Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
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24 maio, 2012

Podes até esconder-te amuar de nariz


Atiras o prato ao chão, dás um pontapé na parede, viras-me as costas, bates com a porta, sais de casa,  não respondes quando te chamo, sentas-te a olhar o rio como se fosses uma prima donna, e justificas-te perante ti próprio dizendo-te amuado, zangado, ofendido.

Antes desta cena, quando te perguntei o porquê de tamanha tragédia, a resposta foi o silêncio, fazias-te de magoado, uma vítima, (coitado, quem não te conhecer que te compre).

Sempre ciúmes, mal entendidos, sempre. Davas a entender que havia coisa, (olha o santinho, como se eu não soubesse dos olhinhos sempre postos no decote da vizinha), mas não, que eu é que mostrava as pernas e mais não sei o quê, (és mas é parvo, mas então eu não te vejo a olhares as pernas da vizinha? e, olha lá!, por quem me tomas?)

E que um dia te ias embora, que te metes no primeiro navio que aqui passe, farto de chegares a casa e o jantar ainda não estar posto, (mas vem mais cedo e põe tu a mesa, olha-me este), e que pinto os lábios quando saio de casa, (e que mal tem isso?, e quem és tu para o dizer, que todo te derretes a olhar as boquinhas da vizinha?)

Saíste, zangado e agora estás aí sentado, amuado. Fiteiro, fiteiro, que raiva.

Olha, sabes que mais? Deixa-te estar que estás aí muito bem, enquanto aí estás não me arrelias.

E fica aí muito tempo que, assim sendo, vou vestir o saia e casaco e vou dar uma volta. Pode ser que apareça alguém que me saiba dizer palavras doces ao ouvido, alguém que me compreenda, sílaba a sílaba, letra a letra, alguém que me soletre devagarinho.

Por isso, deixa-te aí estar sossegadinho a olhar o rio, estás aí muito bem.



[Bem... a seguir mais um curioso poema de João Paulo Cotrim e, logo abaixo, uma bela interpretação de Falstaff, e, claro, é ainda Verdi]


Entardecer junto ao Tejo



                             Olhai como bem tombam os instrumentos
                             ilustrando uma sentada tragédia tua
                             podes até esconder-te
                             amuar de nariz
                             mas não te deixo   ajudem   não o deixes
                             exilar-se
                             Veneza lubrifica como velha puta
                             enrouquece e disfarça
                             antes que a cortina dispa os bastidores
                             mas soletra-me
                             tocando língua no ouvido
                             o soneto dos palcos de bolso
                             saia e casaco
                             saiam


                             [Poema, pag.34, de João Paulo Cotrim in 'Má raça - 22 canções']
                           
****


Aqui de SINGAPURA

Este pode ser o lugar imaginário
para o amuo de nariz
de razão
ou de raiz

Esta pode ser a cidade
que cura o desencanto
abafa o pranto
o limite para além do limite
a tristeza
o cansaço
a rotina encardida
as parvoeiras da vida

E quando a zanga apaga a frágil luz 
por pouca ainda acesa
e quando o nevoeiro se adensa
e a coisa dura...

esqueço-te
.................
e depois lembro-me
que te queria aqui
vagueando comigo em Singapura...


[Poema da autoria de 'Era uma Vez' in Comentário aqui abaixo]

23 maio, 2012

Eu posso beber um rio afogar-me nele inundar-me inundá-lo

         
Este rio azul que aqui corre vai para onde? Vai para dentro de ti? Este é o rio que te percorre? 

De que intangível água é feito este rio? De desejo?

A vida que vibra nas cordas azuis deste rio que entra em ti e que te banha o coração, é uma vida cheia das nossas histórias, das nossas lágrimas e sorrisos, do nosso muito bem querer. 

Não sei porquê, mas também não quero saber, por vezes entras nesta água azul e dissolves-te como um peixe azul, como uma alga verde, e eu perco-te. Onde andas, minha amada, onde andas?, pergunto eu às sombras que se desenham na superfície espelhada do rio.

Fico, então, sentado na margem, olhando a maresia branca, tentando descobrir numa qualquer gota perdida uma pequena imagem de ti, olhando os grandes navios que talvez te tenham recolhido, aspirando o vento que talvez te traga, minha amada.

Mas, depois, quando a luz do farol começa a girar ou quando uma gaivota atravessa o espaço gritando, soltas-te das águas, deslizas húmida até mim, abres-te sôfrega e bela, e eu afogo-me, então, no rio que és tu. Minha mulher, minha amada mulher que sais das águas para vir incendiar o meu desejo, deixa que beba, que te beije, que te inunde.



[Abaixo da fotografia, poderão encontrar um poema do novíssimo livro de Casimiro de Brito e logo a seguir, um maravilhoso dueto com vozes vindas do céu e, claro, continuamos com Verdi.]



Há pouco, mesmo rente ao Tejo azul, mesmo em frente de Lisboa - um belíssimo sol dourado.
(Visível um grande paquete atracado e, por trás, o belo edifício azul da Gare de Sta Apolónia] 


                              Eu posso beber um rio
                              afogar-me nele inundar-me inundá-lo
                              mas não posso queimá-lo não posso queimar o rio amado
                              e deixar-me dormir a seu lado -
                              eu posso beber um rio o teu rio
                              ou uma lágrima e cantá-la
                              o que não posso não sei não seria capaz
                              é afogar-me no rio amado e continuar
                              em paz.


