Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

17 janeiro, 2013

E mesmo que me mostres, da rosa a cabeça entontecida, do vinho, o delírio


Há muito tempo, eu já era uma menina que amava o mar. Corria sobre as rochas, entrava nas grutas, escondia-me nos recantos onde a areia se mantinha molhada e o ar era sempre fresco, passava a mão pela pedra molhada, aveludada, coberta de limos verdes, macios, apanhava mexilhões, saltava por entre as poças de água, mergulhava as mãos nas covas das rochas onde a água do mar ficava retida, sempre com medo que algum caranguejo me mordesse.

Quando eu era muito pequena e tinha cabelos muito compridos (que, quando ia para a praia, a minha mãe apanhava em longas tranças), os meus pais escolhiam um recanto entre as rochas, com sombras, e, sobretudo, onde não houvesse ninguém. Descíamos da estrada para lá pelos rochedos, escadas escavadas na pedra - e eu acho que é desses tempos que me veio o medo pelas alturas, de vez em quando ainda sonho que ando em sítios desprotegidos, muito altos - e passávamos lá o dia. Abrigávamo-nos do sol junto às rochas, ajustávamos o abrigo em função das marés. 

Estávamos mesmo junto à água muito límpida e eu entrava e saía do mar, sem medo, feliz por poder brincar ali onde passavam pequenos cardumes de ínfimos peixes, feliz por nadar e chapinhar num mar que era só meu.

Os meus pais chamavam-me, que eu não saltasse das rochas para a água, que não subisse às rochas muito altas, que não fosse para longe. Mas a minha liberdade era total e o mundo, para mim, era sempre um lugar maravilhoso.

Uma vez apareceu um casal inglês com uma menina da minha idade, muito branquinha, muito lourinha, o cabelo curtinho, tão clarinho. E tinha um fato de banho com folhinho em baixo, muito parecido com o meu. Fui brincar com a menina. Os meus pais eram muito novos e os dela muito velhos. O senhor inglês e a sua simpática mulher admiravam-se com a minha familiaridade com o mar, eu mergulhava, sempre gostei muito de mergulhar, e admiravam-se também com a minha liberdade, era uma pequena menina muito livre, muito alegre. No fim, os meus pais e os dela trocaram moradas. Ela chamava-se Jill e, ao princípio com alguma dificuldade pois o meu inglês ainda era limitado e com facilidade depois, trocámos cartas até quase ao fim da nossa adolescência. Os envelopes eram de papel fininho debruados com uma cercadura às risquinhas encarnadas e azul, porque as cartas iam de avião.

Por altura dos nossos treze, catorze, quinze anos, já era eu que ficava muito admirada com a liberdade dela. 

Penso que foi o contacto tão próximo com essa menina também muito livre - que vivia tão longe de mim, e que me deixava admirada com o que me contava, que me falava com naturalidade da sua precoce perda da virgindade, que me falava das festas de fim de semana já um pouco regadas a vinho e a sexo - que também fez com que eu crescesse sabendo que o horizonte é uma linha imaginária que fica muito, muito distante. 

Talvez também por isso nunca me tenha sentido prisioneira. Nunca em torno de mim se fecharam as fronteiras. 

Eu era, sempre fui, ainda sou, acho que sempre serei, uma menina do mar. E, por isso, por muita cidade que eu pise, por muito que a terra chame por mim, por muita gente que me rodeie, eu sei que é o mar, o silêncio, o mistério do fundo do mar que chama por mim. É de lá que eu vim, do fundo do mar.

Talvez parte de mim a ele volte um dia *.


[Abaixo da fotografia, um poema de uma Poetisa que aqui vem pela primeira vez, Maria Andresen, filha de Sophia. Logo abaixo, um dos momentos mais felizes de que há memória, Maria Bethânia e Rita Lee.

PS1: A praia que acima refiro é a Figueirinha ou Galapos

PS2: * Daqui por muito tempo, espero]


Uma Menina no Mar numa das praias do Ginjal
(a fotografia está com as cores saturadas para não se distinguir a cara da menina
e reforço o que está escrito noutros locais do blogue:
caso me escrevam a solicitar que retire a fotografia, fá-lo-ei de imediato)



                                                   E mesmo que me mostres, da rosa
                                                   a cabeça entontecida, do vinho,
                                                   o delírio, o passo vacilante, do fogo,
                                                   a fúria, a intrepidez e me ensines

                                                   como se barra esse poder ilimitado
                                                   E que, pela carne me chamem a vastidão
                                                   da terra e a truculência do mundo
                                                   O meu caminho é para trás e conduz-te

                                                   para o fundo onde o ventre da impaciente
                                                   Rainha nos espera


                                                   [A "Menina do Mar" de Maria Andresen in Livro das Passagens]

*



Vieste de um lugar bem distante.
Trazias paisagens no olhar,
cheiro da urze, no cabelo ondulante.
Vieste, para conhecer o mar.

A leveza breve do andar.
A suavidade do gesto, o respirar.
Fizeram-me por momentos sonhar,
quando caminhavas junto ao mar.

Encantou-me a luz do sol, no teu sorriso.
Quando me perguntaste onde ia dar,
aquele mar verde, brando e liso.
E eu, respondi, que ao teu olhar.

Encantou-me a delicadeza do teu colo,
quando te sentaste ao meu lado.
E, tirando o casaco a tiracolo.
Sobressaiu teu peito encastelado.

Dissemos coisas belas um ao outro.
Segredaste-me desejos de viajar.
Revelaste-me que és guiada por um astro.
E que te reges pela força desse mar.

E eu, senti poder voar.
Segurando a tua mão junto a mim.
Senti-me ir contigo a esse lugar.
Percorrendo esse mar que não tem fim.


['Tu e o Mar' de Bartolomeu num comentário aqui abaixo]

Rita Lee e Maria Bethânia interpretam 'Baila comigo' num dos mais felizes momentos que aqui já se publicaram


16 janeiro, 2013

De olhos fechados me abandono


Olho o rio, disfarço. Faço de conta que estou a ver a ponte, que aprecio o pôr do sol, que espreito algum  navio que entre a barra. Sou especialista na arte do disfarce. 

