Cresci, mãe, cresci mas a menina que fui ainda existe dentro de mim. Tu sabes, mãe, que sou ainda a mesma. Tratas-me pelo mesmo nome com que me tratas desde que nasci. Tu e todas as pessoas que me conheceram então. Para ti e para todas elas sou ainda a mesma. E sou. É estranho porque já não teria idade para o ser. Mas sou. Alegre, curiosa, deslumbrada.Tomara que sempre assim me conserve, não é, mãe? Não quero ser velha, por muitos anos que já tenha e por muitos anos que ainda venha a ter. Não tenho feitio para me sentir e portar como uma velha.
E, quando me for, que vá voando, rindo, feliz, para desfrutar a liberdade dos grandes espaços. Com as aves. Como as aves.
Manhã de chuva no Ginjal - o Tejo picado e Lisboa envolta em névoa
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Gaivota quase parada no ar no céu do Ginjal sobre o Tejo
['Poema à Mãe' de Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"]
Video realizado por Lauro Martins e Manuel Capitão, no âmbito da UC Imagem em Educação, Mestrado Tecnologia Educativa - Universidade do Minho 2012
Tenho as mãos cheias de frutos proibidos e desses frutos faço oferendas ao rio pedindo que me traga um deus que me desafie, que lave a minha serenidade, que a leve, que me inquiete, que me levante no ar.
Desfolho-me e desenlaço-me e nua ofereço o meu corpo aos sonhos e danço doces melodias e canto palavras bravas, e peço graças e noites e fontes de onde escorra a mais interdita poesia.
Todos os dias, todas as noites peço, traz-me, traz-me um green god, que me faça tremer, que me faça gemer, que me faça querer. Voar.
Numa das pequenas praias do Ginjal
Green God dito pelo próprio Eugénio de Andrade
Trazia consigo a graça das fontes quando anoitece. Era um corpo como um rio em sereno desafio com as margens quando desce. . Andava como quem passa sem ter tempo de parar. Ervas nasciam dos passos, cresciam troncos dos braços quando os erguia no ar. . Sorria como quem dança. E desfolhava ao dançar o corpo, que lhe tremia num ritmo que ele sabia que os deuses devem usar. . E seguia o seu caminho, porque era um deus que passava. Alheio a tudo o que via, enleado na melodia duma flauta que tocava.
['Green God' de Eugénio de Andrade in 'As mãos e os frutos']
Senhora da Rosa, chamou-lhe Manuel Alegre e falava de Natália Correia. Uma rosa de amor e morte de uma poetisa que não aceitava a ditadura da razão (...). Ela era mais do que isso, era a pitonisa, a vestal iluminada, uma máquina de passar vidro colorido, como disse Mário Cesariny, referindo-se à sua dimensão cromática. Um documentário que nos leva ao encontro de Natália Correia, seguindo um caminho que ela própria traçou - A partir de agora, se alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão.
(Um documentário que nos leva ao encontro de Natália Correia.
Produção: RTP-Açores
Realização: Teresa Tomé
Autoria: Teresa Tomé
Origem: Portugal - 1999)
*
Filipa Pais - Em Todas as Ruas te Encontro (À Porta Do Mundo_2004), poema de Mário Cesariny
Havia um poeta. Tinha gatos, tinha afectos. Tinha livros. Escrevia palavras. Transformava músicas e cores em palavras.
Decantava a luz, as ervas, as pernas suaves dos rapazes, as flores, as mãos da mãe - e de tudo nasciam palavras inocentes como crianças.
Olhava a sombra da luz nos muros caiados de branco, olhava o voo das aves, aspirava o cheiro doce da fruta, do calor, da erva alta como uma haste, da glande como uma flor - e escrevia palavras límpidas como um dia de verão.
Esse poeta acompanha-me deste sempre, está agora aqui ao meu lado, silencioso, paciente.
E há um poeta que escreve sobre esse outro poeta. E que olha com carinho as palavras que nascem de outros poetas, e que acolhe as pinturas e as músicas e as mulheres e o desejo forte - e, depois, os transforma em poemas que contam histórias e soam como uma toada que já existisse antes de nascer.
Está também aqui, esse poeta, irónico, galante.
Das palavras destes e de outros poetas me alimento eu que aqui estou nesta noite quieta e boa depois de ter caminhado rente ao rio, aspirando a maresia e a cor quente das tardes sobre as paredes.
