Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

25 fevereiro, 2014

Quem és tu, promessa imaginária que me ensina a decifrar as intenções do vento, a música da chuva nas janelas sob o frio de fevereiro?


Quem és tu? Um acaso?

Há muito tempo que as nossas vidas se misturaram, pele com pele, carne com carne, saliva com saliva, todos os nossos fluidos feitos um. O olhar de um espelhado no olhar do outro, as mãos que se procuram, os segredos que se partilham, o futuro que se vai construindo dia a dia. E as zangas, irremediáveis, definitivas, e que, afinal, se esfumam ao primeiro sorriso, ou quando as nossas pernas se procuram no aconchego dos lençóis.

É Fevereiro e chove e está cinzento, mas podia ser Março e haver flores ou Setembro e a temperatura adoçar-se em dourado ou Outubro em fogo, ou Dezembro e o ano a virar. Tanto faria. Todos os dias são dias de pequenas coisas, pequenos gestos, pequenas atenções, coisas de nada. Que afinal é disto que é feito o amor. De pequenos instantes. De não poder passar sem esses pequenos nadas. De sonhos que se constroem a dois, desassossegos que ensombram a luz mas que, a dois, são afastados, e abraços, e beijos, e o desejo, e tudo. E tudo. E nada.

Quem és tu que a vida colocou no meu caminho para assim acompanhares tão de perto a minha caminhada? 


No Ginjal num dia de frio e névoa



Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.



['Segredo' de Fernando Pinto do Amaral dito por Nuno Miguel Henriques. Extracto do programa "Palavra dos Poetas"]



21 fevereiro, 2014

Podereis roubar-me tudo: as ideias, as palavras, as imagens, e também as metáforas, os temas, os motivos, os símbolos . [e a voz de Jel e de Luís Filipe Castro Mendes]


Podem, os pulhas, roubar-nos tudo: o presente, o futuro, o país, a casa, a proximidade dos filhos, a esperança, a confiança, tanta coisa.

Mas não nos tirarão a dignidade, o orgulho, a força, a palavra.

Até que a voz me doa, não me cansarei de falar. Eu e tantos como eu. Unidos e a fazer-vos frente.

Não nos destruirão e cá estaremos para vos dizer como é quando a hora for chegada. Não perdem pela demora, seus pulhas.


Dia de chuva no Ginjal

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.



['Camões dirige-se aos seus contamporâneos' de Jorge de Sena aqui dito por Jel]



Luís Filipe Castro Mendes, o Tim Tim no Tibete, fala de Jorge de Sena




.

20 fevereiro, 2014

Sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas - bem o diz Cora Coralina


Saber viver deveria ser a principal disciplina que nos ensinavam na escola: saber agradecer a vida que nos é dada a viver, saber vivê-la o melhor possível, saber tornar melhor a vida dos outros, tornar este percurso numa aventura boa, saber acarinhar a terra, amanhá-la para que fique ainda melhor para os que vêm a seguir, saber fazer com que a nossa vida não tenha sido em vão. 

Encher a nossa vida de abraços, beijos, sorrisos, crianças, afectos, mãos que se abrem para receber outras mãos, corações disponíveis para acolher outros, saber olhar com carinho o céu, a terra, o mar, as plantas, as pedras, os animais. Tudo isso. 

Saber viver.


Graffiti num muro junto à ex Lisnave

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas. 
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove. 
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar

        ['Saber viver' de Cora Coralina]




Documentário Cora Coralina - realização: ALLTYPE


17 fevereiro, 2014

E estou tão leve porque não tenho nenhum segredo e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo. [Herberto Helder na voz de Fernando Alves pela mão do Cine Povero - uma maravilha]


Veleiro no Tejo, a ponte Vasco da Gama ao fundo
Avistado a partir do Ginjal


Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.
Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que daqui a um pouco depois
estarei morto
e só de pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo-me nos nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.
E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do que alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água que toca os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.


Poesia dita

Fernando Alves diz Herberto Helder - 'Levanto à vista' in 'Servidões'

Vídeo da autoria de Cine Povero


(Filmado em São Julião e na Senhora do Monte (Lx.)).

11 fevereiro, 2014

Dizes que querias ser meu namorado, morar dentro dos meus olhos - mas eu não vejo nada disso.


