Ginjal e Lisboa

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22 janeiro, 2013

eu permaneço aqui de guarda à água lisa


Outros vão. Tu foste. Eu também podia ter ido. Talvez até contigo. Mas não sou de ir em fantasias, não sou de largos voos. Queria, mas não sou. Ou melhor: finjo que sou. Mas faltam-me as largas asas, falta-me a ambição, o destemor, a loucura. Digo que sim, que tenho tudo isso, mas tu sabes que não é verdade.

Era verão, o sol estava manso, dourava-nos a pele e, pelos teus silêncios, eu percebia que estavas prestes a partir. O mundo chamava por ti. Se ficasses ter-me-ias apenas a mim. Eu estaria aqui, junto a esta praia na qual o rio se entretém, estaria como sempre estou: pronta e disponível para te amar. Mas isso nunca foi suficiente para ti e eu aceito. Quem quer ir não deve ser convencido a ficar. Quem quer ir, só indo poderá um dia voltar; se não for, nunca cá estará.

Não te pedi, pois, que ficasses; apenas te pedi que não te despedisses. E, por isso, um certo dia abriste as asas e, sem palavras, partiste. Não chamei por ti. Fiquei em silêncio olhando o rasto de saudade que se desenhava no imenso espaço que cruzavas.

Agora está muito frio, escurece muito cedo, e eu não te tenho para me poder encostar a ti, para me beijares a curva do pescoço ou a prega entre os seios, para me segurares as mãos desoladas, para impedires que o frio cubra a minha pele. Mas não olho o rio nem o céu tentando descobrir-te na intangível linha do horizonte, nem as minhas palavras constroem preces por ti. Não. Espero, apenas espero, tranquilamente. Guardo as margens do rio. 

Guardo esta água branda que te trará até mim, eu sei que sim, que um dia voltarás para mim. Nesse dia nada te direi, apenas te beijarei, meu amor, meu amor. Guardo, pois, estas frias águas nas quais os dois mergulharemos nesse dia, nus, noite dentro, seres do fundo do mar, amantes perfeitos.



[Abaixo de mais um poema perfeito de Vasco Graça Moura, três momentos felizes, três grandes interpretações de uma das canções perfeitas de José Afonso]


Gaivota em terra, pensando nas suas decisões - e o Tejo, gelado, ali ao lado


                                   as aves migram em setembro.
                                   nem vou com elas, nem
                                   guardo delas
                                   a mínima memória.

                                   escurece mais cedo,
                                   o tempo não se rouba,
                                   escoa-se como o frio
                                   por uma camisola

                                   até dentro da pele.
                                   as aves migram
                                   calmamemte. eu
                                   permaneço aqui

                                  de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
                                  e em que hás-de debruçar-te


['XXIV poema de nó cego, o regresso' de Vasco Graça Moura in 'Poesia Reunida I']

|||



Sentado estás
no meu silêncio
presente
na estranha distância
de não te ter
Olhas-me
Imagem
tenho-te em mim
porque tu
tu que partiste
me habitas.



[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]

04 janeiro, 2013

É com vozes que o silêncio ganha


O homem parte sozinho no seu pequeno barco, atravessa o Tejo. Vejo-o junto a Lisboa, vejo-o do lado de lá, vejo-o agora aqui, já perto de terra. É uma pequena figura que se levanta num pequeno barco. Lisboa a magnífica é o cenário à frente do qual o pescador solitário se recorta enquanto caminho e o olho. Fotografo-o.

Com quem é que este homem fala quando atravessa o Tejo sozinho, rente às águas belas que correm para o mar? Quando vem o peixe e ele quer festejar, fala com quem? Ri sozinho? Grita? Chora quando se sente desacompanhado?

Terá deixado o seu amor em terra firme, terá dado um abraço a alguém que lhe dirá em dias de carinho, tu vê lá, tem cuidado com o rio que ele pode ser traiçoeiro, tu não te deixes ir na conversa das sereias. Ou, se o dia é de fúria, talvez lhe agoure, tomara que vás e não voltes, que eu antes só que em má companhia, fica com a que metes no barco, fica com a que te puxa para ela, deixando-me aqui sozinha, tão vadio és tu como é ela.

E ele vai, sentindo as palavras no seu peito, guardando no coração o olhar de quem ficou em casa, esperando.

Ao cair do dia, o pescador regressa. Mas hesita, por aqui fica. É aqui que agora o vejo, de pé ainda. Erguido, solitário.

No entanto, reparo que, afinal não está só. À sua volta uma gaivota voa, não se afasta dele, acompanha-o. E ouço as suas palavras: o pescador conversa. É com ela que o pescador conversa, é a ela que o pescador confessa as suas mágoas, as suas alegrias. Ela é a grande rival do amor que fica em terra. Ela é a que dança, a que não abandona, a que é livre e não quer prendê-lo.

Ela é a que escuta os seus segredos na luz e na escuridão, ela é a que o leva nos braços até à noite, ela o levará um dia para longe. São os seus gritos que o salvam do silêncio.



[Abaixo do pescador com gaivota, um excerto de O poema contínuo e ia dizer belíssimo mas inibo-me, as palavras parecem menores quando por perto de Herberto Helder. A seguir, mais um momento feliz, agora é Jorge Palma e Cristina Branco com um arranjo de Rui Massena e hoje o tema tem que ver, é a Estrela do Mar]


No Tejo, junto a Cacilhas, pescador com gaivota


                                              Uma canção de agora dirá que as noites
                                              esmagam
                                              o coração. Dirá que o amor aproxima
                                              a eternidade, ou que o gosto
                                              revela os ritmos diuturnos, os segredos
                                              da escuridão.
                                              Porque é com nomes que alguém sabe
                                              onde estar um corpo
                                              por uma ideia, onde um pensamento
                                              faz a vez da língua.
                                              - É com as vozes que o silêncio ganha.


