Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

08 janeiro, 2012

Perfeitos os amores sem piedade

  
Há algo de imortal nas promessas, dizia Jorge Luís Borges. O que eu digo é um pouco diferente - há algo de imoral nas promessas. Imoral.

Não me prometas nunca nada e eu, como sabes, também nunca nada de prometo. É imoral.

Podemos, se quisermos ser gentis e fúteis, fingir que acreditamos no que dizemos ou no que ouvimos, podemos sorrir, agradecer, tomar as mãos um do outo, falar baixinho e fazer de conta que sabemos o que queremos daqui por algum tempo, fazer promessas para sempre, jurar amores e fidelidades eternas.

Mas sabes que eu não sou gentil, sabes que sou desapiedosa. Sabes que não gosto de fazer de conta. Olho-te nos olhos e digo-te, sem qualquer compaixão: amanhã não sei como vai ser. Baixas os olhos. Dizes que tu sabes. Mas eu não acredito, não quero que saibas. Quero que cada dia, um após o outro, me descubras, me conquistes, me convenças, me dobres, quero que, a cada dia, eu seja a melhor opção.

E, então, tu dizes, escuta este poema Como um amor que dói sem ter nascido, num verso cabe a vida e o seu olvido. Sorrio. Aconchego-me no ninho quente e acolhedor do teu ombro e digo-te: Não me vou nunca esquecer de ti - isso eu posso prometer-te.



[Juras imorais, versos com a vida dentro - temos que acompanhar com a grande música. Desça, por favor, vamos dar início à semana Rachmaninoff]


A grande e bela cidade, de onde nascem as grandes e imorais promessas

          
           Há algo de imortal numa promessa,
           dizia Borges num poema seu.
           Lembra-me só, sem que eu sequer te peça,
           esse esquecido verso quem mo deu.

           Podia ser quem mais desconhecesse
           um jogo que entre versos e temores
           da nossa própria vida se tecesse
           em doida suspeita de fulgores

           Perfeitos os amores sem piedade;
           abolidas certezas; e a paixão
           podia ser tão só a claridade
           da noite a agonizar à nossa mão.

           Ninguém estende a mão a um poema
           que a memória não saiba transformar:
           neste, corpos e versos são o tema
           dos jogos que aprendemos a jogar.

           Como um amor que dói sem ter nascido,
           num verso cabe a vida e o seu olvido.


[Epígrafe com um verso de Jorge Luís Borges in '366 poemas que falam de amor', antologia organizada por Vasco Graça Moura]

 

Rachmaninov - Evgeny Kissin interpreta o Concerto Nº2 para piano (IModerato)

  


 

05 janeiro, 2012

Não eras senão um corpo

 
Olhas-me de lado, aprecias-me. As coxas, as ancas, sinto o teu olhar a subir pelo meu corpo. Viro-me e aprecias a dimensão dos meus seios. Deixo que olhes.

Nem vês o meu rosto, nem saberias dizer a cor dos meus olhos. Reparo que os teus lábios se entreabrem. Olhas-me guloso e eu não me furto ao teu desejo. Sou carnal, pois sou. Sou carne e gosto de ser vista, tocada. Mas tu não te aproximas, vejo que tens receio. Olhas mas em silêncio, com distância. Ando um pouco mais para que vejas como meneio as ancas, como requebro os quadris, fêmea em dança de sedução.

Olhas-me, a língua passando pelos lábios, os dentes mordendo depois o lábio de baixo. Imaginas, talvez, a minha nudez. Talvez. Vejo que um desejo intenso tomou conta de ti. Mas não te mexes. Para ti sou um corpo, apenas um corpo, mas um corpo demasiado evidente que te intimida.

Espero um pouco. Nem uma palavra, nem um sorriso, nem um movimento. Penso vou contar até três - um, dois, três. Nada. Sorrio-te, uma última tentativa. Nada.

Então viro-te as costas e vou-me embora. Não mais me verás, homem desalmado.


[Depois desta dança, sigamos para um outro bailado. Um bailado num lago, neste lago. Desça um pouco, Tchaikovsky levar-nos-á até ao Lago dos Cisnes]

Mulher e homem em Belém


                                            Não eras senão um corpo
                                            mas atenção, eras o corpo

                                            Melhor assim, ao menos
                                            não foi preciso inventar-te

                                            Para quê se eras assim
                                            carnal e evidente

                                            Como o desejo intenso
                                            como a simples nudez



(Poema, pag.21, de Rui Caeiro in 'O quaro azul e outros poemas')

 

Tchaikovsky - New York Philharmonic interpreta o Lago dos Cisnes


04 janeiro, 2012

Há os que pensam ser, graças ao corno desmesurado e afrontoso da sua virilidade, encarnação do demónio

 
Um ser esquivo passa por entre as ramagens na manhã ainda penumbrosa, enevoada. Vai, uma silhueta afrontosa, talvez um demónio. Ou apenas uma sombra esgueirando-se por detrás do rochedo. Em silêncio, guiado pelos poemas que povoam a sua mente, avança rente ao abismo do horizonte.

