Ginjal e Lisboa

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09 fevereiro, 2012

Repara na súbita inocência de quem parte sem querer


Nunca alguém se despediu assim de mim mas eu sim. Tomara que nunca mais eu tenha que me despedir e tomara que nunca nenhum ser querido se separe de mim. Despedidas são coisas tristes, fica sempre um saco de lágrimas no peito, um saco pronto a romper-se, a alagar o coração, a afogar a alma.

Também já me despedi de mútuo acordo, gente crescida, é melhor assim, tem que ser, não aconteceu no momento certo - e nós, por dentro, crianças infelizes, uma saudade antecipada, um olhar triste incapaz de suportar um adeus, um último abraço que para sempre ficará por dar.

Mas quando eu me despedi assim, quase sem querer, quase sem poder enfrentar a dor causada, parti silenciosa, cansada (há tempo que queria fazê-lo e sempre me faltava a coragem), parti sem me despedir,    parti sem deixar uma esperança, sem responder a cartas nem telefonemas, ignorando a presença nas ruas que eu frequentava daquele que um dia tinha amado. Parti e deixei para trás o passado e nunca mais a ele voltei. Sou assim, vou virando páginas, abrindo novos livros, desvendando novos mundos com a inocência de uma criança.

Mas nas minhas veias para sempre correrá o nome daqueles que um dia amei, para sempre, para sempre.



[A semana de Prokofiev está a chegar ao fim e, sendo hoje um dia de despedidas, peço-lhe que se detenha no belo poema da Maria do Rosário e depois siga até mais abaixo, onde uma música exuberante espera por nós]




                                  Repara na súbita inocência de quem
                                  parte sem querer - um sono vago
                                  apoderou-se há instantes dos seus
                                  gestos, fez dos seus olhos azuis uma
                                  lagoa quente; e o cansaço que a dor

                                  arrastou tantas vezes pelo seu corpo
                                  tornou agora a sua voz de um veludo
                                  macio. Se chegares o seu pulso magro

                                  ao teu ouvido, pouco mais escutarás
                                  do que o breve esvoaçar de um lenço
                                  a despedir-se, o brilho de uma estrela
                                  a desmaiar no céu, o eco do teu nome
                                  a adormecer-lhe, cândido, nas veias.


[Poema, pag.72, de Maria do Rosário Pedreira in 'Nenhum nome depois']
  

02 fevereiro, 2012

Se disser a verdade mais triste que não quero dizer

  
In heaven eu planto árvores. Pego nelas ainda pequeninas, crianças indefesas, e com infindos cuidados, faço um pequeno buraco na terra inóspita e coloco-as como se as deitasse num berço, aconchego a terra à sua volta, deito-lhes água como se as alimentasse a leite. Quando há frio ou vento já eu ando em cuidados, com receio que tombem, que se partam, que sequem; se faz muito sol, tento que tenham sombra e, se por uma qualquer infelicidade alguma adoece ou morre, já eu sinto uma dor no peito, minha pequenina. Nesses tristes casos, é com desolação que as retiro, pequena morte que não pude evitar.

Mas quando vingam, alegro-me e vigio-as como se fossem crianças, passo por elas e faço-lhes ternas festas, amparo-as, e encho-me de orgulho. Quando se tornam adultas, é com alegria de mãe realizada que as sinto independentes, que as vejo a dar sombra, a acolherem pássaros, crianças.

Uma árvore é um bocado de vida, uma vida digna, bela, um ser que busca o céu, um ser alado que gosta de se cercar de azul, um ser que acolhe aves livres, aves que se amam, que têm filhos, uma árvore é uma casa, é um sonho. Uma árvore é a elegância em liberdade, é um ser verde e sábio, que encerra em si o mistério da renovação da vida.

E, à noite, uma árvore é um pássaro de grandes plumas verdes, é um arca sagrada plena de vida, é um caminho para o céu.


Árvores minhas cheias de vida, gosto eu de dizer baixinho, como se rezasse, com a vossa infinita bondade acolhei-me sob o vosso manto de sombra.

Árvores nossas cheias de beleza, árvores nossas cheias de vida.



[Passeemos, pois, sob este misterioso arvoredo e vamos até ali mais abaixo, que a música no parque vai animada, com Um Americano em Paris, quase a acabar a semana Gershwin ]

Árvores à noite em Belém, rente ao Tejo,
o Cristo-Rei ao fundo, um pequeno traço branco


                       Se disser a verdade mais triste que não quero dizer
                       Se a disser
                                        Como poderei dizê-la?

                       Eu já soube dizer azul
                       e é o verde que respiro agora
                       no arvoredo de um jardim
                       vendo as grandes árvores que nada dizem aos passageiros apressados
                       árvores de labaredas sombrias
                       não dizem sonhos     ascendem entre a terra e o céu
                       não prometem glória        mistério verde
                       árvores       amantes desconhecidas



['Contemplação das árvores' de António Ramos Rosa in Cultura ENTRE Cultura nº 4, belíssima revista]
  

01 fevereiro, 2012

Penso no exíguo espaço em que temos vivido

 
Combinamos encontrar-nos na minha aldeia para depois irmos juntos para outro local mais urbano. Saio do trabalho e venho a correr para aqui. Quero apanhar ainda a luz da tarde. Mas apanho um céu em carne viva e um sol dormente a afundar-se no rio. Fotografo, rendida, mil vezes rendida, tantas quantas assisto a este feérico espectáculo. 

E vou andando, a luz do dia esvai-se num instante e eu vou andando enquanto a noite vai estendendo os seus véus de veludo. Quase ninguém e eu ainda sozinha, uma aldeia à beira rio e quase toda só para mim.