                                             [Excerto de 'Ou o poema contínuo' de Herberto Hélder]

31 dezembro, 2012

De toda a matéria escura sufocada e contraída nasce o grito claro - Morra 2012, viva 2013!


Prisioneiros de um mundo que não escolhemos, um mundo triste, soturno, escuro, corrompido por outros que não nós, mas também vítimas das nossas más escolhas, da nossa permissividade e passividade, estamos assustados, receosos, tolhidos. Este é um mundo que encerra um sonho que acabou, que se transformou num pesadelo. Não era isto que queríamos.

Escuridão, solidão, medo.

Mas, do mais fundo de nós, arrancaremos um grito claro e, juntos, ajudaremos a refazer o mundo, construiremos de novo o mundo que sonhámos.

Ergueremos as asas e voaremos e, livres, limpos, puros, traçaremos as rotas que queremos percorrer. Nossos serão os caminhos do futuro.

Feliz 2013!



[E dancemos, e festejemos o amor. Que nossas sejam todas as alegrias! Abaixo o Grupo Corpo dança o amor, uma música de Ernesto Lecuona]



Gato ontem no Ginjal



                                           De escadas insubmissas
                                           de fechaduras alerta
                                           de chaves submersas
                                           e roucos subterrâneos
                                           onde a esperança enlouqueceu
                                           de notas dissonantes
                                           dum grito de loucura
                                           de toda a matéria escura
                                           sufocada e contraída
                                           nasce o grito claro


['O grito claro' de António Ramos Rosa in Antologia Poética]



Gaivota ontem no Ginjal, o Tejo e Lisboa belíssimos, limpos, cheios de futuro

23 dezembro, 2012

Não digo do Natal - digo da nata do tempo que se coalha com o frio


O domingo está a começar e eu hesito em desejar-vos já um bom Natal. É dia 23 de Dezembro, ainda faltam dois dias. E, depois, para mim, Natal é a tradição do dia em família, da troca de presentes, é a alegria e a surpresa das crianças, é a ternura dos olhares e dos sorrisos. Não há religiosidades que nos façam ter outras interpretações para este dia.

Recordo vagamente o nascimento de uma figura corajosa da história de todos os tempos e lembro que os heróis são assim, defendem os seus com a força interior que lhes permite vencer medos, dores, abandonos.

Mas, porque sei que, para a maioria das pessoas, o dia é um dia com uma importância muito especial, sinto-me no dever de desejar uns dias muito felizes, vividos com muito sentimento e alegria.

No entanto, as minhas palavras vão em especial para as pessoas para quem o Natal é um dia como todos os dias, ou um Natal vivido em solidão, ou um dia em que sentem, como um peso terrível, a ausência de sonhos e de sorrisos.

Para vocês, queridos Leitores, que não têm crianças e alegrias por perto, que gostariam de receber abraços calorosos, presentes festivos, e que, pelo contrário, têm lugares vazios à mesa, sombras, ausências, saudades, ou para os que estão doentes, para os que não encontram felicidade num dia assim, vão as minhas palavras.

Recebam, da minha parte, um abraço feito de palavras, recebam o meu carinho e a minha companhia, recebam as minhas imagens de gaivotas rodeando o rio e os homens, recebam os cânticos de crianças (abaixo) que encontrei para vos acompanhar. Entendam, por favor, estas minhas palavras como uma visita, como um abraço caloroso. Estou aqui, deste lado, pensando em vós, agradecendo a vossa companhia, tentando que as minhas palavras cheguem até vós. 

E, apesar de tudo, desejo-vos também um bom Natal.



Este sábado de manhã no Tejo, com o Terreiro do Paço do outro lado e eu no Ginjal



                                        Não digo do Natal – digo da nata
                                        do tempo que se coalha com o frio
                                        e nos fica branquíssima e exacta
                                        nas mãos que não sabem de que cio

                                        nasceu esta semente; mas que invade
                                        esses tempos relíquidos e pardos
                                        e faz assim que o coração se agrade
                                        de terrenos de pedras e de cardos

                                         por dezembros cobertos. Só então
                                         é que descobre dias de brancura
                                         esta nova pupila, outra visão,

                                         e as cores da terra são feroz loucura
                                         moídas numa só, e feitas pão
                                         com que a vida resiste, e anda, e dura.


                                        [Soneto de Pedro Tamen in Memória Indescritível]

06 dezembro, 2012

Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem - desenhada por Lúcio Costa, Nieymer e Pitágoras. No dia em que Oscar Niemeyer voou para a curva de uma alta montanha


Muitas horas depois no fundo da noite, da distância e da solidão Brasília surgiu, como uma estrela que se levanta no horizonte do mar. Foi crescendo devagar direita e lisa, destacando os seus volumes, desenhando as suas linhas, cada vez mais luminosa e fabulosa. 
(...)
De dia Brasília é uma cidade clara. Uma cidade lógica e lírica. Limpa de pitoresco. e não tem nada faraónico, não tem nada de oficial, não tem nada de retórica, não tem nada de discurso. É exacta, esguia e lisa como um coqueiro. E nunca é enorme, nunca sucumbe à retórica da monumentalidade. A sua beleza é contida e discreta como a beleza de um coqueiro.