Numa outra noite alguém o viu rondando o baile em que rapazes e raparigas, junto ao rio, cantavam e dançavam. Alguém viu o seu vulto e logo fugiu, num susto. Uma mulher jura que uma noite ele roçou a sua janela, viu a sua fugaz silhueta passando breve e que logo, amedontrada, se escondeu, afogueada, debaixo dos lençóis.

À tarde, sentados na relva, sob a árvore quase despida, um grupo de homens e mulheres fala desta estranha e fugidia aparição. Será real? Será apenas fruto da imaginação?

As mulheres dizem que é humano, que é alto, bonito, atrevido, despudorado e dizem que, quando passa rente a elas, o ouvem a dizer toadas ritmadas, poemas desfiados como contas, que lhes sussurra palavras quentes junto ao pescoço que logo se arrepia. Os homens, então, dizem que é um ser perigoso, perverso, que elas não deixem que ele se aproxime, que elas os avisem logo que sintam a sua presença, que eles logo lhe atiçarão os seus cães raivosos.

As mulheres então calam-se e baixam os olhos.

Cada uma sabe que ele, mais que demónio, é um fantástico anjo alado, um anjo viril que as sabe acariciar como nenhum daqueles homens que ali está, um poeta sonhador e esquivo que usa as palavras como se as beijasse e que, de cada vez que as ama, é como se fosse a primeira vez, como se fossem virgens.



[O Unicórnio pede uma música transbordante de paixão - por isso, desça, por favor, que logo ali abaixo do poema há uma interpretação transbordante de emoção sobre uma música que é um fogo ateado]

Numa manhã fria no Jardim do Ginjal, cão fareja o Unicórnio



                                É o mais solitário, o mais esquivo,
                                o mais sonhador dos animais,
                                o unicórnio - a cadência dos versos
                                guiando-lhe os passos. Alguns
                                dizem tê-lo avistado ao crepúsculo
                                da noite, aproximando-se apenas
                                de raparigas e rapazes virgens
                                ainda. Não sei de quem o tenha
                                acariciado. Há os que pensam ser,
                                graças ao corno desmesurado
                                e afrontoso da sua viriliadade,
                                encarnação do demónio. Talvez por isso,
                                os homens mal lhe pressentem o cheiro
                                atiçam-lhe raivosos os seus cães.


                                ('O Unicórnio' de Eugénio de Andrade in 'Os lugares do lume')

Tchaikovsky - Celibidache e Barenboim no Concerto nº1 para Piano (Mvt 3 - Allegro con fuoco)


Solta-se a voz do peso que a retinha e era mais que sufoco e privação

     
Chegas aqui trazido pelo peso que te sufoca, pela privação de confiança, e deixas-te cair. No peito um aperto, na garganta um nó. A voz presa, os olhos baços, alheias-te de quem te olha. És tu e a tua voz que não se solta. Pensas, é esta timidez, é esta incerteza.

Aqui estás, olhando a cidade luminosa, a cidade que veneras e não tens a quem dizer, esta cidade é muito bela, olhas o rio e pensas, sem voz, este rio é tão bonito. Pensas, vou deixar que a voz se solte. Mas receias que a voz voe pelos ares, que alguém te ouça, reprimes esse tão receoso impulso. E se a voz se esvai por este abismo à beira do meu peito?

Ai, esta minha voz que não se solta tanto é o medo de que caia onde ninguém a possa salvar...

O coração bate com mais força, a aragem aproxima-se e sabes que ela quer levar as tuas palavras. Estás sozinho, ninguém te ouve. Ninguém com quem falar, a voz perdeu o seu rumo, a voz perdeu-se na ausência de companhia. Com quem ajeitar as palavras, com quem conversar?

Sentas-te aqui, aconchegas-te em ti próprio, as mãos juntas entre os joelhos, ombros curvados, e pensas, é desta luz que assim ilumina a bela cidade, esta luz queima-me as palavras, esta luz impede-me a voz.

