Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

18 outubro, 2012

Anjos, existem anjos?


Nestes dias de chumbo, em que a tragédia do fim parece abater-se sobre os pobres mortais que tentam sobreviver na terra, como se um céu carregado de um insuportável e medonho peso desabasse sobre nós, percorro a diagonal que me leva para mais perto do horizonte. Procuro, talvez, uma aresta onde ainda perdure um resto de leveza.

Se olho o céu, procurando anjos, nada vejo. O céu ora está limpo e sem nuvens onde os anjos se empoleirem, ora está carregado, nada apropriado para seres diáfanos e subtis. Não há anjos no céu.

Percorro as margens do rio e o meu olhar voa pela superfície das águas, talvez algum anjo se tivesse vindo aqui refrescar. Não, nada. Olho as paredes de pedra, olho os barcos que passam. Nada, nenhum anjo. Olho as gaivotas que dançam levadas pela brisa da tarde, espreito as longas asas brancas, talvez alguma transporte um pequeno anjo. Mas não, anjo nenhum.

Baixo os olhos, caminho em silêncio, quase sem esperança.

Passam, então, dois namorados. Falam baixinho, sorriem, vão abraçados, têm corpos saudáveis e jovens, peles certamente macias, olhos certamente felizes, corações certamente apaixonados. Olho-os com ternura. Tanta paz. 

E o rio fica mais azul e o céu mais quente e é como se, à sua passagem, se abrisse um caminho de luz.

São estes os anjos que eu procurava. Anjos de verdade, inocentes, doces, crédulos, cheios de vida. Eis que andam como se voassem, eis que quase deslizam sobre as águas, rumo à luz mais dourada, levados pelos sonhos. Sinto que, atrás deles, vai ficando um perfume muito suave, talvez seja o subtil perfume da esperança.

E, olhando-os, sinto em mim a doçura da vida, o enlevo contagiante do amor.

Procuremos, pois, os anjos na terra. A sua presença enche-nos de vida e de sonhos.




[Já aqui abaixo poderão ler mais um belo poema de António Ramos Rosa e, logo a seguir, mais uma música de Franz Biber]



Passeando à beira Tejo, ao fim de uma tarde, então, ainda quente



                                        Anjos, existem anjos? Volúveis seres
                                        que são um instante de voluptuosa brisa
                                        em que o tempo é a forma do desejo
                                        e do sono das folhas e das águas.
                                        Anjos, sim, de terra, que segredam
                                        a argila dos nomes, o movimento azul
                                        do ar. Na sua companhia eu sou o vento
                                        e o meu hálito confunde-se com as suas vozes.


                                       ['Anjos de terra' de António Ramos Rosa in Antologia Poética]

16 outubro, 2012

Irás descendo a um poço, uma vertigem


Sobes, Poeta, ao ponto mais alto de ti. 

Aí o ar é fresco, quase rarefeito o ar, tão belo o horizonte que abarca, tão bela a paisagem que envolve, tão insignificante o pequeno mundo, tão próximas as nuvens. 

Olhas em volta e tocas o céu. Um frémito te percorre, Poeta. Ou é do ar azul que respiras ou é das palavras que voam à tua volta. Olhas o vasto espaço e dizes vento, ar, longe, mar, asa, transparência, luz, água - e as palavras vão-se juntando sozinhas.

Aqui onde estás, Poeta, este ponto, o vértice do mundo, é a Boca do Vento.

Cá em baixo corre o rio e parece uma pintura infantil, e os barcos parecem pequenos, cheios de pequenas figurinhas. Enches o peito de ar, queres estar sempre aqui, no meio de um céu generoso, dentro da Boca do Vento.

Mas depois, Poeta, vem aquela força que te impele para o centro de ti próprio e queres mergulhar, procurar outras palavras, palavras que tenham a sombra por entre as sílabas, que tenham dentro de si escuridão, silêncio, ou uivos, ou dor, ou finitude, ou tristeza, ou solidão

E, então, abeiras-te do abismo, e as palavras começam a misturar-se, um remoinho à tua volta, e são agora desejo, sangue, infinitos beijos, corpo, mãos, sexo, fim, princípio, ciúme, paixão, traição.

E, quando dás por ti, já uma vertigem fatal te puxou para o poço mais escuro, mais fundo, mais insondável.

Em busca da palavra mais perfeita, Poeta, mergulhas, perdido, rendido à fatalidade da poesia.

Quando, por fim, chegas ao fundo não abres os olhos, Poeta, achas que os perdeste na queda. Não vês, portanto, a fantástica luz que subitamente o ilumina.



[Abaixo da imagem do homem que se lançou no espaço, poderão ver mais um poema de José Bento, um Poeta 'cá muito de casa', é já o 14º poema aqui no Ginjal. E, logo a seguir, uma nova interpretação de uma sonata de Franz Biber.]



