Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

18 dezembro, 2011

Alguém diz o teu nome à janela, olhando as aves que partem para sul

Hoje as gaivotas andavam loucas, rodopiavam nos ares, longas asas brancas em longos bailados. Pareciam que andavam à minha volta mas, logo que passava um veleiro, afastavam-se. Sentem aquela atracção fatal, despudorada pelos veleiros que rumam a sul.

Entre os troncos, abrigado, um belo gato, de cristalinos olhos inocentes, olhou-me, um olhar fixo, inquisidor, e eu deixei-me olhar. Aproximei-me sorrateira, como sempre faço, e o belo gato manteve o olhar e então senti que me olhava com compreensão.

É outono, a manhã estava fria, o rio corria rápido, azul, e eu percorria estes caminhos que percorro mil vezes. Penso em ti, por vezes parece que ouço o teu nome, parece que das janelas vazias destas casas abandonadas alguém te chama. Mas é apenas saudade, isto. E, então, desejo que algum destes pássaros de longas asas brancas chegue até onde te retiras, talvez atravesse oceanos, talvez suba às montanhas, solte um longo grito de saudade e, depois, pouse na tua janela, no meio de flores de desumana beleza.

Por aqui ando, rente ao rio, com a minha memória, sem dor, sem cinzas, esperando que este e todos os outonos sejam, afinais, auspiciosas primaveras.



[Começamos hoje com Bach, aquele que veio do além para nos iluminar com a sua música que não é deste mundo. Desça um pouco mais e entrará na semana de Bach.]


Belíssimo gato de belíssimos olhos marinhos no Jardim do Ginjal, mesmo rente ao Tejo


                               Os gatos resguardam-se da chuva.
                               Alguém diz o teu nome à janela,
                               olhando as aves que partem para o sul.

                               Há uma memória embaciada de outro outono,
                               cinzas no pátio,
                               o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.


(Poema de Maria do Rosário Pedreira in 'A casa e o cheiro dos livros')

Bach - Mischa Maisky interpreta o Prelúdio para Violoncelo (Suite No.1)





16 dezembro, 2011

Atravessa os campos da noite e vem


De onde estás, tão longe, tão longe, voa até mim. Vem, terei a janela aberta. Os meus braços quentes estão sempre abertos para ti. São macios, perfumados, e fecham-se em torno do teu coração quando queres um ninho, quando queres sentir um coração a bater junto ao teu. Vem. Atravessa a noite que eu estou aqui, esperando por ti. Atravessa os rios, os mares, os oceanos, vem do outro lado do mundo, vem, mesmo que leves uma vida, vem, mesmo que saias de noite e chegues ao raiar da aurora - vem.

Nos recantos da minha pele que se arrepia ao teu toque, no meu olhar molhado que se sacia com o teu sorriso, nas minhas palavras que nascem para te falar com vagar o meu afecto suave e apaixonado, encontrarás a paz que procuras, encontrarás a chama que procuras.

Vem. Voa até mim.

No Ginjal, pássaro levanta voo sobre o Tejo, Lisboa do outro lado


Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.


('Apelo' de Luisa Dacosta in A Maresia e o Sargaço dos Dias)
 

Mozart - Don Giovanni, Là ci darem la mano

 


14 dezembro, 2011

E abre os braços para deixar cair na cidade um ano favorável ao senhor


Um homem passa com majestade, o andar desenvolve-se com serenidade, é um cardeal que se desloca, vai com vagar, o casaco pende-lhe quase como se fosse uma pesada veste pregueada, vagamente ondulante. O homem avança e vai sereno, rosto aberto, peito feito ao frio do entardecer, passos de assombro e desprendimento. Olha a paisagem, olha as pessoas, olha os pássaros, olha com compaixão, com um afecto contido que não pertence aos dias comuns e nós não lhe vemos os olhos. Mas a sua compaixão pousa nos nossos ombros, uma mão forte e quente que se imagina.

Este homem que eu olho caminha contra o vento, caminha para dentro da noite.

E então pára.

De perfil, com nobreza no porte, altivez no olhar que se esconde, deixa-se ficar imóvel, superior, ele é o homem que olha a paisagem, ele é o homem que domina a paisagem, pensamentos voando em seu redor, palavras rodopiando em silêncio, palavras sopradas por um deus que se esconde no vento, palavras que as crianças que passam agarram, palavras como folhas de outono, palavras, palavras, palavras. Palavras de poeta.  

