Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
Mostrar mensagens com a etiqueta Foto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Foto. Mostrar todas as mensagens

11 dezembro, 2010

Que nenhuma estrele queime o teu perfil

Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio.

E juro-te que a minha boca, ao separar-se da tua, irá repetindo e lembrando 'sei de um rio, sei de um rio'.

Para ti eu criarei um dia puro, livre com o vento e repetido como o florir destas ondas ordenadas do Tejo, aqui no Ginjal, meu amor. 

(Homem-Gaivota numa manhã de neblina no Ginjal, Lisboa ao fundo, o Tejo apaziaguado - talvez de todas até agora, a minha fotografia preferida)

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
que nenhum deus se lembre do teu nome
que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
livre com o vento e repetido
como o florir das ondas ordenadas

(de Sophia de Mello Breyner Andresen)

08 dezembro, 2010

E é a força sem fim de duas bocas, de duas bocas que se juntam, loucas!

O meu coração voa no ar, tentando encontrar o teu que ande também perdido.

Como seria, meu amor, se os nossos corações se encontrassem?

Imagino que as nossas bocas se uniriam, com uma força sem fim, loucas.

Mas seria?

(Gaivota vigia o Ginjal, sob o céu azul que cobre o azul do Tejo)

Congresso de gaivotas neste céu
como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
vai batendo como a própria vida,
um coração vermelho pelo ar.

e é a força sem boca de duas bocas,
de duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

(O beijo de Alexandre O'Neill)

07 dezembro, 2010

De bruços me debruço mais ainda até sentir os olhos tumefactos

Com um brilhozinho nos olhos e a saia rodada, trago o cabelo aos ombros e passeio de cá para lá como as ondas do mar.
Com um brilhozinho nos olhos, trocámos de beijos, tão bom, era tão bom.
Tentávamos saber, para lá do que muito se amou, quem éramos nós, quem queríamos ser.
Pedes para não me descalçar porque gostas da cor dos meus sapatos, gostas do brilho que dão às minhas pernas.
E eu, namorada, faço-te a vontade e, com os meus sapatos calçados, ao de leve vou até à fonte dos amores dar de beber aos versos, enquanto espero por ti com um brilhozinho nos olhos.

(Fonte das Pipas, a Fonte dos Amores do Ginjal, milagrosamente respeitada, ainda imaculada, branca)

De bruços me debruço mais ainda
até sentir os olhos tumefactos
para saber até que ponto é linda
a intrigante cor desses sapatos

que às tuas pernas dão um brilho tal
e uma leveza tal ao teu andar,
que eu penso (embore aches anormal)
que nunca te devias descalçar.

Também porquê, se já não há verdura
nem tu és Leonor para correr
descalça, no poema, à aventura?

O mais difícil, hoje, é antever
quem é que vai à fonte em literatura
e que água dá aos versos a beber.

(de Joaquim Pessoa, o poeta da musicalidade das palavras)

05 dezembro, 2010

Abro as varandas altas da manhã: o teu rosto é essa estrela sobre o mar, oh meu amor

Há quem diga que às vezes se vive numa quase mentira, acabando por nem dar conta do que se sente.

(Há quem diga que mais vale estar sozinha toda a vida do que ter um coração que mente.)

Assim, longe de ti, vivo a desenhar o teu rosto no sal dos mares por que ando, recordando o teu fogo no leito enquanto navego contra a corrente.

Vou de cais em cais, sozinha mas vivendo em ti, lembrando a curva dos teus braços, meu amor.

Eu sei que já devia ter havido uma longa despedida. Mas prefiro imaginar que uma estrela sobre o mar me indicará o caminho de regresso até ti.

Meu amor.

(O Queen Elizabeth 2, também conhecido por QE2, acostado em Lisboa, Alcântara-Mar, ontem visto do Ginjal, numa manhã gelada que soprava com força as velas dos pequenos e corajosos veleiros que desafiavam em valentia o enorme e luxuoso cruzeiro)

Abro as varandas altas da manhã:
o teu rosto é essa estrela sobre o mar.
Oh meu amor eu vivo a desenhar
o teu rosto de sal na praia vã.

De ti conheço um sopro, o naufragar
de um barco altivo por marés desfeito
e ando de porto em porto a recordar
a costa de ouro e fogo do teu leito.

