Ginjal e Lisboa
24 maio, 2012
23 maio, 2012
Eu posso beber um rio afogar-me nele inundar-me inundá-lo
Este rio azul que aqui corre vai para onde? Vai para dentro de ti? Este é o rio que te percorre?
De que intangível água é feito este rio? De desejo?
A vida que vibra nas cordas azuis deste rio que entra em ti e que te banha o coração, é uma vida cheia das nossas histórias, das nossas lágrimas e sorrisos, do nosso muito bem querer.
Não sei porquê, mas também não quero saber, por vezes entras nesta água azul e dissolves-te como um peixe azul, como uma alga verde, e eu perco-te. Onde andas, minha amada, onde andas?, pergunto eu às sombras que se desenham na superfície espelhada do rio.
Fico, então, sentado na margem, olhando a maresia branca, tentando descobrir numa qualquer gota perdida uma pequena imagem de ti, olhando os grandes navios que talvez te tenham recolhido, aspirando o vento que talvez te traga, minha amada.
Mas, depois, quando a luz do farol começa a girar ou quando uma gaivota atravessa o espaço gritando, soltas-te das águas, deslizas húmida até mim, abres-te sôfrega e bela, e eu afogo-me, então, no rio que és tu. Minha mulher, minha amada mulher que sais das águas para vir incendiar o meu desejo, deixa que beba, que te beije, que te inunde.
[Abaixo da fotografia, poderão encontrar um poema do novíssimo livro de Casimiro de Brito e logo a seguir, um maravilhoso dueto com vozes vindas do céu e, claro, continuamos com Verdi.]
Há pouco, mesmo rente ao Tejo azul, mesmo em frente de Lisboa - um belíssimo sol dourado. (Visível um grande paquete atracado e, por trás, o belo edifício azul da Gare de Sta Apolónia] |
Eu posso beber um rio
afogar-me nele inundar-me inundá-lo
mas não posso queimá-lo não posso queimar o rio amado
e deixar-me dormir a seu lado -
eu posso beber um rio o teu rio
ou uma lágrima e cantá-la
o que não posso não sei não seria capaz
é afogar-me no rio amado e continuar
em paz.
['Ilhas adriáticas. VII' de Casimiro de Brito in 'Amar a vida inteira']
Fazes-te de santa de alças e pecado e atrevimento
Como escrever eu este texto? Como? Como, se me sinto tão injustiçada, tão mal compreendida? Como se estás sempre com novas exigências...?
Eu que me tapo e cubro e que, se me destapo não é para que os outros me vejam, apenas tu, que só de ti quero olhos em mim, que eu não sou dessas e tu sabes, eu que te falo de mundos verdes, e de flores em grinaldas suavemente coloridas e de pombos enamorados, piu-piu, e de corações enlaçados e dos preceitos da mamã, eu que tudo faço para te agradar, meu amor, que te abano e te embalo, que te aqueço e alimento, que te visto e te lavo, que completo as tuas palavras para que te não canses, que te penteio e sacudo os ombros, te engomo as camisas e endireito os colarinhos... como podes dizer-me isso?
Eu que te falo de amores eternos, actos de bondade, caridade todos os dias, que dou beijinhos na tua titi, que faço as comprinhas da tua mamã, que te aqueço o jantarinho quando chegas tarde, que te sopro no pescoço quando tens calor, que te descalço os sapatos para não teres que te dobrar, eu que vivo para ti, que vou à missa todos os dias, confessar-me todos os dias... como podes pedir-me isso?
Estou aqui devota, devotada, santificada e vens tu pedir-me que me ajoelhe?! Mais?! Outra vez? Agora ainda sou eu que tenho que te fazer rezar...? Na volta ainda me pedes que te faça ver as estrelas...ora!
Não estarás a pedir demais...?