Um ou outro vulto, alguns que passam correndo, já sei que vou ser censurada pela minha imprudência mas não consigo ter medo de nada, aqui sinto-me em segurança, estou na minha aldeia. Ali mais à frente há árvores e eu fotografo-as, mágicas, contra um céu escuro, junto a um rio com reflexos de prata. Logo a seguir, andando eu bem rente à água vejo uma gaivota lá em baixo, sozinha, solitária, olha o mar, sente a maresia e eu sou ela, ali, sozinha aspirando o fresco da noite que, entretanto, desceu. Um  silêncio escuro, fresco, dourado pela memória.

E então chegas, que um dia ainda me acontece alguma, mas eu explico que não, gosto de andar por ali, rente ao rio, rente a estes monumentos belíssimos cheios de História, estes locais que tanto representam o meu País. Eu teimosamente sozinha na noite no coração do meu País, enternecida, agradecida. Pertenço a duas ou três aldeias e esta é uma delas - a ela estou presa por laços de devoção.



[Meus amigos, nesta noite fresca e mágica, desçam um pouco mais, que logo a seguir ao poema encontrarão uma bela interpretação de uma conhecidíssima música de Gershwin.]

Hoje, já noite, na Torre de Belém - uma beleza mágica


                         penso no exíguo espaço em que temos vivido
                         cidades que conheci em todas as suas horas
                         e mesmo nas mais amargas concedi que
                         poderia seguir tendo-lhes ainda amor
                         sobra este sentimento de pertença a insistente
                         impressão de estar ao chão costurada a nossa
                         sombra de no mais escuro silêncio
                         podermos apenas evocar a memória de alguns lugares
                         cuja imagem guardamos com teimosia quase terna


                         ['Lisboa IX de Tatiana Faia in Lugano]           
           

30 janeiro, 2012

Mulheres que caminham sozinhas no bosque à noite

 
Ao espelho, passa a sombra e o eyeliner nas pálpebras, aplica baton e une e desune os lábios para que a cor e o brilho melhor se espalhem, com um pincel macio espalha o rouge nas maçãs do rosto, a seguir solta o cabelo, escova-o, agita a cabeça para que melhor se solte, olha-se de frente, depois de lado, a seguir aplica perfume em spray na orla do pescoço, nos pulsos, calça as botas, vê-se no espelho de corpo inteiro, veste um casaco sobre o vestido justo, uma última mirada ao espelho, gosta, ensaia um sorriso, está tudo bem.

Fecha a porta, chama o elevador, sai para a rua. Passa da meia noite. Está frio, a respiração forma um halo à sua volta. Mãos nos bolsos, decidida, caminha pela noite. Sozinha avança na noite. Receia as sombras, teme os vultos, mas avança decidida. Aspira o ar frio, o peito treme de medo, que vai fazer desta vida? mas avança sozinha nesta noite que não foi feita para mulheres sozinhas.

Pensa que o sangue que sente escorrer do seu corpo é bem o espelho da inutilidade que é a sua vida actual. Um fio de sangue quente, inútil. Avança na noite, avança, avança em direcção ao nada. Uma mulher cheia de sementes inúteis atravessa a noite. Pintada, arranjada, perfumada - para ninguém, apenas para atravessar a noite.

Olha as árvores nuas, fantasmas que habitam a paisagem, passa por uma casa grande abandonada, e sente que esta noite desolada e fria não a rejeita e, então, avança, mais tranquila. Ninguém a vê, ninguém a quer, ninguém sentirá a sua falta se mergulhar no poço mais escuro de um bosque, na cova mais funda do mar. E avança sozinha na noite.

Vai em silêncio. Há muito que, à noite, em casa, num quarto silencioso e indiferente, começa por se despir de palavras, dobra-as direitas, arrumadas, sobre a cadeira ao lado da cama. E então despida de palavras, nua, começa a vestir as vestes da noite. Mulher silenciosa vestida para a noite. Mulher que penetra no mato mais solitário, silenciosa, o peito vazio, o sexo inútil, os olhos secos. Apenas o cabelo esvoaça. O cabelo esvoaça - e ao seu lado algumas indómitas palavras que, em silêncio, se levantaram da cadeira e que agora voam, transparentes, para zelar por ela, mulher sozinha atravessando a noite.



[Numa noite fria e triste, convido-vos, meus amigos, a que me acompanhem. Vou ali mais abaixo, a seguir à fotografia e ao belo poema de Ana Duarte, tentar aquecer a alma ao som de Gershwin.]

Alguém que caminha na noite


                      Mulheres que caminham sozinhas no bosque à noite
                      mulheres sonoras alagando de calor as copas dos arbustos
                      mordendo o pânico, iluminando o voo dos insectos
                      Das suas cabeleiras soltam-se pensamentos
                      como da folhagem inacessíveis aves nocturnas
                      Ah, essas mulheres atrás de quem se fecha a noite,
                      que cosem com um fio de sangue os caminhos
                      Em frente abre-se o peito das mulheres
                      na direcção do poço mais negro do bosque
                      abre-se o peito das mulheres
                      Despiram-se da voz na primeira encruzilhada
                      e todo o seu corpo é um seixo que enche a boca da noite,
                      uma pedra solta forçando a passagem entre os veios da noite,
                      uma contracção de semente que aperta a orla do bosque
                      - e a poeira ergue-se em torno dos seus pés como
                      a respiração da fera ao calor dos herbívoros


['Mulheres que caminham sozinhas no bosque à noite' de Ana Duarte in Criatura]
  

29 janeiro, 2012

Nada é perfeito como a tua noite

 
Andamos os dois junto ao Tejo, a tarde chega ao fim, a noite cai, as pessoas recolhem-se, os barcos regressam ao cais, algumas luzes acendem-se. Caminhamos em silêncio, uma ou outra palavra trocada, quase sussurrada . Em momentos assim, sagrados, todo o recolhimento é pouco.