Buddy Jumping na Boca do Vento sobre o Ginjal



                                         Os poemas que escrevas,
                                         ainda que muitos, são
                                         um só, inacabável,
                                         interceptado um dia:

                                         sufocante abertura
                                         por onde irás descendo
                                         a um poço, uma vertigem,
                                         com uma única saída

                                         que, enfim, vislumbrarás
                                         quando já não tiveres olhos.


                                         [Poema nº5 de José Bento in Sítios]

Heinrich Ignaz Franz Biber - Lina Tur Bonet (no violino), Enrike Solinís, Patxi Montero, Daniel Oyarzábal interpretam a Sonata Rosenkranz nº 4


15 outubro, 2012

Que o teu seio se desvele, que a tua mão, suada e suave, se entregue


A mulher espera um homem nesta tarde azul, espera-o junto ao rio que lhe lava o olhar. Lava-se toda olhando este azul tranquilo para que ele, o seu amor, a encontre de olhar lavado, limpa, límpida.

Olha o céu que reflecte o azul do rio, olha o navio que se vai, olha a ponte ao longe. Olha e espera-o.

Virá, ela sabe. Virá e olhará os seus olhos de amor, olhará a sua boca, olhará os seus seios, olhará as suas pernas, olhará a curva da sua anca, o segredo do seu decote. Chegar-se-á e aspirará o perfume do seu cabelo, o perfume do seu pescoço, o perfume dos seus seios. 

E ela deixará que ele se chegue, que a cheire, que a olhe, que a desvende, que percorra o seu corpo todo com o olhar, com as mãos, com o corpo.

Talvez até ele nem tenha que vir, talvez ele nem tenha que fazer nada, talvez ela suba a rua pela tarde, suba o rio, vá no navio que desliza, vá até onde o seu amor a espera. E talvez o encontre puro e desvalido, talvez o encontre incendiado, a voz silenciosa, tomada pelas rosas do desejo. Talvez, então, ela se descubra perante ele, e suave, suavemente derrame sobre ele o mel, o fogo, o orvalho da maresia, os perfumes da floresta, os beijos, a pele, a seiva, o sangue mais puro do amor.

Porque assim é o amor, secreto, sereno, puro.



[Abaixo do belo poema que copiei do blogue Homo Viator, poderão encontrar uma música de um compositor que desconhecia e que um Leitor, em boa hora, me deu a conhecer, Franz Biber]



Junto ao Tejo vendo as águas que correm, o tempo que passa



                              Que o teu seio se desvele, que a tua mão,
                              suada e suave, se entregue, que a tua boca
                              se abra, e língua e lábios sejam mel, fogo,
                              orvalho matinal, o ar da floresta.

                              E pura e desvalida, te entregues,
                              na noite fria e calma, ao desejo
                              que os teus olhos nos meus incendiaram,
                              que os seios brancos e cálidos atearam.

                              Espero-te na tarde azul e pálida.
                              Uma ânsia fere o peito, rasga-me a pele,
                              rompe-me as veias e o sangue frio se esvai.

                              Quando oiço os teus passos, quando a voz,
                              serena e pura, chama já por ti,
                              uma rosa de seda ergue-se em mim.


['Que o teu seio se desvele, que a tua mão' de Homo Viator no excelente blogue homónimo aqui]

10 outubro, 2012

A luz da manhã na pele nua. Uma sede crescente.


Olhas-me com olhos doces, húmidos. Conheço esse teu olhar. Desejas-me. É desejo o que banha o teu olhar. E, meu amor, como eu gosto de o sentir.

O sol incide no rio, oblíquo, e a luz desliza, suave, e vem dourar as velhas paredes deste casario. Caminhamos rente a estas paredes que guardam sorrisos e suspiros, e o teu olhar oblíquo vem carregado de flores, de beijos, de carícias.

Sorrio. Gosto de percorrer os caminhos da luz, os caminhos que ateiam a sede dentro de ti. E dentro de mim. Nestas horas de calor e luz o meu corpo abre-se como uma flor sedenta. E, quando te olho, sinto que o meu olhar também escorre de desejo, de sedento desejo. E escuso de te dizer que estou à espera que venhas matar a sede do meu corpo. Junta o teu amor à luz que sobre mim se derrama. 

Vem.



[Abaixo da imagem de um amor suave, abaixo também do belo poema de Casimiro de Brito, poderão encontrar uma bela interpretação da Bacanal de Saint-Saëns]


Passeio junto ao Tejo, rente ao casario do Ginjal


                                            A luz da manhã na pele nua.
                                            Uma sede crescente.
                                            As alfaias do amor vacilam.
                                            Abres os olhos, deixas correr
                                             a água infinita,
                                             um fio apenas
                                             no meu corpo que foi árido.
                                             A luz envolve-te ou és tu quem nela
                                             se derrama?