[Sem mais, passo já a informar que abaixo encontrarão um sugestivo poema de João Paulo Cotrim e depois, what else?, La bella figlia dell'Amore e estamos com o Rigoletto de Verdi]
| Tarde nos frescos Jardim do Ginjal |
Fazes-te de santa
de alças e pecado e atrevimento
atiras-me rosas cantando
modas e lavores
ruralidades de esguelha
auras e espinhos
falo não respondes
não te faças de estela e pagela
ajoelha e faz-me rezar
[Poema da pág 32 de João Paulo Cotrim in 'Má raça', interessante livro com design e ilustrações de Alex Gozblau e posfácio de Adolfo Luxúria Canibal]
22 maio, 2012
21 maio, 2012
A perfeita, quase económica, concisão de um gesto que nos dispensasse da fala
Num fim de uma tarde silenciosa e imóvel, um homem e uma mulher sentam-se rente ao rio, de frente para o suave cenário de Lisboa. Passo perto deles e parecem conversar mas eu não os ouço. Mas vejo que olham coordenadamente no mesmo sentido. Olham em frente e olham os dois, depois passa um navio e ambos os seguem com o olhar, depois há qualquer ponto a meio e o olhar de ambos converge para esse ponto. Há ali uma coreografia harmoniosa dos olhares. Talvez já nem precisem de falar para que os olhares interpretem essa coreografia.
Neste entardecer de absoluta quietude nem os navios gemem na atracação, nem se ouvem gritos de gaivotas, nem passam carros que perturbem o silêncio. Parece que uma súbita paz desceu sobre este homem e esta mulher que parece dispensarem as palavras.
Pairo por aqui, pela beira do rio, gaivota em terra esperando o momento certo para voar, mas dou por mim movendo-me também em silêncio. Lisboa, do outro lado, é uma pintura silenciosa, pequenas casas brancas e douradas, telhados rosados, e daqui parece ser apenas um desenho sem pessoas, sem ruído, sem mágoas, apenas um desenho minucioso de casinhas sossegadas.
E, então, do céu prateado nasceu uma luz dourada, que trouxe movimento e alegria a este espaço silencioso em que as palavras já não eram necessárias.
Nessa altura, o homem e a mulher levantaram-se ao mesmo tempo, olharam para trás ao mesmo tempo, uma última vez olharam o rio e Lisboa, e abraçados, levados por longas asas douradas, seguiram noutra direcção. Passaram por mim em silêncio.
Claro que não me viram porque nessa altura também já eu voava, banhando-me na inesperada luz dourada que nascia do rio silencioso.
[Logo abaixo deste homem e desta mulher silenciosos que banhavam o olhar na luz que dourava Lisboa, poderão ler um belo poema de Tatiana Faia. A seguir um coro que jamais me cansarei de ouvir, Va, pensiero, sull' ali dorate]
Na beira do Tejo, num fim de tarde cinzento que, de repente, se pôs dourado, iluminando Lisboa |
na superfície dos dias o vidro do inverno
sobre a praia é de repente demasiado
longo demasiado pesado esta indecisa
melancolia que habita o espaço de cada
pequena vitória ou de cada pequena alegria
precipita-se numa palavra anterior
à pele eu escuto-te e é apenas uma sílaba
o corte de um fruto à superfície
a perfeita quase económica concisão
de um gesto que nos dispensasse da fala
['Outros Pássaros - V' de Tatiana Faia in Lugano]
Verdi - 'Coro dos escravos hebreus' da Ópera Nabucco
Va, pensiero, sull' ali dorate
Nota: Não consegui descobrir identificação sobre a identidade do coro
No fundo da ternura há um som de lágrimas
Tu que olhas indiferente os valorosos navios que parecem navios de sonhar
e que olhas, solitário, em silêncio, esta água onde o sol se afoga para, todos os dias, depois, renascer,
tu que te deixas levar magoado pelas lembranças de barquinhos de papel e infantis fantasias,
tu que te ergues sombrio para que a tua vida desfile, desalentada, ante os teus olhos banhados desta luz mansa que vem das nuvens,
tu que não sentes a chuva, o frio, o vento, os sorrisos, as palavras que afagam,
tu que, só por vezes, deixas que a ternura que atravessa os tempos se chegue até aos teus olhos,
esquece as mágoas, esquece os desencantos, esquece os tristes entardeceres, esquece as lágrimas, as quedas, as perdas.
E deixa que a vida clara, luminosa, promissora, envolta em ternura, para sempre preencha os teus dias.
[Abaixo poderão o terno poema de Soledade Santos e, logo a seguir, abro a semana com La Traviata - é Verdi e a música que vibra plena de fulgor]
Em Cacilhas, no domingo, Dia da Marinha, a Sagres engalanada e um submarino em primeiro plano O Tejo azul, tingido de verde |
No fundo da ternura há um som de lágrimas -
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.
['Da ternura' de Soledade Santos in 'Sob os teus pés a terra'
20 maio, 2012
16 maio, 2012
Talvez então me chames dentro de ti, talvez até me olhes. Mas não me vês.
