Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

16 outubro, 2015

Há um ponto sem chão nem ponte em que só é preciso abrir os braços e voar.






Com um olhar serás capaz de me tirar o chão. Aprende isso. Com um olhar e um sorriso serás capaz de me tirar o controlo, o raciocínio, tirar-me de mim, com um olhar serás capaz de me deixar disponível para ti. Aprende isso para que percebas que não o deves fazer.

Estou a avisar-te. Prolonga o olhar, prolonga, deixa-te estar assim, parado, a olhar para mim e ver-me-ás sem força, sem armas, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Olha para mim dessa forma, olha, e sentirás que estás a despir-me, a deixar-me vulnerável, à tua mercê. Por isso, não o faças. O risco é maior do que pensas. Aviso-te: não o faças.

Olha-me, olha-me assim e depois não te queixes se um dia eu te cair nos braços. Olha-me, olha-me. Olha-me assim, de longe, um sorriso clandestino, um sorriso de quem se aventura por terrenos proibidos - sabes que são proibidos, sabes, sabes que sim. 

Olha-me assim se me queres descobrir. Olha-me, sente-me, toca-me a pele, a alma. Olha-me. Olha-me como se estivesses de olhos fechados, apenas a imaginar-me. Olha-me, olha-me nua nos teus braços, as pontes abolidas. Mas depois não te queixes. Avisei-te. Olha-me assim, despudorado, olha-me assim e depois não te admires quando me vires a voar. A voar, a voar. A voar para me aproximar mais e mais e mais de ti. Olha-me, olha-me, mas não te admires quando me sentires alojada no teu coração.



Há um tempo para estar só
há um tempo para estar nu
há um tempo que falta para ser
o bastante uma coisa e outra
há uma ponte em direcção ao tu

que é necessário atravessar e que
é necessário, coragem, minar
e há um ponto sem chão
nem ponte em que só é preciso
abrir os braços e voar.

.....

O poema pertence a O Quarto Azul e outros poemas de Rui Caeiro

Viajei ao som dos coros da Igreja Ortodoxa Russa

As fotografias foram feitas no Ginjal
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14 outubro, 2015

Tão linda que só espalha sofrimento, tão cheia de pudor que vive nua





Há dias assim, sem lua, o céu escuro, a noite cansada, as palavras que fogem para lugares inalcansáveis. Estás aí, eu sei, estás aí e talvez esperes por mim. Estás aí e eu sinto-te, perto, esperando um sinal, uma palavra perdida, escondida, invisível. Mas o céu emudeceu, o rio está envolto em negrume, as minhas mãos deslizam pelas palavras que voam com uma melancolia nova. Voam de mim, as palavras. Voam, sabes?

Abro a janela, tento que a aragem húmida me traga uma nota de música, um choro, um riso, qualquer coisa. Mas não, é silêncio o que vejo desta janela escura, um silêncio pesado. 

Olho a ausência à minha frente, o escuro, e, porque tenho vontade de voar, imagino que chegas até mim e, em segredo, me dizes:

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Fecho os olhos, leio as sombras que escondes no meio da luz, recolho flores, acaricio as cores que espalhas no espaço infinito. Fecho os olhos e penso em ti. Fecho os olhos, e tu tão longe, tão longe, tão longe. Existes? Existes? Estás aí?

Sonharás, às vezes, comigo, inventarás abraços nunca dados, beijos proibidos, inventados, momentos loucos que nunca foram nossos? Dirás, como se dissesses a verdade, memórias que nunca nos pertenceram? Assim:

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Lamentarás um dia ter sonhado comigo? Ou não? Tu que me conheces tão bem como se me conhecesses, dirás que sou como a lua, longínqua, nua? E que só espalho sofrimento? Dirás isso, acusando-me? Ou desculpando-me? Dizes isso só para ti? Dizes, como num lamento:

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

Ah, não me respondas. Deixa-te estar em silêncio, preso à sombra do silêncio. Sabes, nada posso fazer. Gostava de, para ti ser uma estrela, gostava de encher de luz a tua vida, gostava de te transportar sobre flores e versos. Mas nada posso fazer, sou apenas uma mulher que vive nua, uma mulher feita de música, luar e sentimento.


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O título deste post e o excerto final pertence ao poema pertencem ao Soneto do Corifeu de Vinicius de Moraes que é lido por Rafael Mendes. As outras duas estrofes pertencem ao Soneto da Devoção também de Vinicius.

As fotografias foram feitas, este fim de semana, no Ginjal.
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02 outubro, 2015

Um dia prometeste deixar no estuário da nossa cama






Não pensámos, não, que fosse eterno. Por vezes fingíamos acreditar mas ríamo-nos logo a seguir para que ficasse claro que sabíamos que um dia terminaria. O sabermos que era efémero dava mais valor ao que tínhamos. E, enquanto o tínhamos, sentíamos que era eterno mas não o dizíamos, não queríamos que o nosso amor se tornasse risível. 
Tecias sedas com os meus cabelos entre as tuas mãos e dizias vou tecer um manto invisível para nos cobrirmos quando dormirmos na beira do rio e eu deixava que o calor das tuas mãos, desfiando-me lentamente, me transportasse leito fora como se já pelo rio o meu corpo navegasse, junto ao teu, junto ao teu. 
Tanto que eu gostava, na cama, de sentir a pele do teu corpo junto à pele do meu corpo disponível, teu, teu. 
As tuas mãos percorriam os contornos do meu corpo, tão macio, dizias tu, e eu gostava de te ouvir, segredando-me convites indecentes ao ouvido e isso era um segredo teu, só teu, só teu. 
As minhas pernas enleavam-se ainda mais nas tuas, e eu deixava que o teu corpo respirasse sobre o meu, navio suave deslizando por um rio vibrante, água e fogo, flores e vento, pássaros e sonhos, amor meu, amor meu.
Lembras-te? 