                              ['Ilhas adriáticas. VII' de Casimiro de Brito in 'Amar a vida inteira']

21 maio, 2012

A perfeita, quase económica, concisão de um gesto que nos dispensasse da fala


Num fim de uma tarde silenciosa e imóvel, um homem e uma mulher sentam-se rente ao rio, de frente para o suave cenário de Lisboa. Passo perto deles e parecem conversar mas eu não os ouço. Mas vejo que olham coordenadamente no mesmo sentido. Olham em frente e olham os dois, depois passa um navio e ambos os seguem com o olhar, depois há qualquer ponto a meio e o olhar de ambos converge para esse ponto. Há ali uma coreografia harmoniosa dos olhares. Talvez já nem precisem de falar para que os olhares interpretem essa coreografia.

Neste entardecer de absoluta quietude nem os navios gemem na atracação, nem se ouvem gritos de gaivotas, nem passam carros que perturbem o silêncio. Parece que uma súbita paz desceu sobre este homem e esta mulher que parece dispensarem as palavras. 

Pairo por aqui, pela beira do rio, gaivota em terra esperando o momento certo para voar, mas dou por mim movendo-me também em silêncio. Lisboa, do outro lado, é uma pintura silenciosa, pequenas casas brancas e douradas, telhados rosados, e daqui parece ser apenas um desenho sem pessoas, sem ruído, sem mágoas, apenas um desenho minucioso de casinhas sossegadas.

E, então, do céu prateado nasceu uma luz dourada, que trouxe movimento e alegria a este espaço silencioso em que as palavras já não eram necessárias.

Nessa altura, o homem e a mulher levantaram-se ao mesmo tempo, olharam para trás ao mesmo tempo, uma última vez olharam o rio e Lisboa, e abraçados, levados por longas asas douradas, seguiram noutra direcção. Passaram por mim em silêncio. 

Claro que não me viram porque nessa altura também já eu voava, banhando-me na inesperada luz dourada que nascia do rio silencioso.



[Logo abaixo deste homem e desta mulher silenciosos que banhavam o olhar na luz que dourava Lisboa, poderão ler um belo poema de Tatiana Faia. A seguir um coro que jamais me cansarei de ouvir, Va, pensiero, sull' ali dorate]



Na beira do Tejo, num fim de tarde cinzento que, de repente, se pôs dourado, iluminando Lisboa



                           na superfície dos dias o vidro do inverno
                           sobre a praia é de repente demasiado
                           longo demasiado pesado esta indecisa
                           melancolia que habita o espaço de cada
                           pequena vitória ou de cada pequena alegria
                           precipita-se numa palavra anterior
                           à pele eu escuto-te e é apenas uma sílaba
                           o corte de um fruto à superfície
                           a perfeita quase económica concisão
                           de um gesto que nos dispensasse da fala


                           ['Outros Pássaros - V' de Tatiana Faia in Lugano]

No fundo da ternura há um som de lágrimas


Tu que olhas indiferente os valorosos navios que parecem navios de sonhar

e que olhas, solitário, em silêncio, esta água onde o sol se afoga para, todos os dias, depois, renascer, 

tu que te deixas levar magoado pelas lembranças de barquinhos de papel e infantis fantasias, 

tu que te ergues sombrio para que a tua vida desfile, desalentada, ante os teus olhos banhados desta luz mansa que vem das nuvens,

tu que não sentes a chuva, o frio, o vento, os sorrisos, as palavras que afagam,

tu que, só por vezes, deixas que a ternura que atravessa os tempos se chegue até aos teus olhos, 

                  esquece as mágoas, esquece os desencantos, esquece os tristes entardeceres, esquece as lágrimas, as quedas, as perdas. 

                       E deixa que a vida clara, luminosa, promissora, envolta em ternura, para sempre preencha os teus dias.



[Abaixo poderão o terno poema de Soledade Santos e, logo a seguir, abro a semana com La Traviata - é Verdi e a música que vibra plena de fulgor]



Em Cacilhas, no domingo, Dia da Marinha, a Sagres engalanada e um submarino em primeiro plano
O Tejo azul, tingido de verde



                         No fundo da ternura há um som de lágrimas -
                         água clara onde o sol do entardecer
                         odoroso se deteve;
                         vem das lembranças, cristais de sal,
                         chispas na pele esfolada pelos jogos
                         infantis e as perdas
                         de que a vida nos preencheu os dias.
                         Companheira amável do desencanto,
                         outra forma afinal de dizer mágoa.


                          ['Da ternura' de Soledade Santos in 'Sob os teus pés a terra'

14 maio, 2012

Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente onde sempre esteve


Tu que me lês, Leitor ou Leitora, permite que te pergunte: que balanço fazes da tua vida? 

Andaste sempre dentro de ti, percorrendo os ajustados caminhos do destino que escolheste? Ou andaste por fora, quero dizer: por fora de ti, percorrendo caminhos que te são estranhos? 

Por onde passaste deixaste um rasto, deixaste ao menos que a tua sombra ficasse presa num qualquer recanto onde, quem a veja, ainda se lembre de ti? Ou já nem te lembras dos caminhos remotos por onde a tua sombra se arrastou indiferente?

Recordas cada ano da tua vida, relembras o que fizeste, o que viste, o que amaste? Ou a tua vida tem manchas negras, vazias, que desaparecem da tua memória, sem saudades, sem história?