Dizes que pedes para ser meu namorado e talvez peças mesmo, queixas-te, sentes-te infeliz, e é uma lamúria, uma lamúria, uma ladaínha, que querias, que fazias, que sei lá o quê. Sempre a mesma coisa. 

Não sais desse registo e a nossa história, que nem é história, não passa disto.

Mas não percebeste que não é assim que me vais conquistar? Se queres, avança, arrisca, dá o peito às balas. 

Querias ser meu namorado? E o que já fizeste para isso? Dizes que não vejo o teu desejo. Gostava de saber como chegaste a essa conclusão, gostava mesmo. Não. O que eu gostava mesmo era de outra coisa: é que fosses homem para mim. 

Sempre essa converseta de vestido encarnado aos folhos e de verão e mais não sei o quê. Fantasia. Estamos no inverno, claro que não ando de vestido encarnado aos folhos como uma maria papoila. Pára de ficcionar e vem. Estou é já farta de estar à espera.


Num dos muros rente à praia - Mulheres, Gatos, Tejo


Queria ser teu namorado,
Morar dentro dos teus olhos;
Perder-me nos muitos folhos
Do teu vestido encarnado.
Mas tu ficas à janela
Sem ver sequer quando eu passo;
E a tua frieza gela
O calor do meu abraço.
Queria pegar-te na mão,
Deixar-me levar às cegas;
Perder-me nas muitas pregas
Do teu vestido de Verão.
Mas tu nem olhas para mim
Não sabes que te desejo,
Deixas um gosto ruim
Na doçura do meu beijo.

 

-----------------------

A Tua Frieza Gela, letra de Maria do Rosário Pedreira e música de António Zambujo

*

Maria do Rosário Pedreira fala da sua Poesia



10 fevereiro, 2014

O europeu do Norte não gosta de nos ver comer peixe fresco do alto. Um carapau, uma sardinha, vá.



Abandono numa manhã fria no Ginjal. Lisboa do outro lado.



A expressão é um diamante bem lapidado que transcendeu o "apertar do cinto", expressão que sobreviveu não sei como à miséria real do Estado Novo. Espero que passe à reforma, porque se a língua não muda, o povo estagna, ou vice-versa.

Agora ninguém aperta o cinto, até porque a comida de segunda, rápida, obriga a alargá-lo. Agora faz-se um downsizing, ou seja, não se compra cherne fresco ao sábado: vai-se à secção de congelados do Jumbo e manda-se cortar uma perca do Nilo em postas finas duras. Cherne fresco era viver acima das nossas possibilidades, e que interessa que os pescadores não vendam?! O europeu do Norte não gosta de nos ver comer peixe fresco do alto. Um carapau, uma sardinha, vá. Downsizing do lifestyle significa, na prática, continuar a ser os pretos claros dos brancos do norte, como no passado outros foram os nossos pretos, porque não nos interessava que fossem mais do que isso. A história repete-se com diferentes protagonistas, mas essencialmente é sempre isto: quem manda e quem é mandado; quem pode e quem não pode.


[Excerto de 'Downsizing do lifestyle', texto de Isabela Figueiredo no seu Novo Mundo Perfeito]




Isabel Figueiredo é a autora do livro 'Caderno de Memórias Coloniais', um livro que recomendo



07 fevereiro, 2014

Teci com os cintilantes fios a misteriosa linguagem dos astros


Habito a noite. Quando a casa sossega e as ruas se calam, eu movo-me como uma gata cheia de silêncios e subtilezas e esgueiro-me até aqui. Brinco com as palavras, afago livros, sento-me numa mesa carregada e onde um pequeno candeeiro tenta não perturbar a quietude da noite. Ouço poetas, dizedores, ponho-me, eu própria, a escrever palavras que não sei que caminhos percorrem ou onde me levam.

Mas tenho sono. Daqui a nada tenho que tentar parecer uma criatura normal, daquelas que vive de dia. Não posso levantar-me mais tarde pois o dia começa cedo. Tenho uma verdadeira vida dupla. Vocês que aqui me lêem não me reconheceriam se me vissem, eficiente e executiva, conduzindo reuniões difíceis. Tal como qualquer das pessoas que comigo se cruza durante o dia jamais suspeitaria que eu, aquela que ali vêem, se deita tão tarde para ler, escrever, ouvir dizer poesia, coisas assim, tão contrárias ao mundo dos negócios.


