Ginjal e Lisboa

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17 agosto, 2017

Porque escrevo no prazer eu incendeio-me




De que subtis texturas é feito este meu sentir? De que auspiciosas suspeitas se alimenta o meu querer? Com que misteriosas preces se entretece o meu sonhar? Que secretas memórias me visitam para assim acalentar eu tão loucas esperanças?

É a minha carne que transporta este fogo que não sei de onde nasce? É o sopro da minha respiração que me leva nas suas asas para os perigosos longes onde me refugio? São as minhas mãos vadias que enleiam as palavras que tecem laços de um afecto que não explico? São os meus olhos que ao longe adivinham vertigens onde quero perder-me?

Desconheço-me. Sou outra, talvez.

Senão como explicar este meu sentimento feito de desmandos, de sobressaltos? 
Como explicar que queira mostrar o meu avesso? 

Escuta as minhas confissões. Vê como me abraso quando penso em ti. Escuta. Toma as minhas verdades como oferendas. Toma-as. Escuta como bate o meu coração. Vê como arde sedento este fogo que te deseja. Escuta. Contigo eu não uso disfarces:
Estilhaço-me frente à luz. 
Incendeio-me se penso em ti. 
Perco-me se ouço os teus lamentos. 
Procuro-te, e tu não sabes, quando me sinto perdida.
Queria pedir-te abrigo quando me abandona o prazer das tuas palavras. 
Queria resplandecer nos teus braços, fundir-me em ti nos teus longos e saudosos abraços.

[Mas, olha, se não suportares o calor da minha paixão, deixa. Isto são só palavras. Só. É que, sabes, porque escrevo no prazer eu incendeio-me]


Se respirar um pouco
mais
                         estilhaço-me

se sentir um pouco
mais
                         resplandeço

Se saio do aprisco
perco abrigo

Se ficar abrigada
perco apreço

Porque escrevo
no prazer
                         eu incendeio-me

Quando exijo
paixão
                         eu incandesço


[Incandescência de Maria Teresa Horta in Poesis]

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O sleep, why dost thou leave me (Handel) -- Julianne Baird

Fotografias feitas no Ginjal e Cacilhas

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01 maio, 2014

Com as horas maiúsculas do cio, com os músculos inchados da preguiça, vem, serenidade!


Em dias de muito ruído, em que o cansaço sobe sobre a pele como uma moléstia húmida, amortecendo os músculos, quero silêncio, sossego. E palavras lidas como se de uma oração ou de uma toada religiosa muito pura se tratasse. Talvez poesia, talvez a poesia dita como se uma voz viesse de dentro das pedras, do fundo macio dos lagos, da luz que se reflecte no rio. E mais nada, só isso.




Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.




Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.



Vídeo de CINE POVERO


"Serenidade és minha" in «Mesa de solidão» (1955) de Raul de Carvalho (1920-1984), aqui lida por Mário Viegas (1948-1996), Humores, Vol. II, lado B (1980)

MÚSICAS: Jan Garbarek, "Soria Maria" (1980). Pat Metheny, "Waiting for an answer" (1983). Sufjan Stevens, "Oh God, where are you now?" (2003)

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08 abril, 2014

No centro da cidade, um grito


Manhã silenciosa no Ginjal, manhã branca. Podia estar no céu, habitar uma nuvem, podia deslizar no dorso de uma gaivota, podia, podia deslizar nas velas de um veleiro, podia, podia sonhar num recanto secreto de Lisboa. 

Mas afinal apenas caminhava junto ao Tejo, os pés no chão, e não se via ninguém, parecia que estava eu, só eu, e as minhas memórias brancas.

O silêncio junto a um casario puído pela maresia e junto a um rio envolto em névoa é um alimento que eu e todos os amantes secretos procuram para sentir o doce fluir do tempo. Para lá caminho uma e outra e outra vez. Sempre - especialmente quando o mundo parece envolto em solidão e silêncio.


Manhã de neblina no Ginjal,
um cacilheiro atravessando o Tejo em silêncio, Lisboa mal de avistando

No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar
e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado.
Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos
são uma sinalização em direcção à morte.
Mas hoje, ainda longe daquele grito,
sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi,
e uma abelha pousa-me no azul do lírio
e no cardo que sobreviveu à geada.
Bebo, fumo, mantenho-me atento,
absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez,
e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte,
acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria,
e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo
no esplendor da noite do mundo que nos foge



O poeta Al Berto (1948 - 1997), diz vinte poemas na "Casa Fernando Pessoa" em 1 de Julho 1995 e um poema no "Salão nobre dos Paços do Concelho", em 25 de Maio 1996


**

O grito raso
que se esconde
no verbo aceso
que se expande.
Fuga aberta
de palavras
cobrindo de sons
o Nada.
Aquilo que fica
depois da escrita
para além dos versos 
para além dos livros 
para além do pó.