                                             [Poema 100 - I de Casimiro de Brito in 'Amar a vida inteira']

*


Sei lá...

Trazes no olhar um encanto de sol pôr
e o mistério do dia que amanhece
fosses tu apenas sombra
e eu saberia adivinhar-te...
(Esquece)
sou eu a divagar coisas que a vida decide e tece
ou escreve
na areia
no mar
nas ruas mais estreitas da cidade

e eu adivinho
vagamente encandeadas
a tua luz e a minha
cruzando eternidade


[Da autoria de Era uma Vez num comentário aqui abaixo]



*


Ainda vens longe
Eu logo adivinho
Como vais chegar.
Se triste ou cansado,
Se calmo e tranquilo,
Eu abro os meus braços
Para te abraçar.
E é nesse abraço
Que tudo se diz
Leio-te tão bem
Nem tens de falar. 


[Da autoria de Maria num comentário aqui abaixo]


Camille Saint-Saëns - Gustavo Dudamel conduz a Berliner Philharmoniker na Bacchanale de Samson and Delilah


09 outubro, 2012

O vento do mar já conseguiu acalmar muitos corações mas os nossos não


Deito-me ao teu lado, imóvel, silenciosa. E tu imóvel e silencioso estás. Estes são dias em que grandes perigos se fazem anunciar. Estamos vivos, respiramos, mas nada dizemos, não nos mexemos. Por defesa? Por medo? 

Tempos houve, era primavera, era verão, e nós rolávamos felizes pelas dunas, dormíamos nas tardes de calor, não tínhamos pressa nem receios. A vida abria-se à nossa frente como uma planície feliz, ilimitada, e todos os futuros eram nossos.

Mas, enquanto dormíamos ou ríamos, um monstro saído não se sabe de onde, arrasou as planícies floridas, roubou as casas, assaltou os indefesos, afugentou os jovens, destruiu sonhos, queimou estrelas, afogou o sol.

Há ainda alguns velhos caídos nos cantos de casas arruinadas, há ainda alguns gatos perdidos nas escarpas, mas já são poucos e estão esfaimados. E ainda estamos também nós, calados, parecendo mortos, aguardando a fria e horrenda calamidade.

A cada dia que passa, a escarpa de pedra desolada vai caindo, empurrada pelo monstro maldito, sobre as poucas casas que restam. 

Tempos houve em que o vento acalmava os nossos corações que corriam como cavalos soltos, alegres. Agora, aqui deitados, ouvimos o vento sombrio, escuro, e é um silvo que anuncia novos horrores e que ouvimos petreficados.

Mas eis que, inesperadamente, uma pequena mão afasta a porta e chama por nós. Abrimos os olhos, soerguemo-nos. Um rosto de criança sorri, olhos inocentes, voz inocente. Levantamo-nos, então, e uma estranha força toma conta de nós. Pela criança que nos despertou iremos travar a escarpa que nos quer esmagar, pela criança que resistiu aos tempos de desespero iremos lutar contra o monstro, iremos lutar nem que essa seja a nossa última luta, nem que morramos a lutar.


[Abaixo da fotografia do Ginjal, temos um poema do novíssimo livro de José Tolentino Mendonça, o Padre Poeta e, logo a seguir mais um trecho de Saint-Saëns, e, de novo, violoncelo]


Escarpa do Ginjal tombando sobre o casario, até ao Tejo



                                 Cruzámos os dias de Verão
                                 o destino perseguia-nos com um ímpeto relutante
                                 a listar calamidades
                                 numa ascensão
                                 por escarpas que tínhamos julgado a salvo

                                 Corríamos o litoral com a nossa turbulenta forma
                                 ou deixávamo-nos imóveis a ponto de parecer mortos
                                 entre beleza, sobreposição e perigo
                                 sem grande esclarecimento
                                 a noite despenhava-se
                                 no silêncio da corrente

                                 O vento do mar já conseguiu acalmar muitos corações
                                 mas os nossos não



                                 ['Escarpas' de José Tolentino Mendonça in 'Estação Central']

Camille Saint-Saëns - Daniel Gaisford interpreta o Concerto para Violoncelo (parte 3)


08 outubro, 2012

A antiga casa que os ventos rodearam com suas noites de espanto e de prodígio


Habito as casas em que vivo e as que habitam a minha memória. 

Lembro-me de uma casa, a primeira, à qual, no fim do verão, iam homens e mulheres mondar as espigas de milho, sentados no chão, e cantavam e riam. Nessas alturas havia muito pó no ar e devia haver conversas e anedotas de adultos e os meus pais não me queriam lá mas eu arranjava sempre maneira de me infiltrar e, sorrateiramente, ir ficando. 