Saboreaste cada momento: esta é a minha casa, esta é a casa que tem o meu cheiro, as minhas cores, os meus objectos, os meus afectos? esta é a cama em que me deito, tão minha, os meus lençóis, a almofada onde deito a minha cabeça? esta é a porta que transponho quando entro dentro da minha casa, dentro de mim? Apreciaste e agradeceste a sorte de teres uma porta que se abre para dentro de uma casa que tem o teu cheiro e onde a tua sombra se acolhe em paz? Ou transpuseste com apatia e tédio a tua porta como se fosse a porta de uma qualquer casa estrangeira?

Olhaste, com agradecimento e amor, os olhos de quem te ama e que fala contigo uma língua que é feita de silêncios, cumplicidades, beijos? Ou ignoraste o carinho de quem te olhava com os olhos felizes de quem regressa de longe, de outra estação do ano, de outro mundo, apenas para se deitar nos teus braços?

Responde para ti, apenas para ti. Ou, então, diz-me em segredo.



[Abaixo mais um belo poema de Manuel António Pina, um Poeta que é muito cá do Ginjal e, logo depois, um momento sublime, regnava nel silenzio - e, é, claro, ainda Donizetti]


Hoje antes de anoitecer, em Cacilhas, olhando o Tejo e Lisboa e um navio que tinha entrado no rio


                                Como quem, vindo de países distantes fora de
                                si, chega finalmente aonde sempre esteve
                                e encontra tudo no seu lugar,
                                o passado no passado, o presente no presente,
                                assim chega o viajante à tardia idade
                                em que se confundem ele e o caminho.

                                Entra então pela primeira vez na sua casa
                                e deita-se pela primeira vez na sua cama.
                                Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
                                cidades, estações do ano.
                                E come agora por fim um pão primeiro
                                sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


                                 ['O regresso' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa']
                   
                 

09 maio, 2012

Trago em mim um exército perdido algures no meio de uma estrofe


Há a multidão, há 'toda a gente', seres todos parecidos, todos normais. O tempo avança e, com ele, vai andando a multidão que se vai renovando mas mantendo-se sempre igual. É um exército anónimo, imóvel apesar de parecer mover-se, é um exército de gente que fala palavras normais, que fala com voz normal.

No entanto, por vezes, no meio da multidão um homem ou uma mulher levanta-se e fala palavras diferentes ou fala com uma voz diferente. A multidão parece então agitar-se, quem é este?, que diz ele? o que quer? e tentam rejeitar o corpo estranho.

Esse homem ou essa mulher, no entanto, não escutam a voz inerte e baça da multidão, essa vasta mole de humanos que caminha de olhos fechados, de boca fechada, de braços caídos. Esse homem ou essa mulher que se levantam falam uma língua desconhecida, usam palavras que pertencem a cantos longínquos que vêm do princípio dos tempos, palavras misteriosas que anunciam o esplendor (e, por vezes, também, a desgraça). Caminham cercados de luz, essa luz primordial que une os intangíveis infinitos.

A multidão ulula, não te queremos, és velho, está doido, não sabes o que dizes, cala-te, ninguém te compreende, vai-te embora, não fazes cá falta - tirem-no daqui!

No entanto, o homem ou a mulher que se levantaram, de peito feito, de bandeira esfarrapada na mão, lágrimas nos olhos francos, continuam, mesmo que, por vezes em surdina, a dizer palavras puras que soltam no vento, palavras que procuram a paz, a música, a beleza, a inexpugnável harmonia, a poesia. 

Esse homem ou essa mulher são os mais lúcidos de toda a imensa multidão, vêem mais longe, vêem para além dos tempos - são os Poetas.



[A seguir à fotografia do velho pescador que regressa a casa, poderão encontrar um novo e belo poema de Manuel Alegre e, logo depois, o toreador da Carmen de Bizet]


Há pouco, perto do cair da noite, velho pescador abandona o Ginjal (o Tejo de um azul glorioso)


                      Trago em mim um exército perdido
                      algures no meio de uma estrofe
                      da saga escrita em língua desaparecida.
                      Eu próprio sou esse exército sem sentido
                      e esse país de bandeira esfarrapada
                      que tremula num campo onde perdura
                      a sílaba mais pura desse canto
                      que por qualquer mistério ecoa em mim
                      em horas de esplendor e de desastre.
                      Talvez porque eu seja o sem sentido
                      desse exército perdido numa estrofe
                      e essa bandeira e esse país e esse fim


                       ['Saga' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito']
             

12 abril, 2012

Menos derramada a letra, estende-se harmoniosa, secreta, invernosamente fraterna


Há tantas, tantas coisas que eu não posso fazer ou evitar. Nem vou exemplificar porque seria fastidioso (e porque não gosto de falar do que não gosto). 

Mas há coisas que estão ao meu alcance. E, de entre essas, há as que me apetecem, as que me dão prazer. E, estas, apetece-me aqui exemplificar.

Tu que me lês aí no sossego da tua quietude, escuta, quero agora falar ao teu ouvido. Baixinho, vou dizer muito baixinho ao teu ouvido.

Eu gosto de fotografar o rio à noite no sítio em que o cais se ilumina. O rio fica de um azul irreal, as luzes aquecem a cor laranja dos barcos e do cais e eu, em silêncio, dentro de mim, mergulho neste mar de cores alucinadas e, em silêncio, misturo as cores, puxo por elas, deixo que me animem e dou por mim a dançar dentro de mim.