Lembras-te dos nomes que usavas para dizer o meu nome? Dos nomes que usavas para dizer o teu amor? Dos nomes que usavas para dizer o teu desejo, o meu desejo? Lembras-te?

Lembras-te de como me abraçavas, a tua boca escondida pelo meu cabelo, e tu, indecoroso amor meu, dizendo maldades, inquietando-me? E do rio, lá em baixo, que não sabia refrescar o calor do meu corpo, lembras-te?

E depois um dia foste-te. Não te despediste. 

Nunca mais te vi. Nada sei de ti. Nem sei se ainda sei o teu nome. Nem sei se ainda sei o meu nome. Nem sei se ainda existo. Sem ti, nem sei se alguma vez existi.

Fecho os olhos e tento recordar-me do nome que dizias quando dizias o meu nome. Mas o que ouço é apenas uma voz branca, sem palavras. Uma voz vazia, uma voz vazia desfiando memórias sem olhos, perdidas na cama que era nossa e que hoje está vazia.

Meu amor que te amo tanto, não voltes para mim, deixa-te estar no recanto mais profundo do meu sangue, lá onde não poderás voltar para ti. Amor meu, amor meu.




que foi que    de repente     eu disse
para que começasses a dar outros nomes ao que
pensávamos ser eterno    e habitar no
mais profundo recanto do nosso sangue

ouve-me   ouve-me   e dá depois o
nome que quiseres às mãos que um dia
prometeste deixar no estuário
da nossa cama

onde hoje apenas
se desenha o côncavo lugar do que
ardilosamente roubaste na partida


[de Alice Vieira in Os armários da noite]

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Yiruma interpreta Dream

As fotografias foram feitas no Ginjal

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22 setembro, 2015

Escuta homem que vens






Escuta homem que vens. Não sabes, porque não podes saber, porque eu não te disse, porque nunca te direi, mas sabe, homem que vens, que tenho ainda nas minhas mãos o cheiro que inventei para as tuas, e nos meus olhos o teu olhar que me quer olhar com infinita doçura e nos meus lábios o sorriso que um dia sonhaste ver e o sabor da tua pele que não saboreei.

Escondo-me de ti, de mim, dos sonhos, das asas, da luz, dos ventos, dos segredos, de tudo. Escondo-me, enrolo-me, encolho-me dos recantos, calo-me, esqueço-me. Num buraco escuro, no recesso da raiz de uma árvore esquecida, num desvão de uma escada clandestina, na intimidade das folhas de um livro que tacteaste, por aí vagueio eu, bicho com medo, invisível, quase perigoso. Não me encontrarás. Mesmo que me encontres, não serei eu.

Sou uma mulher selvagem, homem que vens, sou uma mulher sem piedade, sem remorsos, uma mulher danada que esquece quem a ama, que ignora lamentos e finge não ver as palavras que desenhas para que os meus olhos se lembrem de ti, uma mulher que apaga os rasgos que lhe abriste na  pele, no coração.

Os lençóis conservarão talvez as formas que nunca lá deixaste e, se eu encostar o ouvido ao fundo do teu coração que sinto bater aqui junto ao meu, sentirei a tua respiração gentil e poderia até adivinhar como é a pequena morte que conhecerias se visitasses o meu corpo. Sinto-te aí, sinto-te, ouço a tua respiração, vejo os teus olhos, sinto-te, sinto-te. A tua pele, o teu corpo - sinto, sinto. O calor do teu corpo, o cheiro do teu hálito. Aqui, junto a mim. Sinto.

Mas eu sou uma mulher impiedosa, danada, uma mulher que vive no fundo do mar e desconhece a brandura das estepes, que desconhece os concâvos do macio das tuas mãos, a curva branda do teu ombro que me aguarda. Desconheço-te, ignoro-te, tapo a recordação de ti. Faço-me de mil silêncios, fundo-me com as paredes, refugio-me onde não me vejas, não me lembres, não me queiras. E esqueço-te, ignoro-te. Vives no fundo mais esquecido de mim. Os meus uivos não chegam até ao lugar escuro onde te escondi.

Podes soltar palavras no ar, semear pássaros pelos ventos, trepar nu aos telhados, descer ao fundo do mar, amar-me com a carne, sem virtude, ser gato sem dono, cardume de peixes, raiz ou flor. Podes. Mas de mim, mulher impiedosa, mulher selvagem, de braços vegetais como ramos largos imersos nas águas, de asas aflitas como remos querendo fazer-se ao mar, de mim, mulher sem nome, nada poderás ter. 