Junto a essa casa passava um ribeiro com uma água muito cristalina que corria sobre os seixos. Esse ribeiro era motivo de muitos medos dos meus pais que não queriam que eu fosse brincar para perto e, no entanto, a água que saltitava nas pedras e a sua frescura eram uma tentação a que eu não conseguia resistir. E havia eucaliptos que enchiam o ar de pureza e que tinham uma flor branca que parecia que tinha uns fiozinhos brancos e uns chapelinhos. E havia uns gatos que apareciam por lá e que não tinham dono mas que eram alimentados por todos, deixava-se um pratinho com sopinhas de leite ou restos de peixe. E havia umas gémeas mais velhas que eu e com quem eu adorava brincar e que costuravam roupinhas para as bonecas e para os gatos. E havia pirilampos que eu e os meus pais apanhávamos à noite e que eu punha debaixo de um copo, e, no dia seguinte, os pirilampos tinham-se transformado em moedas para o meu mealheiro. 

A casa era toda branca, por dentro e por fora. Mas um dia a minha mãe quis pintar a casa de banho de verde água, um verde muito claro e a minha mãe estava toda contente com essa alteração e o meu pai todo contente por ter feito a vontade à minha mãe e ela queria ainda mais claro e eu andava de roda deles e também toda contente porque aquele verde água era lindo e a casa de banho estava mesmo muito bonita, a luz ficava mais suave.

E lembro-me ainda da minha cama nessa casa e era uma cama pintada de uma tinta que a minha mãe chamava casquinha de ovo e, na cabeceira, havia uma menina sentada numa lua e a lua estava presa à cama por uma fita de cetim cor de rosa. E a menina e a lua eram de prata e tinha sido uma oferta dos meus padrinhos. E quando comecei a ler, tinha um livro que se chamava A menina da Lua e, pelo livro e pela menina sentada na lua, o meu pai começou a chamar-me menina da lua e eu gostava muito porque era isso mesmo que eu me sentia.

E essa casa tão luminosa e tão dentro da natureza ainda corre em mim e atravessa sempre os meus sonhos como um rio feito de doçura e afecto.



[Para acompanhar este texto evocativo da infância e o belo poema, mais um, de Sophia, abro a semana que vou dedicar a Camille Saint-Saëns com o Cisne, um belo trecho em violoncelo]


Anoitecer no casario do Ginjal



                                                A antiga casa que os ventos rodearam
                                                com suas noites de espanto e de prodígio
                                                onde os anjos vermelhos batalharam

                                                A antiga casa de inverno em cujos vidros
                                                os ramos nus e negros se cruzaram
                                                sob o íman dum céu lunar e frio


                                                Permanece presente como um reino
                                                e atravessa meus sonhos como um rio


                                                ['Casa' de Sophia de Mello Breyner Andresen in Geografia]


Camille Saint-Saëns - Mischa Maisky interpreta The Swan (em Carnival of the Animals)


04 outubro, 2012

Como se ontem e os dias antes de ontem se tivessem desfeito sobre as prateleiras


Saíste de casa e desapareceste da minha vida. E eu fiquei sozinha num lugar que, antes, pensava que era o nosso secreto e querido abrigo. 

Agora o tempo passa por mim, pelas molduras que ainda contêm as nossas fotografias, pelas cortinas que já não se afastam das janelas, agora o pó do tempo junta-se sobre as prateleiras como se não fosse senão a sombra dos dias que vivemos.

Sento-me sozinha, em silêncio, nesta casa desolada e olho os vestígios de ti feitos pó. Podia escrever palavras de amor nesse pó. Escreveria talvez vem. Nada me ocorre para além dessa súplica. Mas não escrevo, sei que tu não vens.

Mas hoje a minha vida vai mudar. Mais logo, mal a noite se desfaça e eu sinta que está a amanhecer, sairei de novo e irei, uma vez mais, pela beira do rio.

Sei, agora já sei, que todo a nossa vida se desfez, está feita em pó inútil, sei que algures, nas nuvens que cobrem o céu, estão as cinzas dos nossos dias. E, então, vou esperar que passe uma gaivota para que ela te leve as minhas palavras. E as minhas palavras, a partir de agora, são estas: não voltes, não preciso de ti, és não mais que uma sombra, a minha casa não precisa de quem se transforma em cinza, a partir de hoje sou uma mulher livre e uma mulher livre não tem espaço no seu coração para homens feitos de pó. 



[Corelli está a despedir-se e despede-se com uma sessão no Porto. Está já aqui abaixo, logo a seguir a um poema de José Luís Peixoto]


Gaivota atravessa um céu coberto de nuvens no Ginjal



                                  Como se ontem e os dias antes de ontem
                                  se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

                                  como se pudéssemos escrever palavras
                                  nas suas cinzas com a ponta do dedo,

                                  como se bastasse soprar para vermos
                                  as suas imagens de novo, numa nuvem.