As águas solenes do rio ficam prateadas, macias, a aragem faz apenas levantar ao de leve a seda líquida, subtis requebros de seda suave, quase branca. Olho, quase indiscreta, uma beleza assim não deve ser banalizada. 

Depois passa por nós uma mulher correndo, uma égua de trote cadenciado, cabelos voando, patas fortes batendo no caminho, é uma mulher alada, corre na noite, é uma mulher saída do poema de Herberto.

E nós continuamos, um último veleiro, recolhendo as velas, rasga o rio, uma visão quase mágica, um veleiro silencioso e digno.

E então eu digo-te baixinho - e tu encolhes os ombros porque tantas vezes já me ouviste dizer a mesma coisa -  que queria ser capaz de voar, primeiro rente ao rio, sentindo o cheiro da maresia, sulcando as águas de prata macia, depois elevando-me, longas asas brancas na noite mágica, abrindo o espaço com o meu voo, eu mulher nua, banhada de luar.



[Peço-vos que aceitem o meu convite e que venham voando, ao de leve, passando a fotografia, o belo poema de Bernardo Pinto de Almeida até que a sublime voz de Renée Fleming nos acompanhe, abrindo assim a semana que vou dedicar a Gershwin.]

Anoitecer no Tejo
(a Torre de Belém ao fundo)


                                         Nada é perfeito como a tua noite
                                         se outro sol nela se levanta
                                         quota parte de treva que anuncia
                                         a traço grosso o rosto claro instante.

                                         Olhos febris a boca estremecendo
                                         à simples sugestão da queimadura
                                         movimento subtil age os quadris
                                         do frémito possante que insinua.

                                         Barco fundeado no horizonte
                                         movimento do vento que se espanta
                                         se acaso luz feroz evidencia
                                         prata líquida de fuel flagrante.

                                        A noite inunda-te. A lua espelha no mar sua moldura
                                        pueril respiração do peito erguendo
                                        zona de sombra onde tudo diz
                                        que antes mesmo da nudez já estavas nua.


['Corto Maltese' de Bernardo Pinto de Almeida in '366 poemas que falam de amor']

  

12 janeiro, 2012

(...) regressar a deus como quem regressa aos homens

 
Mulher vestida de olhares, mulher de pele beijada, mulher que caminhas alheada dos que te olham e desejam. Mulher que te deitas e deixas que se deitem sobre ti e tu sempre alheada, mulher de coxas verdejantes, carnes que, atrás, se desembrulharam da sua nudez. E tu, mulher, mais doce, mais pura, melhor que muitas outras mulheres, avanças como se dormisses e não vês se é noite, se é dia, e deslizas e nem sabes se descalça, se desnuda, se vestida apenas dos olhares que a ti se colam. O cabelo cobre-te os ombros e nem sabes se é o cabelo que se soltou, se é o xaile que à tua pele se colou.

Ora corres as saias como cortinas, ora levantas as saias para que o sol te lamba, mulher desejada pelos homens e pelos deuses. Regressas, pois, a casa e vais limpa e pura, estrelas dentro da cabeça, ventos varrendo-te o corpo, desejável, tão desejada, sempre distante, sempre presente.

Regressas, pois, a casa e, uma vez chegada, ajoelhar-te-ás junto à imagem de um deus que é irmão de todos os homens e a esse deus te entregarás inteira, consciente, cheia de luz.



[Uma mulher assim, que desliza desnuda, deve ser guiada pela música dos deuses - deslize também até ali mais abaixo e verá qual a música e qual a sublime voz que guiam esta mulher]




                         Chegava coberta de migalhas como quem chega do pão.
                         Nessas noites em que escolhia muito bem os dedos
                         o penteado do xaile.

                         Chegava e chavam.lhe espinheira
                         por vir assim tão colada aos pés descalça
                         até aos ombros.

                         Nessas noites em que corria as saias e aprendia depressa
                         a desembaraçar-se dos olhos
                         a desembrulhar as coxas para a neve verdejante
                         a regressar a deus
                         como quem regresssa aos homens.


                         ['Cântico Cereal' de Catarina Nunes de Almeida in Bailias]

11 janeiro, 2012

Desce lento, vivendo cada espaço que ocupa com a segurança de não lhe retornar

  
Este homem que aqui vai rumo ao lugar longínquo e secreto onde o sol se põe, caminha com segurança, não sabe exactamente para onde vai, sabe apenas que vai em frente, e gosta de estar a ir.

Este homem não tem medo. Não sabe onde vai dar este caminho nem isso o preocupa. Ele sabe que a cada momento que passa, um outro nasce, enquanto um outro fica para trás. A sua vida vai ficando em cada um desses momentos. E assim é o percurso da vida.

Um dia virá em que este homem não poderá mais caminhar. Mas esse dia está para além do esconderijo do sol, muito além, apenas a ele chegará no final do percurso, quando anoitecer dentro do seu peito. Até lá, o homem avança com absoluta serenidade, olhando o céu que se adensa de luz, respirando o ar puro que vem do fundo do mar, sentindo a felicidade suprema que é andar em liberdade, a caminho da luz.

