Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

17 agosto, 2017

Porque escrevo no prazer eu incendeio-me




De que subtis texturas é feito este meu sentir? De que auspiciosas suspeitas se alimenta o meu querer? Com que misteriosas preces se entretece o meu sonhar? Que secretas memórias me visitam para assim acalentar eu tão loucas esperanças?

É a minha carne que transporta este fogo que não sei de onde nasce? É o sopro da minha respiração que me leva nas suas asas para os perigosos longes onde me refugio? São as minhas mãos vadias que enleiam as palavras que tecem laços de um afecto que não explico? São os meus olhos que ao longe adivinham vertigens onde quero perder-me?

Desconheço-me. Sou outra, talvez.

Senão como explicar este meu sentimento feito de desmandos, de sobressaltos? 
Como explicar que queira mostrar o meu avesso? 

Escuta as minhas confissões. Vê como me abraso quando penso em ti. Escuta. Toma as minhas verdades como oferendas. Toma-as. Escuta como bate o meu coração. Vê como arde sedento este fogo que te deseja. Escuta. Contigo eu não uso disfarces:
Estilhaço-me frente à luz. 
Incendeio-me se penso em ti. 
Perco-me se ouço os teus lamentos. 
Procuro-te, e tu não sabes, quando me sinto perdida.
Queria pedir-te abrigo quando me abandona o prazer das tuas palavras. 
Queria resplandecer nos teus braços, fundir-me em ti nos teus longos e saudosos abraços.

[Mas, olha, se não suportares o calor da minha paixão, deixa. Isto são só palavras. Só. É que, sabes, porque escrevo no prazer eu incendeio-me]


Se respirar um pouco
mais
                         estilhaço-me

se sentir um pouco
mais
                         resplandeço

Se saio do aprisco
perco abrigo

Se ficar abrigada
perco apreço

Porque escrevo
no prazer
                         eu incendeio-me

Quando exijo
paixão
                         eu incandesço


[Incandescência de Maria Teresa Horta in Poesis]

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O sleep, why dost thou leave me (Handel) -- Julianne Baird

Fotografias feitas no Ginjal e Cacilhas

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