                                  ['Limpar o pó' de José Luís Peixoto in 'Gaveta de papéis']
                               

Arcangelo Corelli - Horia Vǎcǎrescu, violino e Constantin Sandu, piano (no Clube Literário do Porto) interpretam Variações sobre o tema La Folia


03 outubro, 2012

e eu a pensar ainda uma palavra tua e eu serei salva


Ainda sentia o cheiro da tua pele em mim, quando reparei na porta aberta. Tinhas ido. Chamei-te, queria, ao menos, despedir-me, pedir-te um beijo, um adeus, a promessa de uma carta. Mas já não me ouviste. 

Saí, então, fui pela rua, segui o teu rasto, fui pelo teu cheiro, pela lembrança das tuas palavras. Mas não te encontrei.

Segui os caminhos que eram nossos, fui pela beira do rio, e já era fim de dia, e eu sem saber de ti. Segui o silêncio das casas vazias, segui a corrente do rio, procurei que passasse um barco ou, até, uma gaivota. Mas não passava nem um barco, nem uma gaivota e tudo era silêncio. Nem um sinal de ti.

Caminhei então em direcção às águas, entrei pelo rio adentro, e pedi baixinho, diz uma palavra, uma que seja, não te vás sem uma palavra, não deixes que eu pense que já nada fazia sentido. 

Meu Deus, será que é isso, já nada fazia sentido?



[Abaixo do belo poema de Alice Vieira, temos ainda Corelli e, uma vez mais, vos sugiro que desarrumem a ordem dos factores: talvez o texto e o poema soem melhor ao som de Corelli.]


Fim de tarde no Ginjal, bem rente ao Tejo



                         a porta entreaberta a prolongar
                         os teus passos       os castanheiros      a cidade em chamas
 
                         a minha voz a prometer-te uma carta
                         (prometo sempre cartas a quem se perde
                         entre o meu corpo e os patamares das escadas
                         de países desconhecidos)

                          mas tu já não ouviste ou então
                          tudo tinha deixado de fazer sentido

                          e eu a pensar ainda
                          uma palavra tua e eu serei salva



[Poema 5 de 'Cinco breves momentos de Maio' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água']

Arcangelo Corelli - Maurice Steger e a Chamber Artists Orchestra (CHAARTS) interpreta o Concerto No. 4 para Flauta


02 outubro, 2012

Ela vinha de preto e resplandecia porque era a própria noite que a vestia


E se me visto de preto é para que saibas, amor, que é de noite que te quero falar.

E se me sento sobre este rio brilhante é para que saibas, amor, que quero em ti navegar ou que navegues tu em mim, amor.

E se espero a chegada da lua, sabes para que é, amor?

Então escuta, eu vou dizer-te baixinho, escuta. Deixa que te encoste os lábios ao ouvido para que só tu me ouças, deixa.

É para que me dispas o vestido preto, para que deixes que o fogo no rio se apague e para que o luar sobre ele espalhe um fino lençol de prata.

Mas, amor, não tenhas pressa.

Despe-me o vestido preto devagarinho e deixa que a noite me cubra a pele e deixa que o luar me vista de pecado.

Depois vem, vamos deitar-nos aqui sobre as águas, vamos pecar, vamos pecar com alegria, com vagarosa alegria.

Noite sem pecado, amor, tu sabes, não é noite que eu vista nestas noites de luar.



[Já aqui abaixo da mulher de preto de Manuel Alegre, encontrarão a música de Corelli, mais um compositor barroco aqui no Ginjal]


Pôr do sol no Ginjal, sobre o Tejo



                             Ela vinha de preto mas trazia
                             a noite pendurada no vestido.
                             Porém não era luto mas alegria
                             ou a cor do pecado anoitecido
                             ou talvez fosse a lua que nascia
                             na parte do seu rosto mais escondido.
                             Ela vinha de preto e resplandecia
                             porque era a própria noite que a vestia.


                             ['Mulher de preto' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito']

Arcangelo Corelli - O Ensemble Laura Soave interpreta o Concerto Grosso op. VI



Ensemble Laura Soave
(Claudia Combs and Nicholas Robinson, violins, Diego Cantalupi, theorbo, and Davide Pozzi, harpsichord)

29 setembro, 2012

Tu és homem e és mulher sobre o meu corpo


Voa o teu amor à minha volta e as tuas palavras de amor entram na minha respiração e eu sei que depois deslizam nas minhas artérias e vão chegar, aladas, ao meu coração. E encosto-me a ti para sentir o calor do teu corpo, e sou uma gata enamorada que se encosta ao seu dono, que te cheira, que te lambe e tu abraças-me e aqueces-me e não é só o meu corpo que fica quente, é também o meu coração que se abre com o calor dos teus beijos.