(Texto inédito de Sophia, escrito em 1966, relativo a uma 'viagem de automóvel do Rio a Brasília' in Revista Ler, Dezembro 2012)



[Hoje não há palavras minhas. Hoje há as palavras, em prosa e em poesia, de Sophia sobre Brasília, uma cidade essencialmente feita de edifícios desenhados por Oscar Niemeyer. Abaixo há um concerto para violino de Haydn, uma música boa para imaginarmos um espírito luminoso que se liberta da lei da vida]


Buscando os grandes espaços



                               Brasília
                               desenhada por Lúcio Costa, Niemeyer e Pitágoras
                               lógica e lírica
                               grega e brasileira
                               ecuménica
                               propondo aos homens de todas as raças
                               a essência universal das formas justas

                               Brasília despojada e lunar
                               como a alma de um poeta muito jovem
                               nítida como Babilónia
                               esguia como um fuste de palmeira
                               sobre a lisa página do planalto
                               a arquitectura escreveu a sua própria paisagem

                              O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número
                              no centro do reino de Ártemis
                              - Deusa da natureza inviolada -
                              no extremo da caminhada dos Candangos
                              no extremo da nostalgia dos Candangos
                              Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
                              Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento

                              E há nos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro



                              ['Brasília' de Sophia de Mello Breyner Andresen in Geografia]

28 novembro, 2012

O meu nome fantástico e secreto que só os anjos do vento reconhecem


Hoje é um desses dias. Não me reconheço em grande parte dos que me cercam. Sou diferente. Pareço idêntica, tenho duas pernas, dois braços, na aparência falo a mesma língua, aparentemente percebo o que querem, o que fazem.

Mas só eu sei como me sinto tão distante. Andam às voltas, não saem do mesmo sítio apesar de andarem sempre à pressa, dizem coisas que não interessam ou que não fazem sentido, interessam-se muito por coisas efémeras e irrelevantes, interessam-se mais por coisas do que pelos outros a quem não ouvem nem conhecem. Aquietam-se quando se deveriam revoltar, acatam quando deveriam desobedecer, vergam-se quando se deveriam erguer.

Parecendo igual, em dias assim sinto-me uma estranha.

Em dias assim, vendo que não consigo mudar o mundo, busco a noite. Entro pela noite dentro, procuro as águas, mergulho nas ondas, uma e outra e outra e eu submersa, tentando purificar-me, libertar-me.

Então, quando o silêncio invade o meu peito, por momentos ouço o meu nome, o meu nome soprado, cantado, sussurrado.

Não estranho. Sei quem assim chama por mim, quem assim tenta embalar-me. São os anjos, os anjos de grandes asas, os que habitam os meus grandes espaços. E fico tranquila, os anjos sabem o meu nome, reconhecem-me. Talvez apareçam para me tranquilizar, talvez saibam que, em dias assim, me sinto melhor sozinha no meio da noite, debaixo das águas tingidas com o negrume da noite, tocada pelo seu sopro mágico, do que no meio de gente que me é tão estranha, tão estranha, meu deus. 

Em dias como o de hoje não quero voltar aos dias áridos cheios de gente assim, tenho medo de me ver cercada por quem não saiba sequer o meu nome, medo que os meus anjos me abandonem. Oh deus.



[Abaixo da gaivota solitária, um belo poema de Sophia e, logo a seguir, a música de Froberger para nos tirar daqui.]



Em Cacilhas, gaivota caminha pensativamente pela beira do cais,
acompanhada apenas pelo seu próprio reflexo  



                                    No mar passa de onda em onda repetido
                                    o meu nome fantástico e secreto
                                    que só os anjos do vento reconhecem
                                    quando os encontro e perco de repente


[Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen in 'No tempo dividido']

:.:.:


DISTÂNCIA

Distância
É a estrada longa que nos resta
Quando o tempo se estende
Para além da esperança
E os rostos se diluem em névoa.
Procuramos
Estranhos recantos
Lugares de Primavera
No peso agreste da memória.



SILÊNCIOS

Encontrar o silêncio
quando os dias se rasgam
de gritos ácidos
e os ouvidos se enchem
de bandos loucos de palavras vãs.
Encontrar o silêncio
onde a Paz se acolhe
e o vazio se enche
de sombras brancas.
Silêncio,
quando a angústia se esvai
e o olhar voa
como chama matutina.
Encontrar o Silêncio e morar nele
até que nos encontremos
e um sorriso se abra em nós.


GUNDULA STEGLITZ

(em comentário abaixo)

.:.:.



PARA TI

Caso não saibas
minha querida Tá
hoje
escreveste um poema (e ai de quem disser que não)

esvaziaste de tédio a tua alma
organizaste desencantos espaços e memórias
e retomada a tua arrumação
cobriste a tristeza com asas de anjo...

(não ouvi nem discursos nem mentiras
recuso...não quero...não quis)
e quanto a ti
gosto bem mais de sentir zangada... furiosa... mas feliz


Era uma Vez

(em comentário abaixo)

19 novembro, 2012

Penso nos lugares aonde não mais voltarei


Houve um dia, era verão, um verão muito quente e estávamos em Milão. Fomos para fora da cidade, era um restaurante no campo, chão de terra e, para nos proteger do sol, havia uns paus com lençóis atados. Quando soprava a aragem, os panos brancos ondulavam. A comida era muito boa, toda a gente ria, toda a gente falava muito alto. Não parecia verdade.

Houve um cinema ao ar livre num bairro de Luanda. Tanto calor, as noites tão quentes. Eu, muito jovem, blusa sem ombros, o cabelo entrançado, um grupo de jovens em passeio. És mais bonita que a Julie Christie, dito ao ouvido, o perfume dele a entrar em mim, a pele do meu ombro tão sensível, e ele debruçado sobre mim.Via-se a baía iluminada. Havia grandes bananeiras ou palmeiras. Em baixo, contra a baía, um grande écran onde se projectava o Dr. Jivago.

Houve uma serra frondosa, um teleférico, um medo, porque me vim eu meter aqui?, tão alto, passávamos a rasar as copas das árvores enormes, verde muito escuro, e neve, a neve muito branca sobre cedros muito escuros, um frio muito puro, depois passávamos por cima das longas árvores, e subíamos lá muito para o alto, tão alto, tão alto. Estávamos numa montanha perto de Zurique e o silêncio e a beleza estavam muito perto da pureza de uma religião imaculada.