Talvez apenas cânticos, lamentos, murmúrios, gemidos, soluços, lágrimas, risos, gritos, abraços infinitos, beijos inventados, palavras perfumadas como mel, coisas que de nada valem, que se perdem no ar, no tempo, nos silêncios tristes que habitam o meu peito.

Escuta homem que vens. Não queiras esta mulher selvagem.




Os lençóis conservaram
as formas dos cardumes dizem
que se encostares o ouvido ao fundo
terás a cadência vegetal das mãos.
Que uma estepe se abre
côncava
de artes lentas nesse lugar
de morte certa.

Escuta homem que vens -
os remos à solta fazem parte
da biologia das águas.



['Cântico das abundâncias' de Catarina Nunes de Almeida in Bailias]

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Chung Kyung-Wha interpreta o Concerto para Violino (Mov.2) de Antonín Dvořák

As fotografias foram feitas no Ginjal durante o último fim de semana

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01 setembro, 2015

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, a essa hora dos mágicos cansaços, quando a noite de manso se avizinha, e me prendesses toda nos teus braços


A sul perdem-se-me os pensamentos: voam nas asas das gaivotas que daqui partem desalmadas, livres, sem raízes, procurando o fim dos tempos, o azul mais azul, o mar sem fim para onde fogem as almas sem rumo, sem dono, sem destino.

Descanso de sonhos, de mil lutas, de luzes que cegam, de asas que voam deixando o corpo para trás, descanso de abraços sonhados, de poemas dedicados, de beijos inventados, descanso de palavras desatinadas, de palavras aladas. E de mil trabalhos, de um tempo que corre, que escorre, que se esvai. descanso de não ter janelas, de não ter um ar com cheiro a relva ou a laranjeiras, de não pisar a terra, de não caminhar todos os dias sobre as águas. E de não ter borboletas e pássaros voando junto a mim, de não ter flores a nascer-me do cabelo nem risos a sair-me do coração como músicas de crianças.

Mas não descanso de quem me ama, de quem vive guardado no meu coração, de quem me deseja e que me tem debaixo da sua pele, dos olhares que me olham com ternura e volúpia, das mãos que me procuram, das palavras que me são ditas com descarado amor, de tudo, de tudo, que nunca poderei soltar no ar nem deixar ir nas asas das gaivotas perdidas.

A sul eu não me perco de ti, a sul eu guardo-me para ti, meu amor. 

E, agora que tombam sobre nós estes mágicos cansaços e que a noite se avizinha, prende-me nos teus braços, amor, aperta-me nos teus quentes abraços e deixa que o azul destes mares do sul nos embale, amor, deixa, deixa. E fecha os olhos, amor, e faz-me sonhar.






Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


['Se tu viesses ver-me de Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"]

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Pedro Abrunhosa interpreta Eu não sei quem te perdeu

As fotografias foram feitas em Lagos 

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30 maio, 2015

O sempre é o pior dos nuncas








O veleiro afasta-se em direcção ao horizonte. Mais perto do casario, um outro veleiro, mais pequeno, branco, menineiro, parece percorrer um trilho de luz, parece querer ficar onde ficam os veleiros que gostam de habitar os corações dos seres amados.

O céu tem aquele tom dourado dos fins de dia quando o calor preenche o ar. Uma paz suave percorre a minha pele, entra devagar no meu coração. O tempo passa, a vida avança. Uns ficam, outros vão. A distância entre o que fica e o que vai um dia já não será distância, será ausência, esquecimento. O veleiro desliza e o silêncio de um fim de dia assim não é o prenúncio de saudade, é, sim, um adeus.

O azul do rio começa a adensar-se, começa a incorporar a noite, e a noite trará a solidão boa que acompanha os pássaros recolhidos, os gatos vadios, os amantes perdidos, as vozes silenciadas. O azul escurecerá ainda mais, as águas correrão calando murmúrios, afogando mágoas efémeras e segredos inúteis, lavando as almas dos espíritos que habitam as ruínas. 

Até que o veleiro desaparece, afasta-se das casas, afasta-se do pequeno veleiro branco. Terá passado para o lado de lá do horizonte, e nunca mais será visto cruzando este rio tão amado.

Depois o ouro recolhe ao coração das gaivotas livres e das mulheres sonhadoras, o céu escurece, a noite tomba devagar -- vem de longe, vem de trás das serras, e, aos poucos, abate-se sobre as casas, sobre as águas. A paz é, então, uma carícia, uma companhia amiga, e traz palavras envoltas em memórias boas, em devaneios felizes, em fragmentos inocentes, em pequenos nadas, em sorrisos inventados.

Fecho os olhos, deixo que o sono me envolva. O veleiro estará já muito longe. Até sempre. 




Ao partir,
disseram-me: voltarás sempre.

Parecia um consolo.

Era uma condenação.

Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.



['A Partida' de Mia Couta in 'vagas e lumes']

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Diana Krall interpreta Cry me a river e as fotografias foram feitas ontem ao fim do dia, rente ao Tejo e da janela desta sala

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24 março, 2015

Talvez seja apenas uma confidência


São instantes mas eu queria que fossem horas. E se são horas eu queria que fossem dias. E os dias somam-se aos dias e já são meses. E em cada instante desenhamos confidências, segredos inocentes, uma verdade tão nossa que parece ter nascido connosco, um pecado original que transportávamos sem o saber. Mas não é pecado, não, parece uma bênção, uma magia.

