Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

26 junho, 2012

Ninguém sabe onde ela mora


Eu sei, eu sei. Não sabem quem eu sou, não sabem como sou, não sabem onde moro. Eu sei, eu sei dessas dúvidas.

Sabem que moro num sítio alto. Mas onde? Numa torre, num monte, no alto de um farol?

Querem saber se escondo algum segredo... E escondo. Tantos segredos. Impossível contá-los, muitas vidas inteiras não iam chegar. 

Dizem que olham as águas querendo ver se elas trazem segredos, imagens, palavras daquela que se cobre, se disfarça, se cala. Mas as águas nada trazem.

Quando passo transparente vejo, à passagem, recados escritos nas paredes, mensagens deixadas nas pedras do cais. Quem és? De onde vens? Para onde vais? Que segredos escondes?, leio. E sigo.

E sigo. E sigo em silêncio, sorrindo. Respiro a maresia, voo como os pássaros, solto palavras ao vento, olho o sol de frente, confundo-me com as nuvens.

Depois, junto-me aos gatos, entro nas paredes, salto sobre as pedras da margem do rio, divirto-me olhando com os meus grandes olhos verdes aqueles que passam e não me vêem. 

Quando a noite cai desço, então, até à beira da água. Entro devagar, gosto de sentir os panos que me cobrem subindo, acariciando-me a pele, e depois nado até ao outro lado. Antes de chegar, mergulho, vou até ao fundo, lá bem ao fundo, onde se esconde o monte que um dia se afogou. É lá que vivo, é lá que escondo os meus segredos, é de lá que vos envio todos os dias as palavras que depois chegam até vós, palavras silenciosas como estas que acabam de ler.



[Já a seguir à misteriosa mulher, poderão ver mais um poema de João Miguel Henriques. Logo abaixo mais uma música ´de Heitor Villa-Lobos]



Na beira do Tejo, no caminho do Ginjal


                            ninguém sabe onde ela mora
                            ninguém sabe
                            onde pára não há quem
                            quem disso saiba
                            e se o rio aqui corre não nos mostra
                            não nos conta os segredos do outro lado...
                            ninguém sabe
                            todos crêem
                            o seu monte está nas águas afogado

                            ninguém sabe onde ela mora
                            ninguém sabe
                            todos dizem que é nas águas do outro lado


                            ['Morada' de João Miguel Henriques in 'Isso passa']

10 comentários:

  1. Pôr do Sol26 junho, 2012

    Perguntava-me há dias por onde andaria o gato amarelo de olhar expectante, que conhecia todos os parsinhos romanticos do jardim do Ginjal, que ouvia os seus poemas, que aprendeu a amar o Tejo e ansiava conhecer Lisboa por dentro.

    Agora sei, enfeitiçado pelos seus grandes olhos verdes, passa as noites, cumplice, atrás de si, segurando-lhe os segredos.

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    1. Oh Pôr do Sol, que comentário tão simpático.

      Eu gostava imenso de ver ali o gatinho expectante, como bem diz, e lembro-me de quando o fotografei. Eu muito mansamente de roda dele, a fotografar, e ele, muito sossegado e muito intrigado, sem se mexer, só a olhar para mim como se quisesse perceber que ideia era aquela.

      Mas no outro dia, imobilizada, farta de estar sem fazer nada e com vontade de fazer arrumações ou redecorações, fiz o que estava ao meu alcance: mudar um bocado o visual dos blogues. Aqui, como gosto dele em azul, limitei-me a mudar a fotografia. Paredes pintadas também é muito a 'imagem de marca' do ginjal.

      Mas essa do gatinho andar enfeitiçado por mim, é uma ideia simpática. No outro dia fotografei outro, a ver se ponho essa fotografia a mim. O gatinho andava um bocado e depois olhava para trás, para mim, parecia estar desconfiado. Depois sentou-se e ficou a olhar mas também estava tão admirado que arrebitou as orelhas de uma forma divertida, quase as revirava.

      O meu marido nestas alturas, 'passa-se': 'Vamos embora. Deixa o gato. Quantas fotografias já tu tiraste a gatos aqui? Vamos!' - mas não me canso. Todos os malucos têm as suas maluquices...

      Um beijinho, Sol Nascente!