Já te perdi de bússola e de norte
no caminho magnético dos astros
por tanto navegar contra a corrente.

Mas ao sabor a cor da minha morte
eu vivo em ti, na curva dos teus braços
com um deserto de fogo à minha frente.

(Uma longa despedida de José Carlos González)

03 dezembro, 2010

Palavras que disseste e já não dizes, palavras que trago na memória e que arrasto pelas ruas, aqui no cais do Ginjal

Recordo as palavras que disseste e que diziam segredos, promessas imperfeitas, murmuradas enquanto os nossos beijos permitiam.

Mas eu fugi, o tempo passou.

Por isso, essas palavras que agora já tão pouco dizes, são palavras que são minhas, só minhas, palavras que persistem na memória que arrasto pelas ruas, pelos cais.

Mais um dia em vão num jogo que ninguém ganhou.

(A minha gaivota altiva, altaneira, vira as costas a Lisboa, devota apenas e só ao seu cais, à sua casa no Ginjal - e o Tejo azul, denso, a seus pés)

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

('Um fado: palavras minhas' de Pedro Tamen)

02 dezembro, 2010

Estás todo em ti, mar, e todavia como sem ti estás, que solitário, que distante de ti mesmo.

Quase tenho ciúmes das ondas do mar quando é nelas que pousas o teu olhar.

Que distante estás....

Tal como as ondas, o meu pensamento vai e vem, partindo para nenhum lugar.

Pulsa-me o coração e não o sentes, estás longe, a olhar o mar.


(O rebentar das ondas num dia de bravura do Tejo, contra um dos cais do Ginjal)

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sentes...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

(Solidão de Juan Ramón Jiméneztradução do poeta José Bento)

O delicado desejo que te doura e nos dura na pele 4 ever and ever

Se quiseres, posso mostrar-te as minhas mãos vazias, as mãos que são como os meus dias, vazios e banais.

Antes abraçavas-me como se abraça o tempo, como se a vida coubesse naquele momento e eram gestos que nunca eram iguais, eram beijos perfeitos roubados num umbrais e desde então eu penso que gostava de poder dizer-te 'não partas nunca mais'.

Era um desejo dourado, que ainda nos dura na pele - ainda me arde na memória o corpo que me deste e que toquei tão ao de leve.

Mas é contra a nossa vida o desejo que se tece: por isso vou, com versos, enganando o coração.

Mas, sabes, é para sempre.

(4 ever and ever! - alguém inscreveu esta declaração de amor eterno na Fonte dos Amores, digo na Fonte das Pipas, ao Ginjal)


O delicado desejo que te doura
e nos dura na pele quando anoitece
é contra a nossa vida que se tece
e é no verso que vive e se demora.

Amor que não tivémos nem nos teve
veio-nos chamar agora. De repente
fez-se névoa a palavra do presente
e luz teu corpo que toquei de leve.

Mas se arde na memória da canção
o corpo que me deste e me fugiste,
o verso é outro modo de traição

por que minto ao que nunca tu mentiste.
E enganamos assim o coração,
disfarçando de mitos o que existe.

(Apenas um soneto, poema lindíssimo de Luís Filipe Castro Mendes)

Eu não sei quem te perdeu por Pedro Abrunhosa

Adoro esta canção. Acho-a linda, na música, na letra.

Transborda de sentimento e, embora (obviamente....) não seja minha, considerem-na hoje como um presente.



Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias, as mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".

E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.

E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

(Letra de 'Eu não sei quem te perdeu', composição de Pedro Abrunhosa)

E uma asa voa a cada beijo teu

(Vista do Ginjal, uma gaivota voa livre, linda, sobre o Tejo azul, sob um céu azul, num cenário geométrico)

29 novembro, 2010

Eu que sou feio, sólido, leal, a ti, que és bela, frágil, assustada, quero estimar-te sempre

Dizias, meu querido, que eu te tornava  prestante, bom, saudável.

E dizias que me olhavas o corpo enquanto me vias pela porta envidraçada, e dizias que, por ti, me dedicarias a tua vida.

Tu, hábil, prático e viril dizias-me isso a mim, que sou ténue, dócil, recolhida e que gostava tanto de te ouvir.

(Antes que cheguem os clientes, um momento de reflexão, à porta de um restaurante em Cacilhas. ali bem às portas do Ginjal)

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, — talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
[...]