Ela também olha quem passa, uma menina inocente, bem comportada, se for preciso sorri. Uma namorada enlevada, abraçada, feliz e eu um namorado absorto, distraído. 

E sorri mesmo e diz baixinho, bem junto ao meu pescoço, fazendo-me arrepiar, só espero que depois de tanto olhares o horizonte apareças com um poema. Disfarço, e respondo em surdina, está bem, já te mostro o poema. Ela morde-me o lóbulo da orelha, não lhe vejo o rosto mas sei que sorri, e diz, promessas.

Há uma neblina rósea, há uma maresia doce. As tardes assim vêm carregadas de desejo, anunciam noites de amor. O ar está macio, macio, e o meu coração também. Não consigo perceber onde é, ao certo, a linha do horizonte, tudo me parece difuso. Que maravilha, que bem estar.

Ao fundo uma gaivota eleva-se e desliza no meio da luz, grita, desafia o tempo, goza a quietude do fim do dia. 

Fecho os olhos. E ouço-a dizer, então, poeta, como irás conseguir pôr uma gaivota no meio da estrofe se não vês a forma como voa? E eu, ainda de olhos fechados, não vejo mas sinto.

De olhos fechados me abandono, este é o lugar mais perfeito do mundo, digo. Ela diz, já vês de olhos fechados? e eu digo, tudo é perfeito, tu és perfeita, o cheiro que vem de ti é perfeito, o teu seio quente contra o meu ombro é perfeito, a tua mão que me leva a voar é perfeita, a música do rio que passa é perfeita. Ela pára, isso é o poema? Não rima... Quase me dá vontade de rir mas digo apenas, não pares

E ela recomeça, suave, firme. Mais devagar, peço. Não, mais devagar não, gosto de ver as nascentes dos rios, gosto de ver o teu rosto quando sobre ti cai uma chuva de estrelas, gosto tanto de ti, e a sua foz enrouquece, fremente.

E eu faço-lhe a vontade. Do meu corpo nasce a semente da grande festa. 

Com um amor como o nosso a vida recomeça todos os dias.



[Abaixo do casal à beira do rio, reparo uma outra injustiça - e já temo que muitas mais esteja eu a cometer. Pela primeira vez aqui no Ginjal o poeta José Régio; e, claro, para compensar a anterior ausência, tinha que fazer uma entrada retumbante. Abaixo temos mais um momento feliz, os amigos João Gil e Luís Represas em tempo de gente amável, seja ou não sisuda]


Fim de tarde no Ginjal, o Tejo mexido


                                               Sábia talvez inconsciente,
                                               doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão,
                                               ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,
                                               me acaricia a tua mão.

                                               De olhos fechados me abandono, ouvindo
                                               meu coração pulsar, meu sangue discorrer,
                                               e sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo
                                               àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…


                                               ['Monólogo a dois' de José Régio in Filho do Homem]

*


Ah! Sede de ti
de beber teu corpo
de um trago só
navegar sonhando
no teu rio
Do teu rio 
ser o leito
e repousar
exausto
nas tuas margens
seguindo
o voo anónimo
de pássaros invisíveis
no espaço interior 
de ti
onde os rios se escondem
e o mar se inventa.

[Poema da autoria de Joaquim Castilho em comentário aqui abaixo]

*

Escorres-me pelos sentidos
como chuva intensa de verão,
refrescando, os gemidos,
que nos provoca a paixão.

Tudo em mim és tu...

Tenho-te...
O teu corpo desenhado ao milímetro,
na polpa dos meus dedos.
O teu cheiro gravado a fogo na minha pele.
E o som dos teus desejos ecoam,
como o marulhar suve da onda que se espraia.
Depois, como o ribombar intenso do trovão.

Tenho o sabor de ti guardado em mim.


[Poema da autoria de Bartolomeu em comentário aqui abaixo]


Luis Represas e João Gil interpretam Sisudo Amável


15 janeiro, 2013

Perco-me à vista da pedra onde o mar vem largar a pele


Olho o rio já tão perto do oceano e, só de olhar, já lhe sinto o sal. Aqui mesmo, neste preciso lugar, molhei eu os meus lábios em ti, meu amor. Estavas salgado e não sei se era da maresia, se era suor, se eram lágrimas. Choravas, então, lembras-te? Impuro, impuro, dizias para ti próprio, punias-te em surdina.

Com desvelos de mãe, eu secava a água que escorria do teu corpo, meu amor, não és impuro, não és. E beijava-te, meu menino, meu amor. Mas tu não querias absolvição.

Aqui, neste recanto, numa outra noite, provei o sabor do teu corpo, ainda tu sussurravas lamentos, não contes a ninguém, não contes, jura que não contas. E eu afagava o teu cabelo e dizia, juro, juro, mas agora esquece. E tu esqueceste e foste meu, meu lindo, meu amor.

Aqui, onde o rio se agita, se espraia, se endoidece, endoideceste tu, nos meus braços, meu amor, a pele macia, o coração agitado, o corpo engalanado, e eu, meu amor, todo teu, amante de corpo e alma, corpo em festa, meu doido, meu doido, fica comigo até que a manhã desponte, fica, fica, que eu canto-te canções de embalar, fica que eu digo-te poemas de amor e saudade, fica, fica.

Mas não ficaste. Eras, sempre foste, amor de passagem, incerto companheiro. Não aceitavas o que o teu corpo te pedia, não te aceitavas o que o teu coração e a tua cabeça te diziam. Fugias. 

Foges sempre. Mesmo agora, quando te procuro e vejo nos teus olhos o amor e o desejo por mim, tu foges, foges de mim. Foges de ti. Mas sabe, meu amor, que, haja o que houver, eu espero por ti.



[Pela segunda vez aqui o poeta Luís Miguel Nava que tão bem cantou o amor junto ao mar. A seguir há mais um momento feliz, Teresa Salgueiro e José Carreras. Haja o que houver.]


Rente ao Tejo, no jardim do Ginjal


                               
                                              O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar
                                              ao longo das falésias, o que sempre
                                              me traz a exaltação desses rapazes que circulam
                                              por Lisboa no verão.
                                              O mar está-lhes na pele. Partilho
                                              com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas
                                              a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista
                                              da pedra onde o mar vem largar a pele.