Junto a mim seguia a minha sombra e a sombra daquele cuja vida se misturou com a minha.
O afecto impresso nas paredes que o tempo dourou
Impressos nas paredes douradas, seguíamos, eu pensando em palavras que traduzam o que vejo - os abraços dos casais que se descobrem, os barcos que, lentos, em silêncio, deslizam no rio, o sol que mergulha no meio de chamas, a ponte que parece um rendilhado sobre o horizonte, a fantástica gaivota que se eleva e cruza o espaço como uma deusa alada - ele, ouvindo-me, esperando por mim, uma boa companhia, um permanente abraço.
Afectos e palavras, cor e silêncio, luz e voos livres.
Assim é a minha vida, uma vida leve, habitada pelas palavras que os poetas soltam no espaço e que voam, luminosas, livres, sobre os rios, que voam, cheias de cor e afecto através dos céus, que se aconchegam, bondosas e em silêncio, quando o meu amor me dá a sua mão.
[Abaixo da gaivota que voa como uma deusa, está o poema de Vasco Graça Moura sobre Eugénio e, a seguir, mais uma grande interpretação de Chick Corea, desta vez com Keith Jarrett tocando Mozart]
Gaivota voando sobre o Tejo, com a ponte 25 de Abril em fundo
sei de pintores que se inquietavam por
pressentirem uma relação entre a cor e a palavra.
era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
a luz entardecia, muita gente se afadigava no
lento regresso a casa, as aves recolhiam e
eles sabiam que havia alguém para falar
das águas e das luas e da sombra
das cores, dos gestos entre as hastes e os farrapos
do silêncio. seria à mesa do café, numa
sala cheia de livros, num vão de escada a caminho
do atelier que lhe propunham essa
revisita das fontes, das perturbadas melancolias
que ele havia de dizer por palavras no papel.
mostravam-lhe os trabalhos, esperando as
justas perífrases, os ritmos em que haviam de rever
a sua fome do real nas artes da pintura.
era o cruzar das solidões comovidas: tudo
seria reescrito, portuense, partilhado
com uma densa, irisada exactidão, lá onde
umas pétalas da música começam
a partir de uma cor ou de um murmúrio,
de um rosto ou de uma nuvem,
de uma explosão do sol, de uma agonia.
era nos anos sessenta, era em s. lázaro.
['eugénio e os pintores' de Vasco Graça Moura in 'visto da margem sul do rio o porto', uma antologia poética com fotografias de Maria Manuela Graça Moura e aguarelas de António Cruz - um belo livro, vos digo eu]
*
Encontrar,
encontraste Poeta
a luz exacta das palavras
o vento, a brisa lenta
rente
à voz dorida
das sílabas anunciadas.
Em ti
o rigor branco da cal
um olhar eterno de uma Mãe
que nas crianças se prolonga.
Em ti, agora,
o amor liberto da carne
a sombra do tempo que se repousa
na folhagem branda
das árvores que olham o mar.
['A eugénio de Andrade' de Joaquim Castilho no comentário abaixo]
A solidão intransponível, a incompreensão sem remissão, a estranheza de que dá vontade fugir.
Pelo contrário, a atraente largueza dos espaços, o mar, o horizonte aberto e limpo.
E, então, sentindo o vento, eu, daqui, olhando-te ao longe - nós dois tão distantes, quase estrangeiros - penso que não sei se quero transpor esta distância. As minhas pernas, o meu peito, a minha boca. Eu. Eu aqui. Tu, ao longe, distante, visto daqui tão insignificante.
Dizes querer-me. Dizes querer as minhas mãos, os meus afagos, os meus beijos. Fazes poemas em que toda eu estou num altar. Dizes que eu sou a tua razão de viver, a tua única razão. Exageros.
A verdade é que não sabes amar-me como eu quero ser amada. Que me interessa ler que as minhas pernas são colunas triunfantes, que o meu peito é fluido, feito de água, que a minha boca tem a cor de um fruto que apetece comer? Que me interessa isso? São palavras, só palavras.
Onde os gestos? Onde os actos?
De que me serves tu, estando assim, tão longe de mim? De que me servem palavras loucas quando a minha boca sente o travo tão amargo da solidão?
[Abaixo do belo poema de Eugénio de Andrade, abro a semana dedicada a um novo compositor, Elger. Um prazer a sua música]
Fim de dia à beira do oceano
O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;
o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece
navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror,
são a grande razão, a única razão.