Escuta: achas que sou doida, alienada, não achas? Mas não sou, sou apenas uma mulher pássaro que gosta de voar rente ao rio nas noites floridas de cores luminosas. Achas que eu não sou uma mulher igual a todas as outras melhores, não achas? Pois, aí tens razão: ninguém é igual a ninguém. Eu sou aquela mulher que aqui, na noite reconfortante, se senta a escrever palavras que se põem umas em cima de outras, formando degraus que as levam até ao céu para daí, então, se irem depor, humildes, sob o teu olhar incrédulo.

Eu gosto de flores às cores, de pássaros brancos, de palavras alegres, de gestos coloridos, de afectos quentes e gosto, ah, gosto tanto, de te contar estas coisas pequenas, simples, graciosas. Eu gosto, gosto mesmo tanto, de pintar com cores vibrantes palavras que se derramam em  ternura por ti, palavras secretas que falam de harmonia, palavras que ajeito aqui, como se bordasse, um bordado colorido e afectuoso para te oferecer, a ti que me lês, a ti que me vais guardando, carinhosamente, dentro de ti.  

Escuta: gostas das minhas palavras que voam desde lá em baixo, onde o rio azul cobalto se pinta de branco ou de cor de laranja até aqui à minha varanda, depois até à ponta dos meus dedos e depois até aí ao teu colo  quente, à tua boca que sorri? Estás a sorrir? Estás, não estás...? 

Conta-me. Diz-me um segredo, diz...Diz que sorris com as minhas palavras, diz que te apetece vir mergulhar comigo neste rio brutalmente azul, diz que te apetece atravessar esta noite fresca e luminosa, voando ao meu lado e ao lado das outras gaivotas, diz que gostavas mesmo de pousar ao meu lado nos muros com cheiro a maresia e luzes íntimas como estrelas, diz, diz, diz ao meu ouvido. Diz, eu gostava tanto de ouvir.


[Abaixo da fotografia, um poema sobre um certo mar vermelho e, logo a seguir, uma nuit d'ivresse, a fechar a semana dedicada a Berlioz]


Noite no Cais do Ginjal - as cores em festa na beira do rio


                               No pavilhão da orelha
                               descanso o vento,
                               ao mar vermelho
                               pinto-o de branco
                               enquanto pressinto
                               quase um rebento,
                               uma flor, um unguento,
                               suportando, amáveis,
                               o peso do que sou.

                               Menos derramada
                               a letra, estende-se
                               harmoniosamente, secreta
                               invernosamente
                               fraterna. Espectral,
                               desenha a escada
                               suavemente proporcional
                               aos limites do nocivo.


                               ['Mar Vermelho' de Ana Marques Gastão in Adornos]

09 abril, 2012

Aquele que se perdeu, aquele que se perdeu guiado por uma estrela, aquele que se perdeu no seu caminho


O homem espera que a luz se ponha. Espera pacientemente. Ninguém o espera, tem tempo. Em silêncio aguarda que a noite comece a descer o seu manso véu. 

E, então, as cores quentes do sol começam a recuar, os azuis regressam, frios, sombrios. A beira do rio é, nessa altura, um retiro, um refúgio, um templo íntimo e sagrado. O homem aparece então, suave, desliza com delicadeza. Talvez seja alguém que se perdeu de si mesmo, talvez venha guiado por alguma estrela, talvez procure apenas uma palavra oculta.

O homem senta-se e olha o infinito ou talvez espere uma visão que venha de dentro das águas, que venha nas asas de uma gaivota, talvez espere apenas a palavra que nem sabe se está dentro de si ou no coração de um pássaro branco e esguio ou se vem trazida pela subtil aragem que sobe do rio.

O homem está em silêncio, ouve a sua própria respiração, sente a sua pulsação, segue o seu instinto, e procura o seu destino que um dia se perdeu. O homem olha em silêncio as águas que escurecem, espera que venha um reflexo, uma imagem, uma palavra, um poema, um sentido, um sentido qualquer.

O homem que aqui está, digno, tão digno, sem destino, procurando palavras com sentido, respira então com uma lentidão plena de leveza, olha o céu que também escureceu, olha o céu com devoto agradecimento e, em silêncio, pensa que encontrou, aqui, hoje, o princípio do seu caminho. 



[Gostava, meus Amigos, que descessem até às palavras de Manuel Alegre, belas palavras sobre 'aquele que se perdeu' e que, depois, logo a seguir, se detivessem num momento de pura magia: Renée Fleming interpretando Berlioz.]

Cai o dia junto ao Tejo, o cais é então lugar de retiro e meditação


                              Aquele que se perdeu
                              aquele que se perdeu guiado por uma estrela
                              aquele que se perdeu no seu caminho
                              ou dentro de si mesmo
                              aquele que se perdeu em busca da palavra
                              ou talvez do destino e do sentido
                              ou apenas
                              do reflexo mágico do ritmo e da revelação
                              aquele que se perdeu e já não sabe como recuperar
                              a pulsação e o instinto
                              não mais que o breve instante de um lampejo
                              algo como a visão de uma visão
                              imagem reflectida sobre as águas
                              ou talvez sobre a página
                              por onde vai
                              aquele que se perdeu.