E então um súbito sobressalto, uma mão no teu ombro, um sorriso, um sopro de voz, uma aragem que ondula rente a ti. Olhas. Ouves então: 'que música é esta?' e então, sem bordão, sem medo, ouves-te a dizer, 'esta é a música das sereias que habitam o fundo do rio'. E não acreditas que estas são as tuas palavras, que esta é a tua voz.



[A música de hoje, já ali abaixo do poema, é de uma tão grande beleza que não deverá ser perdida. Pegue nas inesperadas palavras do homem à beira do rio e, com cuidado, leve-as consigo, e segure-as com cuidado enquanto ouvir o piano, o violino e violoncelo do trio de Tchaikovsky]

Suspenso sobre o azul do tejo, homem contempla Lisboa


                                       Solta-se a voz do peso que a retinha
                                       e era mais que sufoco e privação,
                                       - sendo incerteza,
                                       receio de rasgar-se, projectando
                                       a tímida afirmação do seu impulso.

                                       Onde o instrumento para a sossegar,
                                       a acompanhar com uns tragos, o bordão
                                       para as forçosas passagens rente ao abismo?
                                       Já se aproxima na mão que vibra um tema,
                                       chega com o sopro que ondula a sua parte.

                                       O seu encontro só assim se exprime.,
                                       aí se basta, não compõe sem eles
                                       a altura de cada um e o seu total:
                                       trago a extremar-se em luz para fundir-se
                                       num latejo que a vai sustendo e todo a serve.


                                       (Poema 112 de José Bento in Sítios)

Tchaikovsky: Anastasia Injushina no piano, Ana Chumachenco no violino e Alexander Baillie no violoncelo interpretam o Piano trio A minor op. 50, "In memory of a great artist"

 


03 janeiro, 2012

Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando

  
De cabeça baixa, vergado ao peso da memória, o homem avança. Não vai sozinho, vai acompanhado pelo silêncio, vai acompanhado pelas vozes que, dentro de si, lhe recordam os tempos em que todos os ouviam e em que ele a todos ouvia, como que pulsando todos em sintonia.

O homem vai levando pela mão um menino lívido, cheio de sonhos, um menino cheio de alegria que desconhecia que a vida caminharia, um dia, para o fim. Ao seu lado caminha, destroçado, um homem transparente, outrora um homem de cabeça erguida, agora um homem muito cansado.

O homem vai assim, acompanhado também pela música das ondas, pela música das aves que ele não vê e pouco mais. Caminha, pensativo, derrotado, rodeado de rostos transparentes, o do menino, o do homem curvado, o do homem que desconhecia a solidão e o sofrimento - rostos transparentes e silentes que o acompanham.

O homem caminha, pensamentos pesados que lhe vergam os ombros, e não vê a cidade que pulsa e que já pulsa sem ele, não vê as pessoas que passam e que ignoram a sua solidão.

Mais logo irá para casa, o menino transparente pela mão, o homem adulto transparente que o acompanha em silêncio, deitar-se-á, sempre em silêncio, tombará sob o peso da sua vida em escombros e sentir-se-á o mais vulnerável dos homens transparentes.

Mas talvez um dia o homem acorde e olhe pela janela abandonada e inesperadamente veja uma ave branca, não transparente, e, de entre os escombros, talvez se ouça uma música real e que, ao som dela, o homem saia de casa e abrace um menino de verdade e caminhe, de cabeça erguida, olhando a cidade na qual ainda pulsam corações que o querem ver sorrir. Talvez.



[Vou pedir-lhe um favor - desça um pouco mais, leia o belíssimo poema do Manuel António Pina e depois olhe pela sua janela, deixe-se ir ao som de um sublime excerto de uma peça para violoncelo e piano de Tchaikovky]

Homem caminha num dos cais do Ginjal, Tejo adentro, Lisboa já ali

                                
                                 Um tempo houve em que,
                                 de tão próximo, quase podias ouvir
                                 o silêncio do mundo pulsando
                                 onde também tu eras mundo, coisa pulsante.

                                 Extinguiu-se esse canto
                                 não na morte
                                 mas na vida excluída
                                 da clarividência da infância

                                 e de tudo o que pulsa,
                                 fins e começos,
                                 e corrompida pela estridência
                                 e pela heterogeneidade.

                                 Agora respondes por nomes supostos,
                                 habitante de países hábeis e reais,
                                 e precisas de ajuda para as coisas mais simples
                                 o pensamento, o sofrimento, a solidão.

                                 A música, só voltarás a escutá-la
                                 numa noite lívida,
                                 uma noite mais vulnerável do que todas
                                 (o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
                                 um pouco antes de adormeceres
                                 sob escombros.