Vamos junto ao rio, abraçados, enleados, e não reparamos nos veleiros, nos cais, nas casas de cor esmaecida, nem nos lembramos de ir nas asas das gaivotas, vamos apenas junto ao rio e, a cada instante, o meu corpo procura o teu corpo, meu amo e senhor, e tu procuras o meu e já não sei se este braço que me abraça é meu ou teu e se o coração que bate no meu peito é meu ou teu.

E dizes-me devagarinho, baixinho, que, por mim, atravessarás sem medo qualquer tempestade e que sempre vais chegar e nunca partir e toda eu toda estremeço e me arrepio e peço que me digas mais palavras assim junto ao ouvido, encostado e apaixonado. E sei que mais logo ainda terei o teu cheiro e o teu sabor em mim, e eu não sei se és anjo, se és nuvem, se és rio, se és apenas o meu homem e eu, que tu abraças e beijas, a tua dona. 

Mas faz sentido falar de quem é dono de quem quando o amor é doce e é invisível enleio? Rimo-nos. Faz sentido, tudo faz sentido. Tu dono de mim, eu dona de ti, eu e tu donos do mundo, eu e tu inventando conversas sem sentido apenas para escutarmos o amor feito de palavras, estas ou outras quaisquer.



[Chega hoje ao fim a semana de Boccherini e a música de hoje, já abaixo do poema, é linda. E esse poema, um belo poema de amor, a seguir ao casal de namorados é da autoria de uma mulher corajosa e inteira, Maria Teresa Horta]


No Ginjal, amor rente ao Tejo



                              Tu és homem e és mulher
                              sobre o meu corpo
                              és mar e és rio ao mesmo tempo

                              és tu e eu misturando o vento
                              velejando a tempestade
                              sem ter medo

                              Tu és calma e turbilhão
                               nos meus sentidos
                               és arcanjo e demónio que domina

                               És aquele que fica
                               e que parte
                               que voa no prazer que não termina


                               ['Simultâneo' de Maria Teresa Horta in Poesia Reunida]

27 setembro, 2012

Lembro-me de quartos onde estivemos


Um tempo houve em que os nossos corpos pediam uma cama que não tínhamos. Procurávamos, então, a intimidade nos locais mais improváveis. Os corpos sentiam uma urgência que a cabeça não cerceava e festejávamos o amor louco sob a lua, sob o sol, sob as árvores, sob as ombreiras, sob impensáveis tectos. 

Até que arranjámos abrigo. Era abrigo alheio, era uma cama que não era a nossa. Era um refúgio especial. Lá ouvíamos Simon & Garfunkel e eu dançava ao som de Janis Joplin e éramos tão inacreditavelmente inocentes e loucos. Ignorávamos os riscos, divertíamo-nos com a beleza dos nossos sentimentos, apaixonados carinhosos, apaixonados felizes e festivos, apaixonados cheios de esperança, com a vida inteira pela frente, apaixonados inseparáveis, até hoje inseparáveis.

Não posso, pois, falar de quartos vazios. Mas posso falar de dunas, de areia molhada, de castelos, da relva sob as estrelas, de vozes do outro lado da parede, de uma certa cama forrada com pele de raposa, posso falar de êxtase, de eros, de descoberta, de muita alegria, de música, de penumbra, de luz.

Tudo nos era íntimo porque vivíamos em permanente estado de intimidade, porque o mundo éramos nós, porque tínhamos o mundo inteiro dentro dos nossos corações e porque os nossos dois corações eram, e ainda são, um só. Meu amor.



[Abaixo do casario do Ginjal, Rui Caeiro fala-nos dos quartos que recorda com amor e, logo abaixo, Boccherini continua a encantar-nos, desta vez com uma música bem conhecida]


Passeio ao fim da tarde no Ginjal


                                Lembro-me de quartos onde estivemos
                                como de seios que se abarcam com a mão.

                                Modestos acolhedores eróticos
                                de tão nus e desguarnecidos

                                E de tão pobres e tão impessoais
                                tão voltados para o seu interior

                                vazio, tão mais íntimos de nós


                                [Poema de Rui Caeiro in O quarto azul e outros poemas]

Boccherini - o Quarteto Vivace (Leonardo Cunha, Richard Wagner, Daniele Alves, Ana Paula Faria) interpreta Minueto


26 setembro, 2012

Vozes para além do rio. São água também.


Escrevo mas não é no papel que escrevo. Escrevo no ar e estas minhas palavras voam pela janela, sobrevoam o rio, descem até ao cais, deslizam sobre as águas, e voam, voam até chegar até vós. Escrevo, pois, palavras que deixam de ser minhas mal acabo de as escrever.

