Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

18 fevereiro, 2013

nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se confundem


Sobe a noite sobre o meu corpo frio. Nada aquece o meu corpo. Deito-me sobre esta cama vazia, gelada e o meu corpo é uma sombra. No meu corpo não há carne, não há um rio de sangue que se move, quase não há respiração que se sinta. Uma sombra.

Não sei se a janela ficou aberta ou se está fechada desde que te foste embora. Não sei, não me interessa. Não sei se entra o sol ou o luar ou se apenas entram as nuvens carregadas de lágrimas. Não sei.

A casa está fria, silenciosa, aquele silêncio cheio de tristeza que habita as casas onde apenas a sombra de uma mulher se desloca. Não há música, nem cheiro a pão nem se ouve o cantar dos pássaros. Nem os gatos já aqui vêm porque sabem que aqui nada encontram. Esta é a casa onde a solidão se instalou sem remissão.

Mas, então, aqui deitada, exangue, inerte, nesta cama larga e fria, eis que ouço um som que não reconheço. Parecem passos no telhado. A sombra que sou agita-se, não sei se é o meu sangue, se é a minha fome, se são vestígios daquela que em tempos fui. Levanto-me, quase sem força, trémula, assustada, pequeno pássaro indefeso, tanto medo, tanta velada vontade.

Uma luz vem do telhado. Talvez sejas tu, talvez sejas tu que me vens incendiar os sentidos que eu julgava para sempre adormecidos. Uma luz na mão de quem dá passos no telhado da minha casa, uma luz na mão do anjo que pousou no meu telhado. Ou uma estrela, talvez apenas uma estrela, tento sossegar-me.

A madrugada avança, fresca, perfeita, e eu hesito, enredada nas minhas frágeis contradições. Depois encho-me de coragem, vou até à janela, abro-a, deixo que a neblina entre, deixo que as estrelas entrem, deixo que os primeiros raios de luz entrem, olho os anjos que me olham, e depois vejo que não é um anjo, que és tu, tu que trazes um incêndio no teu peito, e, ainda trémula, ainda a medo, deixo que entres, deixo que afastes de mim todas as sombras, deixo que me cubras com o calor do teu corpo, deixo que entres no meu corpo como um anjo carregado de estrelas.



[A seguir ao belo poema de Alice Vieira, temos hoje um novo grande intérprete. Desta vez é Yo-Yo Ma que faz o violoncelo soltar lamentos como se fosse a mulher que abre a janela para que entre um anjo com um incêndio no peito, na música de Elger]



Andando com uma chama na mão sobre os telhados do Ginjal


                                        como dizer aos meus olhos que se afastem
                                        do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
                                        rasgando a minha fome

                                        e me protejam nesta imperfeita madrugada
                                        em que as línguas dos homens e dos anjos
                                        se confundem


[Poema 2 de 'Pelas mãos e pelos olhos eu juro' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água']

4 comentários:

  1. E do imperfeito se chegou à perfeição.
    :)

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    1. jrd,

      Gostei muito do que escreveu. Obrigada.

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  2. Querida UJM

    'Em desespero de causa' :)) levo comigo esta madrugada tão perfeita em que até as línguas dos homens e dos anjos se confundem...

    Sabe? Fiz mal em lhe ter feito este pedido. Este texto e os outros todos, só ficam bem aqui, neste sítio intimista e cheio de harmonia.

    Muito obrigada.

    Bj

    Olinda

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    1. Olá Olinda,

      Sabe? Eu tenho dificuldade até em lembrar-me do que escrevo e raramente releio (às vezes nas estatísticas vejo muitas visitas em alguma mensagem e vou espreitar pois, pelo título, já não me lembro e, ao reler, fico admirada por ter escrito aquilo) mas este texto ficou-me um bocado marcado e eu estava com esperança que a Olinda também gostasse dele.

      Fico, portanto, muito contente por o querer levar para o envolver no seu caloroso xaile de seda.

      Obrigada.

      beijinhos, Olinda!

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