Afasto-me por vezes, quero ver as palavras de longe, quero ver se brilham como brilham quando em silêncio nos enunciamos secretas descobertas, memórias partilhadas, um registo de uma comunhão que parece imaginada.

E eu quero fechar a minha mão na tua para que feches nelas o nosso segredo, para que as palavras não voem, para que não fiquemos desamparados, sem as nossas asas que são comuns, sem os nossos sonhos que são os mesmos.

Fecha as tuas mãos nas minhas, envolve-me com um abraço, não deixes que os instantes se vão, prende as tuas palavras às minhas, e deixa-te ficar, sereno e alegre, olhando os meus olhos ou os meus sonhos. Guarda bem os nossos segredos. Nas nossas mãos. Meu querido.








Talvez seja apenas uma confidência. Sabemos
que cada vez mais é de nós que essas palavras
se afastam e assim se compreende melhor o sentido
que têm. Depois havemos de esquecê-las, para que se tornem
iguais a um segredo e se possa finalmente dizer
como tudo já cabe noutras mãos tranquilas e abertas.


[de Fernando Guimarães in Os caminhos habitados]




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Hayley Westenra interpreta Bachianas Brasileiras No. 5, Aria,  Heitor Villa-Lobos

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As fotografias foram feitas no Ginjal

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23 março, 2015

Teus dedos recolhendo gaivotas no raso voo sobre o meu peito.


Se eu pudesse abrir agora a janela e procurar na noite o lugar onde dorme o teu coração. Se eu pudesse levar as minhas palavras e deixá-las pousadas junto aos teus sonhos. Ah se eu pudesse dizer-te que as palavras não são só palavras, são bocados de mim. Ah se eu pudesse dizer-te que tenho medo que as palavras um dia se transformem em gente de verdade e queiram mergulhar no mar mais fundo, abraçadas a ti.

As gaivotas suspendem-se no ar e deixam que eu aprenda a voar e eu quero atravessar a noite, atravessar o tempo, sentar-me junto a ti, ver o rio, sentir a leveza do silêncio, e não esperar nada e não querer nada, apenas que agarres as minhas palavras e as tomes para ti, que agarres as minhas mãos e não as soltes mais, que te desfaças no meu olhar, em mim.

Não quero nada de mais. Não quero grutas, labirintos, jardins, espelhos, bibliotecas, não quero livros, barcos, casas, não quero o céu, não quero o mar, não quero a luz nem a sombra, nem a música que se desprende das asas, das velas, dos ventos. Quero apenas um instante, o preciso instante em que o teu coração pousaria junto ao meu. Para sempre, mesmo que apenas por um instante.

Mas sei que isso é querer demais porque esse instante não existe, esse instante está preso no fundo do mar e eu não sei onde, o mar é tão imenso, ah tão imenso, ou talvez esteja numa casa inventada, perdida, algures a sul onde o mar se desfaz no azul do céu.

Ah meu querido, como eu queria esse inexistente instante. 


Guincho* sobre o Tejo junto ao Ginjal com Lisboa ao fundo
(*que eu pensava que era uma gaivota diferente e que, em comentário abaixo, aprendi que não)



Não quero o mar.

Quero o instante
em que o oceano inteiro
se enrosca numa só onda.

Não quero rios.

Um redondo de lágrima me basta:
teus dedos
recolhendo gaivotas
no raso voo sobre o meu peito.

Eu quero um deserto.
Mas de vastidão mindinha.

Desses que cabem num grão de areia.



[Exíguos anseios de Mia Couto in 'Vagas e Lumes']


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A música é Nana de Manuel de Falla, Violencelo: Javier Albarés e guitarra:Marisa Gómez


12 março, 2015

Amanheceu a minha vida no teu rosto de uma doçura intensa e tão suave







Caminhava e não sabia que era na tua direcção que caminhava. Nem sequer sabia de ti. E, no entanto, sem que o soubesses, era também na minha direcção que caminhavas. 

Eu julgava que era uma mulher normal embora soubesse das minhas asas e das palavras que voam em minha volta. Mas agora sei que não sou normal. As asas cresceram muito e quase não me pertencem e o chão parece que está prestes a desaparecer.

De ti sei que te sentas com palavras junto aos braços e que a cabeça está lá bem alto, onde as nuvens transportam a água mais limpa, os sonhos mais imateriais e puros, onde a luz é doce como um sorriso. E que tens asas também.

E caminhamos na direcção um do outro. Por vezes, as palavras de um e do outro voam, perdem-se de nós, brincam, buscam-se, encontram-se e beijam-se sem que as possamos controlar, são pássaros livres, tão livres, tão livres como talvez gostássemos de ser.

Enquanto assim caminhamos, sem sabermos bem em que ponto pararemos, os pássaros brincam também, imitam-nos, riem e dizem as palavras de David:

Nós temos cinco sentidos: 
são dois pares e meio de asas. 

