Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

08 julho, 2013

Somos blocos de plasticina entregues a mãos infantis e cruéis


Torpes pequenos seres, cruéis seres, inimputáveis criaturinhas, míseras, míseras criaturinhas. Juntam-se em bandos e destroem as casas, as ruas. Atacam as pessoas, roem-lhes a carne, os ossos, sugam-lhes o sangue, depois de lhes terem retirado o ânimo, a esperança. 

Por onde passam fica a ruína. Assistimos à falência, ao desmoronar do que parecia sólido, do que custou tanto a construir. Um dó.

De dia, de noite, sempre, sempre. Já lá vão dois anos. E a desgraça continua sem que os consigamos deter. Somos plasticina, somos menos que isso, somos nada. Estamos a ser desfeitos às mãos imaturas e cruéis de impiedosos e ignaros pequenos seres.



[Abaixo da casa em ruínas, chega de novo um Poeta muito cá da casa, Luís Filipe Castro Mendes e chega trazendo novas dos tempos de chumbo que atravessamos. A seguir, música e intérpretes portugueses: os Dead Combo]



Uma parede partida e pintada no Ginjal



                                                      Pouca realidade nos cerca de noite,
                                                      quando todos se calam à nossa volta
                                                      e as coisas se acomodam no escuro, como se fosse o seu natural.

                                                      E nós, que deixámos toda a espantosa realidade do mundo
                                                      amassar-nos até aos ossos,
                                                      olhamos para a noite com a estranheza
                                                      de não podermos mais ser nós próprios.

                                                      Somos blocos de plasticina entregues a mãos infantis
                                                      e cruéis.




                                                      ['Noite impassível' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Lendas da Índia']


2 comentários:

  1. Cara UJM,
    sim, dois anos de profunda corrosão social metem medo, mas os bichinhos destruidores têm cérebro à sua diminuta dimensão. Basta de tempos de chumbo, como bem diz, mas pairam incertezas no horizonte dos nossos anseios. Na verdade, um dó. Como não há dó sem ré, ironizarei, fazendo da bicheza ré.
    Plasticina não terá ossos para amassar, mas suas cores poderão conter tóxicos para envenenar a bicheza roedora. Oxalá tenham!...
    Felicidades e muita saúde.

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  2. Olá dbo,

    Já me fez rir...

    Estou cheia de sono, cansaço, calor, impaciência, irritação (esta 'cena' que passou no governo tira-me do sério...!). Parece que nem encontro energia para os meus sonhos aqui pelo Ginjal.

    Por isso, foi uma alegria ver estas suas palavras tão bem dispostas apesar de falarem de bicheza roedora.

    Obrigada!

    E muita saúde também para si, e sempre boa disposição!

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