Gaivota à beira Tejo

estavam os homens as águas os animais e as terras
cansados de luz e de não haver noite
levantei a mão
fiz rodar a terra para que se retirasse o sol
enrolei os dedos nas últimas fulgurações
teci com os cintilantes fios
a misteriosa linguagem dos astros
depois
fui pela escura abóbada
estendi a fantástica tapeçaria
para que lá em baixo ninguém perdesse o seu caminho
e nela pudesse adivinhar o doloroso humano destino
a noite ficou assim tão habitada quanto a terra
os homens podem hoje sonhar com aquilo que mal entendem
e quando o medo atribuiu um nome àquele luzeiro
dei por terminada a obra
cortei os fios como se cortasse um pedaço de mim
fui para outro hemisfério adormecer o dia
construir a pirâmide o quadrado o círculo a linha recta
as cores do mundo
e dar vida a outras incandescentes criaturas


['Dia da Criação da Noite por Carlos Nogueira' de Al Berto dito por Guilherme Gomes]



05 fevereiro, 2014

Com tantas guerras que travei já não sei fazer as pazes


Caminhando rente a um grande muro, numa avenida vazia, numa manhã sombria, chuvosa, quase arrastada por um vento frio, começo a ouvir vozes vindas da parede, choros, súplicas. Ninguém. Abrando, tento perceber se sonho, se testemunho qualquer situação inesperada. Suspiram, lamentam-se, as vozes parecem sair de dentro do muro. Acelero o passo, começo a sentir medo. Inquietação. Ouço passos, parecem acompanhar os meus. Não vejo ninguém. 

No céu as gaivotas gritam como loucas. Um gato foge assustado.

Então vejo uns olhos tristes. Olham-me. Pedem ajuda. 

Cobardemente afasto-me. Não sei lidar com situações extremas. Memórias, saudades, uma história estropiada, trabalho arrancado a quem queria trabalhar, tantas saudades a destas pessoas cuja vida ficou presa aos barcos que por aqui acostavam. Vidas cortadas ao meio.

Fujo, tanto abandona dói-me. Os muros estão desolados. Por aqui já não passa ninguém.


No silêncio das manhãs sombrias e chuvosas, nem só as vozes incertas e invisíveis, ou as tristezas de certos olhares nos inquietam. Os nossos medos parecem soltar-se de certas memórias que habitam o lodo dos muros desolados, e das pedras rotas e maceradas das avenidas vazias. 
Apetece-nos gritar com a loucura das gaivotas que nos miram e vigiam essas inquietações. A cobardia é em si mesma a situação extrema que nos arrasta, como gato que foge, para as memórias de tantas vidas cortadas ao meio.
Se estamos vazios, mais inquietações nos preenchem o espírito, ávido de respostas que não surgem na vertigem da caminhada.
Na guerra que travamos, entre ruínas de tantas batalhas, a inquietação é coisa para acontecer e não perceber. Entre tantas perguntas, em autêntico torvelinho, haveremos de chegar algures pois há sempre qualquer coisa que teremos que fazer.
Fugir da inquietação é abandonar a dor que já ninguém passará.

[Texto a itálico da autoria do Leitor dbo no comentário aqui abaixo]

Grafitti num muro junto à antiga Lisnave




A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes 
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha 
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda 
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda 
Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas 
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho 
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

['Inquietação' de José Mário Branco, interpretada por Camané e os Dead Combo; maravilhosa animação de Ryan Woodward]


03 fevereiro, 2014

Do alto deste monte, numa manhã assim


Manhã muito fria, luminosa mas muito fria. Por aqui ando uma e outra vez vendo Lisboa, a Bela, envolta em céu e rio, suave e branca entre um azul espelhado, percorrido por elegantes veleiros, sobrevoado por graciosas gaivotas.

Há dias em que estes grandes aves gritam, desalmadas, em que se agitam, revoltadas e em que as águas se mostram picadas, insolentes. Este domingo não. Talvez mais à frente, no oceano, as águas estivessem grandes, bárbaras, mas aqui a vida estava tranquila. 