                              ['Aquele que se perdeu' de Manuel Alegre in 'Nada está escrito'
                         

22 março, 2012

És, talvez, como eu uma alternadeira de palavras

 
Depois de um dia de trabalho numa torre de vidro transparente, venho para aqui, junto ao rio, e fico passeando, percorrendo os mesmos caminhos de outras como eu.

Passa um veleiro, voam as gaivotas e eu olho o rio, pensando em palavras que, mais tarde, sem pensar, aqui me ofereço (e vos ofereço). 

É por amor ao rio azul, aos veleiros brancos, às magníficas gaivotas que por aqui ando e é por amor às palavras que aqui escrevo. Não faço dinheiro com as palavras, não danço por dinheiro, não fotografo por dinheiro, não faço amor por dinheiro. Faço o trottoir tal como as outras, as gaivotas, seguem o seu rasto no céu, e também não é por dinheiro.Vigiamo-nos, transparentes e humanas, pensamos em devastados amores, em secretas traições, emoções proibidas, escondidas. Mas tudo por amor.

Somos também como tu, leitor(a), que por aqui andas, percorrendo os caminhos do meu pensamento, vigiando o que escrevo, o que penso, o que sinto. 

Vivemos os dois, eu e tu Leitor, em união de facto. Estimamo-nos, não passamos um sem o outro, inseparáveis, amigos, amantes de palavras. Mas, apesar da ligação profunda, intensa, que nos une, eu saio todos os dias para colher novas palavras, palavras que trago depois para a mesa, como se tivesse andado a ganhar dinheiro para o nosso sustento.

Alternadeira, sou uma alternadeira. Alternadeira de palavras, amante de palavras.



[Caro(a) Leitor(a), continuemos a fazer este nosso trottoir. Desçamos até à beira do Tejo, palmilhemos os caminhos de Inês Lourenço e, depois, para nos apaziguarmos, deslizemos até ao concerto de Ravel, belíssimo.]

Em Cacilhas, o Tejo, um veleiro, gaivotas - este é o ar que respiro


                     Contigo, leitor, celebro
                     esta união sem facto, abro
                     este habitáculo, algumas gavetas
                     secretas para demorar contigo emoções
                     e escárnios. És, talvez, como eu
                     uma alternadeira de palavras, destas
                     que vendem no papel, os objectos
                     trucidados pelo olhar em lençóis
                     de falsa transparência e ficção
                     furtiva. Outras, mais reais
                     e mais humanas, professam
                     uma devastada arte de amar
                     e nós um devastado amor
                     à arte dos versos que ninguém
                     lê. Só nós nos lemos
                     uns aos outros, tal como elas
                     se vigiam sobre o trottoir.


                     ['Alternadeiras' de Inês Lourenço in 'Câmara Escura']
 

23 fevereiro, 2012

Falei de ti com as palavras mais limpas

 
Tantas vezes aqui clamo o meu amor, grito-o ao vento, voo sobre o Tejo e grito-o aos barcos, às gaivotas, enrolo-me nas velas dos veleiros brancos e grito que te amo, deslizo e mergulho, e digo que te amo. Ou torno-me aragem, vento, pluma, pena e acaricio a tua face e beijo-te e abraço-te, ou corro pelos ares e sou como as folhas douradas e ando junto aos teus pés, enrolo-me nas tuas pernas, folha, flor, vento, pássaro, aragem, e sou eu sempre junto a ti.

Outras vezes sou transparente, silencioso, e encosto-me a ti enquanto vais sozinha, e falo contigo, sussurro ao teu ouvido e tu ris, e brinco com o teu corpo, mexo-te, puxo-te, enrosco-me e tu contas-me os teus segredos, contas-me os teus sonhos e eu ouço-te, minha amiga, meu amor, conta-me tudo, que eu estarei sempre a teu lado ou, então, dentro de ti.

E quando estás tensa, triste e cansada ou quando estás animada e feliz, estou eu sempre junto a ti, a minha mão a conchegar o teu coração, o teu sorriso na concha das minhas mãos, sempre a teu lado, sempre a sentir a tua respiração rente à minha.

Mas tu sabes isto, não sabes?



[Palavras em festa pedem uma música em forma de primavera - é já aí em baixo, depois do belo poema do Assis Pacheco]

Rente ao Tejo de frente para Lisboa, a Bela e Luminosa


                             Falei de ti com as palavras mais limpas,
                             viajei, sem que soubesses, no teu interior.
                             Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
                             tropeçavas em mim e eu era uma sombra
                             ali posta para não reparares em mim.

                             Andei pelas praças anunciando o teu nome,
                             chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
                             Em tudo o mais usei da parcimónia
                             a que me forçava aquele ardor exclusivo.

                             Hoje os versos são para entenderes.
                             Reparto contigo um óleo inesgotável
                             que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
                             brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.



                             ['Sem que soubesses' de Fernando Assis Pacheco in 'A Musa Irregular']
                       

04 janeiro, 2012

Solta-se a voz do peso que a retinha e era mais que sufoco e privação

     
Chegas aqui trazido pelo peso que te sufoca, pela privação de confiança, e deixas-te cair. No peito um aperto, na garganta um nó. A voz presa, os olhos baços, alheias-te de quem te olha. És tu e a tua voz que não se solta. Pensas, é esta timidez, é esta incerteza.

Aqui estás, olhando a cidade luminosa, a cidade que veneras e não tens a quem dizer, esta cidade é muito bela, olhas o rio e pensas, sem voz, este rio é tão bonito. Pensas, vou deixar que a voz se solte. Mas receias que a voz voe pelos ares, que alguém te ouça, reprimes esse tão receoso impulso. E se a voz se esvai por este abismo à beira do meu peito?