Caminhas rente ao rio, avanças tanto que quase pareces querer ir andar sobre as águas e, de longe, és um traço azul sobre uma paisagem azul. Fazes tempo até que eu avance mas, nesse fazer tempo, eu observo-te, és o meu amor quase andando sobre o azul.
Caminhas e olhas a cidade que aos poucos se vai esbatendo em azul, o céu, o rio, as casas, os silenciosos veleiros, azuis, brancos e tu, ali, recortado contra a paisagem. Depois viras-te, procuras-me, impacientas-te, vens na minha direcção tanto tempo, tanto tempo, vem.
E eu, deliciada, aspirando o azul, respirando o ar que se levanta fresco das margens, pergunto-te se sentes como eu, se sentes que não há mal que resista a uma coisa assim e tu, lacónico que sim mas vá lá, anda, despacha-te.
Caminhas à minha frente, desvias-te para os cais para que eu me perca uma e outra vez olhando as ondas nos degraus, olhando os limos verdes de veludo, olhando o azul que desaparece, ah se eu pudesse agarrar este azul, e, enquanto isso tu vais e vens, não me queres deixar sozinha, anda que já é tarde, e eu olho uma última gaivota, um último veleiro, o sol que se põe, um navio que entra a barra, um casal de namorados que aprende o amor, e tu já nem me chamas ou, se o fazes, é talvez apenas dentro de ti e olhas-me apenas e eu olho-te e há tanto tempo nos olhamos que nos conhecemos pela sombra, pelo silêncio, pelo olhar.
Meu amor azul, mesmo que eu me esqueça do tempo mergulhada na beleza deste espaço imenso, espera sempre por mim.
[Abaixo encontrarão mais um belo poema de Maria do Rosário Pedreira e, logo a seguir, prossegue a semana dedicada a Donizetti.]
| Deliberadamente desfocado, caminhas num dos cais do Ginjal, mesmo sobre o Tejo enquanto eu, de longe, te vejo e registo a tua imagem |
Olho-te e não me vês. A primavera vigia
a floração das malvas e o girassol retribui
os favores da luz. Eu sento-me onde acho
que vai estar a tua sombra. E, como a dor
que persegue a ferida, vejo-te quando passas,
mas vejo-te melhor quando não passas. Tu
não me vês; caminhas na geometria vã de
uma linha sem pontos; às vezes parece que
alguma coisa te detém e viras-te - talvez
então me chames dentro de ti, talvez até
me olhes. Mas não me vês.
[Poema de Maria do Rosário Pedreira in 'Nenhum nome depois']
A sós a praia. A sós, que não estou lá.
A água limpa, vibrante, a água cheia de vida, a água azul e, ali perto, o rio e, do outro lado, Lisboa que se prolonga até se ir misturar com a Serra - e, segundo dizem, é junto à água que as pessoas são mais felizes. Talvez por isso, é a água que eu busco incessantemente.
O som do mar que vem e vai, que se espraia, que vem para nos conquistar, que nos afaga, sem submissão, o som que é um silêncio imenso e o som é água, é céu, é frescura e o azul não é bem azul, é também cinzento, prateado, a tender para o verde e traz muito branco e estas cores agitam-se, rebolam, brincam e inventam-se e, por vezes, é apenas o reflexo do céu, às vezes o mar é o céu em estado líquido e, nessas alturas, o som não é silêncio, é só um rumor.
E eu gosto de andar aqui na praia, respirando o ar fresco e limpo, imersa neste azul silencioso em que apenas o marejar ilumina este grande espaço.
Vou em silêncio porque locais assim são locais de prece, locais de bênção e as gotas que se desprendem do grande mar vêm ungir-me, baptizar-me e eu sinto-me a flutuar e não sei se é nas nuvens, se nas ondas, se no silêncio, se na paz mais perfeita e limpa, se nas palavras feitas água azul.
[Por baixo das ondas, poderão encontrar as palavras azuis de Pedro Tamen e, logo abaixo, uma alma lusitana entoa Donizetti]
| No domingo, na praia. O oceano e, do outro lado, 'a linha' e a Serra da Lua |
Azul. Era azul? Era a cor
que era, não a que pretendo
- ou seja, a que relembro.
O mar. Água, em todo o caso.
Vento por cima; ou era a voz
de alguém fazendo o ar bulir?
É na pele o que sinto
ou nos ouvidos soa? A sós
a praia. A sós, que não estou lá.
