Ginjal e Lisboa

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20 novembro, 2012

Tornou-se tão cansado o seu olhar


Ando em círculos. Exausta, sem esperança. Quando era pequena, andava assim, à volta. À volta, à volta, até que ficava almareada. Almareada era uma palavra que diziam as minhas avós, pára de andar à volta, menina, olha que ficas almareada. Quase caía, então, enjoada, como se tivesse vindo de andar no mar. Assim fico ainda hoje. Às voltas, aturdida, desanimada. Um dia, outro dia, e já lá vai mais uma semana, já passou mais outra?, e já passou outro mês e já estamos quase no natal, já, não gosto que o tempo corra tão rápido assim, tenho ainda tanto mundo para viver. Presa nas invisíveis teias, presa por invisíveis grades. Um dia, outro dia, uma volta, outra volta, sempre, sempre, e cada vez mais triste o meu olhar.

Palavras soltas, frases talvez sem sentido. 

Onde a coerência?, perguntarão. Tantas vezes alegre, tantas vezes vadia e agora, aqui, parada, triste, uma solidão silenciosa no olhar. Não saberei responder. Os olhos fecham-se, as cortinas correm-se. 

Mas não és livre? Quem te impede? Queres ir, vai.Vai. Dirão. Mas eu fico. Presa. Presa a tudo. Podem as grades estar por trás, eu à frente, livre, que não me sinto livre. Cansado o meu olhar. Quero partir, ir para o mar, voar, escrever frases com ondas fortes, atravessar vendavais, rasgar as velas de um veleiro que me leve, ir. Mas não vou. 

Por aqui me fico, saudades de quando a vontade era imensa. Quero chorar, mas os meus olhos apenas já só sabem olhar o vazio. Olho com olhos tristes quem por aqui passa e sonho que o meu coração ainda bate.

Mas não sei se bate. Talvez tenha parado um destes dias, numa destas voltas. 



[Logo depois da pequena pantera triste, um belo poema de Ana Luísa Amaral. E, para ver se espantamos a tristeza, um momento de baile. É Henry Purcell que aqui vem para voltear com delicada alegria]


Pequena pantera no Ginjal


No Jardin des Plantes, Paris


                                      Tornou-se tão cansado o seu olhar,
                                       ao romper grades, que retém só nada.
                                       Como se nesse olhar fossem mil grades
                                       e, além de mil grades, nenhum mundo.

                                       Passeia, branda, em passo intenso e leve,
                                       movido em roda do mais curto círculo:
                                       dança de força circulando um centro
                                       onde, aturdida: uma vontade imensa.

                                       às vezes, a cortina da pupila
                                       rasga-se no silêncio. Entra então
                                       uma imagem, que, em tensa calma, os membros
                                       atravessa - e cessa em coração.



                                        ['A Pantera, de Rainer Maria Rilke' de Ana Luísa Amaral in Vozes]

08 novembro, 2012

Partes, o céu demora-se a entardecer e a lassidão flutua


Ah meu amor que te foste. Ah meu amor. Saberias a falta que me ias fazer quando partiste? Imagino que não, mas imagino isso apenas para me poupar. Sofrerei menos se pensar que te foste, levado pelo vento, pelo acaso, sem sequer imaginares que eu iria ficar aqui, assim, cheia de sombra no olhar, cheia de restos de amor nas mãos, cheia de tristeza. Ah quanta tristeza, meu amor.

E o silêncio, e a noite que desce sobre mim, e a solidão colada à minha pele tão fria?

Saio para o dia que anoitece e detenho-me a olhar o imenso espaço vazio que se abre à minha frente. E não te vejo meu amor, nem a tua silhueta transparente, nenhum vulto, nenhum, nada, nem ouço a tua voz. E queria tanto ouvir o meu nome dito por ti. Queria tanto que aqui estivesses ao meu lado, que falta me fazes, que falta, meu amor. 

Apenas a nossa gata, que gostava tanto de ti e que agora chora suaves lamentos todas as noites, me olha. Grandes olhos verdes, límpidos, tristes. Ela e eu, as duas com tantas saudades, meu amor, as duas olhando o vazio, esperando por ti que não vens.

Vem, vem, vem. Estamos aqui em silêncio, cheias de frio, sozinhas, lágrimas pesadas e quentes caindo num chão desamparado, desamparadas as duas, esperando por ti. Vem, vem, meu amor.



[Abaixo da gata triste, um poema igualmente triste de Soledade Santos e, logo abaixo, o Te Deum de Lully]



Uma gata triste no Ginjal



                                         Partes, o céu demora-se
                                         a entardecer e a lassidão flutua
                                         como as volutas do incenso a arder.
                                         Saio à varanda, regresso
                                         aos gestos que me fixam
                                         e a gata no telhado
                                         seguindo-me com o olhar.
                                         Estamos bem assim, eu sozinha
                                         no azul da quase noite, ela em cima
                                         no fulgor do dia que se esvai.