Enquanto anda, vai pensando: quem me fez assim? quem me dá toda esta minha força? mas, não obtendo a resposta, continua com o mesmo vigor. Ele é um homem feliz, consciente da sua condição, um homem livre que caminha pelos seus próprios pés.



[Esta luz quente pede uma música de grande beleza. Desça um pouco mais e encontrará, nesta semana que dedico a Rachmaninov, um momento de grande harmonia.]

Caminhando rente ao Tejo, em Belém


                                     Desce lento,
                                     vivendo cada espaço que ocupa
                                     com a segurança de não lhe retornar.
                                     Pisando a calçada íngreme
                                     com apreço,
                                     direccionando o olhar
                                     com precisão.
                                     Seleccionando os sentimentos
                                     com aguçada verdade.
                                     Mantendo-se à superfície,
                                     olhando as oscilações
                                     com bravura reenviada de outras paragens
                                     em encomenda sem remetente.


[Poema de Patrícia Aguiar in '190 minutos aqui', livro com ilustrações de Marisa Benjamim]
 

05 janeiro, 2012

Não eras senão um corpo

 
Olhas-me de lado, aprecias-me. As coxas, as ancas, sinto o teu olhar a subir pelo meu corpo. Viro-me e aprecias a dimensão dos meus seios. Deixo que olhes.

Nem vês o meu rosto, nem saberias dizer a cor dos meus olhos. Reparo que os teus lábios se entreabrem. Olhas-me guloso e eu não me furto ao teu desejo. Sou carnal, pois sou. Sou carne e gosto de ser vista, tocada. Mas tu não te aproximas, vejo que tens receio. Olhas mas em silêncio, com distância. Ando um pouco mais para que vejas como meneio as ancas, como requebro os quadris, fêmea em dança de sedução.

Olhas-me, a língua passando pelos lábios, os dentes mordendo depois o lábio de baixo. Imaginas, talvez, a minha nudez. Talvez. Vejo que um desejo intenso tomou conta de ti. Mas não te mexes. Para ti sou um corpo, apenas um corpo, mas um corpo demasiado evidente que te intimida.

Espero um pouco. Nem uma palavra, nem um sorriso, nem um movimento. Penso vou contar até três - um, dois, três. Nada. Sorrio-te, uma última tentativa. Nada.

Então viro-te as costas e vou-me embora. Não mais me verás, homem desalmado.


[Depois desta dança, sigamos para um outro bailado. Um bailado num lago, neste lago. Desça um pouco, Tchaikovsky levar-nos-á até ao Lago dos Cisnes]

Mulher e homem em Belém


                                            Não eras senão um corpo
                                            mas atenção, eras o corpo

                                            Melhor assim, ao menos
                                            não foi preciso inventar-te

                                            Para quê se eras assim
                                            carnal e evidente

                                            Como o desejo intenso
                                            como a simples nudez



(Poema, pag.21, de Rui Caeiro in 'O quaro azul e outros poemas')

 

31 dezembro, 2011

Ainda me atiro à vida desafiando o eterno sem rede - e assim quero continuar em 2012. Que tenham vocês também um belo 2012, um ano que permita todas as vossas ilusões, que vos permita ser muito felizes.

  
Eu era uma menina que gostava de brincar na rua, de andar na rua até ser noite. A grande aventura era brincar de noite na rua. Havia uma liberdade que me era ainda desconhecida, havia uma magia nas luzes amarelas que mal iluminavam a rua, uma magia que eu, então, apenas intuía. Brincava desafiando o medo, escondia-me desafiando os seres nocturnos que poderiam saltar para me amedrontar, e conquistava o meu espaço, a minha segurança.

Ainda hoje, quando posso andar à noite, sob a luz escassa, em jardins por onde passeiam também fadas e duendes, sinto o mesmo - um medo indefinido, uma atracção aliciante, uma vontade de fixar dentro de mim as imagens inventadas que se formam à minha vista.

A criança que eu fui, curiosa, aventureira, destemida, desafiadora e, também frágil, e também sonhadora, a menina que se deslumbrava perante a beleza da rua, dos jardins, das estrelas, da lua, a menina que se deliciava com o sorriso no rosto dos outros ainda está dentro de mim. Todos os dias essa menina convive comigo e, de todos os seres que me rodeiam e que me habitam, é a essa menina que eu dou mais ouvidos, é ela que comanda a minha vida.

Essa menina que adorava correr, que adorava correr em descidas sentindo-se acelerar até quase sentir que não conseguia parar, a menina de cabelos ao vento, a menina que queria ver estrelas candentes, a menina que tudo queria, que tudo amava - essa menina ainda sou eu.


Que 2012 continue a permitir-me guardar dentro de mim, intacta, a criança que fui e sou, que seja uma ano muito bom. E, se o desejo para mim e para os meus, desejo-o também para vocês. Que tenham todas as razões para serem felizes. Construam as vossas próprias razões. Não as deixem passar ao vosso lado. Procurem-nas. Sejam felizes. Em 2012 e em todos os anos que se seguirão.



[E, claro, para encerrar 2011 e abrir 2012, tinha que aqui ter uma ode à alegria e, estando nós a encerrar a semana de Beethoven, teria que aqui vos oferecer o final da 9ª sinfonia - para vos desejar um 2012 muito alegre!]

Jardim junto ao Tejo, em Belém - de noite


                                      Ainda me atiro à vida
                                      desafiando o eterno
                                      sem rede, porque não há
                                      e verdadeiramente não houve
                                      e o pouco dinheiro
                                      poupado para a idade
                                      avançada do tempo gastei.