Ai, esta minha voz que não se solta tanto é o medo de que caia onde ninguém a possa salvar...

O coração bate com mais força, a aragem aproxima-se e sabes que ela quer levar as tuas palavras. Estás sozinho, ninguém te ouve. Ninguém com quem falar, a voz perdeu o seu rumo, a voz perdeu-se na ausência de companhia. Com quem ajeitar as palavras, com quem conversar?

Sentas-te aqui, aconchegas-te em ti próprio, as mãos juntas entre os joelhos, ombros curvados, e pensas, é desta luz que assim ilumina a bela cidade, esta luz queima-me as palavras, esta luz impede-me a voz.

E então um súbito sobressalto, uma mão no teu ombro, um sorriso, um sopro de voz, uma aragem que ondula rente a ti. Olhas. Ouves então: 'que música é esta?' e então, sem bordão, sem medo, ouves-te a dizer, 'esta é a música das sereias que habitam o fundo do rio'. E não acreditas que estas são as tuas palavras, que esta é a tua voz.



[A música de hoje, já ali abaixo do poema, é de uma tão grande beleza que não deverá ser perdida. Pegue nas inesperadas palavras do homem à beira do rio e, com cuidado, leve-as consigo, e segure-as com cuidado enquanto ouvir o piano, o violino e violoncelo do trio de Tchaikovsky]

Suspenso sobre o azul do tejo, homem contempla Lisboa


                                       Solta-se a voz do peso que a retinha
                                       e era mais que sufoco e privação,
                                       - sendo incerteza,
                                       receio de rasgar-se, projectando
                                       a tímida afirmação do seu impulso.

                                       Onde o instrumento para a sossegar,
                                       a acompanhar com uns tragos, o bordão
                                       para as forçosas passagens rente ao abismo?
                                       Já se aproxima na mão que vibra um tema,
                                       chega com o sopro que ondula a sua parte.

                                       O seu encontro só assim se exprime.,
                                       aí se basta, não compõe sem eles
                                       a altura de cada um e o seu total:
                                       trago a extremar-se em luz para fundir-se
                                       num latejo que a vai sustendo e todo a serve.


                                       (Poema 112 de José Bento in Sítios)

01 janeiro, 2012

Aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade

  
Passam por mim, ágeis e brancas, contra um mar de azul e elevam-se, tombam, deslizam, bailam, voam, voam, livres, tão livres na sua infinita graça.

Tento que me tomem por uma das suas, que me levem também, que me ensinem a voar e, então, deixo-me estar, imóvel, deslumbrada, e quase me apetece ajoelhar perante tamanha beleza. É um bailado, um jogo, um desafio, e gritam, dão longos gritos de liberdade enquanto se elevam com as suas longas e brancas asas.

Olho em silêncio e penso, é isto que eu quero, esta liberdade pura, esta alegria apaixonada, quero atravessar os longos espaços e voar, voar.

E, então, retrato-as, etéreas bailarinas, pássaros livres, mulheres como eu.



[Quis começar o ano novo com Sophia, com liberdade, com voos brancos - e com Tchaikovsky. Desça um pouco, se quiser partilhar comigo uma música que me habita há muitos anos]


Ontem, gaivotas em plena liberdade sobre um rio de um azul absoluto


                                      Aqui nesta praia onde
                                      não há nenhum vestígio de impureza,
                                      aqui onde há somente
                                      ondas tombando ininterruptamente,
                                      puro espaço e lúcida unidade,
                                      aqui o tempo apaixonadamente
                                      encontra a própria liberdade.


('Liberdade' de Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética II)

23 novembro, 2011

A greve geral não será decretada em Cantão

    
Dia 24 de Novembro, quarta feira, dia de Greve Geral. Tempos de inquietação, tempos de capitulação, tempos de avassaladora mediocridade, tempos de questionamentos vários, como chegámos até aqui?, o que fizémos nós para merecer isto?, dias de chumbo, de medo.

Ensinava-se a optimização fiscal, o enriquecimento rápido era louvado, emolulado, os proletários iam de férias a Punta Cana, as empregadas de escritório faziam ginásio e conversavam sobre as suas empregadas, todos se sentiam capitalistas, ricos e heróis.

E, um dia, toda a gente percebeu que o dinheiro se tinha evaporado - e, nesse dia, toda a gente acusou os seus governantes e, de seguida, quase todos exigiram outros governantes e, no dia seguinte, os que ganharam as eleições desataram a fazer muito pior, a cortar subsídios e ordenados, a aumentar impostos, e agora este nosso governante contradiz o que diz o presidente e cola-se às posições de uma governante alemã que quer mandar em toda a Europa (que já manda em toda a Europa) e que nos arrasta a todos para a falência.

E agora os homens e mulheres deste país, mais pobres, ameaçados, assustados, temem pelo seu futuro e percebem que estão a ser vítimas de quem apenas segue o rasto do dinheiro.

E agora, todos olham uns para os outros, não percebem o que aconteceu, não sabem como foi possível que toda a esperança tivessem desaparecido, não percebem porque parece o futuro uma coisa tão assutadora - e interrogam-se. Olham uns para os outros e interrogam-se. Onde estão hoje os homens (e as mulheres, claro!) fortes, determinados, que ainda procuram um certo e emplumado pássaro entre as nuvens, onde estão os cavaleiros do vento, os poetas, os guerreiros? Onde estão os homens que ainda se sentem vivos e invencíveis? Onde?