Houve uma casa de campo, talvez perto de Billigham, uma guest house, de um conforto quase inimaginável. O campo à volta era muito verde. Pastavam umas vacas nessa pradaria e tudo era tão perfeito que parecia quase a fingir. A lareira, a comida, todo o ambiente. E a cama era muito macia, com muitas almofadas, e tudo, tudo, era tão macio, tão acolhedor, tão bom que dava vontade ficar lá para o resto da vida.

E outros. Tantos. 

Lugares onde não vou voltar. Quando os abandonei não percebi que tinha estado a viver momentos únicos, momentos que poderia reviver apenas no silêncio da minha memória. Não lhes disse adeus, nunca direi.



[Abaixo da gaivota que pensa nos locais onde não voltará, mais um belo poema de um poeta quase residente, Luís Filipe Castro Mendes. E, logo a seguir, abre-se a semana com um novo compositor, Henry Purcell. E que estreia...!]


Gaivota melancólica à beira do Tejo, no Ginjal



                                               Penso nos lugares aonde não mais voltarei:
                                               não para dizer que neles se encerrou
                                               o que deles ou através deles eu poderia ter sido.
                                               Apenas para lembrar
                                               que nunca lhes poderei dizer adeus.


['O paradoxo do viajante' de Luís Filipe Castro Mendes in Lendas da Índia]


05 novembro, 2012

Lembra-me o tempo em que eu tinha esperança, não havia esta gente medieval, medonha e demente


Houve um tempo em que eu era uma menina que ia com os pais a Lisboa. Nessa altura, Cacilhas era o lugar de embarque, o lugar em que a grande cidade começava a aproximar-se. 

Havia também dias em que o passeio passava por ir almoçar ao Floresta do Ginjal. Acontecia também irmos ao Gonçalves mas, não sei porquê - talvez apenas pelo nome - o que melhor recordo é o Floresta. A escadaria de conchas impressionava a menina que eu era. Havia um senhor cá em baixo e estava bem vestido e era muito simpático. Os meus pais gostavam muito de vir almoçar ao Floresta. Comíamos ameijoas e caldeirada. Talvez comêssemos outras coisas mas estas também são as que melhor recordo. E ficávamos numa mesa encostada à janela de onde se viam os cacilheiros e o rio e Lisboa e as gaivotas. Os meus pais conversavam, felizes, a minha mãe louríssima, olhos muito azuis, sorridente, o meu pai de cabelo liso e muito preto, feliz por nos fazer felizes. E eu olhava os barcos e as gaivotas e fazia mil perguntas.

Talvez nessa altura as casas do Ginjal estivessem bem pintadas, as paredes íntegras, os telhados com telhas. Era um sítio onde eu gostava de passear. Cheirava a maresia, os barcos chegavam e partiam cheios de gente apressada, gente para quem ir e vir de Lisboa era coisa natural. E eu sentia aquela emoção fininha que se alojava no meu estômago de menina. E sonhava com mil futuros radiosos.

Passo agora por aqui, percorro os mesmos caminhos. O restaurante Floresta do Ginjal está degradado, as casas estão arruinadas, correm o risco de cair, os gatos entram e saem de buracos lúgubres, eu já tenho algumas rugas, os cabelos brancos começam a aparecer e olho o futuro com preocupação. 

No entanto, as gaivotas ainda voam, belas e livres, voam, esvoaçam, dançam, pairam sobre este ar tão limpo e tão amplo. E, quando as vejo assim, sou ainda a mesma menina maravilhada porque a verdade, aqui vos confesso, é que as gaivotas me unem ao meu passado feliz e livre (e, confesso-vos também, a menina que eu era ainda vive, intacta, dentro de mim).



[Abaixo das gaivotas que sobrevoam o casario do Ginjal, poderemos desanuviar, fumando ou não, lendo o poema de Helder Moura Pereira e, logo abaixo, um belo momento com uma interpretação especial de uma das obras de referência de J-B Lully.]




Gaivotas sobre as ruínas do casario do Ginjal 




                                          O pássaro que passa na ponte
                                          sobre o Tejo, mesmo defronte
                                          da minha janela escancarada,
                                          não tem penas, não tem nada.

                                          É um míssil, é uma linha
                                          que desenha um arco de emoções.
                                          A roupa no estendal da vizinha
                                          adquire súbitas conotações.

                                          Lembra-me o tempo em que eu
                                          tinha esperança, não havia esta gente
                                          medieval, medonha e demente.
                                          Isto está escuro como breu.

                                          Não é que o pássaro me traga
                                          boas novas, para dizer a verdade,
                                          por sinal uma verdade bem amarga,
                                          há coisas para que não tenho idade.

                                         O impossível aproximava-se devagar
                                         da realidade, o corpo que se abria
                                         e num instante desatava a arfar
                                         nesse instante era boa companhia.

                                         O pássaro só eu é que o via.
                                         Para onde olhava a minha companhia?
                                         Enchia os pulmões de ar
                                         e fumava um cigarro para desanuviar.



['O pássaro que passa' de  Helder Moura Pereira in 'Se as Coisas não Fossem como São']

30 outubro, 2012

Perguntaram-me da terra da utopia mas ao longe só vi uma gaivota.


Agora que não sabemos para onde vamos, que sentimos que nos empurram para o temível abismo, diz-me: onde estávamos nós naquela altura em que pensávamos que éramos felizes?

Nesta escuridão medonha, num fosso sem contornos, sem fundo, sem fim nem princípio, pejado de monstros esfaimados, diz-me: onde estás que não me dás a mão, que não me amparas? Diz-me, por favor. 