- Como quereis o equilíbrio?

e nós, de longe, ouvimos essas vozes e já nem sabemos se são os pássaros, se os anjos, se somos nós que as sonhamos.

Caminhamos. Não sei se estamos longe, se algum dia nos encontraremos, nada sei. Sei apenas que é na direcção um do outro que caminhamos. Levados nas asas dos sonhos, levados por um estranho e inconfessado desejo, por abraços que inventamos, por beijos que tememos querer, vamos voando, caminhando pelos céus.

E então as palavras de ambos, feitas pássaros tresloucados, ardentes de um amor que sabem não poder ser seu, dizem, como se sonhassem,

Amanheceu a minha vida no teu rosto
De uma doçura intensa e tão suave
Como se um divino fundo nele brilhasse
Eu era o que nascia soberanamente leve
E encontrava na limpideza centro do equilíbrio
Só em ti cheguei amanhecendo na minha madurez
Entrei no templo em que a luz latente era a secreta sombra
Foste sonhada por meus olhos e minha mãos
Por minha pele e por meu sangue
Se o dia tem este fulgor inteiro é porque existes
E é porque existes que se levanta o mundo
Em quotidianos prodígios
Em que ao fundo brilha o horizonte certo.


E eu fecho os olhos: sim, deixa que as palavras sonhem, deixa. Deixa que elas nos digam que talvez um dia entremos num templo só nosso e nos descubramos, as mãos impacientes, inocentes, a pele e o sangue em chama, e os olhos despidos, prontos para a nudez que brilhará, secreta, em dias só nossos, plenos de prodígios também só nossos.



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O primeiro poema é de David Mourão-Ferreira, o segundo é de António Ramos Rosa, Lilac Wine é interpretado por Nina Simone e as fotografias são, como tantas vezes, feitas no Ginjal.

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04 março, 2015

o sonho da matéria com que haverei de lhe tocar a pele dizendo o seu nome






agora a mulher estava no plural
a mulher era potável
a mulher escrevia o missal do seu corpo

um dia o anjo disse - vai à fábula -

então a mulher escolheu escrupulosamente o seu pé esquerdo 
e foi




E então mergulho no azul em busca do teu nome. Quem és? Não sei nem o teu nome.

Diz-me da tua pele, diz-me como brilham os teus olhos. Diz-me de que sombras te escondes ou diz-me a que luz se desnuda a tua alma. Diz-me apenas palavras assim, soltas, livres, palavras sem futuro.

Não quero saber mais, quero apenas adivinhar como bate o teu coração ou a forma como fechas os olhos quando sabes as palavras que nascem de mim. Mulher plural, potável, mulher que se desprende do equilíbrio para se lançar no azul mais limpo, na maresia mais suave, assim sou eu. 

E, sabendo-me assim, meio mulher, meio pássaro, um anjo vem e diz que sobre as águas eu me deite e eu deito-me, e ele diz que sobre mim quer escrever palavras azuis e eu digo que o meu corpo já tem desenhadas as linhas que esperam a sua caligrafia, e ele hesita e diz-me que é de temor que o seu coração bate e eu digo-lhe que escreva todo o silêncio que transporta no seu peito e ele escreve, e eu adivinho palavras inocentes como água, luz, sonho, e depois o anjo e eu olhamos o sol e mergulhamos na luz, numa doce vertigem, e depois vejo que o dia se está a afogar no rio e que tenho que ir e, então, as palavras desprendem-se do meu corpo, e voam e voam e sobre mim começam a tombar fragmentos de luz, lágrimas, sonhos que, mal se desprendem de nós, logo começam a esfumar-se. 

Quando tocar a tua pele direi o teu nome, digo-lhe eu enquanto me dissolvo no azul do céu. E voo. E vou.


Não recordo esse azul, mas sei
que ele se alia ao azul imaginado
pela acústica impressão:

desprende-se a sua voz, bate
no meu rosto, retoma a mais densa
compreensão, o sonho da matéria

com que haverei de lhe tocar a pele
dizendo o seu nome.

......   ......   ......


A música é The Tale of Sweet Sir Galahad  de e por Joan Baez

O primeiro poema é de Catarina Nunes de Almeida in Marsupial da editora Mariposa Azual

O segundo poema é O azul de Wallace Stevens de Luís Quintais in Depois da Música da editora Tinta da China

As fotografias foram feitas no fim de semana e o rio é o Tejo.

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03 dezembro, 2014

Ninguém tem nome: apenas uma escura corda de sons


Tantas vezes a ouvir que sou anónima. Tantas vezes a ouvir que me escondo atrás da ausência de nome como se o nome fosse as vísceras, o sangue, o pensamento, o olhar, o gesto, o sorriso, as lágrimas que me haveriam de revelar. Como se o nome pudesse ser a minha réplica, o meu espelho, o meu adn, o meu descodificador. Que ideia. O nome é nada.

E, no entanto, o meu nome não podia ser outro. É a marca que os meus pais escolheram para mim; e logo lhe apuseram um diminutivo que é o que usam e o que usam os que, da minha infância, ainda vivem. Do meu nome derivou, mais tarde, o nome que o meu amor criou para me nomear e desse outro nome nasceu, depois, outro que os meninos recriaram. Para que querem, pois, vocês saber o meu nome original se ele não é um mas vários e é desse conjunto e de outras variantes que estão por vir que eu sou feita? E se eu estou mais desnudada perante vós quando de mim saem estas palavras do que se me fechasse e exibisse o nome de registo?

