinca, ilude, ilude-nos e nós presos dos seus pés, dos seus movimentos. Depois solta as asas e voa e nós com ela.

E que agradável partilhar a intimidade da aprendizagem, e que intrusivos nos sentimos ao assistir às dores que sempre estão associadas à beleza.

Entrem, meus Amigos, venham comigo (e imaginem que levam uma menina pela mão).


SYLVIE GUILLEM



Sylvie Guillem
(por vezes dita 'o Baryshnikov feminino')
nasceu em Paris,
estudou na Escola de Ballet de Paris
e o que vemos neste ensaio explica tudo.

Don Quixote
é um bailado em 4 actos
com coreografia original de M. Petipa e música de Ludwig Minkus;
foi inicialmente apresentado pelo Ballet do Teatro Bolshoi, em 1869
mas as produções modernas resultam da
versão encenada em 1900 por Alexander Gorsky.