 ('Sob escombros' de Manuel António Pina  in 'Como se desenha uma casa')            

01 janeiro, 2012

Aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade

  
Passam por mim, ágeis e brancas, contra um mar de azul e elevam-se, tombam, deslizam, bailam, voam, voam, livres, tão livres na sua infinita graça.

Tento que me tomem por uma das suas, que me levem também, que me ensinem a voar e, então, deixo-me estar, imóvel, deslumbrada, e quase me apetece ajoelhar perante tamanha beleza. É um bailado, um jogo, um desafio, e gritam, dão longos gritos de liberdade enquanto se elevam com as suas longas e brancas asas.

Olho em silêncio e penso, é isto que eu quero, esta liberdade pura, esta alegria apaixonada, quero atravessar os longos espaços e voar, voar.

E, então, retrato-as, etéreas bailarinas, pássaros livres, mulheres como eu.



[Quis começar o ano novo com Sophia, com liberdade, com voos brancos - e com Tchaikovsky. Desça um pouco, se quiser partilhar comigo uma música que me habita há muitos anos]


Ontem, gaivotas em plena liberdade sobre um rio de um azul absoluto


                                      Aqui nesta praia onde
                                      não há nenhum vestígio de impureza,
                                      aqui onde há somente
                                      ondas tombando ininterruptamente,
                                      puro espaço e lúcida unidade,
                                      aqui o tempo apaixonadamente
                                      encontra a própria liberdade.


('Liberdade' de Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética II)

Tchaikovsky: Moscow Radio Symphony Orchestra com Mikhail Pletnev no Piano interpretam o Concerto No.2


A começar o ano e a começar a semana que vou dedicar a Tchaikovsky, a primeira obra de música clássica que ouvi com consciência. Foi uma oferta que recebi quando fiz 16 anos e que, por razões várias, viria a ouvir inúmeras vezes.


31 dezembro, 2011

Ainda me atiro à vida desafiando o eterno sem rede - e assim quero continuar em 2012. Que tenham vocês também um belo 2012, um ano que permita todas as vossas ilusões, que vos permita ser muito felizes.

  
Eu era uma menina que gostava de brincar na rua, de andar na rua até ser noite. A grande aventura era brincar de noite na rua. Havia uma liberdade que me era ainda desconhecida, havia uma magia nas luzes amarelas que mal iluminavam a rua, uma magia que eu, então, apenas intuía. Brincava desafiando o medo, escondia-me desafiando os seres nocturnos que poderiam saltar para me amedrontar, e conquistava o meu espaço, a minha segurança.

Ainda hoje, quando posso andar à noite, sob a luz escassa, em jardins por onde passeiam também fadas e duendes, sinto o mesmo - um medo indefinido, uma atracção aliciante, uma vontade de fixar dentro de mim as imagens inventadas que se formam à minha vista.

A criança que eu fui, curiosa, aventureira, destemida, desafiadora e, também frágil, e também sonhadora, a menina que se deslumbrava perante a beleza da rua, dos jardins, das estrelas, da lua, a menina que se deliciava com o sorriso no rosto dos outros ainda está dentro de mim. Todos os dias essa menina convive comigo e, de todos os seres que me rodeiam e que me habitam, é a essa menina que eu dou mais ouvidos, é ela que comanda a minha vida.

Essa menina que adorava correr, que adorava correr em descidas sentindo-se acelerar até quase sentir que não conseguia parar, a menina de cabelos ao vento, a menina que queria ver estrelas candentes, a menina que tudo queria, que tudo amava - essa menina ainda sou eu.


Que 2012 continue a permitir-me guardar dentro de mim, intacta, a criança que fui e sou, que seja uma ano muito bom. E, se o desejo para mim e para os meus, desejo-o também para vocês. Que tenham todas as razões para serem felizes. Construam as vossas próprias razões. Não as deixem passar ao vosso lado. Procurem-nas. Sejam felizes. Em 2012 e em todos os anos que se seguirão.



[E, claro, para encerrar 2011 e abrir 2012, tinha que aqui ter uma ode à alegria e, estando nós a encerrar a semana de Beethoven, teria que aqui vos oferecer o final da 9ª sinfonia - para vos desejar um 2012 muito alegre!]

Jardim junto ao Tejo, em Belém - de noite


                                      Ainda me atiro à vida
                                      desafiando o eterno
                                      sem rede, porque não há
                                      e verdadeiramente não houve
                                      e o pouco dinheiro
                                      poupado para a idade
                                      avançada do tempo gastei.