Quando quiserem referir-se a mim pensem naquela que é todos os nomes e nenhum, todas as palavras ou o silêncio.


Vista de Lisboa, com o Tejo e namorados,
no Jardim do Ginjal





Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento


de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
que fere o corpo e finalmente o veste
do nome que é o dele





['Corda' de Gastão Cruz in Relâmpago, nº34]





.



Two (Rise and Fall) - Sylvie Guillem




....

03 setembro, 2014

Tu continuarás para sempre nua no meu poema.



Não sei dizer palavras que te dispam, amor, como em tempos as minhas mãos, sôfregas, te despiam. Nem tu, amor, as sabias dizer quando, inocente, te despias mostrando o teu corpo de jovem mulher. Nunca fomos de palavras. Olhava-te, então, com olhos líquidos de desejo, um soluço percorrendo o meu corpo impaciente, e tu, improvisando gestos que julgavas só teus, oferecias o teu corpo mudo, ardente.

Dias e dias foram passando e nós sempre unidos, os gestos que nunca se esqueceram, o amor que se foi adoçando, o desejo que se foi alongando, e as palavras que nunca aprenderam a traduzir o que sentíamos.

A vida trouxe-nos até aqui, a este mar largo que contemplamos em silêncio. O tempo corre com vagar, azul, umas vezes macio, outras com aspereza. Assim é o tempo, assim é a vida. Enquanto nos tivermos um ao outro a vida será boa e o tempo amigo.

Quando chegarmos a casa, despir-te-ás para mim, com vagar e compreensão, por vezes com um resto de malícia, por vezes ainda com um resto de inocência, e eu olharei o teu corpo enrugado e flácido e não sentirei a sofreguidão de então mas sentirei uma ternura imensa, amor, porque na tua pele estão muitos gestos meus de carinho e desejo, gestos que jamais voarão do teu corpo pois há muito aprisionaste o meu amor. Na tua pele já eu habito há muito tempo. Não sei dizer-te isto em palavras mas o nosso silêncio guarda mil beijos, mil afagos, mil poemas, mil palavras de um imenso amor.


No pequeno jardim do Ginjal, olhando o Tejo que corre para o oceano, de frente para uma Lisboa bela e silenciosa




O tempo permanece
Apanhado entre os livros.
Por este prodígio de apreensão,
Heraclito continua a banhar-se
No mesmo rio,
Na mesma página.
Tu continuarás para sempre
Nua no meu poema.



['Arte do Tempo' de Juan Manuel Roca in 'Os cinco enterros de Pessoa', selecção e prólogo de Lauren Mendinueta e numa tradução de Nuno Júdice]






Bill Evans - My Foolish Heart



Vives como escreves
escreves como vives
com a sensibilidade
profunda 
de um poeta
com a escrita solta
atenta
de um prosador
vives
onde a vida se liberta
com o olhar deslumbrado de uma criança
vida adulta a tua
pousada
vivida

por todo o lado.


Joaquim Castilho



26 maio, 2014

Digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti - "Um adeus português", Alexandre O'Neill dito pela Poetisa Matilde Campilho


Lisboa, a bela, banhada por um Tejo violentamente azul, avistada da Boca do Vento 8sobre o Jardim do Ginjal)




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
*
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill

13 maio, 2014

Sítios que me fazem lembrar memórias inventadas, desfia o talentoso José Valente. De que sombra dos sons se faz a rosa? da matéria das sombras? de nenhuma? de que fosco murmúrio, cristal, bruma? de que espirais da noite vagorosa?, responde, perguntando, Vasco Graça Moura




e outro silêncio enquanto o som repousa:
desfez-se o rebordo numa espuma.
de que sombra dos sons se faz a rosa?
da matéria das sombras? de nenhuma?

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?
de que espirais da noite vagorosa?
do coração desfeito? ou não costuma
a luz gravar-se em sombras numa lousa?

coração rouco, o coração. falhada,
a voz vinda do vento se desate
num ramo de penumbras, descontínuo

o mundo passe a ser feito de nada,
só de efémeras rosas a rebate,
como gritos de sangue no destino.




____

  • O poema é 'a rosa, timbres' de Vasco Graça Moura in 'Poesia Reunida'

  • O vídeo mostra José Valente e  os 'Sitios que me fazem lembrar memórias inventadas' no TEDxCoimbra




04 maio, 2014

O escritor deve ser louco? alfabetizado? motivado? paciente? imaginativo... Ou alto? bonito? ... ou o quê? - a opinião de Rubem Fonseca


Sou fã, fãzaça de Mestre Rubem Fonseca. Escreve no osso, na marra, na dureza, e na ternura, na compaixão. Conhece o género humano, o submundo, a loucura, a rua.

Descobri-o agora falando nas Correntes d'Escritas 2012 sobre o que é preciso para se ser escritor, e fala com humor, vivacidade, sentido de palco, arrancando gostosas gargalhadas a quem assiste

Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, foi nesse ano o vencedor do Prémio Casino da Póvoa.