E eu caminho rente ao Tejo, desejando guardar no meu peito esta maresia limpa que os meus olhos bebem. Vou devagar apesar de estar com pressa, não tardaria a casa encher-se-ia e era preciso preparar uma mesa cheia. Mas dilato o tempo e prendo-me a este espaço que está, desde há muito, gravado no meu coração - e, assim, não sinto a urgência do tempo. Estou sempre aqui, dentro deste universo maravilhoso.



[Para se entretecer com este poema e a imagem deste sítio que entrou dentro de mim, só mesmo uma Balada Astral. É Miguel Araújo que, mais abaixo, aqui traz uma música do seu mais recente trabalho.]


Lisboa e o  Tejo avistadas do miradouro da Boca do Vento, sobre o Ginjal



                                            Do alto deste monte, numa manhã assim,
                                            só há duas coisas a fazer:
                                            chatear deus ou deixar deus em paz.

                                            Minto.
                                            É claro que há uma terceira via
                                            (mas dá muito trabalho):

                                            fingir que não o vejo nem o oiço
                                            do alto deste monte
                                            na luz desta manhã.


                                            ['A terceira via' de A. M. Pires Cabral in Gaveta do Fundo]



Miguel Araújo e Inês Viterbo interpretam Balada Astral


Quando Deus pôs o mundo
E o céu a girar
Bem lá no fundo
Sabia que por aquele andar
Eu te havia de encontrar
(...) 


Letra, música, voz e guitarra acústica: Miguel Araújo

(...)

Minha mãe, no segundo
Em que aceitou dançar
Foi na cantiga
Dos astros a conspirar

Que do seu cósmico vagar
Mandaram o teu pai
Sorrir pra tua mãe
Para que tu
Existisses também

Era um dia bonito
E na altura, eu também
O infinito
Ainda se lembrava bem
Do seu cósmico refém

Eu que pensava
Que ia só comprar pão
Tu que pensavas
Que ias só passear o cão
A salvo da conspiração
Cruzámos caminhos,
Tropeçámos num olhar
E o pão nesse dia
Ficou por comprar

Ensarilharam-se
As trelas dos cães,
Os astros, os signos,
Os desígnios e as constelações
As estrelas, os trilhos
E as tralhas dos dois


31 janeiro, 2014

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

 Numa rocha no Jardim do Ginjal

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.




[Amar de Carlos Drummond de Andrade, dito por Marília Pêra]

*

CONTRASTE

Do amor
Nasce
Uma poalha translúcida
De ternura partilhada
Música
Surdina
Sempre escutada.
No silêncio claro
Uma canção
Transfigurada....


[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

29 janeiro, 2014

No mais, Musa, no mais, que a lira tenho destemperada e a voz enrouquecida, e não do canto, mas de ver que venho cantar a gente surda e endurecida.


Nem me falta na vida honesto estudo,
com longa experiência misturado,
nem engenho, que aqui vereis presente,
cousas que juntas se acham raramente.



Vasco Graça Moura refere Os Lusíadas como o livro da sua vida.


Acima e no título um pequeno excerto do Canto X de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões


28 janeiro, 2014

"Paisagens Literárias" de escritores de Trás-os-Montes (Manuel Vaz de Carvalho, Bento da Cruz, A.M. Pires Cabral)


A beleza de Trás-os-Montes pede que as palavras voem como pássaros de longas asas sobre as suas fragas e sobre os espaços imensos de ar limpo e luz muito pura.

Este pequeno filme transporta-nos até essa beleza e até ao orgulho de recorte agreste dos transmontanos.



Paisagens Literárias de escritores de Trás-os-Montes

  • realização: José Barbieri
  • vídeo: Eva Ângelo, Solange Carvalho, José Barbieri
  • investigação: Ana Lavrador, Margarida Lopes Fernandes, Isabel Alves 
  • textos literários: Manuel Vaz de Carvalho, Bento da Cruz, A.M. Pires Cabral
  • música: Rafael Del Rio
  • gaita de foles: Alvorada, Manuel Paulo Martins, recolhido por Domingos Morais, 1985
  • produção: Memória Imaterial CRL
  • distribuição web: MEMÓRIAMEDIA www.memoriamedia.net
  • colaboração: LITESCAPE- Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental

22 janeiro, 2014

Hélia Correia no Monte dos Vendavais


A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.