                                              ['Na pele' de Luís Miguel Nava in Poesia Completa 1979-1994]


*


É necessário
Domar as frases
Moldar as palavras
Para que se aproximem
Do amor que sentimos
Que queremos escrever.
As cores, as formas, 
A loucura
Como as vivemos
Como as queremos ter vivido
Como imaginámos, 
Algum dia,
Tê-las mesmo vivido
À sombra de um qualquer mar!



[Poema da autoria de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

José Carreras e Teresa Salgueiro interpretam 'Haja o que houver'


14 janeiro, 2013

O fogo já não arde como ardia dantes


Que frio que está. Um frio que me gela os ossos, um frio que sobe do rio, que atravessa o cais, que sobe pelo meu corpo. Já não sou novo, sabes disso. É um frio que vem lá muito do fundo do mar, de onde os navios naufragados repousam, de onde os deuses beijam secretas sereias. Um frio carregado de maresia. Fosse eu novo e esse frio poderia transformar-se em fogo. Ah o vigor que eu tinha. Frio que subisse pelo meu corpo logo teria efeitos de sol, de chama, de impudico beijo.

Do meu corpo nasciam flores, flores que se erguiam ao sol, flores que oferecia a quem com o olhar me oferecesse um sonho. E as mulheres vinham vê-las e eu, audacioso, dizia que se aventurassem, que as colhessem, com vagar, com amor.

Mas agora o meu corpo já não responde assim.

O meu cabelo está branco, os meus ossos cansados, e eu sento-me aqui, junto ao cais, aspiro o ar frio. E sonho. Sonho apenas. 

Olho o rio, olho um navio imponente e quem me dera embarcar, olho a outra margem e quem me dera alcançá-la e sinto o frio. Tanto, tanto frio.

Mas se o meu corpo arrefeceu, já o meu coração e a minha cabeça não.

E, então, como te disse, sento-me a sonhar.

E sonho.

Sonho que se aproxima, como se dançasse, uma mulher inventada, cabelos louros, corpo de formas generosas, um belo corpo de mulher. Olha para mim e começa a cantar baixinho. Vê tu, sonho que uma mulher me olha com um olhar em chamas e me chama. E que eu vou.

E que o meu corpo ganha força, que eu a elevo no ar, a faço rodopiar. E eu tenho outra vez vinte anos, vê tu bem, e uma mulher eleva-se nos meus braços cheios de fogo e de força. E eu abraço-a e beijo-a. E junto dançamos como se uma fogueira de paixão nos incendiasse. Dançamos, dançamos e ela não tem peso, tem asas e eu tenho um corpo sem frio, todo ele uma flor que se eleva, em chamas, em chamas, sabes lá.



[Abaixo do casal que dança na beira do rio, reparo uma falta grave. Pela primeira vez trago aqui um poeta de quem, em tempos, não perdia um poema: José Gomes Ferreira. A seguir, já que são tempos de momentos felizes, temos Jorge Palma e João Gil. Senta-te aí.]


Num cais do Ginjal, num fim de tarde, bailado rente ao Tejo


                                                                                                              (Este frio que arde nas fogueiras e no sol)

                                               O fogo já não arde
                                               como ardia dantes
                                               nos meus olhos de ter amantes.

                                               Com o frio da tarde
                                               chegou lentamente
                                               - nas ruínas do sol já sem asas de borboletas -
                                               outro frio diferente
                                               e tão fundo
                                               como se subisse
                                               dos ossos do planeta.

                                                (O frio que gera
                                                o fogo da superfície
                                                e as flores da primavera)


['O fogo já não arde' de José Gomes Ferreira in Poesia III]

*


Tropeço na memória dos teus lábios
quando eu e tu, deitados ao luar
entrelaçávamos nossos dedos ávidos
e nos amávamos longamente à beira mar

As estrelas brilhantes, polvilhavam
nossos corpos com sua luz de magia
o vento tocava-nos de mansinho
bailava-nos, com seu cheiro a maresia

E nós, ternamente apaixonados
jurámos um amor de fantasia
votos em nossos corações guardados
por tudo o que nos demos nesse dia


['Um sonho à beira-mar' de Bartolomeu num comentário aqui abaixo]

O Ginjal e Lisboa inscrito no concurso do blogue Aventar nas categorias 'Língua Portuguesa' e também em 'Livros, literatura, poesia'


Aos Leitores deste blogue que não são leitores do meu outro blogue, o Um Jeito Manso,  informo que, por sugestão de leitores que, nem sei porquê resolvi seguir, de facto inscrevi mesmo os meus blogues no concurso do blogue Aventar.

Como era possível inscrever cada um em duas categorias eu, que não sou de modas, aproveitei e inscrevi mesmo:

  • O Um Jeito Manso está em:

  1.     Actualidade Política - blogue individual  (página 1 de 4) e em
  2.     Generalistas (página 2 de 4)

  • O Ginjal e Lisboa está em:

  1.  Língua Portuguesa (a mesma que a anterior, isto é, página 2 de 4)    e em
  2.  Livros, literatura, poesia (idem, página 2 de 4)

  • Inscrevi-me ainda em Blogger do Ano e apareço duas vezes, com cada um dos blogues (página 4 de 4)


Aos poucos da minha família que sabem que tenho os blogues pedi para votarem mas não me levaram a sério, acham que não tenho hipóteses. Como mais ninguém sabe que tenho esta 'pancada', não posso fazer campanha junto de mais ninguém senão junto dos meus leitores. Por isso, se vos apetecer, já sabem onde é (e pode votar-se uma vez por dia).

[... Com este jeito para arranjar votos ainda me vou arregimentar num partido...]

Jorge Palma & João Gil interpretam 'Senta-te aí'


13 janeiro, 2013

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras


Por aqui entram e saem, esquivos, escondendo antigos segredos, os gatos vadios. Por aqui andam também, soltas pelos ares, voando, entrando e saindo destas casas arruinadas, as gaivotas. E as palavras.