[Poema de Pedro Tamen in Memória Indescritível]
15 maio, 2012
14 maio, 2012
Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente onde sempre esteve
Tu que me lês, Leitor ou Leitora, permite que te pergunte: que balanço fazes da tua vida?
Andaste sempre dentro de ti, percorrendo os ajustados caminhos do destino que escolheste? Ou andaste por fora, quero dizer: por fora de ti, percorrendo caminhos que te são estranhos?
Por onde passaste deixaste um rasto, deixaste ao menos que a tua sombra ficasse presa num qualquer recanto onde, quem a veja, ainda se lembre de ti? Ou já nem te lembras dos caminhos remotos por onde a tua sombra se arrastou indiferente?
Recordas cada ano da tua vida, relembras o que fizeste, o que viste, o que amaste? Ou a tua vida tem manchas negras, vazias, que desaparecem da tua memória, sem saudades, sem história?
Saboreaste cada momento: esta é a minha casa, esta é a casa que tem o meu cheiro, as minhas cores, os meus objectos, os meus afectos? esta é a cama em que me deito, tão minha, os meus lençóis, a almofada onde deito a minha cabeça? esta é a porta que transponho quando entro dentro da minha casa, dentro de mim? Apreciaste e agradeceste a sorte de teres uma porta que se abre para dentro de uma casa que tem o teu cheiro e onde a tua sombra se acolhe em paz? Ou transpuseste com apatia e tédio a tua porta como se fosse a porta de uma qualquer casa estrangeira?
Olhaste, com agradecimento e amor, os olhos de quem te ama e que fala contigo uma língua que é feita de silêncios, cumplicidades, beijos? Ou ignoraste o carinho de quem te olhava com os olhos felizes de quem regressa de longe, de outra estação do ano, de outro mundo, apenas para se deitar nos teus braços?
Responde para ti, apenas para ti. Ou, então, diz-me em segredo.
[Abaixo mais um belo poema de Manuel António Pina, um Poeta que é muito cá do Ginjal e, logo depois, um momento sublime, regnava nel silenzio - e, é, claro, ainda Donizetti]
| Hoje antes de anoitecer, em Cacilhas, olhando o Tejo e Lisboa e um navio que tinha entrado no rio |
Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
['O regresso' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa']
13 maio, 2012
Tenho as coisas escritas no peito, o teu nome
Onde estás? Onde estás?
Chamo-te, grito por ti, a todos pergunto se sabem por onde andas, procuro-te, corro todos os caminhos, espreito, e não estás em lado nenhum. Deixo sinais, avisos, súplicas. Nada. Não habitas já dentro das fronteiras do meu mundo. Saíste. E eu não sei nada de ti.
Onde estás?
Procuro-te nas sombras de outros homens, procuro-te nas vozes que se perdem no ar, procuro-te nos olhares que vagueiam pelo horizonte, procuro-te por todo o lado, no meio de todas as multidões, mas não te encontro.
Procuro-te num cheiro quente que atravessa o ar, procuro-te numa certa forma de andar, procuro-te num certo descair da cabeça, procuro-te e já nem sei onde te procurar mais porque nunca vejo de ti nem sequer ténues sinais.
Onde estás? Onde estás, meu amor, onde estás?
Tu eras a minha casa, o meu sonho, o meu destino. Sem ti percorro sozinha, desamparada, os caminhos da vida. Falta-me tanto o teu sorriso macio, e o teu braço em torno de mim, e a tua voz secreta no meu ouvido, e a tua mão atrevida a subir a minha perna, e os teus lábios ávidos percorrendo o meu corpo. Fazes-me tanta falta.
Onde estás?
Porque acreditaste quando te disse que nunca mais te queria ver, porque acreditaste quando te disse que te fecharia todas as portas? Porque te foste embora quando te substituí por outro homem?
Devias ter lutado, lutado, lutado, devias, devias. Vem, luta, luta por mim porque é a ti, só a ti que eu quero.
Onde estás agora? Onde?
[Abaixo o belo poema de Inês Fonseca Santos diz melhor que eu o que é ter inscrito na marca genética o amor por outra pessoa. E, logo a seguir, Pavarotti traz-nos o Elisir d'Amore para abrir a semana dedicada a Donizetti]
| No topo da escada de onde se vê o esplendor do Tejo e de Lisboa e que não leva a nenhum outro lugar que não, apenas, a estar mais próximo do céu |
Tenho as coisas escritas
no peito, o teu nome. Nada tem que ver
com o coração, muito menos com sentimentos.