['Azul da quase noite' de Soledade Santos in 'Sob os teus pés a terra']

29 outubro, 2012

Deus, que tanto demorara, ardia no coração da palavra


Ia chover. Tinha também acabado de chover. Entretanto, um pouco de sol espreitava por entre as nuvens. O rio estava agitado e uma gaivota gritava, gritava lancinantemente, soltava gritos loucos no cimo desta parede arruinada. O vento levava um pequeno veleiro que passava, indefeso e destemido, numa correria.

Do chão molhado vinha um cheiro a primeiras águas misturado com uma maresia húmida e fresca. E a gaivota continuava a soltar, ao vento, desesperados gritos, enchendo, assim, o espaço de drama. É outono. Há muito que o verão se foi. É outono e este local veste-se de uma luz intemporal, de sons puros, bárbaros, de uma alegria misteriosa, de uma alegria que temos vontade de esconder.

Ando por aqui, respiro o perfume das ondas, lavo o olhar no linho espesso das velas, roço as mãos nas paredes gastas onde a vida se deteve. Reparo, então, que não estou só. Uma outra, como eu, olha agradecida as águas que correm, escuta o chamamento da gaivota enlouquecida, espera a chuva. Espera. Choveu e vai voltar a chover e ela abriga-se, os olhos lavados, o olhar frontal, aberto. Em volta dela voam as palavras molhadas pela maresia, pela chuva, as palavras que contêm a voz silenciosa dos deuses.

Olhamo-nos nos olhos, reconhecemo-nos, somos iguais, mulheres frágeis e livres.




[Abaixo da gata do Ginjal, poderão ver um belo poema de Eugénio de Andrade que me foi enviado por uma leitora a quem muito agradeço e, logo abaixo, um momento muito especial: música, canto e dança - é Monteverdi que abre esta semana]


Gata vadia, no Ginjal, abrigada sob uma janela em ruínas



                                 As primeiras chuvas estavam tão perto
                                 de ser música
                                 que esquecemos que o verão acabara:
                                 uma súbita alegria,
                                 súbita e bárbara, subia e coroava
                                 a terra de água,
                                 e deus, que tanto demorara,
                                 ardia no coração da palavra.


                                 ['As primeiras chuvas' de Eugénio de Andrade, in Rente ao Dizer]

27 junho, 2012

Ver-me ao espelho neste momento é ter sido agora


Um dia houve em que nos abraçámos ao espelho. A tarde estava dourada e nós amávamo-nos cheios de ternura, aquela ternura dourada que acontece uma vez na vida. O momento era efémero e nós quisemos ver-nos, amantes banhados por um sol coado. Abraçados, sorrindo com uma ternura triste que era já despedida.

Nunca mais aquele espelho devolveu a nossa imagem. 

Sabíamos que a imagem sorridente no espelho acontecia no instante seguinte ao do sorriso. O sorriso pertencia, pois, já ao passado.

Deixei de me olhar naquele espelho. Não te veria. 

Agora procuro outras superfícies se quero saber como é o meu olhar.

Olho o céu, olho o rio, olho a sombra que me acompanha na parede esventrada enquanto eu passo sozinha ao lado. 

Olho-me, sobretudo, nos gatos que se esquivam, animais subtis e sábios. Olho-me nos gatos que descem, silenciosos, até à beira do rio. Olho-me nos gatos que se escondem nas raízes frescas das árvores, que saltam inesperadamente dos muros, que se esgueiram pelos beirais e de lá contemplam a lonjura, olho-me nos gatos que estendem o corpo ao sol deixando a cabeça à sombra, olho-me nos gatos que me olham de frente, olho-me nos olhos verdes dos gatos que me desafiam, olho-me nos olhos ardentes de paixão dos gatos que me reconhecem como uma deles.

E sei que a imagem que vejo está sempre à minha frente, uns instantes à frente no meu tempo e que os passos que dou ficam no passado. 

Deixei, pois, de procurar o passado nas vítreas superfícies, é frágil essa superfície, é longínquo esse passado. Agora procuro a minha imagem no futuro, no tempo que está por vir, no vento, na luz, nas águas que correm, no olhar límpido dos gatos que me enfrentam. Eu sou aquela que ainda há-de ser.