[Poema de Joaquim Castilho num comentário abaixo]


27 fevereiro, 2014

Mas que coisa é homem, que há sob o nome: uma geografia? Um ser metafísico? Uma fábula sem signo que a desmonte? Que milagre é o homem? Que sonho, que sombra?


Que coisa é um homem, também eu gostava de ser. Um acaso da natureza? O golpe de génio de um ser superior? Não sei. Não sei o que sou. Não sei se eu sou a que pensa e escreve ou se sou o corpo que tem vida própria.

Que coisa sou eu? 



Porque se alojou no meu corpo esta que aqui vos escreve e não dentro do homem que cruza o horizonte algures no monte ou dentro da gata, minha irmã, que evita o meu olhar?

Não sei (e acho que se calhar também não é importante saber).





Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia? 
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte? 
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some? 
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome? 
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta´ 
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem? 
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen 
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes 
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai 
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem? 
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho? 
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem 
é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a? 
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo? 
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem 
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono 
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem? 
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida? 
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte? 
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas 
e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem? 
Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata 
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte? 
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte? 
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte? 
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso? 
Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente? 
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente? 
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem? 
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói? 
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói? 
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima? 
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos? 
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem? 
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte? 
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?



'Especulação em torno da palavra homem' (Carlos Drummond de Andrade) aqui dito por Sandra Corveloni



13 janeiro, 2014

Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Graffiti numa parede junto à ex-Lisnave

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Cacilhas numa manhã fria de chuva

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada. 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem chiadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Junto ao Tejo, numa manhã de névoa e frio

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.



'Todas as vidas' de Cora Coralina dito por Clemente Drago


Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou Cora Coralina, (Cidade de Goiás, 1889 — Goiânia 1985) foi poeta e contista brasileira. Produziu uma obra poética rica em motivos do quotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás. Começou a escrever poemas aos 14 anos, porém, publicou seu primeiro livro em 1965, aos 76 anos. 

09 janeiro, 2014

Em que espelho ficou perdida a minha face?


Em Cacilhas, de frente para Lisboa, num dia sombrio, o Tejo escuro, agitado


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?




Poema 'Retrato' de Cecília Meireles aqui dito por Paulo Autran sobre parte do filme UP (Altas aventuras)



22 dezembro, 2013

Por isso temos braços longos para os adeuses, mãos para colher o que foi dado, dedos para cavar a terra.


O que é essencial - mesmo que o essencial se perceba apenas entre uma fresta, por um breve momento, por um gesto, por uma palavra,por  uma imagem quase invisível. Mesmo que mais ninguém perceba.

Nem luzes, nem artifícios, nem votos de circunstância. Nem alegrias encenadas, nem subversão dos motivos originais. Apenas o silêncio. Apenas a compreensão das limitações e da transitoriedade, apenas o apreço pelo milagre da vida.

E um espaço para recordar os que se foram, os que ajudaram a ser quem somos e que, achando que já tinham comprido a sua missão, partiram.

E a vontade de agradecer os que, entretanto, chegaram e, puros e felizes, têm vindo juntar-se a todos quantos estão unidos pelo coração.

Natal. Pouco mais que isto, não é?


Presépio feito com sacos, plásticos, caixa de papelão, redes, orégãos e um Menino Jesus - numa rua de Cacilhas





Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

['Poema de Natal' de Vinicius de Moraes dito por Camila Morgado e Ricardo Blat]


19 novembro, 2013

Se tiveres de escolher um reino escolhe o relento


A noite. Meu ninho, meu aconchego. A noite, meu reino.

Quando, como hoje, me sento ao volante e percorro quilómetros e quilómetros - e sozinha vou ouvindo a música, vendo a paisagem, e sei que ainda me esperam horas de trabalho e que ainda falta tanto para chegar a casa - penso que, não tarda, cairá a noite e que, na noite, envolvida pelo veludo macio da escuridão, caminharei rente ao rio. E logo sinto uma expectativa que me anima, uma quietude que me serena.

Depois, mal vejo a hora de me mudar e me dirigir para os cais, para essas fronteiras de onde os solitários espreitam os rios, e enfrentam a frialdade do relento, e enfrentam o medo da solidão, e de onde se vê como os navios deixam um rasto silencioso e branco na negrura das águas.

O ar de noite, rente ao rio, está muito frio. Quase ninguém. As luzes que se reflectem no rio são um alabastro de prata, as pedras da calçada ficam quase douradas, a mulher que sozinha, num banco, de frente para a grande cidade, quase parece feita de pedra macia - e tudo me parece acolher.

Olho com delongas este meu canto, este meu pedaço de mim. Esta é também a minha casa.

Daqui a nada, a beira do rio acolherá um novo dia. E eu, deslumbrada, assistirei ao seu nascimento aqui da janela de onde espreito o tempo que passa. A minha casa é, assim, o rio e a janela de onde o espreito, o meu mundo feito de pequenos instantes, eternos e sem nome.



