Há muito tempo, eu já era uma menina que amava o mar. Corria sobre as rochas, entrava nas grutas, escondia-me nos recantos onde a areia se mantinha molhada e o ar era sempre fresco, passava a mão pela pedra molhada, aveludada, coberta de limos verdes, macios, apanhava mexilhões, saltava por entre as poças de água, mergulhava as mãos nas covas das rochas onde a água do mar ficava retida, sempre com medo que algum caranguejo me mordesse.
Quando eu era muito pequena e tinha cabelos muito compridos (que, quando ia para a praia, a minha mãe apanhava em longas tranças), os meus pais escolhiam um recanto entre as rochas, com sombras, e, sobretudo, onde não houvesse ninguém. Descíamos da estrada para lá pelos rochedos, escadas escavadas na pedra - e eu acho que é desses tempos que me veio o medo pelas alturas, de vez em quando ainda sonho que ando em sítios desprotegidos, muito altos - e passávamos lá o dia. Abrigávamo-nos do sol junto às rochas, ajustávamos o abrigo em função das marés.
Estávamos mesmo junto à água muito límpida e eu entrava e saía do mar, sem medo, feliz por poder brincar ali onde passavam pequenos cardumes de ínfimos peixes, feliz por nadar e chapinhar num mar que era só meu.
Os meus pais chamavam-me, que eu não saltasse das rochas para a água, que não subisse às rochas muito altas, que não fosse para longe. Mas a minha liberdade era total e o mundo, para mim, era sempre um lugar maravilhoso.
Uma vez apareceu um casal inglês com uma menina da minha idade, muito branquinha, muito lourinha, o cabelo curtinho, tão clarinho. E tinha um fato de banho com folhinho em baixo, muito parecido com o meu. Fui brincar com a menina. Os meus pais eram muito novos e os dela muito velhos. O senhor inglês e a sua simpática mulher admiravam-se com a minha familiaridade com o mar, eu mergulhava, sempre gostei muito de mergulhar, e admiravam-se também com a minha liberdade, era uma pequena menina muito livre, muito alegre. No fim, os meus pais e os dela trocaram moradas. Ela chamava-se Jill e, ao princípio com alguma dificuldade pois o meu inglês ainda era limitado e com facilidade depois, trocámos cartas até quase ao fim da nossa adolescência. Os envelopes eram de papel fininho debruados com uma cercadura às risquinhas encarnadas e azul, porque as cartas iam de avião.
Por altura dos nossos treze, catorze, quinze anos, já era eu que ficava muito admirada com a liberdade dela.
Penso que foi o contacto tão próximo com essa menina também muito livre - que vivia tão longe de mim, e que me deixava admirada com o que me contava, que me falava com naturalidade da sua precoce perda da virgindade, que me falava das festas de fim de semana já um pouco regadas a vinho e a sexo - que também fez com que eu crescesse sabendo que o horizonte é uma linha imaginária que fica muito, muito distante.
Talvez também por isso nunca me tenha sentido prisioneira. Nunca em torno de mim se fecharam as fronteiras.
Eu era, sempre fui, ainda sou, acho que sempre serei, uma menina do mar. E, por isso, por muita cidade que eu pise, por muito que a terra chame por mim, por muita gente que me rodeie, eu sei que é o mar, o silêncio, o mistério do fundo do mar que chama por mim. É de lá que eu vim, do fundo do mar.
Talvez parte de mim a ele volte um dia *.
Talvez parte de mim a ele volte um dia *.
[Abaixo da fotografia, um poema de uma Poetisa que aqui vem pela primeira vez, Maria Andresen, filha de Sophia. Logo abaixo, um dos momentos mais felizes de que há memória, Maria Bethânia e Rita Lee.
PS1: A praia que acima refiro é a Figueirinha ou Galapos
PS2: * Daqui por muito tempo, espero]
PS2: * Daqui por muito tempo, espero]
E mesmo que me mostres, da rosa
a cabeça entontecida, do vinho,
o delírio, o passo vacilante, do fogo,
a fúria, a intrepidez e me ensines
como se barra esse poder ilimitado
E que, pela carne me chamem a vastidão
da terra e a truculência do mundo
O meu caminho é para trás e conduz-te
para o fundo onde o ventre da impaciente
Rainha nos espera
[A "Menina do Mar" de Maria Andresen in Livro das Passagens]
*
Vieste de um lugar bem distante.
Trazias paisagens no olhar,
cheiro da urze, no cabelo ondulante.
Vieste, para conhecer o mar.
A leveza breve do andar.
A suavidade do gesto, o respirar.
Fizeram-me por momentos sonhar,
quando caminhavas junto ao mar.
Encantou-me a luz do sol, no teu sorriso.
Quando me perguntaste onde ia dar,
aquele mar verde, brando e liso.
E eu, respondi, que ao teu olhar.
Encantou-me a delicadeza do teu colo,
quando te sentaste ao meu lado.
E, tirando o casaco a tiracolo.
Sobressaiu teu peito encastelado.
Dissemos coisas belas um ao outro.
Segredaste-me desejos de viajar.
Revelaste-me que és guiada por um astro.
E que te reges pela força desse mar.
E eu, senti poder voar.
Segurando a tua mão junto a mim.
Senti-me ir contigo a esse lugar.
Percorrendo esse mar que não tem fim.
['Tu e o Mar' de Bartolomeu num comentário aqui abaixo]