Depois, menina que gosta de fazer desenhos e de os pintar, enfeito as minhas palavras com um rio e depois entusiasmo-me a colori-lo, e é um exagero, cores e mais cores, e as cores saem-me quentes como um corpo em chamas e depois, para embelezar o rio, desenho uma ponte, e desenho-lhe um véu feito de fios transparentes, depois pinto um sol brilhante e o sol fica irreal e eu, sonhadora, peço-lhe que encha de luz a vossa paisagem. Depois, ainda, menina que gosta de amores, desenho um casal de namorados recortado contra um cenário maravilhoso mas quero que se perceba que a vida é pequena e efémera, um breve pulsar, e então eles ficam pequeninos, lá ao fundo, quase invisíveis. E depois desenho uma parede pela qual os anos têm passado voando, leves, brandos porque assim é a vida, vai passando, vai deixando marcas e eu não sei se é o tempo que passa pela vida ou se é a vida que passa pelo tempo como uma estrela cadente.

No fim, olho e digo ao desenho que está na hora da magia: vai rio, sai do écran, vai por aí fora, voa também, vai até à casa dos meus amigos, leva-lhes o teu cheiro a maresia e a tua cor feita de sonho dourado, vai sol, sai daí e voa até ao écran dos meus amigos, enche-lhes a vida de luz, vão namorados, voem também e vão encher de beijos a vida dos meus amigos, vai ponte, vai unir a vida dos meus amigos à minha.

E assim estou agora, na minha mão uns fios que seguram a ponte e esperando que vocês estejam a segurar o outro lado, nós dois unidos pelas palavras, pelo sonho, pelo impossível. A minha mão tão perto da vossa. Sentem? Sentem que estou aí, sentem as minhas palavras voando junto aos vossos olhos?



[Mais uma bela música de Boccherini aguarda por nós logo aí abaixo de mais um poema de Pedro Tamen, Senhor Poeta que tem lugar cativo aqui no Ginjal]


Fim de tarde no Ginjal quando, há dias atrás, os dias ainda estavam quentes 



                                        Vozes para além do rio. São água
                                        também, correm até à foz
                                        do meu ouvido. E refluem agora,
                                        líquidas, da foz do meu olvido.
                                        Alem do rio, vozes e acenos. Gritos
                                        tão leves, sobre os anos voando.
                                        A minha mão, a minha mão também
                                        esgueira um gesto curto enquanto
                                        a outra escreve. Desenha
                                        no papel seco a ponte, as pontes, todos
                                        os corredores das vozes donde chego
                                        à relva desta margem.


                                        [Poema de Pedro Tamen in Memória Indescritível]

Boccherini - Janos Starker interpreta Sonata in A Major


25 setembro, 2012

A mãe disse-lhe escreve-me de lá de longe para onde vais


Escuta, menina que te abraças ao teu namorado, escuta. Beija-o, beija-o muito, sente o coração do teu amor nos beijos que recebes, entrega-te toda nos beijos que lhe dás. Respira o ar que vem deste rio magnífico, cobre-te com a poalha dourada que cai dos céus, e sente o momento como uma bênção, uma bênção que para sempre deverás guardar dentro de ti. 

Vive, vive muito, menina. E sê muito feliz em cada instante. Guarda dentro de ti, menina, a beleza de cada momento. Duram tão pouco os momentos, menina. Guarda-os todos dentro de ti.

Um dia vais dizer à tua mãe que vais viver com o teu amor e a tua mãe vai ficar feliz por te ver feliz, por saber que estás a dar os justos passos para construíres a tua vida. Sim, menina, esse dia vai chegar.

Mas, nessa altura, menina, não olhes muito de perto os olhos da tua mãe, não olhes. Deixa-te ficar feliz, leve, inocente, e pega nas tuas roupas, nas tuas pulseiras e fios, nos teus livros, e vai feliz, abraça a tua mãe, abraça-a muito e vai feliz. E quando estiveres a sair, menina, segue em frente, não olhes para trás, não queiras ver as lágrimas nos olhos da tua mãe.



[Abaixo dos namorados rodeados de uma luz acobreada, poderão ver a explicação do sorriso dada por Daniel Faria e, logo a seguir, mais uma bela música de Boccherini. Talvez eu devesse inverter a ordem dos posts para que pudessem ouvir a música enquanto lêem, mas vocês podem corrigir isso.]


Fim de tarde de amor no Ginjal, sobre um rio brilhante, sob um céu em fogo



                                                       A mãe disse-lhe escreve-me
                                                       de lá de longe para onde vais
                                                       E ela disse não é longe casar
                                                       E a mãe sorria cega de dor
                                                       E parecia de deslumbramento


['Explicação do sorriso' de Daniel Faria in Poesia]

Boccherini: o Carmina Quartet interpreta 'La Musica Notturna di Madrid', Passa Calle


Olhar sem caminho a tranquila onda muscular paralela à mão aberta e livre


Olho as ondas, é o mar que pulsa com vigor, olho este rio que se pôs verde para me encher de esperança e logo a mim que tenho o corpo tão cheio, tão cheio de vida e de esperança.