[Logo a seguir ao incrédulo gato de belos olhos verdes, poderão ler o algo inquietante poema de Frederico Lourenço e, logo abaixo, um Choro de Heitor Villa-Lobos]



No Jardim do Ginjal
(Depois de andar desconfiado, olhando-me com muita suspeição enquanto eu o fotografava, o gato parou e enfrentou-me mas, tão atento e intrigado estava, que revirou as orelhas desta forma subversiva)





                    Ver-me ao espelho neste momento é ter sido agora.

                    Ter sido em simultâneo com a imagem de eu ser,
                    ou ser na decalagem do reflexo de ter sido;

                    ver-me e saber que não sou quem eu vejo,
                    que a imagem de mim é vítrea miragem,

                    que o meu corpo reflectido é estilhaço de cristal
                    no passado ainda próximo onde o presente é vivido.

                    O reflectido já de si está perdido de antemão -
                    ou estaria se o nácar não brilhasse toda a tarde

                    na luz de madrepérola que cintila no espelho,
                    iluminando o instante em que já não sou eu.

                   
                 
 ['Poema III, No Espelho,1.2ª parte' de Frederico Lourenço in 'Clara Suspeita de Luz']

19 abril, 2012

Tu e eu temos de permeio a rebeldia que desassossega


Num dia de névoa branca, através da qual rompia um único raio de luz, passeio lentamente junto ao rio. 

Pouquíssimas pessoas, uma quietude muito mansa, um quase silêncio que as ondas contra as rochas da pequena praia não perturbam. Os telhados, onde existem, já vergaram, as paredes estão gastas, escritas, esventradas, as portas estão tapadas ou são vestígios da perfeição de outrora, as janelas não existem, são buracos abertos ao vento, dos incertos beirais nascem inesperadas flores, nos ares passam lentas e silenciosas gaivotas. No rio, desliza, no meio da neblina, um enorme navio e, quase ao lado, um pequeno veleiro, inocente e branco. 

Uma solitária e húmida brancura.

Procuro-te. Onde estás? Olho em volta, discretamente. Procuro-te em silêncio. Quantas saudades. Talvez ali mais à frente, talvez atrás daquela verdíssima árvore, quem sabe ali naquele banco de frente para a cidade hoje imaginária, nada, não estás, e eu procuro por ti.

Abeiro-me da margem, procuro-te nos rochedos onde apenas um pescador, envolto em névoa, espera tranquilo. Tu não. Tu não estás aqui.

Espero, talvez ainda chegues, talvez. 

Mas depois tenho que me ir embora. E, então, quando já não esperava que aparecesses, quando desço para o caminho ao longo do cais, sinto que um olhar agudo me observa. Vou caminhando e olho em volta tentando descobrir a quem pertence o olhar.

E, então, vejo-te. Estás junto à praia, saltaste para os rochedos, e detiveste-te, suspenso a olhar para mim, iluminado pelo raio de luz.

E é este olhar atento, astuto, paciente, este olhar que me invade, mas com lenta suavidade, este olhar que me compreende e me acompanha que eu procuro quando por aqui passo.

Desassossegas-me, quase me tiras o fôlego tal a intensidade transparente do teu olhar. És humano como eu ou, então, sou eu que sou uma gata como tu. Saltamos por cima dos escombros, atravessamos as névoas, e ninguém nos doma. Guiamos-nos pelos nossos sentidos, não conhecemos a desistência, amamos a largueza de horizontes, a liberdade de movimentos, o silêncio rente ao mar, a harmonia suave desta paz tão tranquila. 



[Logo abaixo do meu amigo, poderá ver-se a Ode ao Gato e, descendo um pouco mais, duas gatas miam ao desafio, um inesperado momento e, claro, é ainda Rossini]


Nos rochedos da margem do Tejo, na pequena praia junto ao Jardim do Ginjal, um gato
- um belo ser inteligente que por ali anda, num extraordinário exercício de liberdade 





                         Tu e eu temos de permeio 
                         a rebeldia que desassossega, 
                         a matéria compulsiva dos sentidos. 
                         Que ninguém nos dome, 
                         que ninguém tente 
                         reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, 
                         pois nós temos fôlegos largos 
                         de vento e de névoa 
                         para de novo nos erguermos 
                         e, sobre o desconsolo dos escombros, 
                         formarmos o salto 
                         que leva à glória ou à morte, 
                         conforme a harmonia dos astros 
                         e a regra elementar do destino. 




                         ['Ode ao Gato' de José Jorge Letria in 'Animália - Ode aos Bichos']

15 abril, 2012

Vivo no meio dos vivos, conhecendo a grandeza do nada, a força extrema de uma respiração

   
No caminho da vida, perdemo-nos às vezes e damos por nós no meio de estranhos labirintos que conduzem ao nada. 