O teu nome está-me escrito nos sinais, sobre a pele.
A tinta, desenhos de círculos castanhos
assinalando lugares.
O meu mapa genético tem uma única localidade.
Dizer o nome dela é chamar-te.
Chamar-te é encontrar a minha morada.
['As coisas escritas' de Inês Fonseca Santos in 'As coisas']
12 maio, 2012
Não sei ao certo como será nem como ou quem anunciará essa noite, essa luz, esse momento - Veio sem aviso o momento em que Bernardo Sassetti entrou na noite mais escura mas, agora, já é a infinita luz aquilo que o rodeia
Na quinta feira à tarde, alguém viu um homem voar de cima dos penhascos. É o que se sabe.
Diz a família que estaria a tirar fotografias para um livro que iria sair. Dos penhascos do Guincho, em tarde de mar bravo, voou um ser abençoado. Mas, nesse momento, os deuses estavam a dormir, no momento em que mais precisaria das asas, elas mantiveram-se fechadas.
Custa a acreditar mas dizem que a família já reconheceu o corpo do homem que voou, dizem que pertencia a Bernardo Sassetti.
Dizem - ou digo eu - que a sua alma voa agora entre nós. E, para sempre, voará entre nós, como uma aragem suave, como uma toada que dança com o vento.
| Num dia em que se soube que mais um ser abençoado nos abandona, Ginjal num momento de grande desolação, o Tejo parado, o céu suspenso - há ausências que custam muito |
Muitas vezes me pergunto quando vem.
Não sei ao certo como será
nem como ou quem
anunciará
essa noite essa luz esse momento
Chegará como chega o vento.
['Momento' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito']
Não sei ao certo como será
nem como ou quem
anunciará
essa noite essa luz esse momento
Chegará como chega o vento.
['Momento' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito']
Bernardo Sassetti - Alice
Bernardo Sassetti - Contigo em la Distancia
. Descansa em paz .
09 maio, 2012
Trago em mim um exército perdido algures no meio de uma estrofe
Há a multidão, há 'toda a gente', seres todos parecidos, todos normais. O tempo avança e, com ele, vai andando a multidão que se vai renovando mas mantendo-se sempre igual. É um exército anónimo, imóvel apesar de parecer mover-se, é um exército de gente que fala palavras normais, que fala com voz normal.
No entanto, por vezes, no meio da multidão um homem ou uma mulher levanta-se e fala palavras diferentes ou fala com uma voz diferente. A multidão parece então agitar-se, quem é este?, que diz ele? o que quer? e tentam rejeitar o corpo estranho.
Esse homem ou essa mulher, no entanto, não escutam a voz inerte e baça da multidão, essa vasta mole de humanos que caminha de olhos fechados, de boca fechada, de braços caídos. Esse homem ou essa mulher que se levantam falam uma língua desconhecida, usam palavras que pertencem a cantos longínquos que vêm do princípio dos tempos, palavras misteriosas que anunciam o esplendor (e, por vezes, também, a desgraça). Caminham cercados de luz, essa luz primordial que une os intangíveis infinitos.
A multidão ulula, não te queremos, és velho, está doido, não sabes o que dizes, cala-te, ninguém te compreende, vai-te embora, não fazes cá falta - tirem-no daqui!
No entanto, o homem ou a mulher que se levantaram, de peito feito, de bandeira esfarrapada na mão, lágrimas nos olhos francos, continuam, mesmo que, por vezes em surdina, a dizer palavras puras que soltam no vento, palavras que procuram a paz, a música, a beleza, a inexpugnável harmonia, a poesia.
Esse homem ou essa mulher são os mais lúcidos de toda a imensa multidão, vêem mais longe, vêem para além dos tempos - são os Poetas.
[A seguir à fotografia do velho pescador que regressa a casa, poderão encontrar um novo e belo poema de Manuel Alegre e, logo depois, o toreador da Carmen de Bizet]
| Há pouco, perto do cair da noite, velho pescador abandona o Ginjal (o Tejo de um azul glorioso) |
Trago em mim um exército perdido
algures no meio de uma estrofe
da saga escrita em língua desaparecida.
Eu próprio sou esse exército sem sentido
e esse país de bandeira esfarrapada
que tremula num campo onde perdura
a sílaba mais pura desse canto
que por qualquer mistério ecoa em mim
em horas de esplendor e de desastre.