Conforme vejo no texto que o acompanha, o video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total" e na qual estavam também Eduardo Lourenço, Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Eduardo Lourenço, Hélia Correia, e José Carlos de Vasconcelos como moderador.



*

01 maio, 2014

Com as horas maiúsculas do cio, com os músculos inchados da preguiça, vem, serenidade!


Em dias de muito ruído, em que o cansaço sobe sobre a pele como uma moléstia húmida, amortecendo os músculos, quero silêncio, sossego. E palavras lidas como se de uma oração ou de uma toada religiosa muito pura se tratasse. Talvez poesia, talvez a poesia dita como se uma voz viesse de dentro das pedras, do fundo macio dos lagos, da luz que se reflecte no rio. E mais nada, só isso.




Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.




Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.



Vídeo de CINE POVERO


"Serenidade és minha" in «Mesa de solidão» (1955) de Raul de Carvalho (1920-1984), aqui lida por Mário Viegas (1948-1996), Humores, Vol. II, lado B (1980)

MÚSICAS: Jan Garbarek, "Soria Maria" (1980). Pat Metheny, "Waiting for an answer" (1983). Sufjan Stevens, "Oh God, where are you now?" (2003)

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28 abril, 2014

Vasco Graça Moura, uma das grandes presenças no 'Ginjal e Lisboa' - para sempre a acompanhar quem por aqui passar. E o que vos digo é que 'relembro o que escreveu: as suas rimas nítidas de aço e dúcteis como a pele, encontros, desencontros, corpos que ele despia e enredava nas esgrimas'


Sim, fui-me dedicando sucessivamente, sobretudo no plano literário, a fazer muitas coisas e muito variadas. Comecei pela poesia, depois fui para a crítica, para o ensaio, para a ficção, entretanto passei para a polémica. Mas não deixei de fazer um conjunto de actividades ligadas à vida prática de todos os dias. Não conseguia entender-me só no plano de nefelibata a pensar na minha escrita. Tinha que ter uma base concreta.

Hoje a minha escrita não tem o propósito, de um modo geral, de ir buscar esses materiais [escritos há 50 anos]. Se têm que surgir, eles emergem naturalmente. Há 50 anos talvez eu tivesse um pedantismo um pouco mais sofisticado e procurasse mostrar que conhecia isto ou aquilo. Hoje isso não me preocupa absolutamente nada. 



Gaivota levanta voo na beira do Tejo, no Terreiro do Paço em Lisboa


relembro o que escreveu: as suas rimas
nítidas de aço e dúcteis como a pele,
encontros, desencontros, corpos que ele
despia e enredava nas esgrimas
de angústias e palavras (aproxima-as
o jogo aliterado mas cruel
do cursivo do tempo no papel
a amalgamar memória e tensos climas)
e o perseguido amor em seus contrários,
como um rosto perdido que era o seu
procurando o fulgor e o sentido
que outros rostos lhe davam e esses vários
relances em que acaso apercebeu
que era ele e não era, reflectido.







*

  • Os dois primeiros parágrafos fazem parte da entrevista que Vasco Graça Moura concedeu a Ana Sousa Dias para a Revista Ler em Janeiro de 2014

  • O poema é David (no capítulo Mortes) do Volume I da sua Poesia Reunida

  • O primeiro vídeo mostra um excerto da presença de Vasco Graça Moura com Fernando Alvim no 5 para a Meia-Noite em que lê parte de uma poesia sua na qual refuta ser o autor de 'O segredo do meu pipi'

  • O segundo vídeo mostra-o falando do Livro da Sua Vida para  Ler Mais, Ler Melhor - Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões

  • O terceiro vídeo mostra Joana Amendoeira interpretando o fado Era a  noite que caía, cuja letra é justamente da autoria de Vasco Graça Moura.

*

23 abril, 2014

Em cada esquina um amigo


Terra da fraternidade. O povo é quem mais ordena. Dentro de ti, ó cidade.

Em cada rosto, igualdade.

É Abril, tempo de manifestar a nossa vontade.



CANTO DAQUI - Grândola Vila Morena 


Solista: Luís Veloso
Música e letra: José Afonso

Orquestra: Sopros de Zeca
Maestro: Filipe Cunha

**

As origens . José Afonso. Grândola.

Vila Morena




***

17 abril, 2014

Que o poema seja microfone e fale uma noite destas de repente às três e tal para que a lua estoire e o sono estale e a gente acorde finalmente em Portugal.


Abril é chegado. Vem fatigado este mês, o povo de pernas quebradas, o rosto tombado, os cabelos baços, as mãos vazias.

Andaram cinzentos os tempos, chorosos, e das paredes nasceu um bolor triste e dos ossos veio uma dor surda.

Mas é Abril e Abril é Abril e é em Abril que a força renasce, as cabeças se levantam, as pernas se erguem, os punhos se cerram.

É Abril e em Abril os cravos tornam-se vermelhos sangue, e perfumam-se com o cheiro da liberdade e as vozes erguem-se e os corpos, antes cansados, unem-se agora, prontos para cantar. Prontos para amar. E para lutar. Portugal é o nosso país e por ele temos que nos dar.