[Abaixo de Lisboa e do Tejo avistadas numa noite muito fria, recebo, uma vez mais, o Poeta Padre José Tolentino Mendonça. A seguir, Jorge Palma e toda a sua emoção com acompanhamento de João Gil]


No cais de Cacilhas, sobre o Tejo, de frente para Lisboa



                                                           Se tiveres de escolher um reino
                                                           escolhe o relento
                                                           a noite tem a brancura do alabastro
                                                           ou mais extraordinária ainda

                                                           Ao que vem depois de ti
                                                           cede o instante
                                                           sem pronunciar
                                                           seu nome


['Versões do mundo' de José Tolentino Mendonça in 'A noite abre meus olhos']



13 novembro, 2013

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez - (acrescentado com os preciosos contributos de dois leitores)


De cada vez que vivo um instante, vivo como se pudesse não voltar a vivê-lo. Ainda há pouco. Já era quase noite, o rio escuro, um céu que se despedia furtivamente do dia, barcos que chegam e partem sem parar, gente apressada, carregada, silenciosa. O ar frio. Um cheiro a castanhas assadas, um fumo perfumado envolvendo as gentes devoradas por vidas difíceis.

E eu no meio de todos. Transparente como sempre. Passo por entre as pessoas, detenho-me tocada pela admiração que sinto pela sua determinação e força, vejo como correm vergadas pelo cansaço e pelos sacos, andam sempre tão carregadas. Não há crianças a esta hora. Faz tanta falta o riso das crianças nestas noites escuras junto ao rio. 

Ninguém me vê enquanto por ali ando. 

E penso. Tenho que fixar dentro de mim estes momentos. Amanhã podem não ser estas as pessoas, podem passar de uma outra forma. Ou posso eu não poder voltar aqui a misturar-me com estes meus iguais.

Depois continuo o meu caminhar, levada pela maresia nocturna, tão fresca, tão limpa, a noite a tombar carregada de saudades. Um casal abriga-se no muro, abraça-se enquanto olha a magnífica cidade. Talvez pensem como eu que têm que gravar na sua memória esta imagem de uma beleza tão efémera, de uma tal quietude, de uma elegância quase excessiva. Ou podem temer que amanhã a mulher não possa sair de casa, ou que o homem possa não chegar a tempo.

E posso eu não poder estar aqui para testemunhar o amor que os une neste escurecer tão frio. 

A vida é um breve instante e nem sempre acaba bem. 

Quantos abraços não ficam por dar, quantos amores não ficam por confessar, quantos, quantos. Tantas as vezes em que os instantes se interrompem para nunca mais. Por isso, porque amanhã posso também não poder estar aqui a escrever palavras como estas, vos peço que sejam fiéis depositários dos afectos que por aqui, enquanto posso, vou partilhando convosco.

E que dure por muito tempo este nosso breve encontro.



[Abaixo do casal que olha Lisboa, a bela, mais um poema de Inês Lourenço. A seguir a voz suave de Waldemar Bastos.]


Em Cacilhas, de frente para Lisboa


                                                         Nunca se sabe
                                                         quando estamos num lugar
                                                         pela última vez. Numa casa
                                                         que vai ser demolida, numa sala
                                                         provisória que vai encerrar, num velho
                                                         café que mudará de ramo, como
                                                         página virada jamais reaberta, como
                                                         canção demasiado gasta, como
                                                         abraço tornado irrepetível, numa
                                                         porta a que não voltaremos.


                                                         ['Sala provisória' de Inês Lourenço in 'Câmara Escura']

***

Quantas vezes caminhamos entre iguais,
e o silêncio que nos une tem a dimensão de mil palavras que se perderam.
Na volatilidade dos nossos gestos e olhares,
 atravessamos os sentimentos alheios
e vivemos a empatia dos seus sonhos e desejos. 
No interior das nossas ausências,
nunca estamos verdadeiramente sós.  
Passamos e repassamos a ternura das nossas sombras pela existência circundante,
mas permanecemos os mesmos seres sensíveis e solidamente etéreos. 
Os lugares permanecem para além da nossa presença.
Apenas a nossa memória resistirá à verdadeira ausência
e reconstruirá mil futuros em cada passado esquecido.
Ubíquos na imaginação,
jamais esqueceremos a vaga sinestesia das vivências e dos lugares dum passado evanescente.

[De dbo num comentário aqui abaixo]

***

se eu adormecer e não acordar diz-lhes que o sol é imenso
e regressa em cada madrugada
que o mar, essa grande paixão, será sempre um mistério
de fúria e mansidão 
que o Outono por mais belo e dourado
traz o vento
a debandada
o prenúncio do fim 
e que eu não voltarei mais
mas as palavras que deixo
(mal arrumadas, eu sei)
desajeitadamente falarão por mim

[De Era uma Vez num comentário aqui abaixo] 

23 outubro, 2013

O teu corpo assombrou a noite com a sua luz inteira


Há tanto tempo que não ouço a tua voz. Raramente me lembro de ti, sabes? Ficaste lá atrás num dia de verão, numa imagem num espelho, nós dois abraçados, iluminados pela luz doce de uma tarde muito terna. Há tanto tempo. Terá sido verdade? O teu sorriso doce, os teus braços carinhosos, os teus beijos adolescentes. A tua voz. talvez tenha sido um sonho, já não sei.