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.

(Excertos de Débil de Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde')

28 novembro, 2010

Eu cantarei de amor tão docemente, aqui enquanto te espero, meu amor

Tu sabes que os meus lábios tremiam de amor puro e que a nossa pele se erguia contra as leis acumuladas contra nós.

Se eu pudesse entrar na tua vida … mas eu sei que é perigoso a gente ser feliz.

Mas, olha, meu amor, nada foi em vão.

Agora que está este tempo tão frio, eu cantarei de amor tão docemente.

(Num dia frio, com o Tejo correndo cinzento e triste, duas cadeiras esperam por nós, neste cais do Ginjal, de frente para Lisboa)

Eu cantarei de amor tão docemente
que, ainda extinta a voz, dela perdure
o veio breve donde transpirou
outrora o canto aceso e os seus silêncios.
Serão então do exílio as horas frouxas
derramadas qual ácido no rosto
do amante. Mas nada foi em vão.
Que os lábios tremerão de puro amor
e a pele – como a serpente à melodia
rende sua homenagem, cativada –
contra o dia se indisciplinará
erguida sobre si, ao arrepio
de leis acumuladas contra nós,
seus ecos contrapondo ao tempo frio.

(Eu cantarei de amor tão docemente, de António Manuel Pires Cabral)

25 novembro, 2010

Jardim de inverno suspenso na manhã como um sol nos vidros

Dá-me a tua mão neste jardim suspenso na manhã, dá-me a tua mão para que eu sinta esse gesto no mais interior que tem a casa, para que eu sinta o teu corpo sobre o meu, para que eu sinta o mundo todo batendo no meu pulso. Dá-me a tua mão, vamos andar de mãos dadas por aí, pelo mar alto, dá-me a tua mão, vamos andar de mãos dadas para todo o sempre.

O impossível somos nós.

(Um dos sítios mais bonitos do mundo, um sítio de paz, onde os olhos não conseguem absorver todo o espírito, toda a magia do lugar: Jardim do Ginjal junto ao Elevador Panorâmico de Almada, o Tejo a correr manso, juntando com ternura as duas margens, Lisboa ali tão perto)

Jardim de inverno
suspenso na manhã

como um sol
               nos vidros
coalhado

cravado na cidade
e sobre a carne

sedento devagar
e tatuado

E semelhante
                 felino
e sequestrado

e só suspenso
mas firme
e aderente

É como um útero
secreto
e encontrado
onde se adivinha uma semente

E sobre a pele
oásis
pelos olhos

e nos sentidos
brandura
reinventada

como outro gesto
detido nas paredes
no mais interior
que tem a casa

e aí me detenho
e eu e tu nos encontramos

e aí penso
seguro
e me debruço

sentindo o teu corpo
sobre o meu

e o mundo batendo
no meu pulso

(Jardim de Inverno de Maria Teresa Horta)

24 novembro, 2010

Pusemos tanto azul nessa distância, meu amor

Era eu a falar para esconder a saudade, contando histórias que nos atam ao silêncio e tu a esconderes-te do que não dizíamos.

Não nos tocávamos e íamos fugindo. Eu fugia do toque como do cheiro e tu puxavas-me sempre para mais perto.

Mas é quase pecado o que deixamos, é quase pecado o que ignoramos.

Pusemos tanto azul nesta distância que ficamos a morder-nos na carne dum segredo. 

E quebramo-nos os dois, quebramo-nos como crianças.


(A elegância e a determinação de uma jovem que se afasta do namorado numa manhã no Ginjal, com Lisboa em fundo banhada pelo Tejo)


Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo

(Pusemos tanto azul nessa distância in Poemas de Natália Correia)

23 novembro, 2010

Há uma linha subtil que tu partiste

Às vezes no silêncio da noite, eu imagino-nos a nós dois: fico ali sonhando acordada, juntando o antes, o agora e o depois. Há uma causa cruel que não se sente, mas é a vida.

Às vezes sinto que te perdi no chão - como uma fonte que secou. Mas, se me ouves, não aqueças a dor da tua mente, nem a luz que nos olhos te subsiste.

Onde está você agora?