Quem aqui viveu? Quem espreitou o rio por estas janelas? 

Talvez de noite as janelas se abrissem e mulheres muito belas, muito loucas, murmurassem promessas de amor. Talvez ao largo passassem marinheiros de muitas mulheres e sorrissem, acenando lenços com palavras bordadas. Talvez que, nas noites de luar, quando a lua iluminasse o rio, uma mulher muito solitária descesse ao cais e tentasse os pescadores nocturnos. Talvez, nas secretas noites de lua nova, uma mulher de longos cabelos e corajosa nudez descesse à praia esperando que um deus do fundo do mar viesse à superfície para a amar. Talvez.

Ninguém sabe ao certo, foi há muitos anos, as casas estão gastas, cobertas de palavras que, com o tempo, se vão apagando. Quem viveu esses tempos, há muito partiu. Por isso, tudo o que se diga vem precedido da palavra talvez.

Talvez, portanto.

Dizem que, ainda agora, nas noites negras, de muito frio, de tempestade, em que apenas os ventos e os raios habitam estes lugares, as janelas se abrem e de lá de dentro ecoam cantos, lamentos. Ou uivos. Ou gritos. Os pescadores que por aqui passam dizem que é uma gaivota que se perdeu e que deste belo casario fez o seu ninho. E que chama pelas outras e que chora o seu isolamento e que grita as saudades do seu amor.

Mas sabe-se lá. Talvez. Sempre talvez.

Mas eu, quando saio à noite e voo por lá, ouço distintamente doces palavras de amor, chamamentos impúdicos, poemas desfiados em surdina. Palavras. Aqui é a casa das palavras molhadas de maresia e de amor, a casa das palavras brancas envoltas em saudade e solidão, a casa das palavras que choram a loucura e o abandono. Mas não sei se as ouço ou se sou eu que as digo. O que sei é que, quando de lá saio, volta, pesado e longo, o silêncio, um silêncio despido de palavras.



[Abaixo do belo poema de Manuel António Pina, poderão assistir a mais um momento feliz, o encontro de António Zambujo e Roberta Sá em volta de um novo amor]


Praia das Lavadeiras no Ginjal - o Tejo em toda a sua suavidade


                                        Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
                                        nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
                                        pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
                                        na ausência das palavras calar-se.

                                        Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
                                        nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
                                        a porta está fechada na palavra porta
                                        para sempre.

                                        O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
                                        nem sob ele te deitarás, nas longas tardes de Verão
                                        como quando eras música apenas
                                        sem uma casa guardando-te do mundo.


                                         ['Uma casa' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa']


Roberta Sá e António Zambujo interpretam Novo Amor


10 janeiro, 2013

Comovem-me ainda os dias que se levantam no deserto das nossas vidas



As luzes da cidade acendem-se à medida que a luz do sol se apaga. O rio escurece. Não há ninguém por aqui. Onde antes havia vida, pescadores, gente enamorada, pássaros de longas asas brancas, veleiros elegantes desfiando velas ao vento, gatos vadiando, havia hoje silêncio, uma solidão suave, e mais nada.

Passei rente ao rio vagaroso, procurei-te, esperei que aparecesses. Mas não. Claro que não. Os teus sorrisos já não andam por estas paragens. E a tua voz quente e grave cicia segredos junto à curva do pescoço de outras que não eu. Sei bem disso. Aceito isso. Claro que sim.

A água no chão depois das chuvas é a mesma de outros tempos, o cheiro fresco da maresia também, as cores macias do fim do dia são ainda iguais, tudo parece igual. Mas eu já não sou a mesma. Onde antes passava uma mulher venturosa, passa agora uma mulher saudosa. Comove-me a beleza deste fim de tarde, um fim de tarde igual ao que tantas vezes vivi junto a ti, comove-me este silêncio onde dantes eu distinguia a tua respiração, agora nada perturba este silêncio triste. Comovem-me estes dias que parecem os mesmos que os outros, os dias felizes do nosso enamoramento. Mas agora tu já não estás dentro destes dias e isso comove-me muito.

Que silêncio, que solidão, meu amigo.

Apenas um velho pescador aqui ficou. Cabelos brancos, costas curvadas, ele vira as costas às luzes que se acendem na grande cidade e olha, sem esperança, o velho casario. Mas ninguém assoma às janelas abandonadas, ninguém atravessa as paredes gastas, ninguém. Espera em vão.

Eu também.

Penso ainda tanto em ti.



[Abaixo do homem que espera em vão num fim de tarde solitário, um belo poema de José Agostinho Baptista e, logo a seguir, não é tempo para tristezas: as saudades apagam-se com beijos e a música é morna e o afecto é venturoso: Mariza e Tipo Paris num momento feliz.]


No Ginjal, bem sobre o Tejo, de costas voltadas para Lisboa



                                                 Comovem-me ainda os dias que se levantam
                                                 no deserto das nossas vidas.

                                                 Dos belos palácios da saudade
                                                 não resta a impressão dos dedos nas colunas
                                                 fendidas, e nada cresce nos pátios.

                                                 Muito além, depois das casas, o último
                                                 marinheiro continua sentado.
                                                 Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.

                                                 Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
                                                 secaram ao sol,
                                                 longe do orvalho,
                                                 das fontes que pareciam nascer de um olhar
                                                 turvo sobre a sede da terra.

                                                 Comovem-me ainda as palavras que dizias
                                                 aos meus ouvidos aprisionados pela música.
                                                 Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.

                                                 Lembro-me sempre de ti.



['Comovem-me' de José Agostinho Baptista in 'Esta voz é quase o vento']

||||



Nos dias cinzentos
Iguais
A tantos outros dias cinzentos
Uma luz 
Uma luz eterna
Um fogo brando
Ilumina os silêncios
Sorrindo
Sorrindo sempre
Lá longe
No fundo do tempo.