Há muito tempo.

Nem a tua recordação já vem aconchegar-se a mim, na cama, enquanto durmo. Talvez chegue um dia em que nem vou lembrar-me do teu nome. Terás, então, também desaparecido do espelho que ainda conserva o teu sorriso, o nosso abraço apaixonado.



[Abaixo da cidade que hesita entre o sono e o aconchego, estreia-se uma nova voz: Joana Lapa. Ainda não a conheci o suficiente para saber se vai voltar. Mas, hoje, aqui, dou-lhe as boas vindas. Logo a seguir, continuamos com jazz: Donny McCaslin Group]


Casario da beira Tejo à noite


                                                   Por não ter ouvido hoje a tua voz,
                                                   o teu corpo assombrou a noite
                                                   com a sua luz inteira.



['Ausência III' de Joana Lapa in Lettera Amorosa, Iluminações e Sombras]


14 outubro, 2013

Há vozes onde se espelha a vastidão dos séculos


Pelo batimento do meu coração percebo que talvez tenha passado por aqui aquele pelo qual ele tanto bate.

Há quem diga que no peito tenho uma ferida, sangue escorrendo, silêncio, um doloroso vazio. Não é verdade. Dentro de mim tenho um coração fremente, saudoso, é certo, mas ansioso. Ponho a mão no peito e sinto-o, quase o ouço, peço-lhe que se aquiete. Tenho vontade de lhe dizer que o dono já vem.

Por aqui percorro estes caminhos, procuro nas águas marcas de quem por aqui passou, pegadas, palavras esquecidas, procuro nas paredes sombras, restos de abraços, umas letras riscando a superfície. Talvez descubra algum fiapo que me leve até aquele de quem um dia fui tão próxima. Quem tão pouco tem, a qualquer coisa se agarra com esperança.

De dentro das casas em ruínas vêm suspiros, respirações, sons inesperados. Talvez sejam gatos amando-se na noite, talvez sejam apenas sombras procurando os corpos de onde se desprenderam. Por vezes detenho-me. Tento perceber que sons são aqueles mas depois afasto-me e quase corro, tenho medo, não sei que vultos são estes, que vozes são estas que vêm de tempos muito antigos, que escondem segredos sem perdão. Mas volto sempre: pode ser que um dia reconheça a voz daquele de quem o meu coração tantas saudades tem.




[Abaixo dos reflexos e das sombras do cais rente ao Tejo, um poema de José Alberto Oliveira deixa um rasto de inquietação que atordoa o coração e, logo a seguir, estreia-se uma grande intérprete, Cecile McLorin Salvant. É o jazz de volta ao Ginjal.]




O Ginjal à noite, o cais dos cacilheiros



                                                   Há vozes onde se espelha
                                                   a vastidão dos séculos
                                                   e os segredos mais subtis
                                                   da Natureza; há sintomas,
                                                   sinais, pégadas nos caminhos
                                                   do deserto, que evocam
                                                   inquietações tão fundas
                                                   que se corre o risco de ficar
                                                   atónito, a tropeçar na pauta
                                                   de uma história, que se teima
                                                   em não esquecer. Consegue-se,
                                                   então, ouvir a pausa que separa
                                                   os batimentos do coração.


['Semiologia (para o António Barahona) de José Alberto Oliveira in Telhados de Vidro, nº18]

10 outubro, 2013

e todas as improváveis certezas dissolvem-se nos lençóis em desordem


Quando estou deitada, o meu cabelo espalha-se na almofada, tapa-me o rosto. É um mar onde gostas de mergulhar. E eu gosto de te sentir a cheirar-me, a navegar sobre o meu corpo, gosto de sentir as tuas mãos a deslizar sobre a minha pele.

A janela do quarto está sempre aberta. Gosto de sentir o ar fresco, a humidade da maresia, gosto que a frialdade da noite chegue até mim. Queria que as noites fossem todas assim: eu nua, o cabelo como ondas espalhando-se na areia, tu junto a mim, aquecendo o meu corpo disponível. Carícias, beijos, palavras inocentes, uma respiração a dois - não seria preciso muito mais.

Mas a noite traz-me as sirenes dos navios, traz-me a lembrança das partidas. Sei que vais partir. Um dia vais partir.

Um dia vou ficar nesta cama como uma árvore arrancada num areal. Um dia a noite vai trazer-me os sons da solidão. Talvez, então, vá até à janela e olhe o farol junto ao rio e pense que algures, lá longe, muito longe, estejas tu. 