(Num dos cais do Ginjal, uma mulher elegante, com raça, provável pescadora, emerge das águas do Tejo)

há uma linha subtil que tu partiste
no medo desmedido mas contente
uma causa cruel que não se sente
mas é a vida  a terra que tu viste

se logo o vento vário não resiste
e a história ferida se desmente
não aqueças a dor da tua mente
nem a luz que nos olhos te subsiste

e se rires do pó o dissolver-te
em tanta coisa a cor que se mudou
na água tédio médio de só ver-te

corta as linhas maiores do que ficou
na sede de partir e de perder-te
no chão como uma fonte que secou

(Soneto de E.M.de Melo e Castro)

Às vezes despedimo-nos tão cedo que nem lágrimas há

O peso insuportável do amor, a despedida, o peso da voz, a solidão exposta, o desgosto.

Amei-te como se fosse a mais indefesa princesa; mas não sei se dura sempre esse teu beijo, amante dessa teia que o amor tece. Estás tão longe, nessa Lisboa que, distante, amanhece.

Às vezes despedimo-nos cedo demais.


(Lisboa que amanhece, vista do Ginjal, o Tejo azul de permeio)

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

("Às vezes despedimo-nos tão cedo" de Gastão Cruz, in “Poemas Reunidos”
)

20 novembro, 2010

O Ginjal (aqui visto da Ponte 25 de Abril) é um local próprio para os Poetas do Amor

Em dia chuvoso de cimeira da Nato - e de trânsito parado na ponte, não pela cimeira mas por acidentes - aqui deixo uma fotografia em que se (ante)vê a linha do Ginjal, caseando a orla junto ao Tejo, vista de cima da Ponte 25 de Abril.

Pela neblina, pela distância, é pouco mais que uma sombra mas aqui a deixo para te dizer que aquela que percorre os poemas atrás da tua sombra serei eu.

(Desde a ponta de Cacilhas, passando pelo Jardim do elevador Panorâmico)

Senão todos algum
de nós reproduz diversos os mesmos lugares.
E aquela que entra no verso para o
percorrer
atrás da tua sombra
serei eu.

(Poetas do amor de Fiama Hasse Pais Brandão)

18 novembro, 2010

Romeu Correia, Louro Artur, Ginjal, Tejo, Almada e a descoberta do que está tão perto de nós

Complemento o post anterior com fotografias feitas há pouco, seguindo a preciosa sugestão do Luís a quem agradeço, que me fez ir ver um painel de azulejos imenso, colorido, luminoso, inspirado, imponente, da autoria de um artista plástico também de Almada que eu, igualmente, desconhecia: Louro Artur.

O painel vai evoluindo de um registo realista até um mancha mais abstracta (não abrangida na fotografia)

Placa dedicatória do painel.

Gosto do que lá se escreve: 'a Romeu Correia que escreveu e lutou pela liberdade' porque a luta pela liberdade, seja em que contexto for, é das mais nobres causas pois a liberdade é um valor absoluto; mas, também, gosto de ler 'que tanto viveu e amou esta cidade'; é uma frase bonita, simples e que tem algo de poético. Há quem ame um sítio como se ama uma pessoa.  

Um pequeno texto sobre o fascínio pelo Tejo sob o rosto tão bem retratado.

17 novembro, 2010

Ginjal, uma dívida antiga para com Romeu Correia

Daqui desta margem te espreito minha amada Lisboa. Sempre.

(Pescador no lindíssimo pequeno jardim junto ao Elevador Panorâmico no Ginjal)

Ao contrário do que é costume hoje não é um poema que escolho para aqui colocar.

Hoje recordo Romeu Correia, figura querida em Almada, sua terra, figura da cultura que publicou numerosos livros, recebeu prémios literários - apesar de autodidacta. E dinamizou bibliotecas, escreveu em jornais, participou em tertúlias.

Além disso - e isso é o que agora me interessa, pois por isso o trago aqui - amou, como poucos, o Ginjal.

Foi pelas palavras dele que conheci este local mágico. Li num jornal, há muitos anos, um artigo em que ele dizia que a melhor vista de Lisboa era a que se tinha do Ginjal, que o Ginjal era um local de grande beleza e descrevia um passeio ao cair da tarde.

Fui lá e conferi. De facto. É um lugar como nenhum outro no mundo. Lisboa é linda vista daqui.