Se estender as mãos sentirei este ar tão limpo ou esta água tão fresca, tão cheia de vida, ondas puras que balouçam de alegria por mais esta vida que trago em mim.

Aqui onde a terra se junta com o mar, sobre estas pedras rijas como os flancos do meu amor, olho o vasto caminho que se abre à minha frente, tanto caminho, tanto caminho por caminhar.

Olho o meu ventre. Parece uma montanha, é a minha montanha mágica. Dentro dela um outro ser começa a percorrer o seu próprio caminho. Junto ao mar ensino-lhe a frescura da água, a maresia, os voos livres e indomáveis das gaivotas, a liberdade sem dono dos gatos que por aqui vagueiam, ensino-lhe os veleiros que entram sem medo na invisível lonjura, ensino-lhe as pacientes mãos dos pescadores, ensino-lhe o amor que envolve os corações apaixonadas quando as ondas são suave melodia, ensino-lhe o fogo, o fogo que existe, secreto, silencioso, no fundo de todos os mares.



[Depois de mais um belo poema de António Ramos Rosa, se descer um pouco mais, encontrará a música de Boccherini. Talvez lhe apeteça, então, ao som daquele Quartettino, voltar a ler estas palavras ou, então, respirar com vagar  'A paixão do ar']


Rente ao Tejo, no Jardim do Ginjal


                                                 Olhar sem caminho
                                                 a tranquila onda muscular
                                                 paralela à mão aberta e livre

                                                 Uma escrita a nascer dos alvos flancos
                                                 a paixão do ar como uma chama

                                                 Paixão que une a terra cheia ao mar
                                                 o olhar respira em todo o corpo igual
                                                 o corpo eleva-se sobre a montanha fácil

                                                 O fogo flexível.


['A paixão do ar' de António ramos Rosa in Revista Letras com vida, Literatura, Cultura e Arte, nº4]

23 setembro, 2012

Não me importa o pão quando não o divido: farta mesa triste sem companhia


Que me interessa o que tinha, quando não te tinha?

Talvez a mesa fosse farta, não digo que não, talvez os livros já fossem a minha grande companhia, talvez os amigos me rodeassem com os seus sorrisos e amparos, talvez o rio já fosse tão azul e, mesmo, Lisboa já era, certamente, tão bela. 

Talvez os meus passos já me trouxessem até aqui, até onde a maresia perfuma o ar que respiramos, talvez eu já soubesse que os grandes espaços são a minha casa. 

Mas hoje penso que, enquanto sorria como se fosse feliz e enquanto caminhava como se os estes caminhos me bastassem, talvez eu já procurasse um sinal que tardava em vir, um sinal de ti.

Talvez, e tu sabes que é verdade, eu tivesse um ombro, um abraço, uma mão, um corpo que me visitava.

Mas não te tinha ainda a ti e, sem ti, tudo me era pouco. 

Mas um dia o acaso trouxe-te até mim. E nesse dia eu soube que era a ti que eu procurava, era de ti que eu sentia falta. 

Percorro agora os mesmos caminhos mas esses caminhos são percorridos por nós dois e eu agora sou eu e sou também uma parte de ti. E a isto talvez se chame amor.



[Abaixo do belo poema de amor de Maria do Rosário Pedreira, que pode ser visto no seu novo livro, poderemos ouvir uma gostosa música de Boccherini. Sei que tinha dito que ia sair dos compositores para os intérpretes mas a falta de ritmo com que tenho alimentado o Ginjal e Lisboa, pela qual me penitencio, leva-me a ceder a esta vontade que me deu hoje, a de ficar  com este compositor.]


Nesta primeira tarde de Outono no Ginjal, o Tejo muito azul, Lisboa coberta  por nuvens discretas



                                          Não me importa o pão quando não o divido:
                                          farta mesa triste sem companhia. Na tua
                                          ausência não há fome que me devore, e a
                                          gota de vinho na toalha é só mais um borrão
                                          num poema sozinho. Antes de ti nunca

                                          tive apetite pela vida, as costelas vincadas
                                          na camisa. Tantos cães escanzelados iguais
                                          a mim cumprindo a solidão das avenidas,
                                          e tão poucas as esquinas. Milagre mesmo

                                          foi teres parado numa para me alimentares.


[Poema de Maria do Rosário Pedreira in Poesia reunida,'A ideia do fim' - III, para o Manel]

Boccherini - O Carmina Quartet (Matthias Enderle no 1º violino, Susanne Frank no 2º violino, Wendy Champney na viola e Stephan Goerner no violoncelo) interpretam o "Fandango" de Guitar Quintet. Com Rolf Lislevand na guitarra e Nina Corti nas castanholas