Estarei à tua espera porque sei que sempre voltas, sei que não há outros braços que te abracem como os meus. É que os meus são braços feitos de palavras de amor, de liberdade, braços que jamais te quererão prender. És tu, marinheiro de muitos mares, que me costumas dizer que nunca navegas por mares tão atraentes como o meu corpo, como a espuma do meu cabelo rebentando nos lençóis. 

São tão atraentes os abismos, costumas tu sussurrar-me ao ouvido antes de te fazeres ao mar.



[Abaixo do casal que conversa junto ao farol que ilumina o rio, um poema de uma Senhora Dona Poetisa de quem muito gosto: Alice Vieira. E, a seguir, temos mais um belíssimo momento: Rossini interpretado por Kate Aldrich e Marianna Pizzolato]



Farol de Cacilhas à noite



                              Depois do ruído do elevador e
                              das sirenes do nevoeiro
                              começa-se     lentamente      a recear
                              a noite

                              porque não vai haver tempo de dizer
                              penso no teu cabelo como no mar

                              e todas as improváveis certezas dissolvem-se
                              nos lençóis em desordem
                              no caos da partida



                             ['Dos velhos dias', 6, de Alice Vieira in 'O que dói às aves']



01 julho, 2013

olhas para cima ou para a ponta de uma chama como se por aí te chegasse, quase intacta, a asa de todas as palavras


E se fosses para lá do fim do rio? E se fosses para o outro lado do mundo? Do lado de lá do oceano há pássaros de mil cores, flores intensas, uma energia alegre e festiva e, embora o céu seja o mesmo, as estrelas brilham com uma luz que chega do futuro. Queres tanto fugir do frio que alastra dentro de ti, queres tanto.

Olhas o navio que passa, e se fosses com ele?, e recordas as sombras do passado, sentes que a luz se vai progressivamente apagando, e a cidade mal se ilumina, as chamas estão a morrer.

Recordas outros tempos, longínquos tempos, em que o teu coração batia de amor, e que todos os sonhos eram alcançáveis. Agora  o teu rosto mostra esse constante frio que se abate sobre ti e, se recordas dias de ternura e calor que ficaram presos nas teias de uma vida que não se cumpriu, o teu corpo ainda mostra que está vivo, ainda se ouve o teu coração.

Olha, pois, para cima. Deixa que o teu olhar procure um sinal, deixa que as asas se soltem do teu coração e levem as tuas palavras até quem delas toda a vida esperou.



[É um Poeta novo e que eu desconhecia que hoje chegou até mim, Emanuel Jorge Botelho. Que seja muito bem vindo que a beira do rio é sítio próprio para acolher as palavras com asas que se soltam do peito dos Poetas. A seguir uma grande interpretação: Pavel Sporcl com o seu violino interpreta Dvorak]


Em Cacilhas, olhando um navio que cruza o Tejo, Lisboa envolta em neblina logo atrás



                                                         os dias eram um
                                                         grande clarão de vinagre,
                                                         vê-se no teu rosto,
                                                         ardido de ir morrendo
                                                         sobre um chão raso de aspas.

                                                         olhas para cima
                                                         ou para a ponta de uma chama
                                                         como se por aí te chegasse,
                                                         quase intacta,
                                                         a asa de todas as palavras.

                                                         há tanto frio no traço que te deram,
                                                         e até se ouve o teu coração.



['Retrato de Jean Genet por Leonor Fini, em 1950' de Emanuel Jorge Botelho in Telhados de Vidro Nº18 de Maio de 2013]

28 junho, 2013

Às vezes é um sopro que revira o mundo no ventre do tempo


Sou tão mau exemplo. Não consigo dar lições, tirar grandes conclusões. Não sei bem explicar o que faço, porque faço. Não é falsa modéstia, não é mesmo. Não sei citar nomes de personagens, não consigo lembrar-me de excertos que uma vez me prenderam, não consigo decorar poemas. Nada. Gosto, fico presa enquanto leio, vivo ao máximo, e depois apago. Bem, não apago mesmo. Será mais correcto dizer que arquivo. Volta e meia lembro-me de coisas que estão arrumadas no passado. 

Mas desprendo-me do que arquivo porque quero estar sempre muito aberta ao que via acontecendo. Sei, isso sim, que estou disponível para ver o que há para ser visto e viver o inesperado que nos surpreende a cada momento - assim o consigamos perceber.

E não sou dada a saudosismos, não comparo novas situações com anteriores. Recomeço a cada instante e, assim renascendo, vou vendo cada coisa com um olhar que é sempre o primeiro. E assim me deslumbro.

Pode ser uma música, a sonoridade de umas palavras, pode ser uma luz branca tombando sobre o rio, pode ser uma aragem que me levante a saia, pode ser um grito de gaivota, pode ser um gesto, um abraço mais sentido, um beijo dado com o coração. Com tudo me encanto.

