Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

11 dezembro, 2011

Agora vou falar da preguiçosa e fina névoa entre os olhos e o rio


Neste dia frio e envolto numa diáfana névoa, deixo-me ir pela beira do rio, vou sem pressa, sem fito, vou simplesmente.

As árvores vergam-se húmidas, parecem tristes, e eu vejo através delas, quero véus, filtros, não quero hoje imagens nítidas, incomoda-me a frieza dos limites puros, incomoda-me a certeza das figuras objectivas. E assim vou, desloco-me carregando o meu sonho, deslizo invisível junto aos gatos vadios, olho os pássaros que se elevam, que chegam, que partem.

E, então, reparo neste barco que avança sobre o rio, lavra a água com suavidade, as velas abertas ao vento, que vai lento mas decidido, sabe onde quer chegar, certamente alguém de olhar molhado o espera, certamente.

Avança este veleiro e um pássaro de grandes asas voa à sua volta e eu na margem, invisível, sonhadora, vejo-o seguir, vejo-o partir.

Através das árvores, através destas cortinas de folhas escorrentes, de lábios mordidos pelo vento, pelo frio, pelos sonhos por cumprir, vejo-o partir.

Algures, numa qualquer travessa, ao raiar da aurora, alguém o espera. Alguém, não eu. Adeus, adeus.



[Começa hoje, aqui, a semana Mozart. Desça um pouco mais. A seguir ao poema entrará na semana da criatividade à solta, do sonho, da alegria e da tristeza, das emoções sem limite.]


No Jardim do Ginjal, barco lavrando o Tejo, Lisboa já ali


                            Agora vou falar da preguiçosa e fina
                            névoa entre os olhos e o rio.
                            Às vezes passava um barco.
                            Era como um arado lavrando
                            no meu coração a terra morta.
                            À proa o vento salgado dos pinhais.
                            Não sei para onde ia.
                            Devia haver em qualquer parte
                            um porto para o seu desassossego,
                            alguém de olhar molhado no cais
                            à sua espera. Numa cidade
                            pequena do Norte. Alguém
                            com nome, talvez Kai, os lábios
                            mordidos pelo vento, Kai
                            Haagen, no porto de Göteborg,
                            na costa da Suécia. Adeus, adeus.


('Alguém com nome' de Eugénio de Andrade in 'Os lugares do lume')

 

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