Este homem que aqui se entrega à noite que chega, que segura nos braços as palavras de um qualquer deus, é um poeta, um poeta quase apostólico como são todos os poetas.



[Leia, por favor, o poema abaixo do Ruy Belo e depois desça um pouco mais - verá então o que é irreverência e joie de vivre. É Mozart, claro, mas um Mozart muito peculiar]


Belo tronco e belo perfil num fim de dia rente ao Tejo


                               Está sereno o poeta
                               Desprende-se-lhe dos ombros e cai
                               depois em pregas por ele abaixo a manhã
                               Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
                               não morrerão na noite seus assombrosos passos
                               Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
                               de crianças de atitudes desmedidas
                               que o vento varreu e parque algum queria
                               E abre os braços para deixar cair na cidade
                               um ano favorável ao senhor
                               E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras
                               Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar 



                               ('Poema quase apostólico' de Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates" )

 

Mozart - O Quintessence Saxophone Quintet interpreta a 25th Symphony, "25 plus" - a festa da irreverência



Tudo me ultrapassa e ninguém me obedece


Uma multidão, uma massa informe de gente, uns riem, outros vagueiam, outros conversam animados, outros, solitários, detêm-se junto à paisagem, uns para a frente, outros para trás. E eu ali, invisível, no meio da multidão que se move.

Passam por mim, avançam, não sei para onde vão, não sei sequer se têm destino ou se, simplesmente, estão de passagem. Ninguém os encena, ninguém os dirige, ninguém os detém.

Observo-os, um a um, recuo para colher melhor ângulo, deslizo em silêncio, fixo a imagem de casais de namorados, de novos, de velhos, de uma mãe com uma criança, de excêntricos, e ninguém me vê. Por vezes alguém parece detectar a minha presença, parece que o seu olhar se foca em mim, quase temo que me esteja a ver; mas logo percebo que apenas vê um vulto pois apenas se desvia, passa sem me ver.

Está um dia de luz intensa, uma luz branca e fria e eu ali, mulher imaginada, no meio de todos, silenciosa, construindo frases de palavras que se cruzam no ar, construindo legendas para as imagens, e as minhas personagens não me vêem.

Poderia pensar que assim é o mundo quando não tem luz - as pessoas desorientadas avançam sem rumo, umas para a frente, outras para trás, ninguém vê ninguém. Mas não, aqui há luz, aqui há apenas a liberdade absoluta, a alegria de respirar a luz, a fruição dos movimentos libertos, do riso franco, a urgência de viver.

Aqui no meio de todas estas pessoas, invisível, inventada, movo-me em silêncio e a minha mão, livre, toma a sua feição, feliz, dizendo que sim, dizendo que não, e eu, secreta, furtiva, vou guardando as imagens de todas as pessoas que comigo se cruzam.

Faço colecção de pessoas.



[Ficaria melhor se, antes de ter começado a ler, tivesse ido ali abaixo pôr o quintento de cordas e clarinete de Mozart mas, enfim, ainda está muito a tempo. Mozart  leva-nos para outra dimensão, uma dimensão quase lúdica]



                               Tudo me ultrapassa
                               e ninguém me obedece.
                               Será isto uma peça?
                               Talvez uma arruaça
                               (pelo menos parece)
                               mas nada que se esqueça.
                               Sem luz ninguém dirige
                               palavras, corpos, gestos,
                               ou a fremente mão
                               que desliza ou transige
                               e fora dos contextos
                               toma a sua feição
                               de quem se regojize
                               dizendo sim e não.


                              ('19. O encenador' de Pedro Tamen in 'Um teatro às escuras')

13 dezembro, 2011

Mozart - Servio Bosi no clarinete interpreta Quinteto K581




 

É pelo rodopiar das folhas no chão que saberás que este tempo chegou

 
Agora os dias acabam cedo. Com o cair do dia caem as últimas folhas, mergulham no rio as últimas aves, cai a nostalgia sobre as pessoas. Caminham sozinhas e seguras as mulheres ao encontro dos amantes previstos, caminham sozinhas e inseguras as mulheres a quem ninguém espera.

Caminho por aqui, à beira deste rio silencioso, dourado, um veludo macio. Vou sozinha. Ninguém me espera.