Por isso estou sempre preparada para uma nova vida. A ideia do recomeço exerce uma tremenda atracção sobre mim.



[E eis que entra aqui no Ginjal um novo poeta: Nuno Costa Santos, a quem dou as boas vindas. A seguir temos toda a vitalidade esfuziante da orquestra e dos coros juvenis Simón Bolívar conduzida por Gustavo Dudamel que também parece viver em permanente estado de felicidade]



Cair do dia em Cacilhas, rente ao Tejo, de frente para Lisboa



                                                      Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
                                                      um zumbido que detona o coração.

                                                      Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
                                                      uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

                                                      Às vezes é um fósforo
                                                      que resplandece venturosas entradas
                                                      no dicionário dos dias.

                                                      Às vezes nem isso.

                                                      Às vezes é um sopro que revira o mundo
                                                      no ventre do tempo
                                                      como quem se prepara para uma nova vida.



['Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme' de Nuno Costa Santos in 'Resumo- a poesia em 2012]

13 junho, 2013

Marcha de Santo António - Cuca Roseta


Sardinhas assadas, o pingo no pão saloio, leveza, bailarico, ar livre. Ar de casamento no ar. Para mim dia de descanso.


Rua enfeitada. festas, copos, animação





06 junho, 2013

Tive um sonho precioso que me fez muito ditoso! - a palavra aos Leitores do Ginjal


(No post abaixo tenho um poema cheio de amor e desejo do galante Camões e, com vossa licença, a respectiva contradança. Mas, entretanto, recebi um delicioso comentário de uma Leitora e resolvi publicá-lo sob a forma de um post autónomo.

É a minha forma de agradecer a gentileza, Pôr do Sol!)


Ainda bem que aqui o clima é outro.

Porque também é uma amante do Tejo e da nossa Lisboa, trago-lhe um presente que encontrei entre as páginas de um velho livro por onde me passeei hoje.

É um sonho, simples e cândido de que não sei autor mas de que gostei de recordar.


Três amigos contemplam Lisboa, a Bela, e um valente veleiro


Tive um sonho precioso
que me fez muito ditoso!
Sonhei que a nossa Lisboa
em doce se transformava

Ah! Mas que coisa tão boa!
Oh! Mas que coisa tão rara!

Os prédios eram de açúcar
açúcar cristalizado
e cada pedra da rua
era um grande rebuçado!

A estátua de D.José
era de açúcar pilé!
O Tejo que nunca treme
era todo leite creme!

As nuvens eram farófias
que cresciam em castelo...
e os candeeiros da rua 
eram grandes caramelos!

(e como todo o sonho acaba...)

Mas tudo foi sonho vão,
uma fantasia inglória!
e quando estendi a mão...
agarrei a palmatória!



Afinal era um sonho... afinal estava sozinha e não havia nenhum veleiro
(mas Lisboa lá estava, sempre presente, sempre bela)



Espero que goste, tem uma simplicidade comovente, que nos ajuda a esquecer este mundo complicado.

Um abraço e uma boa quinta feira.

***

Gostei mesmo!
Um grande abraço e uma boa quinta feira para si também, Sol Nascente! 
E para todos os outros meus queridos Leitores também, é claro!

16 maio, 2013

Seguindo o sulco negro das consoantes dos teus cabelos, desenho lentamente os traços do teu rosto [no dia em que Nuno Júdice ganhou o Prémio Rainha Sofia]


Passas como uma sombra, uma nuvem. Percorro a rua e tu do lado de lá do vidro. Não me vês. Segues o teu caminho. Para ti não existo, pois não?

És um rosto recortado contra a mais bela cidade do mundo e, ao ver-te, é como se a cidade existisse apenas para emoldurar o teu rosto. Pelo meio corre um rio mas é como se te envolvesse como um manto azul. Segues, pois, como uma rainha, corpo inteiro, olhar frontal, orgulhosa, uma mulher em toda a sua majestade.

Deslizas como um enigma. Olho-te. Não vejo de que cor são os teus olhos, os teus lábios, o teu cabelo. Não sei como é a tua voz. Quando falas é como se as pétalas das palavras voassem em tua volta como pássaros brancos, como uma coroa alada? Gostava de saber.

Estou agora a escrever tentando descrever-te enquanto segues o teu caminho. Mas não consigo, sobram-me adjectivos, falta-me pele, perfume, o teu olhar.

Retiro algumas vogais, tento chegar à tua carne que é com certeza macia, tento chegar à tua alma, se necessário for retirarei também algumas consoantes. Tudo farei para te ter aqui, límpida, na superfície branca do écran que me olha.

Mas não te consigo adivinhar. Apenas adivinho o teu rasto.

Não faz mal. Talvez seja mesmo melhor que continues assim, misteriosa, uma mulher que a seguir se vai evaporar e entrar na paisagem azul, rodeada de pétalas silenciosas, de palavras luminosas, de pássaros brancos.