['Litania' de Eugénio de Andrade in 'Os poemas da minha vida' de Miguel Veiga]
Ia chover. Tinha também acabado de chover. Entretanto, um pouco de sol espreitava por entre as nuvens. O rio estava agitado e uma gaivota gritava, gritava lancinantemente, soltava gritos loucos no cimo desta parede arruinada. O vento levava um pequeno veleiro que passava, indefeso e destemido, numa correria.
Do chão molhado vinha um cheiro a primeiras águas misturado com uma maresia húmida e fresca. E a gaivota continuava a soltar, ao vento, desesperados gritos, enchendo, assim, o espaço de drama. É outono. Há muito que o verão se foi. É outono e este local veste-se de uma luz intemporal, de sons puros, bárbaros, de uma alegria misteriosa, de uma alegria que temos vontade de esconder.
Ando por aqui, respiro o perfume das ondas, lavo o olhar no linho espesso das velas, roço as mãos nas paredes gastas onde a vida se deteve. Reparo, então, que não estou só. Uma outra, como eu, olha agradecida as águas que correm, escuta o chamamento da gaivota enlouquecida, espera a chuva. Espera. Choveu e vai voltar a chover e ela abriga-se, os olhos lavados, o olhar frontal, aberto. Em volta dela voam as palavras molhadas pela maresia, pela chuva, as palavras que contêm a voz silenciosa dos deuses.
Olhamo-nos nos olhos, reconhecemo-nos, somos iguais, mulheres frágeis e livres.
[Abaixo da gata do Ginjal, poderão ver um belo poema de Eugénio de Andrade que me foi enviado por uma leitora a quem muito agradeço e, logo abaixo, um momento muito especial: música, canto e dança - é Monteverdi que abre esta semana]
Gata vadia, no Ginjal, abrigada sob uma janela em ruínas
As primeiras chuvas estavam tão perto
de ser música
que esquecemos que o verão acabara:
uma súbita alegria,
súbita e bárbara, subia e coroava
a terra de água,
e deus, que tanto demorara,
ardia no coração da palavra.
['As primeiras chuvas' de Eugénio de Andrade, in Rente ao Dizer]
A aragem tépida que vinha do rio trazia-me uma toada lenta, esparsa. As gaivotas voavam brandas, as pessoas de fora passavam olhando com assombro a beleza do outro lado, um rapaz passava de bicicleta e, a instantes, como se viesse trazido por um leve sopro, chegava-me um breve acorde, notas soltas.
Talvez uma gaivota estivesse trazendo a música dos céus. Ou talvez uma nuvem tivesse deixado cair o som dos deuses.
Até que, antes encoberto pelo farol, vejo um rapaz tocando guitarra. Passei junto a ele. A música confundia-se com o rumor das águas, com os sons do barco que atracava. Mas, indiferente ao mundo, o rapaz dedilhava e a música subia no ar. Deixei-me estar imóvel. Um momento único. Tudo quase demasiado perfeito.
De que falavam os dedos do rapaz ao dedilhar as cordas da sua alma? Da sua vida? Do seu amor? De males que ainda está apenas a começar a conhecer? De como o mundo parece um deserto quando nele falta o sorriso de que nos alimentamos?
Ou estaria simplesmente a agradecer a felicidade sem preço de estar vivo, de estar a fazer música, de se sentir abençoado num local tão sagrado como aquele?
Sem vontade, afastei-me mas dentro de mim levava ainda a música que ia acariciando aquele espaço azul e trémulo no qual as palavras se rarefazem.
[Abaixo da imagem, um poema mais de Eugénio de Andrade, desta vez sobre a música e, logo a seguir, justamente, a música em festa: é a abertura da semana que vou dedicar a Béla Bartók]
Há semanas atrás, música à beira Tejo, olhando Lisboa, a Bela
A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração - por fim
o branco do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.
['É assim, a música' de Eugénio de Andrade in 'Os lugares do lume']
Quantas bocas beijei? Em quantas casas entrei? Em quantos corpos entrei?
Não interessa?
Eu acho que não, que não interessa.
Em cada um corpo procuro a minha casa. Cada homem tem uma única casa. Muitas outras pode frequentar mas, de entre todas, uma única será a sua casa.
Olho o rio e peço a verdade. Diz-me, diz-me que é esta a mulher que eu amo de verdade e que não preciso de procurar mais.