Talvez porque eu seja o sem sentido
desse exército perdido numa estrofe
e essa bandeira e esse país e esse fim
['Saga' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito']
07 maio, 2012
Tempo de dança num vago compasso de bela toada
Houve uma tarde, meu amor, que guardo com doçura no mais fundo do meu coração. Era uma tarde dourada, ou então era dourado o sol da tarde que entrava pela janela da casa em que nos escondíamos. Conhecíamo-nos, então, nessa tarde distante, conhecíamo-nos sabendo, meu amor, que era para logo nos separarmos.
Dançávamos mesmo sem música ou então não era dança, era apenas um estreito abraço, o abraço dos que se amam, sabendo que a seguir terão que se separar. Dançávamos e não sabíamos, meu distante amor, que seria a última dança, senão talvez o abraço fosse ainda mais longo.
E os teus olhos riam, felizes e eu ria, feliz, e então reparámos que o espelho mostrava a nosso abraço tão feliz. E ali ficámos, iluminados pela luz dourada da tarde, olhando a nossa felicidade que brilhava no espelho dourado. Abraçados, cheios de amor, felizes, sem saber que o espelho não mais devolveria aquela imagem de um casal unido pela certeza da separação.
Hoje, tanto tempo depois - tanto que já nem sei se aconteceu ou se foi um sonho - chove nesta noite fria, húmida, densa, chove tanto, as árvores escorrem cansadas, ouço a chuva incessante. E é só o que ouço, não ouço nenhuma música, nem há luz dourada, e o espelho não reflecte a imagem de um abraço feliz, e os teus olhos tão brilhantes estão tão longe, tão longe que eu já nem recordo o rosto a que pertencem.
Tanto silêncio, tão escuro, tanta chuva. Tanta saudade.
[Abaixo poderão ler um belo poema de Frederico Lourenço e, por falar em dança e para nos animarmos, logo a seguir, uma grande interpretação: é Carmen de Bizet]
Tempo de dança num vago compasso de bela toada
fecha solene a última festa do longo inverno.
Chove de novo na húmida noite gelada de maio;
nada faria prever o perfume da música nova.
Vejo agora teu rosto no espelho da sala dourada;
luzem teus olhos ao brilho das velas nos lustres acesos,
quando de novo a orquestra entoa a música nova,
sempre que soa no brilho da sala a triste gavote.
Música minha alheia não soa às árvores altas:
ramos e folhas ondulam à chuva na escura montanha,
cantam por mim o que vejo ao ver-te no límpido espelho,
hoje que mais do que nunca rebrilham teus olhos brilhantes.
Pena seria portanto perdermos a última dança;
ambos sabemos que vêm vazios compassos de espera,
logo que raie daqui a minutos a pálida aurora,
ela que traz como sempre o ocaso dos nossos amores.
[Poema 3 de IV de Frederico Lourenço in 'Clara Suspeita de Luz']
NB: No poema original, onde se aqui se lê maio, lê-se março. A troca fica a dever-se ao facto de hoje estarmos em maio, numa noite de chuva
06 maio, 2012
Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país - mas tem esta voz doce
Nesta terra que é também a minha, que tem um rio largo como um imenso mar, há um céu tão azul, mas tão azul, que corre a banhar-se nas águas que deslizam com doçura.
E, nessa água azul como um grande céu há, às vezes, pequenas plumas brancas, leves, imateriais. Quem as veja de longe mal saberá dizer se são as velas dos pequenos barcos que dançam no rio, ou puríssimos pássaros ou anjos que desceram do céu para aí flutuar.
Quando, bicho da água, desço até ao rio, passo por grandes muros detrás dos quais saem rosas bravas encarnadas ou rosas albardeiras cor de pérola, ou pequenos cardos macios e lilases ou hastes flexíveis de silvas. Na terra por detrás destes muros há grandes eucaliptos que se erguem altíssimos ou que deixam cair os seus ramos pesados e cheirosos ou pedaços da casca de que se vão desfazendo.
O meu país tem gente de vistas curtas, tem gente pequenina, vingativa, aborrecida, tem gente deselegante, pouco inteligente, tem tudo isso. Mas tem também muita gente de vistas largas, gente generosa, que olha os outros com carinho, gente abnegada, gente que se faz ao caminho de peito feito, que se faz ao mar com coração de leão, gente que ama as rosas, as silvas e as suas doces amoras escuras, gente que ama as palavras e as pontes que elas desdobram.