A greve geral pode não ter sido decretada em Cantão mas, no dia 24 de Novembro de 2011, foi decretada em Portugal, Europa.



[Marche mais um pouco, vamos até onde Rimsky Korsakov nos leva a ouvir mais uma história de Xerazade]

Não é uma manifestação - é a saída dos barcos depois de uma manhã de trabalho, num sábado


                     A greve geral não será decretada em Cantão. Não só
                     porque Malraux nunca mais escreverá essa frase
                     mas porque Deng Xiaoping disse que ser rico é ser herói.
                     Agora os proletários lutam para ser capitalistas
                     e o socialismo está de pernas para o ar.
                     Só eu não sigo a linha.
                     trago comigo a obsessão metafísica
                     eu sou eu mesmo a greve geral
                     que não vai ser decretada em Cantão.
                     A não ser que de repente os proletários
                     comecem a ler Li Bai
                     e em vez de seguirem o rasto do dinheiro
                     procurem 'um pássaro entre nuvens'
                     cavaleiros do vento
                     como eu
                     em Cantão.


                     ('Greve Geral em Cantão' de Manuel Alegre in 'Livro do Português Errante')
  

22 novembro, 2011

Estou tão perto dos seres mortais que me alegra o poema descontínuo

  
Quem é este homem que se cruza comigo na rua, me olha, se dirige a mim, me olha, olhar fixo?

Qualquer coisa de homem perdido de si próprio, desencontrado do seu destino, no seu olhar intenso. Não desviou, nem por um segundo, o olhar de mim. Queria dizer-me qualquer coisa mas não concluíu. Começou a dizer '... eu conheci bem isto aqui, antes de ...' e calou-se. Esperei mas não disse mais nada, olhava apenas. Vim-me embora. Um homem que vive na sombra do seu destino. Não havia no seu olhar nem um ténue fio de esperança. Lembrava o passado talvez, desinteressado do futuro, apagando-se a si próprio como se apagam os riscos sem valor.

Qualquer coisa neste homem me fez lembrar de ti. Assustei-me com medo que fosse um presságio, afastei-me apressada, este homem era demasiado humano, demasiado mortal e eu a ti quero-te para sempre.




[Ah, não fique aqui, venha comigo, precisamos de música, venha ouvir e venha ver o fantástico maestro que dirige a orquestra na 7ª sinfonia de Bruckner]


'Menina, tire-me uma fotografia' - tirei.
Olhou-me nos olhos, uma angústia no olhar.
Fiquei impressionada com a intensidade da sua angústia.

                         
                          estou tão perto dos seres mortais
                          que me alegra o poema descontínuo,
                          mais ténue do que um fio.

                          digamos: odeio-me.

                          não sou eterno,
                          mas leio na vegetação
                          futuros augúrios

                          e é este o meu presságio:
                          viveremos para sempre na sombra
                          que a morte se esquece de apagar.


                         (Poema XXXIII de Ricardo Gil Soeiro in Espera Vigilante)

20 novembro, 2011

Passo secreta tormenta que só comigo se sente

  
Passam os dias e eu sem ti, quase não pensando em ti, feliz sem ti. Passam os dias e eu alheada de ti, feliz na minha vida longe de ti.

Mas, depois, inesperado, um momento vem que me traz o teu doce olhar, o teu terno sorriso, ou uma aragem que me traz o teu cheiro (ou a imaginação dele), que me traz a tua voz (ou o seu eco dentro de mim) - e eu recolho-me, isolo-me dentro de mim (para te ter comigo). São breves momentos, só me permito esse desvio por breves momentos - porque tenho que continuar, logo de seguida, a minha vida feliz, contigo longe de mim (contigo bem fechado dentro de mim).




            Passo secreta tormenta
            que só comigo se sente,
            mas o que mais m'atormenta
            é mostrar-me descontente
            de quem muito me contenta.

            Dessimulo que não vejo
            quem folgo muito de ver;
            é um mal muito sobejo
            mostrar contrairo desejo
            do que desejo fazer.
            Assi que, passo tormenta
            de nunca viver contente,
            mas o que mais m'atormenta
            é mostrar-me descontente
            de quem muito me contenta.  


('Passo secreta tormenta' de Diogo Brandão in '366 Poemas que falam de amor')

 

16 novembro, 2011

Às vezes nem sequer podemos garantir que houve um sinal

 
Quando foi? Quando foi que resolvemos que nem a memória merecia já qualquer alimento? Houve uma palavra que marcou o momento em que nos dissemos adeus? Houve um pestanejar, um trejeito, uma desatenção? Nem sei se isso interessa. Afastámo-nos, fomo-nos afastando, afastámos o olhar, afastámos as vozes, apagámos todos os vestígios - e isso é a verdade que importa.

Ainda te lembras de mim ou até o pensamento se afastou já também? Quando caminhas, quando percorres as estradas ou os campos, ainda me vês, ainda me ouves? Às vezes ainda te sorris ao lembrares-te de mim? Diz que eu consigo suportar. Sei o que isso é. Não és só tu. Perdemos os sonhos e era tão bom sonhar, não era? Fechavas os olhos e pensavas em mim, não era? Nunca dançámos, nunca vamos dançar, mr and mrs jones ou outra qualquer, nunca nos vamos enlear ao som da música, a música abandonou-nos também.