[Em qualquer outro local do mundo civilizado este seria um lugar de eleição, um lugar acarinhado, protegido, património mundial. Por cá está ao abandono, degradado, ofensivamente maltratado. Contudo, apesar do desmazelo autárquico e nacional, conserva a dignidade que os locais especiais (tal como as pessoas especiais) sabem preservar, sejam quais forem as circunstâncias.

Sei que há planos para revitalizar este local, não sei em que consistem, mas espero que sejam de qualidade e que sejam postos em prática. Tal como já referi há tempos no Um Jeito Manso escrevi há uns anos à Presidente da Câmara a sugerir que esta fosse uma zona de arte, com ateliers alugados a artistas, com galerias de arte, bibliotecas  e livrarias especializadas em arte, com restaurantes, bares, espaços de tertúlia, de música, etc. É assim, com edifícios de vidro, com uma arquitectura fantástica, que imagino este meu Ginjal.

Recordo também, em Amsterdão, um hotel em que fiquei, que em tempos tinha sido o edifício da Câmara, à beira de um canal, hotel fantástico que nunca mais esquecerei e imagino um hotel assim, em cima do Tejo: seria uma experiência única, com mercado garantido, mercado de qualidade.]

Durante anos, por razões diversas, afastei-me do Ginjal mas agora voltei e o fascínio é ainda maior. Não me canso de o percorrer, de o fotografar, de o divulgar.

E, por isso, me lembrei de Romeu Correia e por isso aqui deixo uma fotografia (tirada à noite) da bonita entrada do Fórum Municipal que, tão justamente, leva o seu nome. É a minha muito modesta forma de lhe agradecer, de aqui o recordar.
  
("Les beaux esprits se rencontrent")

O espírito de Romeu Correia para sempre habitará o Ginjal.

Se é sem dúvida Amor esta explosão de tantas sensações contraditórias, então explode coração!

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais para ocultar e eu não posso mais calar.

 Não dá mais para segurar: explode coração.

 E se é sem dúvida Amor esta explosão de tantas sensações contraditórias, não há dúvida, Amor, que te não fujo e que, por ti, tenho vivido eternamente presa!



(Perto da Fonte dos Amores no Ginjal, o JP deixou esta eloquente declaração de amor à sua muito amada Cris)

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

(Soneto do Cativo de David Mourão-Ferreira)


16 novembro, 2010

Nem todo o corpo é carne: no teu, meu amor, existe o mundo todo

Aqui no Ginjal, à beira do Tejo, te digo:
nem todo o corpo é carne, é também água, terra, vento, fogo;
é sobretudo sombra à despedida e onda de pedra em cada reencontro;
e é um fugidio vulto de primavera agora que estamos em pleno outono.
No teu corpo existe o mundo todo.
Eu possa dizer do amor: que não seja imortal, posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure.

(Uma tarde num cacilheiro a caminho de Lisboa)

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

(Presídio de David Mourão-Ferreira)

14 novembro, 2010

O poema lírico nasceu de uma roseira numa manhã no Ginjal

Era outono e eu estendi o teu corpo na areia das margens, tapando a tua nudez com os ramos de arbustos fluviais.  Pedi-te que me falasses, como se tu ainda soubesses as últimas palavras do amor.

Mas agora nem o tempo vai chegar para te dizer como te sinto longe de mim. É uma espécie de dor, nem sei explicar, nem sei o que esperar. Mas sei que te amo.




Uma rosa é uma rosa é uma rosa

Roseira num quintal do Ginjal, numa manhã de Outono, o Tejo e Lisboa em fundo


O poema lírico nasceu de uma roseira. Não
digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos
olham, primeiro que tudo, pensando
em cortá-la para a levarem consigo. É
a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,
vestida com a substância da terra
a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por
acaso, e ela agarra, como se tivesse
mãos abstractas por dentro das suas folhas

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,
como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio
de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher
que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva
dos lagos, os veios subterrâneos das humidades
ancestrais, e abriu-se como o ventre da
própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,
num  barco tão fundo como a sua própria
morte.
Abracei esse poema. Estendi-o na areia
das margens, tapando a sua nudez com os ramos
de arbustos fluviais. Arranquei os botões
que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor
verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe
que me falasse, como se ele só ainda soubesse
as últimas palavras do amor.
(Metáfora contínua de um único sentimento).

(Arte poética com citação de Holderlin, Nuno Júdice)