Nunca alguém se despediu assim de mim mas eu sim. Tomara que nunca mais eu tenha que me despedir e tomara que nunca nenhum ser querido se separe de mim. Despedidas são coisas tristes, fica sempre um saco de lágrimas no peito, um saco pronto a romper-se, a alagar o coração, a afogar a alma.
Também já me despedi de mútuo acordo, gente crescida, é melhor assim, tem que ser, não aconteceu no momento certo - e nós, por dentro, crianças infelizes, uma saudade antecipada, um olhar triste incapaz de suportar um adeus, um último abraço que para sempre ficará por dar.
Mas quando eu me despedi assim, quase sem querer, quase sem poder enfrentar a dor causada, parti silenciosa, cansada (há tempo que queria fazê-lo e sempre me faltava a coragem), parti sem me despedir, parti sem deixar uma esperança, sem responder a cartas nem telefonemas, ignorando a presença nas ruas que eu frequentava daquele que um dia tinha amado. Parti e deixei para trás o passado e nunca mais a ele voltei. Sou assim, vou virando páginas, abrindo novos livros, desvendando novos mundos com a inocência de uma criança.
Mas nas minhas veias para sempre correrá o nome daqueles que um dia amei, para sempre, para sempre.
[A semana de Prokofiev está a chegar ao fim e, sendo hoje um dia de despedidas, peço-lhe que se detenha no belo poema da Maria do Rosário e depois siga até mais abaixo, onde uma música exuberante espera por nós]
Repara na súbita inocência de quem
parte sem querer - um sono vago
apoderou-se há instantes dos seus
gestos, fez dos seus olhos azuis uma
lagoa quente; e o cansaço que a dor
arrastou tantas vezes pelo seu corpo
tornou agora a sua voz de um veludo
macio. Se chegares o seu pulso magro
ao teu ouvido, pouco mais escutarás
do que o breve esvoaçar de um lenço
a despedir-se, o brilho de uma estrela
a desmaiar no céu, o eco do teu nome
a adormecer-lhe, cândido, nas veias.
[Poema, pag.72, de Maria do Rosário Pedreira in 'Nenhum nome depois']


