Por onde andas, amor que um dia amei?


Junto ao Farol de Cacilhas, rente ao Tejo, Lisboa já ali


                                 Às vezes nem sequer podemos garantir
                                 que houve um sinal

                                 e por isso é difícil saber se     efectivamente
                                 chegou a hora destinada a afastar os olhos
                                 dos vestígios de ti

                                 às vezes há apenas um leve fio de espuma a
                                 contornar     eficazmente     os sonhos que
                                 perdermos por nossa culpa     dando
                                 estranhos nomes ao que sempre soubemos
                                 ser inominável


                                 e os nossos dedos deixam marcas no copo    enquanto
                                 a música desiste de nós
                                 ao primeiro acorde dissonante


(Poema '8' de Alice Vieira in 'O que dói às aves')

09 novembro, 2011

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio

  

E então vieste. Atravessaste os mares e voaste até a este rio que corre vagarosamente para o mar. Talvez te sentes, sozinho, olhando o mar. Talvez te sentes sozinho pensando que nenhuma mulher esperou por ti, nenhum abraço te esperou. Voaste para uma cidade fria, triste, escorrendo chuva como lágrimas e não tinhas ninguém à tua espera. O rio corre, a vida corre, e tu limitas-te a ver a vida a passar. Nem uma mão que enlace a tua, nem um sorriso pousando carinhoso no teu rosto. A vida corre e tu não vais com ela, tu ficas sentado sozinho a uma margem desolada, numa cidade triste e escura. Talvez penses que, se quisesses, terias beijos, carícias, talvez penses isso. Mas não, não terias isso, terias apenas o afecto de quem sabe que a vida às vezes nos reserva a surpresa de nos desvendar uma alma sensível que toca a nossa alma sensível. Nem beijos, nem carícias - terias apenas a convergência de um olhar solidário na direcção deste rio que tanto amo, apenas as palavras de quem ama as palavras, terias apenas o meu sorriso. Não te iria desassossegar, claro que não. Quando te sentares, aí onde te sentas, abrigado da chuva ou à beira do rio, ou quando regressares, lembrar-te-ás de mim sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos. Mas eu penso em ti aqui tão perto de mim e fico tão desolada, tão triste. Sinto-me uma criança crescida, uma pagã inocente, sem flores no regaço, triste, sem sequer poder recordar-te.

               
Sentados à beira rio

                                 Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
                                 Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
                                 que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                                      (Enlacemos as mãos.)

                                 Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
                                 passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
                                 vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                                     mais longe que os deuses.

                                 Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
                                 Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
                                 Mais vale saber passar silenciosamente
                                      e sem desassossegos grandes.

                                  Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
                                  nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
                                  nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                                      e sempre iria ter ao mar.

                                  Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
                                  se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
                                  mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                                       ouvindo correr o rio e vendo-o.

                                  Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
                                  no colo, e que o seu perfume suavize o momento -
                                  este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                                      pagãos inocentes da decadência.

                                   Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
                                   sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
                                   porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                                        nem fomos mais do que crianças.

                                   E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
                                   eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
                                   Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
                                        pagã triste e com flores no regaço.



                                   ('Vem sentar-te comigo Lídia' de Fernando Pessoa - Ricardo Reis)

 

31 outubro, 2011

amo e logo odeio este poema: lisboa geme e o vento traz-nos açucenas

 
O que eu mais queria, meu amor, era saber que não te deixas ficar assim, de frente para o mar, triste dentro do teu corpo. Queria saber que o teu coração tão doce, que depositavas nas minhas mãos, não está agora envolto em noite. Tenho tanto receio, amor, que as lágrimas escorrram, lentas e pesadas, no teu pensamento.

Dizes que eu fazia de ti um homem melhor, dizes que eu te dava um motivo para viveres cada dia como se fosse sempre um dia novo, dizes que nada substitui a minha ausência. Ouço-te e as tuas palavras caem pesadas no mais fundo de mim, como uma pedra que se atira para dentro de um poço com água lá muito no fundo. Nada te digo, mas sabe, amor, é em ti que penso agora, é em ti que penso nas horas mortas em que o teu sorriso querido, a tua voz quente e macia, mais falta me faz.

Fomos devorados pelas circunstâncias, ficámos submersos pelas nossas vidas normalizadas e felizes. Mas, dentro de nós, as lágrimas escorrem, num coração tantas vezes invadido pelas trevas.



[Isolde chora, lamenta-se, sofre, luta, enternece-se e Waltraud Meier dá-lhe voz, sublime, perfeita. A seguir ao poema de um outro Ricardo desça um pouco mais, ouça por si, é um momento de extrema beleza]

De frente para Lisboa, o Tejo correndo com vagar: há horas assim


                             amo e logo odeio este poema:

                             lisboa geme e o vento traz-nos açucenas,
                             apodrecendo a cidade sob o rio interrompido
                             e nós, nocturnos, sendo devorados
                             pela rosa dos mundos.

                             odeio e logo amo este poema:

                             há horas assim,
                             em que, submerso na parte
                             mais triste do meu corpo,
                             e coração noitedentro,
                             deixo-me escorrer
                             as lágrimas mortas,
                             líquidas trevas transparentes.


                             ('VIII Poema' de Ricardo Gil Soeiro in Espera Vigilante)