Sinto-te, agarras-me as pernas, ris, brincas. Mas não basta.
Deixa-me sentir no teu corpo o sol que entra pela janela e pousa na parede, deixa sentir na tua pele a aragem que sopra de mansinho como numa cortina que ondula com leveza, deixa, deixa sentir a tua pele como se sentisse a colcha da nossa cama. Quero sentir-te tão familiar como a casa à qual quero regressar.
Olho o rio, olho ao longe, olho a luz que se reflecte nas águas e peço a verdade. Diz-me que és a minha casa, o meu rio, o corpo que me acolhe. Deixa-me olhar os teus olhos que eu quero ver-me neles. Quero que sejas sempre o espelho que me reflecte, quero que o teu olhar me diga o que sou.
Diz que sim, que és a minha mulher, o meu amor, a minha casa. Quero ouvir a tua voz como se fosse o eco da minha entre as paredes da minha casa. Deixa-me ver-te, ouvir-te, sentir-te.
Despe-te como se estivesses a abrir a cama para eu me deitar, deixa que eu beba a água fresca do teu corpo, deixa que eu entre em ti e acenda as luzes do teu olhar, deixa, deixa.
Olho o rio e penso que te amo tanto, mas tanto que acredito que quem nunca amou assim não sabe, não pode saber, o que é viver. Olho o rio e quase peço que rebentem as águas, que venham, que venham as águas, que nos lavem, que nos abençoem, que cubram os nossos corpos para sempre unidos.
[Logo abaixo da imagem, um poema de grande beleza de Eugénio de Andrade. Ao contrário de um dos critérios secundários que costumo seguir, o de não serem muito longos, este é um poema longo. Mas a sua invulgar beleza leva-me a esquecer o tamanho. Logo a seguir um casamento segundo Wagner.]
À sombra rendilhada de uma árvore, no Jardim do Ginjal, bem rente às águas do Tejo
Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria, nem outro espelho,
nem outra casa.
É de um rio que falo, desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.
Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.
Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.
E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.
E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.
De luz?
Que sabemos nós
dessas nuvens altas,
dessas agulhas
nuas
onde o silêncio se esconde?
Desses olhos redondos,
agudos de verão,
e tão azuis
como se fossem beijos?
Um corpo amei,
um corpo, um rio,
um pequeno tigre de inocência,
com lágrimas esquecidas nos ombros,
gritos
adormecidos nas pernas,
com extensas,
arrefecidas
primaveras nas mãos.
Quem não amou
assim? Quem não amou?
Quem?
Quem não amou
está morto.
Piedade,
também eu sou mortal.
Piedade
por um lenço de linho
debruado de feroz melancolia,
por uma haste de espinheiro
atirada contra o muro,
por uma voz que tropeça
e não alcança os ramos.
De um corpo falei:
que rompam as águas.
['Espelho' de Eugénio de Andrade' in 'Mar de Setembro']
Nesta terra que é também a minha, que tem um rio largo como um imenso mar, há um céu tão azul, mas tão azul, que corre a banhar-se nas águas que deslizam com doçura.
E, nessa água azul como um grande céu há, às vezes, pequenas plumas brancas, leves, imateriais. Quem as veja de longe mal saberá dizer se são as velas dos pequenos barcos que dançam no rio, ou puríssimos pássaros ou anjos que desceram do céu para aí flutuar.
Quando, bicho da água, desço até ao rio, passo por grandes muros detrás dos quais saem rosas bravas encarnadas ou rosas albardeiras cor de pérola, ou pequenos cardos macios e lilases ou hastes flexíveis de silvas. Na terra por detrás destes muros há grandes eucaliptos que se erguem altíssimos ou que deixam cair os seus ramos pesados e cheirosos ou pedaços da casca de que se vão desfazendo.
O meu país tem gente de vistas curtas, tem gente pequenina, vingativa, aborrecida, tem gente deselegante, pouco inteligente, tem tudo isso. Mas tem também muita gente de vistas largas, gente generosa, que olha os outros com carinho, gente abnegada, gente que se faz ao caminho de peito feito, que se faz ao mar com coração de leão, gente que ama as rosas, as silvas e as suas doces amoras escuras, gente que ama as palavras e as pontes que elas desdobram.
O meu país é pequenino mas é imenso na sua beleza luminosa e nas límpidas palavras dos seus grandes poetas.