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    2. Pôr do Sol28 junho, 2012

      Querida jeitinho,
      Os maridos, pacientes ou não, têm dificuldade em entender as nossas "maluquices". O meu, quando me vê aqui a estas horas tambem se "passa", não farias melhor se viesses descançar? já viste as horas? a falar com desconhecidos!
      Não actualizo o facebook há mais de dois anos, registei-me para ter acesso ao de sobrinhos e amigos, mas meu, pouco lá consta.
      Este é um tempo que considero só meu,e só o posso desfrutar por estas horas. Visitar blogues, comentar, dar por vezes o meu ponto de vista, faz-me sentir no mundo, acompanhada.
      Que todas as maluquices fossem estas.
      Um beijinho e obrigada pela companhia

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    3. Pois é, Pôr do Sol, o meu é a mesma coisa. todos os dias: 'Será hoje que vais cedo para a cama?' e quando lá chego, sorrateira, recrimina-me sempre 'mas isto são horas de vir para a cama?'. E eu nem respondo para ele não espertar.

      Por isso, dou-lhe mil vezes razão. É um tempo nosso, sabe-me bem estar noite adentro, aqui a escrever, sossegada, a falar com pessoas que conheço tão bem mesmo sem nunca as ter visto.

      Ou seja: que todas as maluquices fossem estas!

      Eu é que agradeço as visitas e as palavras tão simpáticas.

      Um beijinho, Sol Nascente!

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  2. Caríssima,

    Poderia pensar que mora numa torre lisboeta, com escadas e elevadores, num condomínio organizado. Mas, em vez disso, creio que habita o movimento: no alto, com as gaivotas, ao rés do chão, com os gatos, no profundo, sob as águas, com os seres misteriosos; ora num lugar, ora noutro, em todos, simultaneamente.

    Um beijinho

    Tenha uma óptima quarta-feira, com este súbito Verão

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  3. Oh Caríssima Leitora de A Matéria dos Livros, eu acho que vou copiar este seu comentário para uma folha e depois vou emoldurá-la. Que bonito. Mas que bonito mesmo! Fiquei fascinada com o que escreveu. Eu gostava mesmo de achar que eu sou assim porque é mesmo assim que me vejo, pelo menos quando escrevo.

    Acabei de ler para o meu marido me dar a opinião. Não é pessoa para conversas deste género mas sorriu e disse que sim, que tem a ver comigo. Fiquei contente.

    Obrigada Leitora!

    Um beijinho.

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  4. Ao ler o comentário da Por do Sol, apeteceu-me dizer que esta coisa dos blogues, inicialmente um pouco criticada aqui pela família (embora sendo solteira e dona da minha vida!)já é mais compreendida. Este tempo (que às vezes é muito, mas não é mais que aquele que outras pessoas passam por exemplo no café) veio preencher um espaço de uma certa solidão que sempre senti. Aquele de poder falar sobre coisas que gosto: livros, pintura, exposições, dança...e que as pessoas com quem lido diariamente, não falam porque não lhes interessa. Aqui encontrei quem fale sobre o que gosto e com quem tenho aprendido imenso. Vamos seleccionando os blogues que gostamos e da enorme lista que tenho, há seis ou sete que já visito diariamente e que já não dispenso.
    São amigos e alguns até já os conheci pessoalmente.
    A internet e neste caso os blogues é positiva, se escolhermos o que vale a pena (claro que isto é subjectivo...)
    Um beijinho

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    1. Olá Isabel,

      Esta é uma janela para o mundo. Aqui se descobrem coisas, pessoas, aqui se mostra o que se gosta de escrever, aqui são possíveis novos conhecimentos, novos relacionamentos, juntando-se pessoas ou saberes ou opiniões que, de outra forma, jamais se encontrariam.

      Eu acho a internet uma ferramenta extraordinária. Quer a nível pessoal, quer a nível profissional, é, hoje, indispensável.

      Claro que há muita coisa que não interessa. Mas é como tudo. Vamos numa rua e a maior parte das lojas não nos diz nada, entramos numa livraria e muitos livros não nos dizem nada, cruzamo-nos com muita gente e pouca nos diz qualquer coisa.

      É como diz, é preciso escolher.

      Mas, indo persistindo na selecção, vamos encontrando aqueles locais que gostamos de frequentar todos os dias, como se fosse a casa de amigos de quem gostamos muito.

      Para mim, pessoalmente, é um privilégio ter entre quem me lê pessoas tão simpáticas como a Isabel, a Pôr do Sol e os outros, quer os que deixam de vez em quando uma palavrinha, quer os que passam quase sem deixar rasto. Sinto-me sempre muito agradecida e fico muito contente por pensar que vos passo um pouco de companhia.

      São sempre muito bem vindos.

      Um abraço a todos, a si, Isabel, e a todos os outros!

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  5. Respostas
    1. Eu é que agradeço Isabel. A sério.

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