[in a Terceira Miséria]






21 janeiro, 2014

Ser um sinal lançado ao acaso na noite


Se o meu tempo é tão escasso porque me detenho aqui deixando palavras soltas na noite, nos incertos dias, escrevendo não me perguntem para quem?

Sei que, de vez em quando, pessoas invisíveis passam por esta minha casa, e, já que a porta está sempre aberta, entram, sobem as escadas e sei que espreitam o rio, sinto a sua presença silenciosa ao meu lado quando me ponho à janela. Não digo nada, não quero que se vão, e deixo-me ficar, também eu invisível, imóvel, agradecida.

Virão de longe, talvez, talvez do outro lado do mar, do outro lado do mundo. Não me dizem nada e eu, aqui calada, temo que algum dia deixem de vir, que me esqueçam, ou que algum dia eu, sem querer, os tenha magoado e que, magoados, deixem de falar comigo. Se algum dia isso aconteceu mil desculpas peço, foi sem querer, foi sem querer, foi sem querer.

É curto o meu tempo. Curto. Passa a voar. E eu, que tenho tantos sonhos, sinto que devo apressar-me. 

Misturo-me com as flores querendo sentir o que sentem as flores, olho longamente os movimentos das gaivotas, tento sentir o que sentem quando voam, passo a mão pelas pedras molhadas, cobertas de limos macios, quero sentir o que sente a pedra quando banhada pelo rio e quero sentir o que sente o rio quando acaricia as pedras macias que encontra pelo caminho.

Leio mil livros, mil, mil, muitas mil palavras, querendo sentir a alucinação afortunada que sentem as palavras que encontram o seu destino, querendo sentir o que sentem as palavras quando se misturam com o olhar de quem as lê ou com a respiração de quem as diz, em silêncio. E quero ser a luz, a luz infinita que cruza as imensas trevas.

E tenho tão pouco tempo para ser e sentir tudo isto. 


Pilar da Ponte 25 de Abril parecendo flutuar no céu num dia de névoa e frio
(avistado do Ginjal)


[Na despedida de Claudio Abbado]



Sinfonia nr. 5 - Adagietto de Mahler - conduzida por Claudio Abbado


                                                                      

                                                                      Sondar
                                                                      a linguagem das trevas
                                                                      dormir
                                                                      na neve dos limites
                                                                      atravessar
                                                                      flores distraídas

                                                                      Decifrar
                                                                      numa pedra fria
                                                                      letras a arder
                                                                      entrar
                                                                      em comboios remotos
                                                                      no olho gigante
                                                                      das estações do fim do mundo

                                                                      Ser
                                                                      um sinal
                                                                      lançado ao acaso na noite
                                                                      deixar 
                                                                      noutra boca
                                                                      o gosto de uma ausência

                                                                      Temos tão pouco tempo
                                                                       tão pouco sonho
                                                                       tão pouco



['Tão pouco' de Ernesto Sampaio in Feriados Nacionais]


*


Sem fôlego
De mais versos
Tolhem-se-me
Os poemas,
Palavras brumas
Murmúrios
Silêncios ocos
Nos intervalos vazios 

Do meu tempo.



['O tempo ... e tão pouco' de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]



18 janeiro, 2014

Saltam ao caminho a sangrar-me a veia do poema.


As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos

Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.


['As sofridas amoras' de Luíza Neto Jorge]




Filme de João Roque sobre Luiza Neto Jorge

*

Poema
construído
palavra a palavra,
lentamente.
Decantado
dos medos e das sombras,
dos ruídos e dos sorrisos,
das chuvas e dos amanheceres
da música que se não ouve.
Dia a dia
dia após dia
um pouco mais
ou quase nada
quase todos os dias.


[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

15 janeiro, 2014

Era uma vez uma mulher que via um futuro grandioso para cada homem que a tocava. Um dia ela se tocou...


Num pontão do Ginjal, sobre o Tejo




Era uma vez uma mulher
 que via um futuro grandioso
 para cada homem que a tocava
 um dia
 ela se tocou...

.  Eu pensava que o amor
 me faria uma rainha
 e quando você chegasse
 não seria mais sozinha.