Pergunto, pergunto, e já é quase só um murmúrio, mas não me respondes. Talvez nem me ouças. A verdade é que não sei de ti, não sei de todos os que comigo desenhavam sonhos, embalavam sorrisos, construiam futuros.

Onde estão todos? Não podem já ter sido todos devorados... Ou foram? Que medo, que medo, que medo, que solidão.

As crianças já quase não nascem, os jovens fogem da casa dos pais, os velhos morrem sozinhos. Que medo. O que é isto?

Tudo aquilo com que sonhávamos era nada? Era uma apenas uma inocente utopia? Era?

Olho o horizonte, procuro vestígios dos tempos felizes de outrora, fiapos de sonhos, qualquer coisa. Nada. Nada. Apenas o vazio, o espanto assombrado do medo, o horrível nada. 

E depois, ao longe, perdida no meio do azul, quase flutuando sobre as águas, uma gaivota. Olhar límpido e honrado, uma gaivota resiste. Forte como as águas, bela como o imenso azul.




[Sob a gaivota perdida no azul, mais um belo poema de Manuel Alegre e, logo abaixo, o lamento da ninfa tal como o ouviu Monteverdi]



Gaivota sobre o Tejo



                                        Perguntaram-me da terra da utopia
                                        mas ao longe só vi uma gaivota.
                                        Da terra da utopia eu não sabia
                                        nem do mar nem do sítio nem da rota
                                        talvez não fosse mais que um sonho que ninguém sonhava
                                        um soluço de Deus um cheiro a maresia
                                        e ao longe uma gaivota que pairava
                                        sobre um ponto no azul sobre utopia.


                                        ['Cais das colunas' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito']

*


Do mar 
regressa a traineira
traz tão pouca pescaria...

e à hora certa as gaivotas
em sedenta procissão
(cantarolando o pregão) 
ainda vão acreditando
no peixe de cada dia

e nós
gente viúva
pés cansados mãos atadas
sussurramos "acordai"
ao novo "vento que passa"
confusos neste lugar
onde é pecado sonhar
com a palavra utopia

...e de novo a melodia
" e o vento cala a desgraça" e "o vento cala a desgraça"...



[Poema da autoria da Leitora Era uma Vez, a quem agradeço, no comentário abaixo]


04 outubro, 2012

Como se ontem e os dias antes de ontem se tivessem desfeito sobre as prateleiras


Saíste de casa e desapareceste da minha vida. E eu fiquei sozinha num lugar que, antes, pensava que era o nosso secreto e querido abrigo. 

Agora o tempo passa por mim, pelas molduras que ainda contêm as nossas fotografias, pelas cortinas que já não se afastam das janelas, agora o pó do tempo junta-se sobre as prateleiras como se não fosse senão a sombra dos dias que vivemos.

Sento-me sozinha, em silêncio, nesta casa desolada e olho os vestígios de ti feitos pó. Podia escrever palavras de amor nesse pó. Escreveria talvez vem. Nada me ocorre para além dessa súplica. Mas não escrevo, sei que tu não vens.

Mas hoje a minha vida vai mudar. Mais logo, mal a noite se desfaça e eu sinta que está a amanhecer, sairei de novo e irei, uma vez mais, pela beira do rio.

Sei, agora já sei, que todo a nossa vida se desfez, está feita em pó inútil, sei que algures, nas nuvens que cobrem o céu, estão as cinzas dos nossos dias. E, então, vou esperar que passe uma gaivota para que ela te leve as minhas palavras. E as minhas palavras, a partir de agora, são estas: não voltes, não preciso de ti, és não mais que uma sombra, a minha casa não precisa de quem se transforma em cinza, a partir de hoje sou uma mulher livre e uma mulher livre não tem espaço no seu coração para homens feitos de pó. 



[Corelli está a despedir-se e despede-se com uma sessão no Porto. Está já aqui abaixo, logo a seguir a um poema de José Luís Peixoto]


Gaivota atravessa um céu coberto de nuvens no Ginjal



                                  Como se ontem e os dias antes de ontem
                                  se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

                                  como se pudéssemos escrever palavras
                                  nas suas cinzas com a ponta do dedo,

                                  como se bastasse soprar para vermos
                                  as suas imagens de novo, numa nuvem.


                                  ['Limpar o pó' de José Luís Peixoto in 'Gaveta de papéis']
                               

08 julho, 2012

Meu Deus, a natureza é branca


Por estes dias o mundo chega-me pela família e amigos que me trazem afectos e sorrisos, pela televisão que me traz vulgaridades, pelo computador que me traz diversidade e, claro, pela janela que procuro em busca de vida.

Desloco-me, pois, muito lentamente, até à janela. 

Passos iniciais em busca de espaço, de largueza. Busco palavras, sons, busco cores, alegrias, busco pássaros exóticos, flores loucas, busco imagens exuberantes, busco a vida em festa mas, em vez disso, a janela hoje de manhã mostra-me um véu branco, quase opaco, e o rio e o céu e as casa e tudo o mais está branco, silencioso, imóvel. Apenas uma gaivota, longínqua, cruza o espaço mas não se aproxima. Vejo-a de longe, oblíquo traço escuro que quase rasga a paisagem que hoje é uma gaze que encobre feridas, uma paisagem branca que se recusa a materializar-se.

Volto, então, muito devagar até ao meu poiso onde vou esperar que flautas e magias despertem a natureza e a vida e me tragam todas as cores que há no mundo.



[Abaixo da vida branca aqui abaixo, poderão ler mais um belo poema de Armando Silva Carvalho e, logo a seguir, abrimos a semana dedicada a Antonio Salieri]



O mundo branco visto da minha janela num dia branco


                         Meus Deus, a natureza é branca.
                         E envolve as massas de barreiras sonoras
                         que a boca tenta soerguer num compasso de guia
                         pelos caminhos do texto:
                         a cada palavra o seu sinal de cor,
                         a triste magia de buracos e dedos, de flautas
                         e serpentes.