[A seguir à fotografia, Eugénio de Andrade fala-nos de um país com amoras que trazem o sabor do verão aos muros brancos e, logo a seguir, temos os pescadores de pérolas a abrir a semana dedicada a Bizet.]
Descendo para o Ginjal, rosas bravas e esguias silvas emoldurando a Ponte sobre o Tejo,
com pequenos veleiros brancos pontuando o rio junto à Torre de Belém
O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
['As amoras' de Eugénio de Andrade in 'Os poemas da minha vida' de Miguel Veiga]
Um ser esquivo passa por entre as ramagens na manhã ainda penumbrosa, enevoada. Vai, uma silhueta afrontosa, talvez um demónio. Ou apenas uma sombra esgueirando-se por detrás do rochedo. Em silêncio, guiado pelos poemas que povoam a sua mente, avança rente ao abismo do horizonte.
Numa outra noite alguém o viu rondando o baile em que rapazes e raparigas, junto ao rio, cantavam e dançavam. Alguém viu o seu vulto e logo fugiu, num susto. Uma mulher jura que uma noite ele roçou a sua janela, viu a sua fugaz silhueta passando breve e que logo, amedontrada, se escondeu, afogueada, debaixo dos lençóis.
À tarde, sentados na relva, sob a árvore quase despida, um grupo de homens e mulheres fala desta estranha e fugidia aparição. Será real? Será apenas fruto da imaginação?
As mulheres dizem que é humano, que é alto, bonito, atrevido, despudorado e dizem que, quando passa rente a elas, o ouvem a dizer toadas ritmadas, poemas desfiados como contas, que lhes sussurra palavras quentes junto ao pescoço que logo se arrepia. Os homens, então, dizem que é um ser perigoso, perverso, que elas não deixem que ele se aproxime, que elas os avisem logo que sintam a sua presença, que eles logo lhe atiçarão os seus cães raivosos.
As mulheres então calam-se e baixam os olhos.
Cada uma sabe que ele, mais que demónio, é um fantástico anjo alado, um anjo viril que as sabe acariciar como nenhum daqueles homens que ali está, um poeta sonhador e esquivo que usa as palavras como se as beijasse e que, de cada vez que as ama, é como se fosse a primeira vez, como se fossem virgens.
[O Unicórnio pede uma música transbordante de paixão - por isso, desça, por favor, que logo ali abaixo do poema há uma interpretação transbordante de emoção sobre uma música que é um fogo ateado]
Numa manhã fria no Jardim do Ginjal, cão fareja o Unicórnio
É o mais solitário, o mais esquivo,
o mais sonhador dos animais,
o unicórnio - a cadência dos versos
guiando-lhe os passos. Alguns
dizem tê-lo avistado ao crepúsculo
da noite, aproximando-se apenas
de raparigas e rapazes virgens
ainda. Não sei de quem o tenha
acariciado. Há os que pensam ser,
graças ao corno desmesurado
e afrontoso da sua viriliadade,
encarnação do demónio. Talvez por isso,
os homens mal lhe pressentem o cheiro
atiçam-lhe raivosos os seus cães.
('O Unicórnio' de Eugénio de Andrade in 'Os lugares do lume')
Neste dia frio e envolto numa diáfana névoa, deixo-me ir pela beira do rio, vou sem pressa, sem fito, vou simplesmente.
As árvores vergam-se húmidas, parecem tristes, e eu vejo através delas, quero véus, filtros, não quero hoje imagens nítidas, incomoda-me a frieza dos limites puros, incomoda-me a certeza das figuras objectivas. E assim vou, desloco-me carregando o meu sonho, deslizo invisível junto aos gatos vadios, olho os pássaros que se elevam, que chegam, que partem.
E, então, reparo neste barco que avança sobre o rio, lavra a água com suavidade, as velas abertas ao vento, que vai lento mas decidido, sabe onde quer chegar, certamente alguém de olhar molhado o espera, certamente.
Avança este veleiro e um pássaro de grandes asas voa à sua volta e eu na margem, invisível, sonhadora, vejo-o seguir, vejo-o partir.
Através das árvores, através destas cortinas de folhas escorrentes, de lábios mordidos pelo vento, pelo frio, pelos sonhos por cumprir, vejo-o partir.
Algures, numa qualquer travessa, ao raiar da aurora, alguém o espera. Alguém, não eu. Adeus, adeus.