  Você chega da gandaia
 só pensando numazinha
 seu amor é pouca palha
 para minha fogueirinha.

  O que você jogou fora
 é para poucos
 o meu mal foi jogar
 pérolas aos porcos.

  Eu não sou da sua laia
 não quero sua ladainha
 pra ser mal acompanhada
 prefiro ficar na minha.


 Era Uma Vez poema de Alice Ruiz interpretado por Zélia Duncan


*

No Ginjal, sobre o Tejo, alheada de Lisboa


Já notou que eu te amo
Ou você pensa
Que toda vez que eu ligo
É por engano?

Já sacou que é meu vício
Minha droga
Meu barato
Ou vou ter que curtir a rebordosa
Em algum hospício?

Pra me deixar normal
Só uma overdose de você
Pra me pirar legal
Só uma dose dupla desse mal


   

Overdose poema de Alice Ruiz interpretado por Zélia Duncan


*


Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo 
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre


   

 Milágrimas (Itamar Assumpção e Alice Ruiz) com Alice Ruiz e Anelis Assumpção



14 janeiro, 2014

Se eu tivesse de escrever pela gramática, não escreveria coisa nenhuma - e desisti da gramática. Palavras de Cora Coralina.


O amor e o encantamento e o medo e a aflição e a alegria e a tristeza e tudo são coisas que vêm cá de dentro, do límbico, das tripas, do sangue. Não vêm de modelos didascálicos, de conceitos oximorizados e outras semânticas que tais, palavras trabalhadas, enfeitadas, feitas de propósito para alguém usar na lapela da virtude linguística. Digo eu, misturando as palavras e os conceitos de propósito para as tornar ainda mais ostentatórias.


'Amo-te Ursinha!!! Demais...'

(Declaração de amor escrita numa parede do Ginjal)


Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...

['Poeminha de Amor' de Cora Coralina]


*

A palavra a Cora Coralina


*

13 janeiro, 2014

Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Graffiti numa parede junto à ex-Lisnave

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Cacilhas numa manhã fria de chuva

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada. 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem chiadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Junto ao Tejo, numa manhã de névoa e frio

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.



'Todas as vidas' de Cora Coralina dito por Clemente Drago


Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou Cora Coralina, (Cidade de Goiás, 1889 — Goiânia 1985) foi poeta e contista brasileira. Produziu uma obra poética rica em motivos do quotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás. Começou a escrever poemas aos 14 anos, porém, publicou seu primeiro livro em 1965, aos 76 anos. 

12 janeiro, 2014

Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...


Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia. 



Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês. 




Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
 julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.  


E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


['Aviso da Lua que menstrua' de Elisa Lucinda dito pela própria no espectáculo"Parem de falar mal da rotina"]


10 janeiro, 2014

Se eu disser que vi um pássaro sobre o teu sexo, deverias crer?


Voar como uma palavra, atravessar o Tejo como o desejo de uma mulher, ser impudica ou um pássaro branco, atravessar mil noites, ostentar com orgulho o sexo, escrever poesia, ouvir poesia, dizer poesia, sonhar com um vasto mar azul, sentir a doce inocência sobre a pele, perfumes carnais, e palavras, palavras, palavras.

Eu. Os meus segredos. O meu mundo. (Corrijo: parte do meu mundo)


O Tejo no Ginjal



Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?


Do Desejo escrito e dito por Hilda Hilst



09 janeiro, 2014

Em que espelho ficou perdida a minha face?


Em Cacilhas, de frente para Lisboa, num dia sombrio, o Tejo escuro, agitado


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?




Poema 'Retrato' de Cecília Meireles aqui dito por Paulo Autran sobre parte do filme UP (Altas aventuras)



08 janeiro, 2014

A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.


Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar a cabeça e me pôr nua no centro da minha vida
E uivar até me secarem os ossos
Que queres que eu faça Deus?

Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Você é muito sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo

Respira fundo, insistiu!
Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico


Graffiti numa parede perto da ex-Lisnave


Que ex-voto levo à Aparecida se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.

Eu nunca ia ser budista!
Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?

Minas tem coisas terríveis.
A serra da piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.

O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.

Meu coração é bom mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia.
Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?



Gata no Ginjal


Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!
Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.