['42 canções entre 2 portas, nº36', de Armando Silva Carvalho in 'De Amore']

22 abril, 2012

Ausentes são os deuses mas presidem

   
Não é solidão isso que sentes, meu Amigo, não é. É talvez um momento apenas teu, um viagem ao teu coração, um silêncio. Não solidão.

Vais andando ao longo da tua vida, percorrendo os caminhos das tuas idades, vais conhecendo a evolução natural, a descoberta, a inocência, o tédio, a saturação, o desespero, e vais recomeçando, uma e outra vez. Umas vezes com alegria, outras com apatia, mas vais andando porque assim é a vida.

E se uns dias sorris e outros são lágrimas o que sentes escorrendo dentro de ti, não te entristeças porque assim é a vida e, logo, logo vais renascer.

Mas, meu Amigo, nunca te feches. Enquanto fores percorrendo as veredas às vezes tão estreitas da tua vida, vai olhando. Vê o rio, vê o largo horizonte, vê o imenso céu e os castelos transparentes que nele se desenham, vê as aves libertas que atravessam os ares e vê as árvores que se refazem, as flores de uma beleza tão perfeita, e vê os olhos meigos ou ariscos dos animais e vê, sobretudo, as pessoas.

Olha e vê as pessoas, percebe as suas vidas, aproxima-te, dá a mão, deixa-te abraçar. Porque assim é a vida que é boa de viver.

Não estás só. Algures há um olhar complacente sobre ti, um olhar generoso. Há sempre. Não sei se são os deuses transparentes e ambíguos, se são os pássaros que lá do alto olham por nós, se são as memórias dos que estão longe mas vivem dentro de ti, se são as pessoas que, tal como eu, de longe, te enviamos estas palavras que atravessam os ares por mais longínquos que sejam, não sei. O que sei é que há sempre alguém que olha por nós e que nos pede a nossa atenção ao mundo.



[Abaixo da gaivota que parece presidir aos destinos de quem o seu olhar alcança, poderão ver o belíssimo poema de Sophia e, logo a seguir, um dos mais belos momentos, a Casta Diva por Renée Fleming que, assim, abre a semana de Bellini]

Num dos edifícios do Ginjal, orgulhosa gaivota observa o Tejo e Lisboa e quem por aí passa


                Ausentes são os deuses mas preside.
                       Nós habitamos nessa
                       transparência ambígua,

                Seu pensamento emerge quando tudo
                        de súbito se torna
                        solenemente exacto.

                O seu olhar ensina o seu olhar:
                         nossa atenção ao mundo
                         é o culto que pedem.



['Homenagem a Ricardo Reis/III' de Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Os poemas da minha vida', Miguel Veiga]

01 abril, 2012

Uma luz branca nasce do voo destes pássaros que habitam as rias

 
Há manhãs de névoa branca, de humidades quase mornas, em que uma intimidade suave envolve as pessoas que percorrem os caminhos junto ao rio, um rio liso, imóvel.

Em manhãs assim, Lisboa é uma imagem, um sonho, uma longínqua ideia, uma pintura a tinta de água, uma imensa recordação, e as pessoas vão em silêncio pelos caminhos molhados das margens, um silêncio branco.

Em manhãs assim, as pessoas não sabem dizer se é inverno, se é verão, de tal forma as evidências se escondem atrás da humidade densa como poeira, de tal forma a quietude se parece com uma transparente amenidade, com uma doce cumplicidade.

E é em manhãs assim que as gaivotas aparecem, felizes, e dançam, dançam, dançam, rodopiam, elevam-se, dançam, sorriem para as pessoas que passam, soltam gritos livres e olham nos olhos as pessoas que se espantam com esta luz branca que nasce do seu voo, um voo tão branco que quase parece inventado.


[Deixemo-nos levar nas grandes asas destes pássaros que dançam no Tejo, sobrevoemos o belo rio, detenhamo-nos no belo poema de Nuno Júdice e, por fim, pousemos para ouvir o piano de Mussorgsky]

Gaivotas avistadas do Ginjal, sobrevoando o Tejo, com Lisboa em fundo


                          Uma luz branca nasce do voo
                          destes pássaros que habitam as rias,
                          contamina o mar com a sua ânsia
                          de equinócio, mancha a superfície
                          seca das falésias despojadas de musgo.

                          Os impérios chegaram até aqui
                          e não souberam o que fazer; há
                          exércitos sepultados sob as colinas;
                          a voz dos sacerdotes foi apagada
                          pelo vento dos invernos.

                          Como se este fosse o destino
                          de todas as navegações, o limite
                          a que se acolheram os nómadas
                          sem rumo, a margem acolhedora
                          onde se dissipa a poeira das viagens.

                          [Sul de Nuno Júdice in 'Guia de Conceitos Básicos']

22 março, 2012

És, talvez, como eu uma alternadeira de palavras

 
Depois de um dia de trabalho numa torre de vidro transparente, venho para aqui, junto ao rio, e fico passeando, percorrendo os mesmos caminhos de outras como eu.

Passa um veleiro, voam as gaivotas e eu olho o rio, pensando em palavras que, mais tarde, sem pensar, aqui me ofereço (e vos ofereço). 

É por amor ao rio azul, aos veleiros brancos, às magníficas gaivotas que por aqui ando e é por amor às palavras que aqui escrevo. Não faço dinheiro com as palavras, não danço por dinheiro, não fotografo por dinheiro, não faço amor por dinheiro. Faço o trottoir tal como as outras, as gaivotas, seguem o seu rasto no céu, e também não é por dinheiro.Vigiamo-nos, transparentes e humanas, pensamos em devastados amores, em secretas traições, emoções proibidas, escondidas. Mas tudo por amor.