['Como se fosse um dia cinzento' de Joaquim Castilho num comentário abaixo]



Tito Paris e Mariza interpretam 'Beijo de Saudade'. No trompete parece-me que é Laurent Filipe


09 janeiro, 2013

Eu sou o mais boquiaberto dos ministros, estas finanças devem ser um falo


Não percebo nada disto. Sei de tudo, sou o maior, o melhor, o mais bem comportado, acordo cedo, sou o primeiro a chegar a todo o lado, sou lavadinho, toda a gente me conhece e cumprimenta, ando sempre carregado de dossiers, pastas, power-points, computadores, pens e sei lá o que mais. E, apesar disso, gozam comigo, põem em causa a minha sabedoria. Ingratos do caraças. Estou farto disto. Não percebo. O que é que querem mais?

Sei a tabuada de frente para trás e de trás para a frente, faço cópias, faço ditados, faço os exercícios todos do Palma Fernandes, faço folhas de excel de olhos fechados, nunca faço cábulas, não preciso, sei tudo de cor, e, no entanto, nada me bate certo. Caraças. Que raio de país é este, que raio de gente é esta? Não consigo acertar uma única previsão, não consigo atingir um único objectivo. Nada. E, no entanto, faço tudo bem feito. Sempre fui bem aluno, toda a gente reconhece isso. É esta gaita toda que desanda, é esta gente que me agoira, ó caraças. Só pode ser, senão não percebo nada disto.

A porcaria do défice não baixa, a porcaria da dívida aumenta todos os dias, o desemprego é uma porcaria, nada corre bem. Droga!

E, como se isso não bastasse, ainda tenho que aturar aqueles anormais que me atentam o juízo, que não acham graça às minhas piadolas, que saem a meio das reuniões para irem fumar, que me fazem perguntas com ar de dúvida. Parece que não sabem que sou o melhor, o maior... Caraças! Que falta de paciência para aturar aqueles bem falantes, armados em políticos. Odeio políticos. Odeio esta cambada toda. Finjo, faço risinhos mas, caraças, odeio mesmo esta cambada.

Estas contas que não batem certo dão-me conta do juízo. Preciso de tempo e sossego para ver se percebo se me enganei nalguma fórmula, ou se me esqueci de alguma variável. Queixam-se que há muito desemprego. Quero cá eu saber disso. E é alto o desemprego? Se me chateiam muito, ainda vou aqui ao modelo e ponho-o em 80% e que se lixe. Raios partam isto. Não percebo que raio de finanças são estas que parece que são diferente das dos livros, não estou a conseguir ter mão nesta gaita.

Dizem que estou a fornicar tudo e eu já nem tenho pachorra para os ouvir, ó gente mais parva. Em vez de estar no brasil como o outro, em vez de ter tempo para andar a namorar donzelas como o outro, estou aqui a trabalhar e ninguém me dá valor. Ignorantes, pacóvios. Vejam lá se o alemão não me elogiou? Ai não que não elogiou... Pois claro, eu sou tão bom aluno. Caraças para estes palermas!

E, agora, olhem, vou ali e já venho, tenho que ir ao granulado fazer o mesmo que o gato do outro: uma mija. Mas não me demoro, que eu sou um marrãozinho e os marrõezinhos não perdem tempo com essas insignificâncias.



[E, agora, meus amigos, depois do monólogo do ministro, aproveitemos a sua ausência para um pezinho de dança. É mais um momento feliz, Vitorino canta com o Septeto Habanero]



As finanças do ministro boquiaberto: um buraco
(um buraco num pau partido)

Na Praia das Lavadeiras no Ginjal



                                                       Eu sou
                                                       o mais boquiaberto
                                                       dos ministros

                                                       Estas finanças
                                                       doem
                                                       como um calo.

                                                       Estas finanças
                                                       devem ser um galo
                                                       cantando o ouro
                                                       que urinam
                                                       as crianças

                                                        Estas finanças
                                                        devem ser um falo
                                                        ubérrimo Brasil
                                                        de esquálidas
                                                        donzelas.


['Cinco Almas Triviais, 5' de Armando da Silva Carvalho in Os Ovos d'Oiro]


Vitorino & Septeto Habanero interpretam 'Toda Uma Vida'


08 janeiro, 2013

De novo o perfume que trouxeste contigo do outro lado da terra


A jovem mulher percorre, sozinha, os velhos caminhos, encanta-se com o velho casario, pára a olhar. 

Tem um corpo decidido, andar firme, cabeça erguida, porte orgulhoso e confiante. Tem tempo. À sua frente vê, certamente, os dias que se multiplicam. 

Anda e olha sem pressa. Transporta a sabedoria dos ternos deuses, dos antigos pescadores, a doçura do vento.

Tem pela frente uma vida cheia de mar, de veleiros, de gaivotas, de céu. Avança enquanto aspira a maresia. 

Avança em silêncio, solitária mas sem solidão sobre os seus ombros inocentes. 

Não sei como é a sua voz, o seu riso. Apenas sei do andar rente ao rio, rente aos gatos, rente às paredes que o tempo vai tingindo. 

Serena, como se de si viesse um perfume de mulher, como se o corpo se cobrisse de sal em dias de sol, praia e amor, a jovem mulher vai caminhando. Sente a relva que vai pisando com cuidado, caminha como se dançasse nos passeios junto às casas, e olha, olha o espaço, olha a grande cidade do outro lado, olha. Anda e olha.

Nunca antes a tinha visto por aqui. 

Talvez a volte a ver, ela e os gatos, ela e as gaivotas, ela e o silêncio que ondula sobre as águas como um riso secreto.

Talvez a veja um dia a sair dali a voar, talvez vá até ao outro lado da terra, ou talvez até aos braços de um marinheiro que passe num veleiro branco, levado pelo vento.



[Aqui a seguir um belo poema de Daniel Filipe, um jovem cabo-verdiano a quem os deuses chamaram muito cedo e logo depois mais um momento feliz, um momento de cumplicidade entre António Zambujo e Raquel Tavares]


No jardim do Ginjal, de frente para o velho casario


                                              De novo o espelho, a imagem facetada,
                                              o dia multiplicado, o número secreto da besta apocalíptica.
                                              De novo a serena postura que aprendeste dos deuses, por um
                                                             outono agreste e solitário
                                               De novo a tua voz ondulando o silêncio,
                                               desfolhando o riso sobre as águas,
                                               que deixam marcas de sal no teu corpo húmido de amor.
                                               De novo o perfume que trouxeste contigo do outro lado da
                                                               terra
                                               e precede teus passos,
                                               teu riso,
                                               tua voz.