                                      Volto à ilusão plena
                                       da liberdade da essência
                                       e zango-me completamente
                                       com o absurdo de ter
                                       trabalho para sustentar
                                       a criança que me habita
                                       indo e vindo
                                       digo-lhe:

                                       porta-te bem
                                       criança do meu corpo
                                       sossega o ímpeto do desejo
                                       da luz que não verás
                                       a não ser na ilusão até ao fim
                                       brinquedo nas minhas mãos
                                       enquanto viver.


                                       ('Ir & Vir' de Emerenciano in 'Ir & Vir)
                            

30 dezembro, 2011

Era já noite mas eu corria, corria cegamente pela página fora

 
Vou levada pela aragem fresca que vem do rio. Aos poucos as pessoas vão rareando. É quase noite, daqui a instantes já é mesmo noite e eu já estou sozinha. Passam pequenas embarcações iluminadas no rio, riscos de luz atravessando a escuridão com cheiro a maresia.

Percorro esta rua e não sei o que procuro. Talvez um rosto que saia do escuro, talvez uma voz que suba do rio, talvez um corpo nu esperando por mim no fundo de um veleiro, talvez uma luz, talvez.

E, então, vejo que sob os meus pés começam a nascer palavras. Emocionada detenho-me. Um caminho feito de poesia. Por cada passo que dou, nova palavra se desenha. E eu vou lendo Tejo, gente, pertence, minha terra, meu mundo e, então, começo, quase em silêncio, quase sem ver, a dizer as palavras que nascem à minha passagem. Eu, mulher feita de palavras, percorro as linhas dos poemas que alguém, um dia, dispôs gentilmente sobre uma página.

Por estas linhas de palavras vou, guiada por uma estrela invisível, silenciosamente andando pela noite dentro.




[Às palavras silenciosas dos poemas deverá juntar-se a beleza imaterial da música que abaixo poderá encontrar - um raro momento de beleza, como poderá confirmar]


Anoitecer à beira Tejo, num caminho feito de palavras em Belém


                               Era já noite mas eu corria
                               corria cegamente pela página fora.
                               Ou era talvez a rua. Corria
                               para um encontro
                               não sei ao certo de que
                               de quem.
                               Um nome um rosto
                               um corpo nu deitado no abismo.
                               Mas era uma estrela
                               que me
                               guiava.
                               Era um sismo
                               era um vento.
                               Ou talvez a palavra. Ou talvez a palavra.
                               E por isso eu corria
                               loucamente corria pela noite dentro.


                               ('Um sinal' de Manuel Alegre in 'Livro do Português Errante')
 

26 dezembro, 2011

Diz-me assim devagar coisa nenhuma

 
Estou numa torre de vidro, transparente, e eu, tão rodeada de gente, sinto-me sozinha. Faltam-me as tuas palavras doces, os teus abraços quentes, os teus lábios no meu pescoço, faltam-me o teu olhar marialva e irreverente pousado nas minhas pernas, invadindo o meu decote. Faltas-me tu.

Se te perguntasse, dirias que também sentes a minha falta, dirias que, antes, fazia de ti um homem melhor, que agora te falta a motivação.

Mas não pergunto. Custa-me muito ouvir essas tuas palavras - sou eu ao espelho, eu sem ti ao meu lado, imagem amputada.

Saio do gabinete, desço ao interior da terra e, uns minutos depois, estou a emergir à superfície. A profissional exigente ficou para trás. Dirijo-me à beira do rio. Lá onde o ar é fresco, o horizonte largo, as pessoas desconhecidas, as aves de longas asas brancas atravessam os mares, lá eu respiro fundo, misturo-me na pequena multidão que por ali paira. Ninguém me conhece, ninguém me vê, e isso é bom, sinto-me completamente livre.

Vou falando em silêncio, 'ficaram tantas palavras por dizer, ficaram tantos sorrisos por esboçar, tantos beijos, tanta ternura, tanta emoção por viver, deixámos tantas coisas para trás.' . Mas logo me repreendo. 'Tanto queixume, coisa desagradável. Vá mulher, coração ao alto.'

E então tropeço em ti. Sorris, contente e surpreendido, caloroso, cheio de ternura. Abraçamo-nos felizes, íntimos, só nós dois. E então, sorrindo, numa voz meiga, dizes-me, 'Diz-me devagar coisa nenhuma'. E eu sorrio, aconchego-me no teu ombro e digo-te, baixinho 'eu tenho uma vida e, ao lado, um destino. Não se encontram. E sou fiel ao meu destino, tal como sou fiel à minha vida. O meu destino é um mundo só meu, povoado por memórias, por sonhos, um mundo de abraços, de espelhos luminosos, de sorrisos, um mundo sem mácula, todo e só verdade'. Tu abraças-me, beijas-me o rosto, estás inesperadamente quentinho, sinto que sorris, 'eram outras as palavras que quereria, agora, ouvir mas, ainda assim, obrigado, continua a dizer-me palavras assim, sem mentiras, sem reservas, continua presa a mim e a dizer-me, devagar, coisa nenhuma'.

E deixamo-nos ficar abraçados, sorrindo de ternura, contando um ao outro, vezes e vezes sem conta, coisas nenhumas. E, no entanto, ambos sabemos que é apenas uma miragem. De facto, o que abraçamos é uma miragem, um sonho, coisa nenhuma.