Somos também como tu, leitor(a), que por aqui andas, percorrendo os caminhos do meu pensamento, vigiando o que escrevo, o que penso, o que sinto. 

Vivemos os dois, eu e tu Leitor, em união de facto. Estimamo-nos, não passamos um sem o outro, inseparáveis, amigos, amantes de palavras. Mas, apesar da ligação profunda, intensa, que nos une, eu saio todos os dias para colher novas palavras, palavras que trago depois para a mesa, como se tivesse andado a ganhar dinheiro para o nosso sustento.

Alternadeira, sou uma alternadeira. Alternadeira de palavras, amante de palavras.



[Caro(a) Leitor(a), continuemos a fazer este nosso trottoir. Desçamos até à beira do Tejo, palmilhemos os caminhos de Inês Lourenço e, depois, para nos apaziguarmos, deslizemos até ao concerto de Ravel, belíssimo.]

Em Cacilhas, o Tejo, um veleiro, gaivotas - este é o ar que respiro


                     Contigo, leitor, celebro
                     esta união sem facto, abro
                     este habitáculo, algumas gavetas
                     secretas para demorar contigo emoções
                     e escárnios. És, talvez, como eu
                     uma alternadeira de palavras, destas
                     que vendem no papel, os objectos
                     trucidados pelo olhar em lençóis
                     de falsa transparência e ficção
                     furtiva. Outras, mais reais
                     e mais humanas, professam
                     uma devastada arte de amar
                     e nós um devastado amor
                     à arte dos versos que ninguém
                     lê. Só nós nos lemos
                     uns aos outros, tal como elas
                     se vigiam sobre o trottoir.


                     ['Alternadeiras' de Inês Lourenço in 'Câmara Escura']
 

21 março, 2012

Levo-a como uma deusa ao templo do mar e vejo-a despir-se como se fosse flutuar

 
Quando chego a casa assim cansada, deito-me e deixo que as pálpebras tombem, que o corpo descanse, e toda eu esqueço o dia que passei, toda a vida passada, tudo. Descanso apenas.

Tu aproximas-te então, encostas-te a mim, tiras-me a roupa com cuidados mil, e eu deixo que trates de mim. Sinto, então, que dos teus dedos nascem flores e as macias pétalas começam a tocar o meu corpo, e é uma doçura bondosa que eu sinto. Devagar, aproximas-te ainda mais e falas uma estranha língua, uma língua sem idade, e eu deixo que a tua língua me diga segredos murmurados e suaves.

Aproximas-te ainda mais, sinto o cheiro tépido e familiar do teu corpo, a tua boca beija-me com cuidada ternura e eu sinto o carinho com que tentas que o meu corpo descanse da intensidade do dia.

Então, quando eu estou totalmente tranquila e rendida, tu pegas-me ao colo e levas-me até à beira do mar. Aí chegados, tu, com gentileza e devoção, pousas-me como num templo e eu aceito, agradecida, que me tenhas levado à rendição.

Despida na beira do rio, dizes-me, então, baixinho, que pareço estar a flutuar e pedes, baixinho, que te leve comigo. Digo-te que sim, é o que eu quero e puxo-te: anda, põe-te aqui em cima de mim, vamos os dois

E, sob um céu que brilha como que iluminado por mil velas, envoltos em segredos e estrelas proibidas, entramos os dois no mais profundo recanto do mar, lá onde o céu e o mar se tocam, lá onde os corpos se desfazem do desejo que os consome.

Se alguém nos visse diria, olha como aquelas duas estrelas brilham ou, então, lá vão dois anjos. Mas somos apenas nós, felizes, flutuando sobre o sagrado templo do mar.


No Ginjal, gaivota pousada como uma deusa num altar. Ao fundo, Lisboa a bela, o mais sagrado templo.


             É um mistério esta claridade
             que nasce de um corpo sem passado,
             onde a leio numa língua sem idade,
             adivinhando o seu futuro neste fado.

             Caem pálpebras num cair de pano,
             abrem-se dedos num florir de mão,
             no seu jardim a primavera não é engano,
             no seu rosal o amor está em botão.

             Uma boca de pérolas envolve-a de segredo,
             e dela tiro um brilho de estrela.
             Respiro o seu perfume sem ter medo,

             acendo nos seus olhos a última vela.
             Levo-a como deusa ao templo do mar,
             e vejo-a despir-se como se fosse flutuar.


              ['Vénus aérea' de Nuno Júdice in 'Guia de conceitos básicos']

20 março, 2012

Amarás o torpor que se seguirá a ti


Desço à beira do mar, hesito, olho o passado, olho o que fica para trás, olho a casa, o jardim, os sorrisos, os afectos macios, a porta que se fecha, íntima, as cortinas que velam a luz do exterior. O conforto morno, a segurança suave, o aconchego, o coração e as mãos.

Ah, este temor, o temor. 

Praias desabridas, solidão, desconhecido, mistério sem nome, e eu aqui, hesitante.

Penso em ti. Penso em ti, o torpor que se segue a ti. Temor. 

Mas, à frente, a liberdade, a liberdade. Que infinita vontade de partir.



[Na beira da praia, as palavras do poeta seguem, em liberdade, até à valsa de Ravel. Tamanha é a vontade de partir que iremos com ele.]

Gaivota na beira do Tejo, no Ginjal


                         Sei
                         Sei tu
                         Amarás o torpor que se seguirá a ti
                         Praias desabridas com o temor

                         Liberdade, liberdade
                         infinita vontade de partir



[Poema de 2009, pag 71, de José Alexandre Caldas Ribeiro in 'A água que nos move']
  

13 março, 2012

Aquele que o meu coração ama


Não sei escrever palavras de abandono. Aquele que o meu coração ama e todos os outros que anteriormente amei sempre me procuraram nas cidades, fora delas, nas ruas abandonadas ou no meio de multidões e sempre ao meu corpo ficaram presos. 