[Hoje é um dia grande para Nuno Júdice, um Poeta que transporta a luz, a música e o amor para dentro da sua poesia. Para o assinalar trago-o para o Ginjal, é a sua 14ª visita, e é sempre dia de festa quando isso acontece. Para o acompanhar com a dignidade que o momento requer, uma música também muito especial - e, uma vez mais e sempre, os meus agradecimentos ao Leitor que tão generosamente me dá a conhecer momentos musicais tão belos -, a música coral de Arvo Pärt]


No Cais de Cacilhas, de frente para Lisboa, o Tejo de permeio




                                            Seguindo o sulco negro das consoantes
                                            dos teus cabelos, desenho lentamente os traços do
                                            teu rosto. O meu objectivo é recortá-lo do papel
                                            e ver-te à transparência da página, limpando
                                            de vogais as tuas faces. Ponho-te neste retrato
                                            de olhos fechados, e colho dos teus lábios
                                            as pétalas que caíram com as sílabas
                                            do amor, para as voltar a pousar nas mãos
                                            que me estendes. Depois, vou buscar a luz
                                            que me falta ao fundo da tarde, e derramo-a
                                            pelo teu corpo, vendo soltarem-se da tua pele
                                            as gotas primaveris de um céu límpido
                                            como a imagem que aqui vejo florescer.


                                            ['Modelo ao ar livre' de Nuno Júdice in 'Fórmulas de uma luz inexplicável']


01 abril, 2013

Às apalpadelas toco o rasto do caminho que nunca percorri


Fecho os olhos. Estou na cama, deitado, braços estendidos ao longo do corpo. Nenhuma luz. Silêncio, escuridão, a cama fria.

Começo, então, a recordar o dia. 

Atravessei o rio. O Tejo bravio, arisco, o ar frio, chuva e vento. Mas eis que, a meio da travessia, a chuva parou e o sol iluminou as duas margens. O céu quase azul, o rio quase azul. Um bom sinal, que bom.

O coração inquieta-se, não o confesso a ti, mas, agora, aqui deitado, confesso às sombras.

O cacilheiro encosta, salta, inquieto como eu, range, é o rio intranquilo. Intranquilo eu também. Saio. Vou na tua direcção. Junto ao farol, o nosso destino clandestino.

É para lá que me dirijo, cabeça baixa, nervoso como um adolescente.

Quando ganho coragem e olho, vejo a luz que vem de lá: és tu. Dos teus olhos iluminados e belos solta-se a alegria, bem o vejo. Meu amor. Abraças-me, abraço-te, meu amor. 

Dizes-me. Que saudades. Digo-te. Vem comigo. Mas não vens, ainda não podes, eu sei. Eu espero. Sentamo-nos abrigados pelo farol como se ele fosse o nosso templo protector ou a nossa casa, olhamos o rio, a cidade, olhamos o tempo que ainda não é o nosso. Por vezes alguma tristeza leva-me a baixar os olhos mas logo a tua mão me acarinha. Meu amor.

Por isso, regressei sozinho, todos os dias regresso sozinho, o coração tranquilo, um calor doce a correr-me nas veias.

De olhos fechados, agora que anoiteceu e me deitei, revejo o farol, revejo a alegria dos teus olhos luminosos, sinto ainda o calor do teu abraço. Meu amor. Vou esperar por ti o tempo que for preciso. Vou esperar por ti toda a minha vida se necessário for. Até lá, os meus braços pacientes procuram o rasto de ti nesta cama onde nunca te deitaste. Sei que um dia vais estar aqui comigo e juntos percorreremos todos os rios deste mundo.



[Pedro Tamen é um dos poetas que mais frequentemente me visita aqui no Ginjal. Abaixo do seu belo poema, mais uma grande interpretação, desta vez no oboé. É Henrik Chaim Goldschmidt interpretando Ennio Morricone.]


Lisboa e o Tejo vistos do farol de Cacilhas


                                            Atravesso o rio
                                            e entre as árvores clareia
                                            a luz inimitável dos teus olhos.
                                            Quando regresso
                                            deito-me na cama e anoitece,
                                            mas o farol ainda me guia
                                            e às apalpadelas toco o rasto
                                            do caminho que nunca percorri.


                                            [Poema 11 de Pedro Tamen in Rua de Nenhures]


23 março, 2013

Uma avó e uma mãe foram-me entretanto devolvidas mas não eram bem as minhas



Namorei um gato. Um não, dois. Dois não, três. E mais uns quantos de que é melhor não falar.


Gato no Ginjal


Um tinha olhos azuis, outro castanhos, outro cor de mel e dos outros é melhor nem falar. Do que mais gostei foi do que tinha olhos cor de mel. Sempre gostei de mel. Lambo-me toda. 

E gostava de ver as borboletas mas um dia duas borboletas brancas andaram atrás de mim como dois gatos, só que voavam. E um dos gatos disse, és tu com duas mariposas blancas voando, mariposas como palomas. E eu gostei que ele tivesse dito isso. Desde esse dia mais nenhuma borboleta teve grande graça.