[Começa hoje, aqui, a semana Mozart. Desça um pouco mais. A seguir ao poema entrará na semana da criatividade à solta, do sonho, da alegria e da tristeza, das emoções sem limite.]
No Jardim do Ginjal, barco lavrando o Tejo, Lisboa já ali
Agora vou falar da preguiçosa e fina
névoa entre os olhos e o rio.
Às vezes passava um barco.
Era como um arado lavrando
no meu coração a terra morta.
À proa o vento salgado dos pinhais.
Não sei para onde ia.
Devia haver em qualquer parte
um porto para o seu desassossego,
alguém de olhar molhado no cais
à sua espera. Numa cidade
pequena do Norte. Alguém
com nome, talvez Kai, os lábios
mordidos pelo vento, Kai
Haagen, no porto de Göteborg,
na costa da Suécia. Adeus, adeus.
('Alguém com nome' de Eugénio de Andrade in 'Os lugares do lume')
Passou mais um dia, mais um ano. Passou. A vida que vai avançando, assim, um dia, depois de outro dia, um ano, e mais outro, arcos de solidão sobre os olhares que se sentem vazios. Os meus olhos não te vêem, os teus olhos não me vêem. Por vezes há uma gota que cai, talvez seja chuva, talvez seja uma lágrima perdida.
Por vezes um pássaro levanta voo e eu penso que és tu ou que sou eu, alguém que vai à procura da sua vida num outro lugar. Mas, então, o pássaro volta e vem para perto de mim e eu penso que és tu, a tua alma de pássaro livre, que vem até mim. Será? Serás tu também que voas sobre o veleiro de brancas velas que se faz ao mar e por mim passa quando eu passo rente ao rio? Serás tu, meu pássaro secreto?
E assim, vendo-te nos pássaros de longas asas que atravessam os vastos espaços, vendo-te nos veleiros que deslizam no rio, ouvindo dentro de mim o teu riso e vendo, no fundo do meu coração, o teu doce olhar, vou deixando que os dias se passem entre arcos de solidão.
[E, hoje que voamos entre arcos de solidão, não deixe de descer um pouco mais que Schubert nos espera, sublime]
Homem só na ponte que leva ao Elevador Panorâmico
O Tejo, o casario do Ginjal, Lisboa
Hoje venho dizer-te que nevou no rosto familiar que te esperava. Não é nada, meu amor, foi um pássaro, a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.
Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.
(Canção de Eugénio de Andrade in '366 Poemas que falam de amor', antologia organizada por Vasco da Graça Moura)
O teu olhar em mim. O teu olhar. Os meus olhos que me mostram os teus olhos e que emudecem, lágrimas por detrás, saudades imensas, impotência, impotência, tu ali tão perto e, no entanto...
Regressaste mas de passagem. Já não é a mim que regressas todos os dias. No verão longínquo do nosso terno amor morri um pouco. Mas não te disse. Para quê? Para quê se tentei, logo a seguir, renascer?
Regressaste, e o teu sorriso doce entrou em mim, com o calor que as tuas mãos não me puderam dar. Ah como eu queria um abraço, um quente abraço. Mas regressaste. Vieste sorridente, meigo, e não há lugar na terra em que o sorriso seja mais doce que o espaço que se fecha em nossa volta.
Mas o verão ficou para trás há tanto tempo. Temos agora um outono e os espelhos já não devolvem a imagem de um casal luminoso, feliz, abraçado. Não, os espelhos ficaram cegos, escuros.
Mas estou a iludir-me - não, meu amor, não regressaste, no amor não há regresso, tudo é um labirinto. Perdemo-nos no labirinto. Estamos perdidos no labirinto.
[Desça um pouco mais - a seguir ao labrinto e às dissonâncias de Eugénio de Andrade, Glenn Gould desfia as Variações Goldberg.]
No Ginjal, sobre o Tejo, olhando Lisboa
Pedra a pedra
a casa vai regressar.
Já nos ombros se sente o ardor
da sua navegação.
Vai regressar
o silêncio com suas harpas.
As harpas com as abelhas.
No verão morre-se
tão devagar à sombra dos ulmeiros!
Direi então:
Um amigo
é o lugar da terra
onde as maçãs brancas são mais doces.
Ou talvez diga:
O outono amadurece nos espelhos.
Já nos meus ombros sinto
a respiração das suas águas.
Não há regresso: tudo é labirinto.
('Dissonâncias' de Eugénio de Andrade in Antologia Breve)