                                      Volto à ilusão plena
                                       da liberdade da essência
                                       e zango-me completamente
                                       com o absurdo de ter
                                       trabalho para sustentar
                                       a criança que me habita
                                       indo e vindo
                                       digo-lhe:

                                       porta-te bem
                                       criança do meu corpo
                                       sossega o ímpeto do desejo
                                       da luz que não verás
                                       a não ser na ilusão até ao fim
                                       brinquedo nas minhas mãos
                                       enquanto viver.


                                       ('Ir & Vir' de Emerenciano in 'Ir & Vir)
                            

Beethoven - Leonard Bernstein e a Orquestra Filarmónica de Viena interpretam a Ode à Alegria (final da 9ª Sinfonia)





30 dezembro, 2011

Era já noite mas eu corria, corria cegamente pela página fora

 
Vou levada pela aragem fresca que vem do rio. Aos poucos as pessoas vão rareando. É quase noite, daqui a instantes já é mesmo noite e eu já estou sozinha. Passam pequenas embarcações iluminadas no rio, riscos de luz atravessando a escuridão com cheiro a maresia.

Percorro esta rua e não sei o que procuro. Talvez um rosto que saia do escuro, talvez uma voz que suba do rio, talvez um corpo nu esperando por mim no fundo de um veleiro, talvez uma luz, talvez.

E, então, vejo que sob os meus pés começam a nascer palavras. Emocionada detenho-me. Um caminho feito de poesia. Por cada passo que dou, nova palavra se desenha. E eu vou lendo Tejo, gente, pertence, minha terra, meu mundo e, então, começo, quase em silêncio, quase sem ver, a dizer as palavras que nascem à minha passagem. Eu, mulher feita de palavras, percorro as linhas dos poemas que alguém, um dia, dispôs gentilmente sobre uma página.

Por estas linhas de palavras vou, guiada por uma estrela invisível, silenciosamente andando pela noite dentro.




[Às palavras silenciosas dos poemas deverá juntar-se a beleza imaterial da música que abaixo poderá encontrar - um raro momento de beleza, como poderá confirmar]


Anoitecer à beira Tejo, num caminho feito de palavras em Belém


                               Era já noite mas eu corria
                               corria cegamente pela página fora.
                               Ou era talvez a rua. Corria
                               para um encontro
                               não sei ao certo de que
                               de quem.
                               Um nome um rosto
                               um corpo nu deitado no abismo.
                               Mas era uma estrela
                               que me
                               guiava.
                               Era um sismo
                               era um vento.
                               Ou talvez a palavra. Ou talvez a palavra.
                               E por isso eu corria
                               loucamente corria pela noite dentro.


                               ('Um sinal' de Manuel Alegre in 'Livro do Português Errante')
 

28 dezembro, 2011

É preciso ir além do deslumbramento, como se foi além da dor

  
Como falar desta terra tão amada? Como dizer-te que a minha amada cidade é quase intangível, é luminosa e branca, tem castelos e vielas, becos e escadarias, tem matas e palácios, e guarda mistérios, indizíveis segredos, tem jardins de rara beleza, tem lagos, estátuas, fados e má vida, tem ruas com tectos de jacarandás, tem cais onde se fazem juras de sangue e escadas que descem para um rio que a banha, um rio largo e suave que tem veleiros e grandes navios que vão para o outro lado do mundo? Como dizer-te?

Chega-te aqui e olha comigo. Vês este manto leve e transparente que a cobre? Vês como é bela a cidade branca que aqui se desdobra para nós?

Vem, assiste a este raro deslumbramento, senta-te aqui em silêncio e olha comigo. Não arrisquemos errar nas palavras. Que palavras poderia eu usar para te dizer como é tão grande esta minha devoção, como explicar-te que é quase dor isto que sinto?

Não, não arrisquemos manchar a sublime transparência desta cidade sonhada, não, deixa que guarde as palavras. Deixa que algum poeta as escolha. É que, sabes?, esta é a cidade dos poetas, por aqui se desenha a rota para a poesia. Fica, pois, junto a mim e rezemos, que divina e bela é a cidade que guarda todos os sonhos dos poetas.



[Depois do belo poema aqui abaixo, um momento sublime: os violinos trazem-nos o som dos deuses, ou dito em prosa, de Beethoven]


Numa manhã de neblina, veleiro branco numa atmosfera quase imaterial,
o Tejo e Lisboa envoltos em tule branco


                                          Houve terras que de tão sonhadas
                                          não puderam ser ditas senão em prosa lenta,
                                          isto é, em poesia.
                                          É preciso ir além do deslumbramento,
                                          como se foi além da dor
                                          (e é mais difícil,
                                          porque o deslumbramento dura menos
                                          e distancia).