[Desça um pouco, leia o belo poemas de Jorge de Sena e, logo a seguir, deixe que eu, quase desejando ser belle de jour, eu clair-de-lune, o/a leve até à Sonata Moonlight de Beethoven. A semana Beethoven começa hoje e começa envolta em recordações. Veremos o que o resto da semana nos reserva]



                                   Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
                                   como a só presença com que me perdoas
                                   esta fidelidade ao meu destino.
                                   Quanto assim não digas é por mim
                                   que o dizes. E os destinos vivem-se
                                   como outra vida. Ou como outra solidão.
                                   E quem lá entra? E quem lá pode estar
                                   mais que o momento de estar só consigo?
                                   Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
                                   o que à morte se diria, se ela ouvisse,
                                   ou se diria aos mortos, se voltassem.


('Fidelidade' de Jorge de Sena de Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço)
 

14 dezembro, 2011

E abre os braços para deixar cair na cidade um ano favorável ao senhor


Um homem passa com majestade, o andar desenvolve-se com serenidade, é um cardeal que se desloca, vai com vagar, o casaco pende-lhe quase como se fosse uma pesada veste pregueada, vagamente ondulante. O homem avança e vai sereno, rosto aberto, peito feito ao frio do entardecer, passos de assombro e desprendimento. Olha a paisagem, olha as pessoas, olha os pássaros, olha com compaixão, com um afecto contido que não pertence aos dias comuns e nós não lhe vemos os olhos. Mas a sua compaixão pousa nos nossos ombros, uma mão forte e quente que se imagina.

Este homem que eu olho caminha contra o vento, caminha para dentro da noite.

E então pára.

De perfil, com nobreza no porte, altivez no olhar que se esconde, deixa-se ficar imóvel, superior, ele é o homem que olha a paisagem, ele é o homem que domina a paisagem, pensamentos voando em seu redor, palavras rodopiando em silêncio, palavras sopradas por um deus que se esconde no vento, palavras que as crianças que passam agarram, palavras como folhas de outono, palavras, palavras, palavras. Palavras de poeta.  

Este homem que aqui se entrega à noite que chega, que segura nos braços as palavras de um qualquer deus, é um poeta, um poeta quase apostólico como são todos os poetas.



[Leia, por favor, o poema abaixo do Ruy Belo e depois desça um pouco mais - verá então o que é irreverência e joie de vivre. É Mozart, claro, mas um Mozart muito peculiar]


Belo tronco e belo perfil num fim de dia rente ao Tejo


                               Está sereno o poeta
                               Desprende-se-lhe dos ombros e cai
                               depois em pregas por ele abaixo a manhã
                               Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
                               não morrerão na noite seus assombrosos passos
                               Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
                               de crianças de atitudes desmedidas
                               que o vento varreu e parque algum queria
                               E abre os braços para deixar cair na cidade
                               um ano favorável ao senhor
                               E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras
                               Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar 



                               ('Poema quase apostólico' de Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates" )

 

13 dezembro, 2011

É pelo rodopiar das folhas no chão que saberás que este tempo chegou

 
Agora os dias acabam cedo. Com o cair do dia caem as últimas folhas, mergulham no rio as últimas aves, cai a nostalgia sobre as pessoas. Caminham sozinhas e seguras as mulheres ao encontro dos amantes previstos, caminham sozinhas e inseguras as mulheres a quem ninguém espera.

Caminho por aqui, à beira deste rio silencioso, dourado, um veludo macio. Vou sozinha. Ninguém me espera.

Mas, enquanto caminho sozinha, sei que estou à tua espera.

Sabes que nestes dias assim, em que as caem as últimas folhas, em que a noite avança mansa e secreta, eu saio pela beira do rio à tua procura. Sabes que, nestes dias assim, os deuses te levarão ao meu encontro, sabes que eu estarei na beira do rio, na escada que sobe das águas, estarei esperando por ti, mulher pássaro, mulher com cheiro a mar.

E vou caminhando, devagar, a dar-te tempo. A tua bússola secreta conduzir-te-á até mim. Não tenho pressa.

E então, apesar de ser quase noite, vejo-te. Caminhas na minha direcção - ah não, os deuses ainda não partiram - e eu vou dizendo baixinho, em festa, 'meu amor, meu amor, meu amor' e tu vens, como se viesses do fim dos tempos, e, de longe, quando me vês, sorris, e abres os braços e eu só não corro para ti porque quero que o momento dure. Sorrio, feliz. É outono, as folhas rodopiam no chão, entardece, cheira a maresia, sopra uma aragem suave, está tudo certo, e tu vens na minha direcção e, então, quando chegas perto de mim, baixas-te, e eu ouço as ondas ao de leve e vejo que escreves no chão a palavra pela qual toda a vida esperei. Em torno dela erguerei um templo e, dentro desse templo sem paredes, seremos felizes.



[E porque de alegria e sonho se fala aqui, sigam por favor, para a sonata de Mozart - mas obviamente apenas depois do poema de Ivone Costa, logo abaixo da fotografia]


Os deuses não partiram
(À beira Tejo numa tarde de Outono em Belém)


                             É pelo rodopiar das folhas no chão
                             que saberás que este tempo chegou.

                             Porque apontam as certezas
                             saberás que as bússolas não dormem.

                             Porque se cruzam os caminhos
                             saberás que os deuses não partiram.

                             Dá-me a tua mão
                             e eu mostro-te a escada
                             por onde subiram os séculos.

                             Dá-me uma palavra
                             e eu escreverei o teu nome
                             nas ruínas de um templo,
                             esquecido nas escarpas
                             onde batem as ondas.