['Ilha em corpo de mulher - V' de Daniel Filipe in 'pátria lugar de exílio']

*


Pousou o olhar
Nos pássaros
E voou
E voou com com eles.
Esqueceu o espaço
E voou
Voou sempre
Para além do tempo
Para longe
Para muito longe
Para além de si. 


['Será que...' de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]


António Zambujo e Raquel Tavares interpretam 'Para que quero eu olhos'


se conseguires entrar em casa e alguém estiver em fogo na tua cama


A minha avó preocupava-se muito, tinha sempre medos, medo que eu caísse, que eu me magoasse, que eu não estudasse, que eu não fosse bem sucedida por estudar tão pouco, tinha medo que eu não tivesse sorte, que os vizinhos não dissessem bem de mim. Queria proteger-me de tudo. 

E eu, cabrita maltês, queria era correr pelos campos, brincar ao lencinho queimado no meio do mato, brincar às escondidas atrás das pedras, dos arbustos, jogar ao prego, andar a monte pela serra.

A minha outra avó não queria saber das opiniões dos outros para nada, eu que fizesse o que queria. Esta era a mãe da minha mãe mas, nas férias, a minha mãe ficava mais descansada comigo na casa da minha outra avó, porque a sogra tentava tomar conta de mim enquanto a mãe não se importava que eu andasse toda a tarde fora de casa. 

Mas eu gostava mais de estar com a mãe da minha mãe. Ela gostava muito de ler, tinha sempre muitos livros e revistas e deixava que eu lesse tudo o que quisesse, e gostava de ouvir as notícias, tinha opinião sobre a actualidade. Era uma mulher corajosa. Viveu sozinha, viúva, desde nova. Quando se foi, há pouco tempo, descobrimos alguns papéis. Uns eram a correspondência dela e da mãe dela com os primos. Um foi presidente da república. Escreviam coisas muito engraçadas uns aos outros, um deles fazia versos muito divertidos e tinham letras invulgarmente bonitas.

Do meu avô, pai da minha mãe, só me lembro de o ir esperar, muito pequena, ao pé do portão e dele me levar às cavalitas para casa. Era muito alto, muito louro, olhos muito claros. A minha mãe saíu a ele. Foi-se embora muito cedo, num acidente, teria eu uns dois ou três anos e a minha mãe e a minha avó iam morrendo de desgosto. Fizeram tudo para eu não dar por nada. Não dei. Mas fiquei a gaguejar durante algum tempo. 

O meu outro avô, casado com a minha avó cheia de medos, era um homem muito tranquilo que, no tempo livre, gostava de pescar e de tratar da terra. Nunca se zangava e tinha muita paciência para mim e para a minha avó. Eu andava sempre atrás dele enquanto ele andava a sachar e a dispor cebolinho, alhos, feijão verde de trepar, tomate, morangos. Eu regava ou, pelo menos, abria a torneira e achava que o ajudava. Ele chamava-me para eu o ajudar e eu ficava muito contente. A minha avó não queria porque eu me sujava toda, porque não tinha jeito nenhum isso. Mas ele não se importava com a opinião dela e eu também não.

A minha mãe tinha um irmão mais novo, parecido com a minha avó, cabelo escuro, olhos castanhos esverdeados, de que gostava muito e de que eu gostava tanto que quis que ele fosse meu padrinho de casamento. Lia muito, muito. Sabia tudo. E via todos os programas de divulgação científica, cultural e de política. Estava sempre muito bem disposto. Ria muito, falava muito alto, era um excelente conversador. Nunca o vi zangado. Tudo para ele era simples, agradável. Quando era novo pintava. Pintou o meu retrato. Foi-se embora no início do ano passado. A minha tia perguntou-lhe, no dia em que se despediu dele, porque é que ele a tinha deixado tão cedo. A minha mãe não foi capaz de ir, estava devastada. 

Quando vejo as fotografias de um verão, não há muito tempo, estava ele e a minha avó no meio de nós. Estavam todos sentados, in heaven, pais, filhos, netos, bisnetos, trinetos, muita gente sorridente, conversando. 

Os meus outros avós tinham partido não muito antes.

Mas regressam muitas vezes, todos. As minhas memórias têm-nos lá dentro. Gostavam muito de mim, tal como eu gostava muito deles. Continuam a sorrir, a conversar, a minha avó continua a apoiar-me, o meu tio continua a ensinar-me. Sentamo-nos ainda em volta, nas tardes de verão, outras vezes vou regar com o meu avô, ouço os cuidados da minha outra avó. Estão todos ainda muito perto de mim. Dentro de mim. Voam dentro de mim.



[Logo a seguir ao poema do Al Berto, é tempo de espantar tristezas. Maria João e Mário Laginha, num momento feliz, espalham a música sobre a nossa pele]



Avistados do Ginjal, navios de diferentes portes e usos no Tejo
É como se partissem mas não partem, estão sempre aqui, no rio, ou eles ou outros por eles



                                      se conseguires entrar em casa e
                                      alguém estiver em fogo na tua cama
                                      e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
                                      e do tecto cair uma chuva brilhante
                                      contínua e miudinha - não te assustes

                                      são os teus antepassados que por um momento
                                      se levantaram da inércia dos séculos e vêm
                                      visitar-te

                                      diz-lhes que vives junto ao mar onde
                                      zarpam navios carregados com medos
                                      do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
                                      a morada de uma vida inteira e pede-lhes
                                      para murmurarem uma última canção para os olhos
                                      e adormece sem lágrimas - com eles no chão.


                                      ['incêndio' de Al Berto in Horto do Incêndio]


06 janeiro, 2013

E nunca saberei se um dia a encontrei, se agora a encontro


Dizes que não sei a importância que tenho para ti e ouço-o como um lamento. Contas-me que me comparas com outras mulheres.

Procuras-me, pois, noutras mulheres. 