                                          Nessas terras o comércio das palavras
                                          fez-se entre olhares desdenhosos e juras
                                          de sangue.

                                          Foi tão estranho seguir
                                          esta rota para a poesia...


('O caminho das Índias' de Luís Filipe de Castro Mendes in 'Lendas da Índia')
 

Beethoven: o Amadeus Quartet interpreta String Quartet Op.18-6 2/4




 

27 dezembro, 2011

O pulsar das palavras

  
Subo estas escadas que não levam a lado nenhum. Fico mais perto do céu, mais perto das aves que esvoaçam por aqui. Vejo o rio em toda a sua largueza, vejo a branca e luminosa cidade. Estas escadas são brancas e alguém, nelas, desenhou o céu e as nuvens.

Uma vez ali, olho à volta e digo 'daqui solto as palavras, daqui as deixo voar'.

Umas vezes vejo-as a voar, a elevarem-se nos ares. Mas, outras vezes, elas caem, rodopiam rente ao chão, mergulham no rio, afogam-se. Então chamo por elas, 'voltem, voem, afaguem-me, afagem o meu amor, afaguem aquele gato, afaguem aquele velho que ali olha o horizonte, voltem, voltem' mas elas, nesses dias, têm uma densidade que não lhes permite voar, o seu peso arrasta-as para o interior da terra, para o fundo do mar.



[Continuamos com Beethoven e a sonata para violino e piano, já ali abaixo, deixa-nos ver o contraste entre densidade e leveza]



No jardim do Ginjal, escadas para o céu
(e para ver melhor o Tejo e Lisboa)

                                    O pulsar
                                    das palavras,
                                    atraídas
                                    ao chão
                                    desta colina
                                    por uma densidade
                                    que palpita
                                    entre
                                    a cal
                                    e a água,
                                    lembra
                                    o das estrelas
                                    antes
                                    de caírem.


                                    ('VII. Micropaisagem' de de Oliveira in Trabalho Poético)

 

Beethoven - Anne Sophie Mutter no violino e Lambert Orkis no piano interpretam Sonata (Sonata for violin and piano No.8 in G major. op.30 Nr.3)



26 dezembro, 2011

Diz-me assim devagar coisa nenhuma

 
Estou numa torre de vidro, transparente, e eu, tão rodeada de gente, sinto-me sozinha. Faltam-me as tuas palavras doces, os teus abraços quentes, os teus lábios no meu pescoço, faltam-me o teu olhar marialva e irreverente pousado nas minhas pernas, invadindo o meu decote. Faltas-me tu.

Se te perguntasse, dirias que também sentes a minha falta, dirias que, antes, fazia de ti um homem melhor, que agora te falta a motivação.

Mas não pergunto. Custa-me muito ouvir essas tuas palavras - sou eu ao espelho, eu sem ti ao meu lado, imagem amputada.

Saio do gabinete, desço ao interior da terra e, uns minutos depois, estou a emergir à superfície. A profissional exigente ficou para trás. Dirijo-me à beira do rio. Lá onde o ar é fresco, o horizonte largo, as pessoas desconhecidas, as aves de longas asas brancas atravessam os mares, lá eu respiro fundo, misturo-me na pequena multidão que por ali paira. Ninguém me conhece, ninguém me vê, e isso é bom, sinto-me completamente livre.

Vou falando em silêncio, 'ficaram tantas palavras por dizer, ficaram tantos sorrisos por esboçar, tantos beijos, tanta ternura, tanta emoção por viver, deixámos tantas coisas para trás.' . Mas logo me repreendo. 'Tanto queixume, coisa desagradável. Vá mulher, coração ao alto.'

E então tropeço em ti. Sorris, contente e surpreendido, caloroso, cheio de ternura. Abraçamo-nos felizes, íntimos, só nós dois. E então, sorrindo, numa voz meiga, dizes-me, 'Diz-me devagar coisa nenhuma'. E eu sorrio, aconchego-me no teu ombro e digo-te, baixinho 'eu tenho uma vida e, ao lado, um destino. Não se encontram. E sou fiel ao meu destino, tal como sou fiel à minha vida. O meu destino é um mundo só meu, povoado por memórias, por sonhos, um mundo de abraços, de espelhos luminosos, de sorrisos, um mundo sem mácula, todo e só verdade'. Tu abraças-me, beijas-me o rosto, estás inesperadamente quentinho, sinto que sorris, 'eram outras as palavras que quereria, agora, ouvir mas, ainda assim, obrigado, continua a dizer-me palavras assim, sem mentiras, sem reservas, continua presa a mim e a dizer-me, devagar, coisa nenhuma'.