Andamos como loucos, dizendo palavras ocas, soltando gemidos, não olhando aos sorrisos, não quedando de receber os afectos. Andamos indiferentes, fechados, olhar vago, lábios cerrados, mãos secas. Andamos a caminho dos lugares escuros em que as respirações não se sentem, aqueles lugares frios em que a meiguice mais tépida não entra, aqueles lugares feitos de sombra e pecado avulso, de solidão e amargura.

Passa um homem curvado, olhos baixos, e murmura uma estranha loa num quase silêncio. Passa uma mulher de ancas vazias, seios tristes e nem vê os cavalos gloriosos, nem vê o calor das mãos estendidas, nem vê o olhar doce nem a ternura sabedora dos gatos que olham a luz.

Tempos estes de cinza em que há quem se perca da vida, tristes tempos, tristes.

Mas estas palavras vão para aquelas bravas pessoas que um dia descobrem a força para respirar o ar mais limpo, o ar que transporta a frescura mais sagrada, para estenderem a mão aos amigos, para as sensíveis e fortes pessoas que um dia resolvem percorrer os caminhos da verdura, os caminhos rente a casas brancas e límpidas, que um dia resolvem correr ao lado das crianças puras, dos cavalos ardentes, dos gatos, essas criaturas divinas, para as corajosas pessoas que um dia abrem os braços e o coração.

Estas palavras vão para aquelas pessoas que um dia resolvem mudar a sua vida e caminhar no sentido do tudo, da luz, da alegria, da liberdade, das aves que se lançam em pleno voo, do mar imenso, do amor. E estas palavras vão também para os que as aguardam de braços abertos, de coração expectante, de sorriso nos lábios e lágrimas de alegria à flor do olhar.


[Logo a seguir ao gato pensador, encontrarão um belo poema da Hélia Correia e, logo depois, William Tell aquece-nos o coração e abre a semana dedicada a Rossini]

Gato muito atento no caminho para o Jardim do Ginjal


                       Não sei perseverar assim, escrevia
                       o da meiga loucura. Perguntava
                       o que dizer, o que fazer, enquanto
                       não voltassem os mais apetecidos,
                       os grandemente antigos, esses sábios
                       que se engasgavam nos banquetes, querendo
                       beber muito e cantar, considerando
                       que a paciência não era qualidade,
                       esses enfurecimentos gloriosos
                       que diziam a Ilíada de cor,
                       e se esforçavam por adivinhar
                       para que rapariga olhara Sófocles
                       quando escreveu a sua Antigonê.
                       Que fazer sem a rápida alegria
                       que levanta o cavalo em plena guerra,
                       vivo no meio dos vivos, conhecendo
                       a grandeza do nada, a força extrema
                       de uma respiração.


                       ['Poema 13' de Hélia Correia in 'A Terceira Miséria']
                   

18 dezembro, 2011

Alguém diz o teu nome à janela, olhando as aves que partem para sul

Hoje as gaivotas andavam loucas, rodopiavam nos ares, longas asas brancas em longos bailados. Pareciam que andavam à minha volta mas, logo que passava um veleiro, afastavam-se. Sentem aquela atracção fatal, despudorada pelos veleiros que rumam a sul.

Entre os troncos, abrigado, um belo gato, de cristalinos olhos inocentes, olhou-me, um olhar fixo, inquisidor, e eu deixei-me olhar. Aproximei-me sorrateira, como sempre faço, e o belo gato manteve o olhar e então senti que me olhava com compreensão.

É outono, a manhã estava fria, o rio corria rápido, azul, e eu percorria estes caminhos que percorro mil vezes. Penso em ti, por vezes parece que ouço o teu nome, parece que das janelas vazias destas casas abandonadas alguém te chama. Mas é apenas saudade, isto. E, então, desejo que algum destes pássaros de longas asas brancas chegue até onde te retiras, talvez atravesse oceanos, talvez suba às montanhas, solte um longo grito de saudade e, depois, pouse na tua janela, no meio de flores de desumana beleza.

Por aqui ando, rente ao rio, com a minha memória, sem dor, sem cinzas, esperando que este e todos os outonos sejam, afinais, auspiciosas primaveras.



[Começamos hoje com Bach, aquele que veio do além para nos iluminar com a sua música que não é deste mundo. Desça um pouco mais e entrará na semana de Bach.]


Belíssimo gato de belíssimos olhos marinhos no Jardim do Ginjal, mesmo rente ao Tejo


                               Os gatos resguardam-se da chuva.
                               Alguém diz o teu nome à janela,
                               olhando as aves que partem para o sul.

                               Há uma memória embaciada de outro outono,
                               cinzas no pátio,
                               o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.


(Poema de Maria do Rosário Pedreira in 'A casa e o cheiro dos livros')