Mas, enquanto caminho sozinha, sei que estou à tua espera.

Sabes que nestes dias assim, em que as caem as últimas folhas, em que a noite avança mansa e secreta, eu saio pela beira do rio à tua procura. Sabes que, nestes dias assim, os deuses te levarão ao meu encontro, sabes que eu estarei na beira do rio, na escada que sobe das águas, estarei esperando por ti, mulher pássaro, mulher com cheiro a mar.

E vou caminhando, devagar, a dar-te tempo. A tua bússola secreta conduzir-te-á até mim. Não tenho pressa.

E então, apesar de ser quase noite, vejo-te. Caminhas na minha direcção - ah não, os deuses ainda não partiram - e eu vou dizendo baixinho, em festa, 'meu amor, meu amor, meu amor' e tu vens, como se viesses do fim dos tempos, e, de longe, quando me vês, sorris, e abres os braços e eu só não corro para ti porque quero que o momento dure. Sorrio, feliz. É outono, as folhas rodopiam no chão, entardece, cheira a maresia, sopra uma aragem suave, está tudo certo, e tu vens na minha direcção e, então, quando chegas perto de mim, baixas-te, e eu ouço as ondas ao de leve e vejo que escreves no chão a palavra pela qual toda a vida esperei. Em torno dela erguerei um templo e, dentro desse templo sem paredes, seremos felizes.



[E porque de alegria e sonho se fala aqui, sigam por favor, para a sonata de Mozart - mas obviamente apenas depois do poema de Ivone Costa, logo abaixo da fotografia]


Os deuses não partiram
(À beira Tejo numa tarde de Outono em Belém)


                             É pelo rodopiar das folhas no chão
                             que saberás que este tempo chegou.

                             Porque apontam as certezas
                             saberás que as bússolas não dormem.

                             Porque se cruzam os caminhos
                             saberás que os deuses não partiram.

                             Dá-me a tua mão
                             e eu mostro-te a escada
                             por onde subiram os séculos.

                             Dá-me uma palavra
                             e eu escreverei o teu nome
                             nas ruínas de um templo,
                             esquecido nas escarpas
                             onde batem as ondas.


(Poema VI de '5. Contos de Fadas' de Ivone Costa in Ordem Breve, produção e edição de João Carlos Lopes, a quem muito agradeço o ter-me enviado o belo e cuidado livro)

11 dezembro, 2011

Agora vou falar da preguiçosa e fina névoa entre os olhos e o rio


Neste dia frio e envolto numa diáfana névoa, deixo-me ir pela beira do rio, vou sem pressa, sem fito, vou simplesmente.

As árvores vergam-se húmidas, parecem tristes, e eu vejo através delas, quero véus, filtros, não quero hoje imagens nítidas, incomoda-me a frieza dos limites puros, incomoda-me a certeza das figuras objectivas. E assim vou, desloco-me carregando o meu sonho, deslizo invisível junto aos gatos vadios, olho os pássaros que se elevam, que chegam, que partem.

E, então, reparo neste barco que avança sobre o rio, lavra a água com suavidade, as velas abertas ao vento, que vai lento mas decidido, sabe onde quer chegar, certamente alguém de olhar molhado o espera, certamente.

Avança este veleiro e um pássaro de grandes asas voa à sua volta e eu na margem, invisível, sonhadora, vejo-o seguir, vejo-o partir.

Através das árvores, através destas cortinas de folhas escorrentes, de lábios mordidos pelo vento, pelo frio, pelos sonhos por cumprir, vejo-o partir.

Algures, numa qualquer travessa, ao raiar da aurora, alguém o espera. Alguém, não eu. Adeus, adeus.



[Começa hoje, aqui, a semana Mozart. Desça um pouco mais. A seguir ao poema entrará na semana da criatividade à solta, do sonho, da alegria e da tristeza, das emoções sem limite.]


No Jardim do Ginjal, barco lavrando o Tejo, Lisboa já ali


                            Agora vou falar da preguiçosa e fina
                            névoa entre os olhos e o rio.
                            Às vezes passava um barco.
                            Era como um arado lavrando
                            no meu coração a terra morta.
                            À proa o vento salgado dos pinhais.
                            Não sei para onde ia.
                            Devia haver em qualquer parte
                            um porto para o seu desassossego,
                            alguém de olhar molhado no cais
                            à sua espera. Numa cidade
                            pequena do Norte. Alguém
                            com nome, talvez Kai, os lábios
                            mordidos pelo vento, Kai
                            Haagen, no porto de Göteborg,
                            na costa da Suécia. Adeus, adeus.