E um dos gatos um dia disse que do que mais gostava era das minhas pernas, de subir por elas acima. Um gato safado. Outro disse que gostava do meu pescoço e beijava-me a nuca e arrepiava-me mas não se ficava por ali e punha-se a descer por mim abaixo. Outro safado. E outro... é melhor nem dizer. Só gatos safados, é o que é. 

Uma vez estava eu a passear com um dos gatos numa das ruas da grande cidade, uma rua que subia, passou por nós um carro com um grande barco atrelado. O barco desatrelou-se e foi, desgovernado, para cima do meu gato. Por pouco não se ficava ali, atropelado por um barco numa rua da cidade. 

A minha mãe não gostava muito de um dos gatos, dizia só gostas de malucos. A minha avó nunca conheceu esse. Do outro gato, a minha mãe não era grande entusiasta mas a minha avó gostava muito dele, é bonito, tem uns olhos... e uma voz... e é tão simpático... Do outro, a minha mãe gostou logo mas disse, a tua avó é que vai ter pena, gostava muito dele; mas a minha avó, quando conheceu o gato novo disse ainda é mais bonito que o outro

Dos outros não posso falar. 



[Abaixo encontrarão um divertido poema de alguém que aqui vem pela primeira vez, a única Adília Lopes. Abaixo, poderemos ouvi-la lendo poemas seus. A seguir, Nelson Freire despede-se com mais uma grande interpretação, desta vez tocando Granados.]


No Cais de Embarque de Cacilhas, mesmo sobre o Tejo, de frente para Lisboa




                                                             Minha avó e minha mãe
                                                             perdi-as de vista num grande armazém
                                                             a fazer compras de Natal
                                                             hoje trabalho eu mesma para o armazém
                                                             que por sua vez tem tomado conta de mim
                                                             uma avó e uma mãe foram-me
                                                             entretanto devolvidas
                                                             mas não eram bem as minhas
                                                             ficámos porém umas com as outras
                                                             para não arranjar complicações



['Minha avó e minha mãe' de Adília Lopes in 'A Pão e Água de Colónia']

*




O cheiro de Deus - Recital de poesia de Adília Lopes


21 março, 2013

Leva ao coração toda a luz que a mão espalha


Esta cidade é tão bela. Podia ter sido inventada, tão bonita, tão bonita. E a luz que vem do rio que a espelha, uma luz tão limpa. E o rio, tão largo, quase mar.

Estão pessoas ali ao fundo mas não as vejo. A cidade parece um desenho. E o silêncio. Tão bom este silêncio. Que sossego tão bom.

Sento-me aqui. Tantos amigos já partiram. Os meus irmãos, os meus primos. Em tempos também tive tios. E pais, claro. Há tanto tempo se foram os meus pais, os meus tios. Fui, em tempos, um menino e tinha avós. Pó. Todos pó. Ou nem isso. Há tanto, tanto tempo.

Depois foste tu. Tu que não podias ter ido. Tantas vezes falámos nisso e tu dizias que não querias ir antes de mim, não querias deixar-me assim, sozinho, tão triste. Querias, pois, que eu fosse antes de ti e eu queria-te bem por quereres isso. Tanto amor nessa tua vontade. Mas não esperaste por mim, foste antes. E eu não consegui impedir-te. E aqui continuo sem saber o que fazer. Vou chegar atrasado. Espera por mim e desculpa-me por chegar tão tarde. Minha menina, aí sozinha. Nada mais faz sentido. 

Nada procuro. Nada.

Talvez apenas o sítio de onde nasce, por vezes, um poema. Ou talvez apenas o sítio de onde nasce, por vezes, uma luz que vem, feita de palavras, para me aquecer o coração.

E ouço, então, a música que nascia de ti, meu amor, e se desdobrava em palavras de carinho, de luz, palavras que eram mãos gentis, que eram um coração suave, cheio de amor por mim. Mas tão poucas vezes isso acontece. Nem sei se acontece. Talvez seja só um sonho. Não sei. 



[Aqui abaixo um poema de um Poeta que eu desconhecia, José Carlos Soares e, a seguir, três poemas seus lidos - muito bem lidos. Depois, abaixo, mais uma grande interpretação de Nelson Freire, desta vez uma Bachiana brasileira de Villa-Lobos]


Em Cacilhas, observando Lisboa e o Tejo



                                             Nada procuro
                                             senão o sítio

                                             onde atrasar o poema
                                             e aquela sombra sem culpa

                                             de quem leva ao coração
                                             toda a luz que a mão espalha.



                                             [Poema de José Carlos Soares in 'Resumo - a poesia em 2012]

*



Poemas de José Carlos Soares lidos por José António Moreira

Guardo ainda esse sorriso
Agora que a dor regressa
Devagar acende os gestos