O meu país é pequenino mas é imenso na sua beleza luminosa e nas límpidas palavras dos seus grandes poetas.
[A seguir à fotografia, Eugénio de Andrade fala-nos de um país com amoras que trazem o sabor do verão aos muros brancos e, logo a seguir, temos os pescadores de pérolas a abrir a semana dedicada a Bizet.]
| Descendo para o Ginjal, rosas bravas e esguias silvas emoldurando a Ponte sobre o Tejo, com pequenos veleiros brancos pontuando o rio junto à Torre de Belém |
O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
['As amoras' de Eugénio de Andrade in 'Os poemas da minha vida' de Miguel Veiga]
03 maio, 2012
Folheia estas imagens como quem da flor tocasse cada pétala
Ah, meus amigos, deixem-me aqui estar, não me digam nada, não me perguntem nada, deixem-me apenas aqui estar, deixem-me olhar estas imagens. Ah meus amigos que saudade, que saudade. Deixem-me aqui sozinha, sem palavras.
Eu vinha para aqui com o meu amor, vínhamos os dois, olhávamos o rio, olhávamos os grandes navios que se faziam ao mar e ele conversava comigo, dizia-me que um dia íamos os dois e eu sonhava com isso, sonhávamos os dois porque sabíamos que nunca iríamos, mas não interessa, íamos em pensamento e era bom na mesma.
E as nossas mãos tocavam-se, cúmplices, os dois a olhar o rio. E ele aproximava-se, chegava-se a mim, e eu sentia o seu cheirinho bom e o seu hálito doce, e nem precisávamos, depois, de falar. Era tão delicado o meu amor, oh meus amigos, era tão delicado. E dava-me o braço, depois, quando descíamos os degraus e eu olhava por ele e ele por mim, os dois amantes amorosos, cuidadosos. E íamos devagarinho e ele dizia, que grande barco, tinha uns cinco andares, e eu dizia que sim, que era grande e branco, tão bonito e depois ficávamos calados, felizes, tranquilos.
Mas um dia ele partiu, partiu antes de mim e eu agora vejo os navios só com os meus olhos e já não sinto a sua mão macia, tão leve, tão leve, e já não tenho quem me dê o braço nem com olhe por mim com cuidados de namorado, de amigo, de amante cuidadoso. Estou aqui e só tenho a sua lembrança por companhia. Ah, meus amigos, que saudade, que ausência, que vazio.
Deixem-me aqui calada, sossegada, deixem-me recordar a sua presença tão amada, deixem-me tentar sentir o olhar intenso do meu amor. Ah, meus amigos, deixem-me estar atenta pode uma palavra do meu amor ter ficado solta no vento e voar agora até mim.
[Abaixo da fotografia poderão ver um excerto de um belíssimo poema de Bernardo Pinto de Almeida e, logo a seguir, um belo trecho da Tosca na voz vibrante de Andrea Bocelli]
| O Tejo e a outra banda avistados do Centro Cultural de Belém |
Folheia estas imagens
como quem da flor tocasse cada pétala -
tal delicadeza é a que o seu rosto pede
se distante não se vê já senão nelas,
imagens que o lembram esquecendo. Basta
guardá-las numa caixa
ou desviar o olhar e já não está
não respira ofegante de tão próxima:
uma imagem não deixa em um perfume
o corpo singular comunicar-se,
não tem das mãos o toque quase etéreo,
dos olhos tal intensidade
que a nada saberia fixar,
da boca a presença incendiada. E
tendo a imagem disso
nada por ela se tem,
se na imagem vai e perde-se,
transfigura-se quando nela acolhe
a ausência e é a que relembra.
[Excerto do poema 'As imagens' de Bernardo Pinto de Almeida in 'Negócios em Ítaca']
***
Adonia é um transatlântico
Alvo, grande com bandeira à proa
Aparição gloriosa
No rio Tejo de Lisboa
Deslizando entre gaivotas
Que se dão no rio
Carregava sonhos repartidos.
Vejo-o agora branco frio!
Meu único desejo
Levantar âncora, e cair
Nos braços de
Adonia, o navio.
***
Adonia é um transatlântico
Alvo, grande com bandeira à proa
Aparição gloriosa
No rio Tejo de Lisboa
Deslizando entre gaivotas
Que se dão no rio
Carregava sonhos repartidos.
Vejo-o agora branco frio!