('Alguém com nome' de Eugénio de Andrade in 'Os lugares do lume')

 

Mozart - Bernstein interpreta o Concerto No. 17 para piano

  


 

10 dezembro, 2011

Um dia, gastos, voltaremos a viver livres como os animais

 
Cansada, às vezes, acolho-me à beira da água. Respiro a maresia, o ar fresco, ouço o rio que corre em plena liberdade, deixo-me aqui ficar vendo os limos, as correntes, os ventos.

Cansada, às vezes, olhos os gatos da beira do rio, olhos os pombos do cais, invejo as gaivotas. Tenho esta coisa com as gaivotas. Aproximo-me delas e elas, sempre tão ariscas com toda a gente, deixam-se ficar, olham-me, e eu aproximo-me mais, silenciosa como uma gata, e chego perto, tenho vontade de me meter dentro do corpo delas. Outras vezes são elas que voam na minha direcção, sobre mim e eu deixo-me ali ficar, contente porque penso que me estão a reconhecer como irmã.

Cansada, tantas vezes, deixo-me embalar pelo grito das gaivotas, gosto de as ouvir assim falar, é uma fala misteriosa mas eu reconheço-a, é uma fala irreal que me embala, é o som da liberdade que atravessa os grandes espaços.

Nesses dias, o cansaço dissipa-se nos ares, leva-o o vento e, então, sinto-me livre e regresso leve como um inocente animal e, então, posso falar a imaterial voz do mar, posso soltar os livres gritos das gaivotas de longas asas que atravessam os espaços.


[A encerrar esta semana de Schubert, desça um pouco mais e venha ouvir a suave e forte voz de Jessye Norman, magnífica, em Ave Maria]


Gaivota livre, voando sobre o Tejo, voando entre o Ginjal e Lisboa


                            Um dia, gastos, voltaremos
                            a viver livres como os animais
                            E mesmo tão cansados floriremos
                            irmãos vivos do mar e dos pinhais.

                            O vento levará os mil cansaços
                            dos gestos agitados irreais
                            e há-de voltar aos nossos membros lassos
                            a leve rapidez dos animais.

                            Só então poderemos caminhar
                            através do mistério que se embala
                            no verde dos pinhais    na voz do mar
                            e em nós germinará a sua fala.


                            ('Um dia' de Sophia de Mello Breyner)

Schubert - Jessye Norman interpreta Ave Maria




 

09 dezembro, 2011

O seu corpo pertence à terra, entrega-se ao ritmo subterrâneo das raízes e conta o tempo que falta para a noite

 
Esta mulher está no centro da paisagem mas não vê o que a cerca, não vê a suave neblina, não vê o dia que desponta. Esta mulher vive de noite, e então, quando os gatos sobem às janelas, quando os navios deslizam silenciosos, quando as restantes pessoas se retiram, quando a fria bruma desce sobre a cidade, enchendo-a de sombras, a mulher deixa que as suas raízes escorram até o rio, até à terra. Com as entranhas quentes, fumegantes, com o coração latejante, com as mãos em brasa, escrevendo como uma louca, esta mulher entrega-se ao silêncio e deixa que se evolem os seus mais secretos sentimentos.



[Esta mulher precisa de música, é parecida comigo esta mulher. Sigamo-la até ali mais abaixo, partilhemos com ela a Sonata Arpeggione de Schubert.]
 

À beira Tejo, a Ponte ao fundo, o Ginjal do outro lado
- mulher ocupando o centro da paisagem -
                

                     Na luz indecisa que deixa adivinhar
                     a manhã, a névoa que impregna o ar
                     desfaz-se quando os dedos de fogo do sol
                     a limpam, restituindo ao dia
                     a sua transparência. Mas a mulher que
                     ocupa o centro da paisagem não
                     se apercebe da mudança. O seu corpo
                     pertence à terra, e entrega-se
                     ao ritmo subterrâneo das raízes, ouvindo
                     o canto que regula a passagem
                     das estações. Um desejo de sombra apodera-se
                     da sua alma; e conta o tempo que falta
                     para a noite, para se entregar ao silêncio
                     do mundo, no lento eclipse
                     dos sentimentos.