Quem te veja dirá, contudo, que olhas para todas as mulheres. Vêem-se absorto, talvez até com um sorriso, e pensarão que queres seduzi-las, conquistador, caçador de mulheres. Mas não. Tu dizes-me que não e eu sei que não. Procuras nas outras aquela que um dia tiveste para ti.

Dizes que dissecas com cuidada precisão o cabelo, os olhos, a boca, a expressão, o sorriso, a cor, a luz - as mulheres que vês na televisão, nos cartazes na rua, nas que se sentam à tua frente. Em todas tentas descobrir um pouco de mim, dizes. E eu acredito porque sei que comigo falas sempre verdade. 

Lembrar-te-ás, talvez, do sorriso que sorrias para mim e que eu retribuía com outro sorriso, lembrar-te-ás da aura que o sol - que entrava pela janela quase fechada - deixava em nós, lembrar-te-ás, talvez, do afecto desmedido, exultante, sequioso, do desejo que nunca mais experimentaste, do amor que, imprevistamente, encontraste.

Dizes que os teus ímpetos se extinguiram, que não mais voltaste a sentir o esplendor que, nesses tempos, dourava os teus dias.

Mas isso foi num outrora incerto e distante. Agora eu estou longe, sou apenas uma recordação, sou uma luz que se apagou e que existe apenas no sangue que escorre do teu coração. 

Ou sou talvez apenas um sonho que um dia tiveste, apenas isso. Talvez.



[Abaixo da mulher que olha com coquetterie quem passa, um poema de José Bento, poeta de quem muito gosto. Logo a seguir mais um momento feliz. Mozart une, no piano, Filipe Melo e Luiza Dedisin]



Em Cacilhas



                                   Já vi esta cabeça, esqueci onde e quando:
                                   foi num outrora incerto, mas ainda cálido, frementes;
                                   depois era uma outra, e a mesma sempre
                                   no seu perene esplendor e poderio
                                   a chamar-me com sua aura, a arrastar-me consigo,
                                   exultante e sequioso, áspero e rendido,
                                   a ser desmedida e canto e suplicante cifra
                                   do que desejo mais e nunca saberei
                                   se um dia a encontrei, se agora a encontro:
                                   lodoso manancial de ímpeto e sangue, luz total.


                                   ['Cabeça' de José Bento in Sítios]


&



Regressas
sem nunca ter chegado,
sem nunca teres partido,
sonhando sempre 
novas distâncias.
Fui eu, eu só,
que desenhei
em mim,
todos os teus caminhos!


['Ou talvez , quem sabe...' poema da autoria de Joaquim Castilho em comentário abaixo]



Filipe Melo e Luiza Dedisin interpretam a Sonata in D major, K 448 - Molto Allegro de Mozart


04 janeiro, 2013

É com vozes que o silêncio ganha


O homem parte sozinho no seu pequeno barco, atravessa o Tejo. Vejo-o junto a Lisboa, vejo-o do lado de lá, vejo-o agora aqui, já perto de terra. É uma pequena figura que se levanta num pequeno barco. Lisboa a magnífica é o cenário à frente do qual o pescador solitário se recorta enquanto caminho e o olho. Fotografo-o.

Com quem é que este homem fala quando atravessa o Tejo sozinho, rente às águas belas que correm para o mar? Quando vem o peixe e ele quer festejar, fala com quem? Ri sozinho? Grita? Chora quando se sente desacompanhado?

Terá deixado o seu amor em terra firme, terá dado um abraço a alguém que lhe dirá em dias de carinho, tu vê lá, tem cuidado com o rio que ele pode ser traiçoeiro, tu não te deixes ir na conversa das sereias. Ou, se o dia é de fúria, talvez lhe agoure, tomara que vás e não voltes, que eu antes só que em má companhia, fica com a que metes no barco, fica com a que te puxa para ela, deixando-me aqui sozinha, tão vadio és tu como é ela.

E ele vai, sentindo as palavras no seu peito, guardando no coração o olhar de quem ficou em casa, esperando.

Ao cair do dia, o pescador regressa. Mas hesita, por aqui fica. É aqui que agora o vejo, de pé ainda. Erguido, solitário.

No entanto, reparo que, afinal não está só. À sua volta uma gaivota voa, não se afasta dele, acompanha-o. E ouço as suas palavras: o pescador conversa. É com ela que o pescador conversa, é a ela que o pescador confessa as suas mágoas, as suas alegrias. Ela é a grande rival do amor que fica em terra. Ela é a que dança, a que não abandona, a que é livre e não quer prendê-lo.

Ela é a que escuta os seus segredos na luz e na escuridão, ela é a que o leva nos braços até à noite, ela o levará um dia para longe. São os seus gritos que o salvam do silêncio.



[Abaixo do pescador com gaivota, um excerto de O poema contínuo e ia dizer belíssimo mas inibo-me, as palavras parecem menores quando por perto de Herberto Helder. A seguir, mais um momento feliz, agora é Jorge Palma e Cristina Branco com um arranjo de Rui Massena e hoje o tema tem que ver, é a Estrela do Mar]


No Tejo, junto a Cacilhas, pescador com gaivota


                                              Uma canção de agora dirá que as noites
                                              esmagam
                                              o coração. Dirá que o amor aproxima
                                              a eternidade, ou que o gosto
                                              revela os ritmos diuturnos, os segredos
                                              da escuridão.
                                              Porque é com nomes que alguém sabe
                                              onde estar um corpo
                                              por uma ideia, onde um pensamento
                                              faz a vez da língua.
                                              - É com as vozes que o silêncio ganha.


                                             [Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Hélder]

Jorge Palma e Cristina Branco interpretam Estrela do Mar num magnífico arranjo do Maestro Rui Massena



A vídeo começa com a apresentação e não logo com a música (mas foi o que arrranjei desta linda e comovente interpretação)

03 janeiro, 2013

Nunca começámos do chão e agora é tarde


Como se começa um amor? Do chão? Pelos meios sorrisos, pelos olhares falsamente envergonhados mas, de facto, descarados? Pelas meias palavras, pelas mãos que inadvertidamente se tocam (e alguém acredita que é inadvertidamente...?), pelas pernas que, a medo, se aproximam? 