(Poema VI de '5. Contos de Fadas' de Ivone Costa in Ordem Breve, produção e edição de João Carlos Lopes, a quem muito agradeço o ter-me enviado o belo e cuidado livro)

09 dezembro, 2011

O seu corpo pertence à terra, entrega-se ao ritmo subterrâneo das raízes e conta o tempo que falta para a noite

 
Esta mulher está no centro da paisagem mas não vê o que a cerca, não vê a suave neblina, não vê o dia que desponta. Esta mulher vive de noite, e então, quando os gatos sobem às janelas, quando os navios deslizam silenciosos, quando as restantes pessoas se retiram, quando a fria bruma desce sobre a cidade, enchendo-a de sombras, a mulher deixa que as suas raízes escorram até o rio, até à terra. Com as entranhas quentes, fumegantes, com o coração latejante, com as mãos em brasa, escrevendo como uma louca, esta mulher entrega-se ao silêncio e deixa que se evolem os seus mais secretos sentimentos.



[Esta mulher precisa de música, é parecida comigo esta mulher. Sigamo-la até ali mais abaixo, partilhemos com ela a Sonata Arpeggione de Schubert.]
 

À beira Tejo, a Ponte ao fundo, o Ginjal do outro lado
- mulher ocupando o centro da paisagem -
                

                     Na luz indecisa que deixa adivinhar
                     a manhã, a névoa que impregna o ar
                     desfaz-se quando os dedos de fogo do sol
                     a limpam, restituindo ao dia
                     a sua transparência. Mas a mulher que
                     ocupa o centro da paisagem não
                     se apercebe da mudança. O seu corpo
                     pertence à terra, e entrega-se
                     ao ritmo subterrâneo das raízes, ouvindo
                     o canto que regula a passagem
                     das estações. Um desejo de sombra apodera-se
                     da sua alma; e conta o tempo que falta
                     para a noite, para se entregar ao silêncio
                     do mundo, no lento eclipse
                     dos sentimentos.


                     ('Paradoxo natural' de Nuno Júdice in A a Z )

 

08 dezembro, 2011

Longe de ti eu serei esse primeiro luar, gentil fluir de gotas de água

 
Passeio ao longo do rio, deslizo com o vento e, tantas vezes, sinto que vou pelo sonho. Longe estão os teus olhos que sei tão doces, longe o teu sorriso que adivinho, que me afagaria em silêncio. Mas eu continuo a caminhar.

Prendo-me ao teu olhar abstracto, ao calor do teu rosto inventado, sonhado, recordado, e assim vou caminhando no frio. Este rio que tanto amo acompanha-me, as suas gaivotas livres também. E há as pessoas que por aqui se cruzam comigo e cujo olhar evito. Apetecem-me os teus olhos, não outros olhos. Mas vou caminhando.

Longe de ti, sem nada a temer, vou escrevendo estas palavras. São palavras que solto ao vento, pétalas de rosa, penas suaves, palavras que lês e que sabes que são para ti, meu leitor secreto. O outono retira as folhas das árvores, atapeta o chão e eu, que por aqui caminho, vou pisando estas folhas ainda por escrever, e vou pensando em ti, meu amor que o mar me traz em sonhos, meu amor que, como eu, tanto amas as palavras.

Olha, escuta-me - tu, que me lês, sente-me assim nas minhas palavras, nestas palavras limpas, nuas, cheias de sombra, cheias de luz, sente-me assim, como um primeiro luar, como um fruto húmido, sente-me, inventa-me.



[A seguir ao poema não deixe, por favor, se descer um pouco mais - Schubert espera-nos, sublime]

À beira Tejo, numa ensolarada tarde de Outono

                          Sem nada temer,
                          e guiado pela mão escrevente,
                          cavalgo para o sonho.

                          teus olhos tocam o cinzento abstracto dos dias,
                          desconfia sempre que alguém disser:
                          "ainda há um dizer primordial."

                          longe de ti,
                          eu serei esse primeiro luar,
                          gentil fluir de gotas de água.

                          literalmente limito-me a querer
                          alimentar a ferida aberta,
                          vidros baços sem arestas,
                          meros frutos húmidos
                          trazidos pelas ondas.


                          (Poema XXXIX de Ricardo Gil Soeiro in 'Espera vigilante')

01 dezembro, 2011

Há um homem além em busca da unidade. Vêmo-lo a percorrer a despojada linha de um caminho translúcido.


Caminhas ao longo do Tejo, junto a uma linha feita de palavras. És um homem só, e caminhas sem ver os que te rodeiam; vais, errante, despojado, quase como se não tivesse corpo, apenas ideias, apenas sonhos.

Passas e ninguém te vê. Só eu.

Fiquei a olhar-te. Passavas e ninguém detinha o olhar em ti, eras um homem que seguia sozinho uma linha feita de palavras. Ali ias, como se te dirigisses a casa, uma casa templo, o teu domínio, só teu.

Passaste por mim e também não me viste. E, no entanto, eu fiquei presa à força da tua imagem, uma imagem una, íntegra, um homem denso, um homem que transporta uma luz em sua volta, talvez sejam raios que saíam do teu peito, raios de fogo. Fotografei-te, três vezes o fiz e tu não me viste, não vias ninguém e ninguém mais te viu.

Invisível, seguindo o translúcido caminho das palavras, soletranto em silêncio as amáveis sílabas, as indizíveis letras, uma breve toada, um ligeiro som, o suave gemido das palavras que nascem dentro de ti. Passaste e eras um homem em busca da sua unidade, um homem pronto a reduzir-se a ninguém se alguém tocasse os seus pensamentos, as suas palavras, os intangíveis sonhos.