(De bons sentimentos não se escrevem grandes textos e é por isso que este é um texto tão curto.)

Mesmo quando me isolo no meio do rio, sozinha eu e o rio que aqui é mar, sozinha no meio deste silêncio líquido de tão azul, mesmo quando ele me vê de longe, me chama já cansado, e eu finjo que não o vejo, mesmo quando o ignoro e, mulher livre, ave louca, levanto voo e o abandono, mesmo assim ele espera que eu me canse, e, na volta, acolhe-me de braços abertos, um abraço morno e amante.

E, então, quando isso acontece, agradecida, eu peço-lhe que me dispa, que me tome, que percorra o meu corpo com os seus longos dedos, e que me retenha até que a manhã chegue não vá eu perder-me na ameaça da noite.



[É já aqui sabido que gosto bastante da poesia de Alice Vieira. Peço-vos portanto que, com muito carinho e disponibilidade, se deixem ficar um pouco na sua companhia. Logo abaixo La mer de Debussy.]

Avistada do ginjal, gaivota em pleno momento de levantar voo a partir de uma rocha no Trjo


                          Aquele que o meu coração ama
                          não encontra em lado algum
                          o incenso que de meus olhos rompe
                          para ensinar a prender o corpo das mulheres
                          abandonadas fora de horas
                          às portas da cidade

                          mas sabe que          para todas as distâncias
                          há uma ave enlouquecendo quem parte
                          antes do tempo
                          e a túnica que dispo entre os seus dedos
                          é a espada que os reis ungiram
                          para enfrentar a ameaça das manhãs
                          em que tudo acorda


                         ['Aquele que o meu coração ama, 2' de Alice Vieira in 'O que dói às aves']

&

Desesperando…

É a revolta que enlouquece 
Quem sabe que vai partir antes do seu tempo
Tendo lutado até ao sangramento 
Das vísceras,
Da boca, 
Da noite, 
Dos sentidos fechados, perdidos, 
Dos olhares longe parados,
Esperando…

Olhares,
Esperando,
De desesperança 
De quem nada pode fazer…


[Belo e sentido poema da autoria de J. Rodrigues Dias]

01 janeiro, 2012

Aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade

  
Passam por mim, ágeis e brancas, contra um mar de azul e elevam-se, tombam, deslizam, bailam, voam, voam, livres, tão livres na sua infinita graça.

Tento que me tomem por uma das suas, que me levem também, que me ensinem a voar e, então, deixo-me estar, imóvel, deslumbrada, e quase me apetece ajoelhar perante tamanha beleza. É um bailado, um jogo, um desafio, e gritam, dão longos gritos de liberdade enquanto se elevam com as suas longas e brancas asas.

Olho em silêncio e penso, é isto que eu quero, esta liberdade pura, esta alegria apaixonada, quero atravessar os longos espaços e voar, voar.

E, então, retrato-as, etéreas bailarinas, pássaros livres, mulheres como eu.



[Quis começar o ano novo com Sophia, com liberdade, com voos brancos - e com Tchaikovsky. Desça um pouco, se quiser partilhar comigo uma música que me habita há muitos anos]


Ontem, gaivotas em plena liberdade sobre um rio de um azul absoluto


                                      Aqui nesta praia onde
                                      não há nenhum vestígio de impureza,
                                      aqui onde há somente
                                      ondas tombando ininterruptamente,
                                      puro espaço e lúcida unidade,
                                      aqui o tempo apaixonadamente
                                      encontra a própria liberdade.


('Liberdade' de Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética II)

10 dezembro, 2011

Um dia, gastos, voltaremos a viver livres como os animais

 
Cansada, às vezes, acolho-me à beira da água. Respiro a maresia, o ar fresco, ouço o rio que corre em plena liberdade, deixo-me aqui ficar vendo os limos, as correntes, os ventos.

Cansada, às vezes, olhos os gatos da beira do rio, olhos os pombos do cais, invejo as gaivotas. Tenho esta coisa com as gaivotas. Aproximo-me delas e elas, sempre tão ariscas com toda a gente, deixam-se ficar, olham-me, e eu aproximo-me mais, silenciosa como uma gata, e chego perto, tenho vontade de me meter dentro do corpo delas. Outras vezes são elas que voam na minha direcção, sobre mim e eu deixo-me ali ficar, contente porque penso que me estão a reconhecer como irmã.

Cansada, tantas vezes, deixo-me embalar pelo grito das gaivotas, gosto de as ouvir assim falar, é uma fala misteriosa mas eu reconheço-a, é uma fala irreal que me embala, é o som da liberdade que atravessa os grandes espaços.

Nesses dias, o cansaço dissipa-se nos ares, leva-o o vento e, então, sinto-me livre e regresso leve como um inocente animal e, então, posso falar a imaterial voz do mar, posso soltar os livres gritos das gaivotas de longas asas que atravessam os espaços.


[A encerrar esta semana de Schubert, desça um pouco mais e venha ouvir a suave e forte voz de Jessye Norman, magnífica, em Ave Maria]


Gaivota livre, voando sobre o Tejo, voando entre o Ginjal e Lisboa


                            Um dia, gastos, voltaremos
                            a viver livres como os animais
                            E mesmo tão cansados floriremos
                            irmãos vivos do mar e dos pinhais.

                            O vento levará os mil cansaços
                            dos gestos agitados irreais
                            e há-de voltar aos nossos membros lassos
                            a leve rapidez dos animais.

                            Só então poderemos caminhar
                            através do mistério que se embala
                            no verde dos pinhais    na voz do mar
                            e em nós germinará a sua fala.


                            ('Um dia' de Sophia de Mello Breyner)