Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

21 outubro, 2013

Vejo o voo brando de uma lágrima


Vejo o voo solto de uma ave que escorre sobre as águas, vejo a paisagem que parece virtual, vejo uma praia abandonada, despojos sobre as areias.

Há um pântano que alastra nas nossas memórias, sonhos que ficam vazios, olhares que se perdem sobre as casas em ruínas.

Nada sei. Nada. Não sei se são paredes gastas, saudades, palavras que se perderam dos corpos, túmulos tristes, não sei.

O meu olhar nada sabe. Se é céu, se são águas, se é uma cidade sem pessoas dentro, pessoas sem coração no peito, mãos gastas, balas perdidas. 

A ave voa em silêncio sobre um rio que outrora foi um destino e que agora quase parece uma imóvel lápide.

Olho. E então vejo um pai e uma filha sozinhos, silenciosos, olhando as águas. E percebo que o que vejo não é o voo de uma ave mas o voo brando de uma lágrima. Uma lágrima que se perdeu de mim e que hesita entre o céu e a água.



[Abaixo da paisagem silenciosa do Ginjal, temos João Miguel Fernandes Jorge, um Poeta que é sempre aqui muito bem vindo. E, a seguir, continuamos com jazz, com o Donny McCaslin Group: uma bela música]



Num dos cais junto a uma das pequenas praias do Ginjal.
E o Tejo imóvel, os veleiros, os grandes cruzeiros, Lisboa



                                       Vejo o voo brando de uma lágrima, eu
                                       que fui o servidor de uma bala perdida
                                       e em cada novo dia o sol sobre a colina,
                                       sino que rebate a ondulante linha - o

                                       som seco e húmido, verão e inverno por
                                       todas as partes, aqui, onde queimaram
                                       gente, e de onde ninguém saíu para
                                       cumprir a lenta panorâmica de um

                                       destino. Na canção da manhã as ruínas
                                       ocupam-se das areias, do pântano da memória, as
                                       pedras derrubadas querem voltar a ser uma

                                       casa - nuvem que obscurece a lápide
                                       de um túmulo vazio. Arde no fogo o
                                       interior da terra. E a água transforma-a no
                                                                    céu verdadeiro.



[Poema XVII de João Miguel Fernandes Jorge in Oferenda, com ilustrações de Jorge Pinheiro]

2 comentários:

  1. Cara UJM,
    Acredito que, na limpidez e singeleza da lágrima que se solta do pântano das nossas memórias e sonhos, resplandece a leveza da nossa alma, o fogo dos nossos anseios.

    Há lágrimas de pranto que se transformam em melodias de doçura, contrastando com a salinidade das mágoas.

    Há lágrimas que nos unem entre silêncios de dor e angústia, como se fossem correntes de amor enclausurado.

    O suave marulhar da lágrima é a maravilhosa sinfonia dos nossos sentimentos mais profundos.

    E mais uma vez muita saúde e felicidades

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    1. Caro dbo,

      As suas palavras sabem-me sempre muito bem. Há uma afinidade muito genuína e as afinidades são boas companhias. Muito lhe agradeço. Li também no UJM o seu comentário tão afável e no qual exprime também essa sintonia.

      Não sei se o mundo é igual para todos já que tantas pessoas o vêem de maneira diferente. Por isso, quando algumas pessoas vêem a mesma coisa sentimo-nos mais acompanhados neste mundo que anda um lugar tão perigoso (como dizia Sophia).

      Muito obrigada por tudo.

      Saúde e felicidades também para si.

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