Lisboa hoje ao pôr do sol


Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema. 
Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa. 
Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.
Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês. 
Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar. 
Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal. 
Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua. .
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas. 
Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos. 
Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.  
Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar. 
Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui. 



Poemarma de e dito por Manuel Alegre


14 abril, 2014

Quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde só depois de estar maduro



Pintura mural numa parede do Ginjal


Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro

e o ouro íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados 
ou disso a que chamam demónio da analogia 

quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro

quem baixa a mão para quebrar um selo
há-de baixá-la para quebrar os outros e há-de fechar os olhos

e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los

e como pão e bebo água de olhos fechados
como se fosse para sempre

e assim adeus a quem vê
que eu morro inteiro para dentro

e vejo tudo só de entendê-lo



Vídeo de Cine Povero - "Quem fabrica um peixe, fabrica duas ondas" de Herberto Helder in «Servidões» dito por Fernando Alves 


com música Arvo Pärt, "Silentium", Parte 2 de «Tabula Rasa»


Fotografado em Petra (Jordânia), em 2010.



12 abril, 2014

'O Desempregado com Filhos' andou pelo Ginjal mas as gaivotas, os gatos e a maresia não lhe valeram. Coitado deste e de todos os desempregados. [Apesar de tudo, festejemos: chegou um novo vídeo de CINE POVERO]


Apetece dizer: parem tudo! Chegou um vídeo novo do Cine Povero e chega em boa hora. Todos os alertas e chamamentos são poucos quando Abril é chegado.


Gonçalo M. Tavares escreveu e Cristina Branco disse.
Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.
Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda
mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e
baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.



A música é : Eleni Karaindrou, "Medea's Lament I" in «Medea»

e este é mais um dos maravilhosos vídeos do CINE POVERO


08 abril, 2014

No centro da cidade, um grito


Manhã silenciosa no Ginjal, manhã branca. Podia estar no céu, habitar uma nuvem, podia deslizar no dorso de uma gaivota, podia, podia deslizar nas velas de um veleiro, podia, podia sonhar num recanto secreto de Lisboa. 

Mas afinal apenas caminhava junto ao Tejo, os pés no chão, e não se via ninguém, parecia que estava eu, só eu, e as minhas memórias brancas.

O silêncio junto a um casario puído pela maresia e junto a um rio envolto em névoa é um alimento que eu e todos os amantes secretos procuram para sentir o doce fluir do tempo. Para lá caminho uma e outra e outra vez. Sempre - especialmente quando o mundo parece envolto em solidão e silêncio.


Manhã de neblina no Ginjal,
um cacilheiro atravessando o Tejo em silêncio, Lisboa mal de avistando

No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar
e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado.
Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos
são uma sinalização em direcção à morte.
Mas hoje, ainda longe daquele grito,
sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi,
e uma abelha pousa-me no azul do lírio
e no cardo que sobreviveu à geada.
Bebo, fumo, mantenho-me atento,
absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez,
e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte,
acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria,
e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo
no esplendor da noite do mundo que nos foge



O poeta Al Berto (1948 - 1997), diz vinte poemas na "Casa Fernando Pessoa" em 1 de Julho 1995 e um poema no "Salão nobre dos Paços do Concelho", em 25 de Maio 1996


**

O grito raso
que se esconde
no verbo aceso
que se expande.
Fuga aberta
de palavras
cobrindo de sons
o Nada.
Aquilo que fica
depois da escrita
para além dos versos 
para além dos livros 
para além do pó.


[Poema de Joaquim Castilho num comentário abaixo]


03 abril, 2014

Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. Do meu quarto ouço a fuzilaria. As amadas torcem-se de gozo. Oh quanta matéria para os jornais.


Aos desiludidos, eu prefiro os iludidos do amor. Viver as ilusões do amor é tão bom, borboletas no peito, sonhos doces, lágrimas lentas tanta a emoção. 

Que importa que possa ser ilusão, se é coisa boa? Desde que não se coloquem as ilusões altas de mais, é bom viver a doçura do amor, é bom. E que venha a poesia ao de leve, macia como um veludo perfumado e manso, e que as vozes ciciem segredos e poemas e que haja beijos e beijinhos e olhares e abracinhos, afagos quentes e um desejo em crescendo. Boa essa ilusão.

Desilusões é que não vale a pena.


Casal de gaivotas no Tejo junto ao Ginjal


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais. 
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas. 
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno. 
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia... 
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe). 
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles. 


['Necrológio dos desiludidos do amor' de Carlos Drummond de Andrade in 'Brejo das Almas', dito por Fernanda Torres]






***

DESILUSÃO?

Porque o Amor
Se dissolve
No espectro fechado
Dos dias iguais
Ele está
Como se lá não estivesse
No simples gesto de chegar.
Cansado
De abrir a porta

--------------

Sentada estás
No meu silêncio
Presente
Na estranha distância
De não te ter
Olhas-me
Imagem
Tenho-te em mim
Porque tu
Me habitas

---------
Escrever
O teu rosto
A sombra exacta dos teus seios
A dimensão líquida da tua pele
Na planície branca
Do meu poema.
Mar de palavras
Sempre desfeito
Pelo ruído desajeitado
Da minha sede



[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]