E deixamo-nos ficar abraçados, sorrindo de ternura, contando um ao outro, vezes e vezes sem conta, coisas nenhumas. E, no entanto, ambos sabemos que é apenas uma miragem. De facto, o que abraçamos é uma miragem, um sonho, coisa nenhuma.



[Desça um pouco, leia o belo poemas de Jorge de Sena e, logo a seguir, deixe que eu, quase desejando ser belle de jour, eu clair-de-lune, o/a leve até à Sonata Moonlight de Beethoven. A semana Beethoven começa hoje e começa envolta em recordações. Veremos o que o resto da semana nos reserva]



                                   Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
                                   como a só presença com que me perdoas
                                   esta fidelidade ao meu destino.
                                   Quanto assim não digas é por mim
                                   que o dizes. E os destinos vivem-se
                                   como outra vida. Ou como outra solidão.
                                   E quem lá entra? E quem lá pode estar
                                   mais que o momento de estar só consigo?
                                   Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
                                   o que à morte se diria, se ela ouvisse,
                                   ou se diria aos mortos, se voltassem.


('Fidelidade' de Jorge de Sena de Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço)
 

Beethoven - Valentina Lisitsa interpreta "Moonlight" Sonata op 27 # 2 Mov 1,2



22 dezembro, 2011

Perpassam vivas, gravemente alegres, junto de nós e dos que nós nem vemos

 
Era eu e era, então, uma menina e tinha os meus avós. Fiquei mulher e eles ficaram velhos. Um a um foram partindo. Depois foram também alguns tios. Vão indo. E alguns colegas. E alguns amigos. E os poetas. Um dia foram também Sophia e Eugénio. David já tinha ido - David que um dia escreveu que haveria sempre um lugar à mesa para quem muito se amou e que partiu mais cedo.

Vou andando por aqui, neste sítio tão azul, um céu imenso cobrindo um rio azul e uma cidade branca e as palavras vão voando à minha volta. Palavras alegres, luminosas que voam como aves brancas e livres.

Quem disse estas palavras que aqui voam brancas e leves, vivas e libertas? Sophia, Eugénio, David, Natália, e outros que alguns pensarão que estão ausentes. Não estão. As suas doces imagens perpassam neste local mágico, iluminam os nossos dias apagados, abrem os limites, desdobram os horizontes.

Junto a mim estão os ausentes, todos os ausentes, todos os que estão longe, todos os que a vida afastou de mim, está aquele que o meu coração ama. Ao meu lado voam os meus pensamentos, as minhas recordações, as palavras que os poetas disseram, as palavras que os meus queridos disseram, as palavras de doce sorriso que aquele que o meu coração ama um dia me disse.



[Depois do poema encontrará uma tocata e fuga, Bach, claro, um ser gravemente alegre, iluminado, de quem nasceu uma música absolutamnete luminosa]


Reflexo do Tejo, de Lisboa, do Tejo numa janela no Ginjal e a sombra de alguém que passa


                              DOCES IMAGENS QUE PASSARAM. ERRAM
                              ao nosso lado, deste lado ausentes.
                              Perpassam vivas, gravemente alegres,
                              junto de nós e dos que nós nem vemos.
                              E, contudo, de não as vermos surgem.
                              Cumprem os movimentos luminosos
                              da sua natureza, que os oculta
                              ao pesadume material dos olhos.
                              Não obstante, sabemos que as imagens
                              alegremente ao nosso lado vivem
                              e, com certeza, pacientes sabem
                              condescender com os limites,
                              embora imponham a evidência grave
                              que a ordenação não omite.
                              Passam. Perpassam aqui perto. Trazem
                              um mundo a iluminar-se e que os exige.


                              ('Doces imagens que passaram' de Fernando Echevarría in 'In terra viventium')

Bach - Karl Richter interpreta Tocata e Fuga (BWV 565)


21 dezembro, 2011

Um beco denso chama ao segredar que não virá ninguém

 
Ninguém chama por ti. Ninguém te espera. Vais até onde os passos te levam que o coração ficou para trás, naquela casa velha, paredes caídas, janelas exangues.

Caminhas e ninguém te acompanha, ninguém fala contigo. Vais por este caminho que não te leva a casa nenhuma, que não te leva a ninguém. Vais rente a estas outras casas, casas vazias, casas desoladas, e tentas ouvir uma riso, uma voz, um gemido que seja. Nada. Ninguém. As vozes ausentaram-se destas casas há tanto tempo. Encostas-te mais, talvez das paredes venham segredos, um sussurro, uma respiração. Nada.

