Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

21 maio, 2013

Que peso tem agora a dor nessa balança cujo fiel nem tu consegues acertar?


Podia parafrasear, que gaivotas são estas que não fazem sombra no mar?

Elas voam tão livres, tão rápidas, atravessando os longos e límpidos espaços e, num momento, estão junto a nós e, no instante seguinte, já estão longe, numa distância que nos é estranha, imaterial, quase um sonho.

Pudesse eu ser assim, ágil, agora aqui e, no instante seguinte, na lonjura mais inatingível. E não haver nenhuma sombra, nenhum rasto. Desaparecer. Desfazer-me no horizonte, entrar nas nuvens, soltar as lembranças como quem desmancha uma trança, como quem deixa cair um vestido, e, nua, esquece a identidade. Ou então entrar no mar.

Mas não posso. Sou apenas uma mulher. Por isso, enquanto olho as gaivotas que pairam sobre mim como grandes anjos brancos, percorro os caminhos de areia, deixo que os meus pés se enterrem, dust to dust, e a descrença tira-me a vontade de andar, deixo-me cair, sem forças, quebrada. 

E, quando sinto que a grande onda que me levará se aproxima, enfio a mão no peito e arranco o coração, seguro-o na mão, e, em silêncio, o sangue mergulhando na areia, já afastado de mim, espero que um anjo ou uma gaivota o venham buscar para o enterrarem bem longe, nas profundezas do mar ou no esvaimento do horizonte.




[Reparo agora que acabei de suspirar longamente. Escrevi de seguida, respiração suspensa. Fui atrás do poema de Armando Silva Carvalho e deu nisto. É agora tempo de espantar tristezas e, para isso, nada melhor do que Bassekou Kouyate. Uma festa para os sentidos.]


Gaivota cruza o Tejo e aproxima-se da Ponte Vasco da Gama



                                                 Aqui no céu a prumo escrevem-lhe as gaivotas
                                                 um destino que já não deixa sombra
                                                 entre o desfraldar das nuvens
                                                 e o texto da lembrança.

                                                 Que peso tem agora a dor nessa balança
                                                 cujo fiel nem tu consegues
                                                 acertar?

                                                 Na areia que escorre da cabeça,
                                                 só mesmo os anjos, solícitos, parecem rolar tubos,
                                                 soprar as clássicas doenças da eternidade,
                                                 e esvaírem-se em sangue tenro e terno,
                                                 sob o sol banal, na pele incipiente e sem memória justa
                                                 da sepultura líquida.



['42 canções entre 2 portas', 2, de Armando Silva Carvalho in De Amore]

1 comentário:

  1. Belas palavras, repousantes, que nos fazem sonhar, de olhos fechados, a pensar no mar, no rio, nas águas calmas do Tejo.
    Bela poesia também, que confesso desconhecia.
    Aquela zona de Lisboa ficou bem conseguida. E tem muita qualidade de vida, ao que me é dado ver (quando lá ocasionalmente vou ao “Campus de Justiça).
    Este seu Blogue é refrescante. Gosto de o ler.
    P.Rufino

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