                     ('Paradoxo natural' de Nuno Júdice in A a Z )

 

Schubert - Joanna Kielar (violencelo) e Risto Lauriala (piano) interpretam a Sonata Arpeggione para violoncelo e piano





 

08 dezembro, 2011

Longe de ti eu serei esse primeiro luar, gentil fluir de gotas de água

 
Passeio ao longo do rio, deslizo com o vento e, tantas vezes, sinto que vou pelo sonho. Longe estão os teus olhos que sei tão doces, longe o teu sorriso que adivinho, que me afagaria em silêncio. Mas eu continuo a caminhar.

Prendo-me ao teu olhar abstracto, ao calor do teu rosto inventado, sonhado, recordado, e assim vou caminhando no frio. Este rio que tanto amo acompanha-me, as suas gaivotas livres também. E há as pessoas que por aqui se cruzam comigo e cujo olhar evito. Apetecem-me os teus olhos, não outros olhos. Mas vou caminhando.

Longe de ti, sem nada a temer, vou escrevendo estas palavras. São palavras que solto ao vento, pétalas de rosa, penas suaves, palavras que lês e que sabes que são para ti, meu leitor secreto. O outono retira as folhas das árvores, atapeta o chão e eu, que por aqui caminho, vou pisando estas folhas ainda por escrever, e vou pensando em ti, meu amor que o mar me traz em sonhos, meu amor que, como eu, tanto amas as palavras.

Olha, escuta-me - tu, que me lês, sente-me assim nas minhas palavras, nestas palavras limpas, nuas, cheias de sombra, cheias de luz, sente-me assim, como um primeiro luar, como um fruto húmido, sente-me, inventa-me.



[A seguir ao poema não deixe, por favor, se descer um pouco mais - Schubert espera-nos, sublime]

À beira Tejo, numa ensolarada tarde de Outono

                          Sem nada temer,
                          e guiado pela mão escrevente,
                          cavalgo para o sonho.

                          teus olhos tocam o cinzento abstracto dos dias,
                          desconfia sempre que alguém disser:
                          "ainda há um dizer primordial."

                          longe de ti,
                          eu serei esse primeiro luar,
                          gentil fluir de gotas de água.

                          literalmente limito-me a querer
                          alimentar a ferida aberta,
                          vidros baços sem arestas,
                          meros frutos húmidos
                          trazidos pelas ondas.


                          (Poema XXXIX de Ricardo Gil Soeiro in 'Espera vigilante')

Schubert - Mikhail Ovrutsky interpreta Fantasia para Violino e Piano in C Major D. 934



~

 

07 dezembro, 2011

É então isto um livro, este, como dizer?, murmúrio, esta espécie de coração (o nosso coração)?

 
Na minha casa os livros são os habitantes privilegiados. Ocupam os lugares mais nobres, ocupam todos os espaços que querem ocupar, saem das estantes, são insubmissos, são amigos, são disponíveis.

Se me desloco, o conjunto dos livros é o que mais pesa na bagagem. Livros de poesia, romances, ensaios, economia, sociologia, política, autobiografias, arte. Gosto de abrir, ler um pouco, gosto de os sentir, gosto de os desfolhar. Gosto do que me ensinam, do que me mostram, do que me tocam.

Vou às livrarias, vagueio entre as estantes, gosto do cheiro, do toque, do papel, do grafismo, abro, leio uma linha de uma página, folheio, outra linha, e logo ali sinto se há empatia, química.

Gostava de escrever um livro, gostava de ter paciência para pegar em tudo o que escrevi e seleccionar e, a seguir, dar às minhas palavras a forma de um livro. Mas, se o fizesse, nunca seria capaz de lhe pegar. Talvez pelas mesmas razões, não consigo reler o que escrevi, nunca consigo, é tudo demasiado pessoal, ou datado - não sei, as palavras já me fugiram, já não são minhas.

Mas e os escritores, como fazem? Gostam de se reler, põem cuidados na afinação de textos pretéritos, sentem-nos ainda como seus?