É assim? Tem que ser?

Pelos bilhetinhos, pelas mensagens? Pelas noites sem dormir, inquietas? Pelas saudades desatinadas? Pela vontade de ver, rever, tocar o outro?

Por passeios enamorados à beira rio, sob a sombra cúmplice das árvores?

Por um primeiro abraço, ainda hesitante? Por um primeiro beijo, ainda inocente? 

Por uma sugestão de intimidade? Por uma insinuação indecente, inocente?

Se não for assim, não crescerá de forma segura e duradoura?

Não sei. Não sou pessoa para dar lições. 

O que sei é que nunca é tarde. Mesmo que se comece pelo meio, até mesmo pelo fim, mesmo que se comece com sexo, saliva, fogo tresloucado, mesmo que seja, no início, uma paixão sem rede, está-se sempre a tempo de recuperar um primeiro e inocente beijo, um caloroso abraço, as mãos enlaçadas, uma flor, um sorriso. 

Nunca é tarde. A menos que se estejamos a falar de desistentes. A erva cresce depressa, sim, e fica alta, sim. E, por isso mesmo, vos digo: a erva alta, macia, é uma óptima cama.



[Abaixo do melancólico poema do melancólico Pedro Mexia, encontrarão um momento luminoso. A canção, em si, não tem nada a ver com as palavras que por aqui pairam mas, como poderão ver, é o encontro feliz de três seres especiais: Bernardo Sassetti, Nancy Vieira e Rui Veloso]


No pátio da Fonte das Pipas no Ginjal



                                                    Quando decidimos tomar o mundo de assalto
                                                    não sabíamos nada um do outro
                                                    e as ramagens das árvores
                                                    quase tocavam a tua janela.

                                                    Quando desistimos de tomar o mundo de assalto
                                                     não falámos disso
                                                     e ouvimos discos de 33 rotações.

                                                     Nunca começámos do chão
                                                     e agora é tarde.
                                                     A erva cresce depressa
                                                     e em breve
                                                     é muito alta.


                                                     ['Assalto' de Pedro Mexia in 'Menos por Menos']

Rui Veloso e Nancy Vieira com um luminoso Bernardo Sassetti no piano interpretam Canção de Alterne


02 janeiro, 2013

De que armas disporemos, senão destas que estão dentro do corpo


Não estou indefesa e tu também não. Se alguém pensa que, contra nós, tudo pode, está muito enganado. 

A mim dificilmente me vencem. Estou armada até aos dentes.

Tenho armas fortes, brutais. E tu também. Aponta-me uma arma ao peito que eu rir-me-ei e seguirei em frente, indiferente, segura. 

Fracos são os ignorantes da sua força. Fracos são os medrosos. Fracos são os que se deixam vencer. Fracos são os que se sentam na margem a chorar a derrota ainda antes dela acontecer.

Aqui, diante de vós, com muito orgulho, apresento-vos as minhas armas. Não as deponho, apenas as apresento. Eis, aqui estão: o meu pensamento, as minhas convicções, os meus princípios, a minha vontade que dificilmente se verga, a minha crença nos outros, o meu respeito pelos bens comuns, a minha força anímica, o meu amor pelas pessoas boas e a minha solidariedade pelos indefesos. Por tudo isto me baterei sempre, sempre, sempre. Com estas armas sinto-me forte e imbatível. Com elas defenderei a minha terra, a minha casa, os meus amigos, os meus irmãos, os meus amores.

Não é muito, eu sei. Mas é o que tenho. É um princípio. De que armas disporemos, senão destas que estão dentro do corpo?

Se todos apresentarmos as nossas armas, venceremos os cobardes que nos afrontam. 

E, agora que já as viste, vou, de novo, recolher as minhas armas, elas são-me preciosas.



[Abaixo, poderão ver um dos vários poemas de Hélia Correia concebidos a pensar na Grécia. A música não tem nada a ver, é apenas uma bonita canção interpretada por dois bons intérpretes, Carminho e Chico Buarque]


Ginjal num dia de Tejo espelhado e de ar dourado


                               De que armas disporemos, senão destas
                               que estão dentro do corpo: o pensamento,
                               a ideia de polis, resgatada
                               de um grande abuso, uma noção de casa
                               e de hospitalidade e de barulho
                               atrás do qual vem o poema, atrás
                               do qual virá a colecção dos feitos
                               e defeitos humanos, um início.


                               [Poema 33 de Hélia Correia in 'A Terceira Miséria']

Carminho e Chico Buarque interpretam Carolina


01 janeiro, 2013

Só pode ser ali e por pouco tempo


Vita brevis. Tempus fugit.

Deram-nos a vida e escolheram-nos o sítio onde a viveríamos. Um pequeno rectângulo. E um instante, não mais que um breve instante.

Tão breve esse instante que não desperdiçarei nenhum pequeno fragmento. Nem aceitarei de bom grado que quem quer que seja estrague o breve instante que é a minha vida. E as águas que vierem e o calor e as chamas que vierem será para meu deleite, não para minha derrota. 

Por isso, agarro a vida com as mãos, com os dentes, e fixo as imagens que vejo e espalho as palavras que nascem de mim pelos espaços para que o meu breve instante atravesse os tempos, os espaços, chegue até onde os pássaros se acolhem, chegue até vós.

E agradeço ao desconhecido deus benevolente que olha por mim e peço que assim continue, protector e amigo, e que olhe também por vós, meus Amigos.

E que nunca caiam as pontes entre nós.



[Há pouco, ao comentar o post da Olinda Melo, lembrei-me da canção do Pedro Abrunhosa e, por isso, essa é hoje a minha escolha]


Fogo de artifício visto da janela na passagem de ano 2012/2013
Façamos com que haja razões para festejar




                                            Um deus benevolente atribuiu-nos
                                            uma morada

                                            Disse: só pode ser ali
                                            e por pouco tempo

                                            Que a invasão das águas
                                            o calor e as chamas

                                             não tardam
                                             E assim foi



                                             [Poema de Rui Caeiro in O quarto Azul e outros poemas]

Pedro Abrunhosa interpreta Pontes entre Nós