[Nesta semana de Chopin, abaixo, depois do belíssimo poema de José Bento, Maria João Pires traz-nos uma Fantasia - um tema e uma interpretação que atravessam os tempos para se encontrar aqui connosco]

Percorrendo a despojada linha de um caminho translúcido


 A António Ramos Rosa


                                Há um homem além em busca da unidade.
                                Quem o avista descobre ser menos que o circuito
                                que só inteiro se fecha e acende o centro
                                onde se adensa e expande o seu domínio:

                                é um segmento errante, nunca se há-de saber
                                se um dia foi diferente e outros corpos teve
                                a projectar em volta os raios do seu peito:
                                o fogo e a neve rútila, um desvairo de flechas.

                                Vêmo-lo percorrer a despojada linha
                                de um caminho translúcido a conduzir à casa
                                que a si mesma se erige para quem partilhar
                                o coral desse templo ao alongar a nave

                                da palavra total feita por ele
                                para ser pleno,

                                                      ainda que indizível
                                pelos que tudo julgam dizer, ignorando
                                reduzir-se a ninguém ao tocar as suas sílabas.



(Poema 7,  'Há um homem além em busca da unidade' de José Bento in Sítios)

 

18 outubro, 2011

Nada sei de ti, dos múltiplos tus em que te desdobras

  
Dizes que não me conheces completamente, que me desdobro, que sou eu e muitas outras. Dizes que mudo, de dia para dia, ou várias vezes no mesmo dia. Não me preocupo, até gosto. É mesmo como dizes, sou eu e eu e outra eu e outras vezes outra eu e, no entanto, sempre eu. Tenho muitas idades, muitos gostos, muitas identidades, mas todas unas. E tu olhas-me e dizes que nunca sabes quem eu sou. Mas, apesar disso, é sempre comigo que falas, é sempre contigo que eu conto, é a ti, meu amor, que eu regresso, abrigo onde qualquer uma de mim encontra o calor da nossa casa. Meu amor cheio de força, meu amor que me seguras com a tua força.



[Depois da Mãe Índia, desça um pouco mais, abaixo das múltiplas vestes encontrará uma cinta vermelha, a da Ana Sofia Varela]

Nas docas de Belém, uma agradável tarde de outono

                                  Nada sei de ti,
                                  dos múltiplos tus em que te desdobras,
                                  em que sobrevives e renasces
                                  cada dia.

                                  E não saber é a minha única força face a ti.


                                  ('Mãe Índia' de Luís Filipe Castro Mendes in Lendas da Índia)

 

26 setembro, 2011

Música não há aqui mais que a que faço


Aqui onde estou, silenciosa, vendo o rio que anoitece, vendo as estrelas que enfeitam a minha janela, escrevo palavras que alguém, não sei quem, vai ler. Solto as minhas palavras ao vento. Voam sobre o rio, voam sobre as cidades, atravessam o oceano, pousam não sei onde.

E então, olhando estas minhas palavras sinto que não estou sózinha, neste doce silêncio que me envolve. Aí, não sei onde, estão vocês, recolhendo as minhas palavras como pequenos pássaros que assomam à vossa janela. Sei que as tomam com carinho nas vossas mãos, que as aconchegam junto ao vosso coração. São vocês que estão aqui comigo. E lá em cima no céu, junto às estrelas ou dentro das águas frescas do rio, estão os anjos de grandes asas que a Sophia deixou para olharem por mim e para silenciosamente me ditarem estas palavras que vos digo.


[Convido-vos de novo, e agora todos os dias, a que, logo que tenham visto o poema abaixo, sigam até mais abaixo onde uma mulher rodopia como uma palavra largada ao vento; depois fechem os olhos e sintam-se felizes]

Junto ao Tejo, junto à Torre de Belém, o fotógrafo é fotografado

                     Música
                     não há aqui mais que a que faço,
                     a que eu faço e desfaço
                     à boca do silêncio.
                     Enquanto lá muito em cima,
                     em não sei que esferas,
                     cantam uns anjos que não ouço
                     mas fazem retinir as minhas mãos.


                    (Poema de Pedro Tamen in 'O livro do sapateiro')

25 setembro, 2011

tenho aquela que me olha e que olho [... e tenho também um convite]


Tens-me e eu tenho-te. Olhas em frente, em silêncio e eu olho-te e tu sabes que te olho, que o meu olhar é um afago que respeita o teu silêncio. Ou então olhas-me e o teu olhar beija-me a alma e eu deixo que o teu olhar entre docemente em mim. Ou olhamos os dois o mesmo mar, o mesmo veleiro, a mesma grande ave que atravessa o espaço, olhamos, e nesse momento somos partilha, e estamos tão próximos, tão próximos, meu amor. E, às vezes, sentindo o meu olhar pousado sobre ti, perguntas, 'Diz?' e eu sorrio, dou-te a mão, e digo-te apenas 'Nada' e sorrimos, é assim o amor, sem palavras, sem justificações, apenas amor, uma paz imensa dentro de nós. E então beijas-me. E se estás longe eu digo-te 'beija-me na mesma, beija-me com palavras'. E eu, mesmo sem te ver, sei que sorris. E, digas o que disseres, sinto-me beijada.


PS: E agora, meus queridos Leitores, tenho um convite especial para vos fazer: a seguir ao poema do José Luís Peixoto, encontra-se uma novidade - sigam, pois, por favor, até aos posts abaixo. Um grande momento vos espera.

À beira do Tejo, num fim de tarde

                          tenho aquela que me olha e que olho
                          e misturamo-nos como brisas e
                          silêncios e digo tenho aquela que
                          me vê e ela olha-me e tudo o
                          que somos é uma partilha uma
                          mistura e digo diz e aquela que
                          tenho beija-me num olhar e num
                          silêncio que não posso dizer


                         (Poema de José Luís Peixoto in 'A criança em ruínas')