Eu não consigo, só me apetece escrever mais, escrever, pôr as mãos dentro do coração e passar o sangue, as pulsações, o calor do interior do corpo, da carne, para palavras, deixar que as letras se juntem sozinhas, se ajeitem, que as palavras apareçam sem a minha intervenção racional, que as palavras latejem aqui à minha frente no écran. Os meus dedos agitam-se no teclado e os meus olhos vão reparando nas palavras que ali vão aparecendo, ainda com o meu cheiro, ainda com a placenta, ainda umbilicalmente ligadas a mim. E depois, amanhã, já não as quero ver, já se fizeram à vida, e outras já se impacientam para viver.

Palavras, murmúrios, uma voz inocente, um desbravar por dentro de nós, um rosto virado para dentro no escuro, um amor sem condições. Folhas soltas, textos largados ao vento.

Ou um livro. É isto também um livro?



[Manuel António Pina fala sobre os livros e como eu gosto das suas palavras. A seguir, desça um pouco mais que Schubert far-lhe-á uma boa companhia. Piano e palavras.]


À beira do Atlântico, escrevendo
                      

                       É então isto um livro,
                       este, como dizer?, murmúrio,
                       este rosto virado para dentro de
                       alguma coisa escura que ainda não existe
                       que, se uma mão subitamente
                       inocente a toca,
                       se abre desamparadamente
                       como uma boca
                       falando com a nossa voz?
                       É isto um livro,
                       esta espécie de coração (o nosso coração)
                       dizendo 'eu' entre nós e nós?


                       ('Os livros' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa')

06 dezembro, 2011

Schubert - Sviatoslav Richter interpreta a Sonata D.894

Foi apenas mais um dia que passou entre arcos e arcos de solidão

  
Passou mais um dia, mais um ano. Passou. A vida que vai avançando, assim, um dia, depois de outro dia, um ano, e mais outro, arcos de solidão sobre os olhares que se sentem vazios. Os meus olhos não te vêem, os teus olhos não me vêem. Por vezes há uma gota que cai, talvez seja chuva, talvez seja uma lágrima perdida.

Por vezes um pássaro levanta voo e eu penso que és tu ou que sou eu, alguém que vai à procura da sua vida num outro lugar. Mas, então, o pássaro volta e vem para perto de mim e eu penso que és tu, a tua alma de pássaro livre, que vem até mim. Será? Serás tu também que voas sobre o veleiro de brancas velas que se faz ao mar e por mim passa quando eu passo rente ao rio? Serás tu, meu pássaro secreto?

E assim, vendo-te nos pássaros de longas asas que atravessam os vastos espaços, vendo-te nos veleiros que deslizam no rio, ouvindo dentro de mim o teu riso e vendo, no fundo do meu coração, o teu doce olhar, vou deixando que os dias se passem entre arcos de solidão.



[E, hoje que voamos entre arcos de solidão, não deixe de descer um pouco mais que Schubert nos espera, sublime]


Homem só na ponte que leva ao Elevador Panorâmico
O Tejo, o casario do Ginjal, Lisboa


                                     Hoje venho dizer-te que nevou 
                                     no rosto familiar que te esperava. 
                                     Não é nada, meu amor, foi um pássaro, 
                                     a casca do tempo que caiu, 
                                     uma lágrima, um barco, uma palavra.    
  
                                     Foi apenas mais um dia que passou 
                                     entre arcos e arcos de solidão; 
                                     a curva dos teus olhos que se fechou, 
                                     uma gota de orvalho, uma só gota, 
                                     secretamente morta na tua mão. 



(Canção de Eugénio de Andrade in '366 Poemas que falam de amor', antologia organizada por Vasco da Graça Moura)
  

Schubert - o Trio Wanderer interpreta Op. 100 (Andante con moto)





 

04 dezembro, 2011

Somos intrusos, bárbaros amigáveis e estamos de passagem


Olhas-me com um longo e silencioso olhar, um olhar claro, verde, sábio. Não deixas transparecer emoção, juízo de valor, nada. Aproximo-me, rodeio-te, olho-te e tu segues-me com o teu olhar neutro. Depois, discreto, desvias ao de leve o olhar, e há toda uma subtileza nesse gesto tão suave.