Me imploram amor Deus e o mundo.
Sou pois mais rica que os dois.
Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.

Quase entendo a razão da minha falta de ar
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.

A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.



Ex-Voto de Adélia Prado, aqui dito por Elisa Lucinda.


07 janeiro, 2014

Já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida.


Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: 
Se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? 
Às vezes dá certo. 
Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase 
"se eu fosse eu"
que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. 
Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. 

Graffiti numa parede junto à antiga Lisnave

Experimente: 
Se você fosse você, como seria e o que faria? 
Logo de início se sente um constrangimento: 
A mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. 
No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. 
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado.
Como?
Não sei !
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. 
Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. 
E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao Futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. 
No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. 
Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. 
E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. 
Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. 
Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.



"Se eu Fosse Eu" - ( Clarice Lispector ) - [ Na voz de Aracy Balabanian ]


(aqui)

06 janeiro, 2014

Adélia Prado fala sobre o amor


Adélia Prado falando sobre o Amor! - Pra ser bem sincero... sabe aqueles momentos que a gente queria que o tempo parasse?...pois é!...

A gravação desse progama, lá em São Paulo, foi um dos melhores momentos que já passei nesta vida.

Tudo o que eu quis um dia: música e poesia. Foi uma graça encontrar a Adélia, Túlio, o Chico Pinheiro, minha querida Maria Lúcia Godoy, e a simpatia do meu primo Zé de Freitas (Marido da Adélia). Que noite mais boa, sô!!!



*

05 janeiro, 2014

Mulher, essa espécie ainda envergonhada


Mulher. Eu sou mulher. Sinto-me muito mulher. 

Uma vez, uma amiga contou-me que um amigo dela que me tinha conhecido lhe perguntava sempre por mim e, quando ela brincou com ele, ele disse-lhe que achava que eu era a mulher mais mulher que ele tinha conhecido. Nunca nada sobre mim me agradou tanto. 

Uma mulher muito mulher. Toda mulher. Orgulhosamente mulher. Feminina, namorada, amante. E mãe. E muito mãe. Mãe desdobrada em mãe dos filhos dos filhos, cada vez mais mãe.

Ser mulher não me pesa. Ser mulher deixa-me voar.

Mulher desde que nasci, sempre. Em cada instante. Mulher. Escrevo palavras de mulher. Sou corajosa como só as mulheres sabem ser. Sou brava e sou doce como só às mulheres fica bem ser.

Mulher.


Graffiti numa parede perto da ex-Lisnave




Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira
- cargo muito pesado pra mulher,
essa espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


['Com licença poética' de Adélia Prado, aqui]



Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


[Início de 'Poema de Sete Faces' de Carlos Drummond de Andrade']


02 janeiro, 2014

Dinato: Que escreverei, companheiro? ........ Belzebu: Que ninguém busca consciência e todo o mundo dinheiro.


Não é de hoje. É da natureza humana. Mas tanto é a vã ganância como a pura consciência. O bem e o mal convivem, sempre conviveram, sempre conviverão. Por vezes prevalece um até que o outro venha e se imponha. O poder e a força aparentemente estão mais do lado do Mal mas sabemos todos (o Mal também sabe e por isso tão bem se defende) que o Bem se fará valer. Qualquer dia, qualquer dia.

Neste primeiro dia de 2014 que fique pois a lembrança que isto é ciência que vem dos antigos. Por cada um que quer a lisonja mesmo que envolta em mentira, há um outro que quer a verdade, que quer pagar o que deve, que a ninguém quer enganar. E que esses, os ninguéns, um dia, todos juntos, saberão expulsar do palco os que tudo querem gozar, obrigando os outros a pagar.

Feliz 2014!

Árvore derrubada e arrastada no Tejo, avistada no Ginjal





Todo o Mundo:
Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.

Ninguém:
Eu hei nome Ninguém, 
e busco a consciência.

Belzebu:
Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem. 

Dinato:
Que escreverei, companheiro?
Belzebu:
Que ninguém busca consciência. 
e todo o mundo dinheiro. 

(...)

[Excerto de 'Todo o Mundo e Ninguém' contido no 'Auto da Lusitânia' de Gil Vicente, aqui num vídeo realizado para o EAD da ULBRA ]