Então, começas, sozinho e quase silente: dá-me, meu deus, um sorriso, dá-me, meu deus, o calor de uma mão, dá-me, meu deus, uma luz, uma voz, dá-me, meu deus, algum alento, não me deixes aqui sozinho, meu pai, dá-me um rosto que se debruce sobre o meu, dá-me, meu pai, um olhar que me aqueça, dá-me, senhor, uma casa onde alguém me espere. Por aqui vou, meu pai, ao longo da margem deste rio e vou exausto, tão exausto, meu deus, tão exausto, dá-me senhor alguma ilusão, alguma alegria. Dá-me, senhor, uma mão que limpe estas lágrimas que me queimam, dá-me, senhor, um carinho, um qualquer afecto, estas paredes estão caídas, estas casas estão mortas, a minha casa está tão triste, meu pai.

E, então, sentes um afago ligeiro no rosto. Sorris. Com a tua mão sentes o teu rosto que tão suavemente foi acariciado. Sabes que foi o vento, outra pessoa diria que foi apenas o vento. Mas que mal tem?

E então, acompanhado pelo vento, caminhas mais feliz, já não vais tão sozinho.



[Não deixe de buscar o som de deus nos violinos de Bach. Está logo a seguir ao poema de José Bento]


No Ginjal, casario velho, abandonado, o Tejo bem vivo e alguém que olha


                                       Uma estrada, um carreiro
                                       inscrito por passos que o não lembram;
                                       um beco denso chama
                                       ao segredar que não virá ninguém.

                                       Aí mantém-se a casa,
                                       apesar de tão ausente em anos
                                       de estar e não estar
                                       senão com o dono, como errante.

                                       Onde vozes e luzes
                                       se conciliam a cingir os dias;
                                       e palpitante, a sombra
                                       prolonga quartos, orações, vigílias.

                                       Margem de um rio exausto,
                                       esse domínio jaz incerto
                                       com astros, ervas, sangue,
                                       cifras para interrogar ou prescrever.

                                       Ao findar essa estrada
                                       outra começa, e um descampado;
                                       onde se tentam vagas
                                       passadas a conduzir a um acaso.

                                       Se um apelo nos laça,
                                       talvez venha de lá, mas sem um nome
                                       a trazê-lo com rosto.
                                       E só nos move o longo vento ao longe.


                                      (Poema 69, 'a Ricardo Defarges' de José Bento in Sítios)

Bach - Rachel Podger e Andrew Manze interpretam Concerto para Dois Violinos

 


 

20 dezembro, 2011

Não sou a imagem que buscas fixar, na objectiva do espanto tu não me vês

 
Dizes, vou fotografar-te e eu sei que queres tanto fazê-lo. Dizes, vira-te para a luz e eu faço-te a vontade, fico de frente para a luz. Dizes, vira-te um pouco, quero-te quase de perfil; eu viro-me, assim está bem?

Olhas pela objectiva e dizes, estás tão séria, sorri, e eu olho-te nos olhos, por dentro da objectiva e digo, não consigo.

E tu olhas-me nos olhos por fora da objectiva e eu recebo o teu olhar nu. Eu, que estou virada para a luz, entrego-me nua, banhada pela luz, sem te ver. Não sorrio, não te vejo. Dizes-me, então, não feches os olhos e eu digo-te que é da luz mas que foi apenas um bater de pálpebras. E tu dizes, não estás aí.

E eu digo-te que estou, que fixes a minha imagem. E tu insistes, não estás cá.

E eu, então, fecho os olhos e penso, não, não estou aqui. A minha quietude esconde o meu voo, estou a voar, parti sobre o rio, não me vês porque não podes, guarda o teu espanto.

Esta que aqui vês, que tem o meu cheiro, que tem os meus olhos, que tem o meu corpo, esta que ocupa um espaço que antes era meu, esta não sou eu. Eu há muito que parti, eu há muito que estou onde não me podes alcançar. Mas não faz mal, eu finjo que estou aqui. Vou sorrir, dispara agora.



[E então a flauta de Bach começa a vibrar enchendo este grande espaço. Desça um pouco para recolher as notas, para segurar as palavras, para registar o instantâneo.]




                                    Não sou a imagem que buscas fixar,
                                    na objectiva do espanto tu não me vês
                                    porque não podes.
                                    A quietude é uma velocidade vertiginosa,
                                    entre um oscilar de pálpebras e outro
                                    orbitei o universo
                                    regressei ao ponto de partida.

                                    E não são meus
                                    os aromas de bosque que ocuparam
                                    o espaço onde antes fui eu.


                                    ('Instantâneo' de Soledade Santos in 'Sob os teus pés a terra')