Eu estou de passagem, sabes disso, e tu não, tu habitas este espaço. A minha presença é efémera e, por muito que eu tente alongar o tempo, tu sabes, eu sei, que estou de passagem nesta minha vida tão efémera. E eu que por aqui passo, sei que estou a andar num território que é teu, estou a pisar este vasto aposento atapetado a verde, onde um rio corre devagar, um aposento com uma vista fabulosa, a tua casa. Eu sou aqui uma intrusa, amigável mas intrusa e tu olhas-me, compassivo, vês como tento aproximar-me, vês como tento perceber-te, vês que quero perceber que me aprovas.

Permites-me até a ilusão de que me conheces, de que me deixarás tocar-te. Vejo compaixão no teu olhar. Quase sinto que ao olhares-me, olhas por mim, que, apesar de distante e quase imaterial, sempre que eu precisar, olharás por mim. Que sempre estarás aqui por mim.



[Abaixo do gato que tem um deus secreto dentro dele, encontrará o poema do nosso Prémio Camões mas, por favor, não se fique por aí - logo abaixo, a abrir a semana de Schubert, encontrará um sublime improviso, um piano que iluminará o seu dia, o nosso dia]

Maravilhoso gato no Ginjal, à beira do Tejo, com vista sobre Lisboa


                                Há um deus único e secreto
                                em cada gato inconcreto
                                governando um mundo efémero
                                onde estamos de passagem

                                Um deus que nos hospeda
                                nos seus vastos aposentos
                                de nervos, ausências, pressentimentos,
                                e de longe nos observa

                                Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
                                e compassivo o deus
                                permite que o sirvamos
                                e a ilusão de que o tocamos


                               ('Os gatos' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa')

 

Schubert - Valentina Lisitsa interpreta o Improviso (Impromptus) op. 142 No.3 B flat major





  

Mãos dadas - Carlos Drummond de Andrade





01 dezembro, 2011

Há um homem além em busca da unidade. Vêmo-lo a percorrer a despojada linha de um caminho translúcido.


Caminhas ao longo do Tejo, junto a uma linha feita de palavras. És um homem só, e caminhas sem ver os que te rodeiam; vais, errante, despojado, quase como se não tivesse corpo, apenas ideias, apenas sonhos.

Passas e ninguém te vê. Só eu.

Fiquei a olhar-te. Passavas e ninguém detinha o olhar em ti, eras um homem que seguia sozinho uma linha feita de palavras. Ali ias, como se te dirigisses a casa, uma casa templo, o teu domínio, só teu.

Passaste por mim e também não me viste. E, no entanto, eu fiquei presa à força da tua imagem, uma imagem una, íntegra, um homem denso, um homem que transporta uma luz em sua volta, talvez sejam raios que saíam do teu peito, raios de fogo. Fotografei-te, três vezes o fiz e tu não me viste, não vias ninguém e ninguém mais te viu.

Invisível, seguindo o translúcido caminho das palavras, soletranto em silêncio as amáveis sílabas, as indizíveis letras, uma breve toada, um ligeiro som, o suave gemido das palavras que nascem dentro de ti. Passaste e eras um homem em busca da sua unidade, um homem pronto a reduzir-se a ninguém se alguém tocasse os seus pensamentos, as suas palavras, os intangíveis sonhos.



[Nesta semana de Chopin, abaixo, depois do belíssimo poema de José Bento, Maria João Pires traz-nos uma Fantasia - um tema e uma interpretação que atravessam os tempos para se encontrar aqui connosco]

Percorrendo a despojada linha de um caminho translúcido


 A António Ramos Rosa


                                Há um homem além em busca da unidade.
                                Quem o avista descobre ser menos que o circuito
                                que só inteiro se fecha e acende o centro
                                onde se adensa e expande o seu domínio:

                                é um segmento errante, nunca se há-de saber
                                se um dia foi diferente e outros corpos teve
                                a projectar em volta os raios do seu peito:
                                o fogo e a neve rútila, um desvairo de flechas.

                                Vêmo-lo percorrer a despojada linha
                                de um caminho translúcido a conduzir à casa
                                que a si mesma se erige para quem partilhar
                                o coral desse templo ao alongar a nave

                                da palavra total feita por ele
                                para ser pleno,

                                                      ainda que indizível
                                pelos que tudo julgam dizer, ignorando
                                reduzir-se a ninguém ao tocar as suas sílabas.



(Poema 7,  'Há um homem além em busca da unidade' de José Bento in Sítios)

 

Chopin - Fantasia Op.49 por Maria João Pires