Meu único desejo
Levantar âncora, e cair
Nos braços de
Adonia, o navio.
[Poema da autoria de 'Luísa sobe a calçada' in comentário abaixo]
02 maio, 2012
Ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me
Chega-te aqui. Assim, bem junto a mim. Deixa que te fale.
Hoje o céu está vivo. O azul está muito azul, nem parece de verdade e as nuvens são ora brancas, ora cinzentas, ora densas, ora macias, e correm velozes ou, então, aninham-se, mansinhas e brincam à apanhada e fazem corridas. Deixa-me, pois, falar-te de nuvens.
Não te rias, não... Já sabes que eu sou assim, gosto de falar destas coisas.
Falava-te, então, nas nuvens. É que, sabes?, elas não dançam apenas no céu. Não, é como se dançassem também no rio. A sério... É que fazem sombra e o rio, que está cor de esmeralda, fica com manchas escuras que correm, unem-se, brincam - sombras que se cruzam no rio, que bailam. Tão bonito.
E, depois, deixa que te fale nestes bancos onde estamos, nesta varanda sobre o rio. Podia ser a nossa casa. Não querias?
Olha... Está quase a chover. Mas ficamos aqui mais um bocadinho, está bem?
Olha as gaivotas, olha como voam altas, olha ali aquele bando de pombos, já viste? Que bonito tudo isto, não é?
Agora vou calar-me, agora falas tu. Fala de árvores, conta-me como as folhas estão a nascer, fala de como se estão a fazer grandes, fala-me do verde, fala, fala das raízes, fala. Gosto tanto de ouvir falar de árvores e de pássaros.
Mas, olha, se não souberes o que dizer, não faz mal. Toca-me. Toca-me apenas. Também é bom.
[A seguir ao poema de Maria Sousa, poema de grande pureza, desça um pouco mais que vai ter uma surpresa. É La Bohème de Puccini numa inesperada versão]
| O Tejo e Lisboa sob um maravilhoso céu numa tarde no Castelo de Almada |
escrevo o que ainda conheço
nomes de ruas pássaros árvores
monólogos de quem ainda fala alto
é a minha voz ou a tua?
como se tudo fosse uma metáfora sem fim
lá fora a chuva confunde-se com gestos
falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada
ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me
[Poema de Maria Sousa in 'Endurecimento de Lágrimas']
01 maio, 2012
Teimei em olhar a palavra à força, obrigando o verso a nascer
Não me acontece mas podia acontecer, sentar-me aqui sem saber o que escrever. Não deve ser à toa que aqui nos pomos, de janela aberta, deixando que as nossas palavras voem até à casa de quem nos lê.
Por respeito, afecto ou seja por que for, há que escrever com a sensação que é um pouco de nós que aqui se depõe.
A mim basta-me escolher um poema, deixar que ele se entranhe em mim, depois escolher uma imagem que se encontre, de alguma forma, em harmonia com o poema e, logo a seguir, as minhas palavras começam a fluir.
Talvez seja porque habito a casa dourada que é este meu ninho perto do céu, talvez seja porque estou perto do rio, talvez seja porque junto à minha janela passam gaivotas em amplos voos, talvez seja porque sobre esta minha mesa tenho muitos livros que guardam milhares de palavras abençoadas. Talvez seja porque gosto muito de palavras e gosto de as partilhar, talvez seja porque gosto de riscar o silêncio com palavras que atravessam os céus com as suas efémeras asas, talvez seja porque esta é a maneira como gosto de estar na noite que rompe o secreto amanhecer. Talvez seja. Talvez seja apenas a minha forma de vos dar a mão. Talvez.
[Logo abaixo da imagem de uma Lisboa pintada em tons de afecto, encontrarão um inspirado poema de Ricardo Gil Soeiro e, logo depois, dos céus desce a grande música de Puccini, desta vez na voz de Renata Tebaldi]
| O Tejo com um veleiro amarelo e Lisboa com a sua bela casa dourada em dia luminoso |
teimei em olhar a palavra à força,
obrigando o verso a nascer:
não me dei conta que
às vezes basta talvez
um secreto amanhecer
agora sei que, amiúde,
é suficiente habitar a casa dourada
e pousar o silêncio neste chão
de diamante que pisamos
teimo, mas basta inventar
as asas que nos faltam:
tudo a seu tempo,
o poema há-de vir.
['XXXVIII 2' de Ricardo Gil Soeiro in 'espera Vigilante']
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