Ginjal e Lisboa

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22 maio, 2013

O vulgo intimamente desconfia de quem da natural prisão se evade


Caminho pela beira do rio quase todos os dias. Onde haja um rio e eu possa andar, lá estarei. Mesmo nos dias de frio, vento e chuva, eu caminharei ao longo de um qualquer rio. Mesmo naquelas noites inclementes em que as amarras dos barcos nos cais rangem como mulheres gemendo aflitas, mesmo assim, eu ando por lá.

Digo que respirar a maresia me retempera porque gosto de sentir a humidade do rio a entrar dentro do meu corpo. Lava-me.

E gosto de andar tendo a largueza ampla, limpa, luminosa do rio e da grande cidade de um lado e, do outro, o amparo de ruínas que carregam na sua pele a história de mil vidas, de mil amores, de mil desgostos.

E gosto de andar de manhã, quando a frescura é inocente, ou de tarde quando o langor sobe do rio para os corpos que se abandonam, e gosto muito, ah mas muito mesmo, de andar de noite, quando a escuridão carrega mistério, cumplicidade, doces abandonos.

Caminho e, enquanto aspiro a frescura do rio e olho a largueza dos espaços, na minha cabeça voam palavras. Às vezes digo-as em voz alta e não me espanto se ouço, cada vez mais doida. Há ternura e espanto nessa observação. Não me inibo por isso, por vezes levanto os braços, faço que voo, e solto as palavras para que voem livres à minha frente. Ouço, não tens juízo nenhum. Outras vezes, quando passo junto às escadas de pedra que, desprotegidas, descem até dentro do rio, digo como se confessasse um segredo, um dia desço as escadas e continuo a descer até ver onde vão dar, desço até ao fundo do mar. E a voz ao meu lado diz, deixa-te de maluquices, anda.

E eu vou.

Ainda tenho muito tempo pela frente. 

Depois, mais à noite, agora, aqui, na minha casa perto do céu, quando a noite já vai alta, sento-me, começo a escrever. A esta hora as palavras já se recolheram, estão agora dentro da minha cabeça, brincam, espreitam, querem ver o que vou escrever e, sem que eu as chame, aparecem aqui, escorrem-me pelos dedos como meninos descendo por um escorrega.

E eu deixo-as. Sempre gostei de crianças. E de palavras.



[Abaixo da imagem do homem que, ao cair da noite, olha o rio e Lisboa, a Magnífica, tenho um poema de Hélia Correia , uma mulher que enfeitiça as palavras, dedicado a Vasco Graça Moura, outro amante da língua portuguesa. E, a seguir, uma vez mais, a música orgânica e luminosa do Mali, com Bassekou Kouyate e amigos.]


Num cais do Ginjal, sobre o Tejo, o Padrão dos Descobrimentos em fundo



                                             O vulgo intimamente desconfia
                                             de quem da natural prisão se evade:
                                             quem de dormir não tem necessidade
                                             e faz da escuridão um novo dia.

                                             nem estranho é que tenhamos por verdade
                                             que andou ali manobra de alquimia,
                                             que o desumano dom da poesia,
                                             como a um Fausto o dom da mocidade,

                                             oferecido lhe foi. Mas, por penhor,
                                             dele exigiu dedicação maior
                                             do que a de pai, de príncipe ou soldado.

                                             Como um torreão, entre obras raras,
                                             este homem passa as suas noites claras
                                             a escrever, sem descanso, enfeitiçado.



[Soneto de Hélia Correia in 'a vista desarmada, o tempo largo', Antologia, Poetas em homenagem a Vasco Graça Moura]


07 abril, 2013

Respondo com palavras ao silêncio


A luz ainda é branca, meu amor, e a serra desenha-se ao fundo, suave, esbatida e não sei se é ela, se é a sua evocação. 

(Também não sei se é contigo, amor, que falo se é com a memória de ti que vive dentro de mim. Mas que importa isso?)

O rio, amor, está muito suave, azul muito claro, quase cor de prata, talvez algum amigo nosso o tenha assim pintado. Hoje está todo pintalgado com pequenos barcos de brincar, velas umas brancas, outras inocentemente coloridas. Ias gostar, tenho a certeza. O teu sorriso triste esbater-se-ia perante um desenho tão deliciosamente infantil.

E os monumentos estão em silêncio, pequenos, imortais, exangues. Mas os ciprestes estão bem vivos, sempervirens, pontuam com elegância o desenho aqui à minha frente. Sempre gostaste de ciprestes, lembro-me bem. 

Contemplo esta cidade e este rio que tanto amamos, esta luz branca e silenciosa. Nada mudou, amor. Acredita. Está tudo igualmente belo.

(Falo no presente como se ainda aqui estivesses, reparaste? Sempre assim será, podes ter a certeza, amor)

Mas a verdade, amor, é que não estás. Não te tenho aqui comigo para poder passar o braço pelos ombros, para te puxar a mim, para ver os teus longos cabelos ondulando ao vento. Voas algures por aqui, sei. Voas sobre o rio, sobre a cidade, sobre mim, entre a luz branca e suave que me cobre.

Falar em esperança é que não posso, amor. Olhávamos o horizonte e os nossos sonhos ali se aninhavam, num futuro que imaginávamos. Agora, amor, esse futuro não existe. Não me perguntes, amor, qual o exacto momento em que isso aconteceu. Não sei. Talvez que quando olhássemos o silêncio, estivéssemos já, sem o saber, a assistir a uma mudança terrível, silenciosa, larvar, medonha.

Mas não tenhas medo que eu também não. Continua aqui junto a mim, dentro de mim, voa solta pelos largos espaços e depois vem aninhar-te dentro do meu peito: ajuda-me a acreditar, ajuda-me a ter esperança, amor, ajuda-me a não ter medo. Preciso tanto de ti. Não me deixes cair no silêncio, não deixes, amor, não deixes. Não me deixes.



[Abaixo do poema de Gastão Cruz e da esperança segundo S. Paulo, visita hoje o Ginjal pela primeira vez um grande e versátil intérprete, Uri Caine. Vou gostar de o ter por cá.]


Os Jerónimos à direita, o Centro Cultural de Belém ao centro, o Padrão dos Descobrimentos à esquerda,
e o Tejo enfeitado de pequenos veleiros



                                          Respondo com palavras ao silêncio,
                                          não sei se são respostas ou se apenas
                                          pergunto o mesmo respondendo
                                          o que nunca mudou ou mudou sempre:
                                          se realmente existiu essa espera de dias
                                          a que chamar queríamos esperança;
                                          acreditámos que não mudaria
                                          o grito que era apenas
                                          afinal o silêncio da mudança


                                          [Poema 32 de Gastão Cruz in Fogo]


Placa no Jardim das Oliveiras do Santuário do Cristo Rei


13 fevereiro, 2013

Sonhei tanto com um ardente corpo


Foi por ti que sempre esperei. Queria alguém que vivesse movido pelo sonho, guiado por aves do mar, queria alguém que me compreendesse e que compreendesse as marés, os ventos, as luas. Queria alguém cujo olhar mostrasse o afecto pelas correntes do rio, pelas rosas que despontam ainda mal a primavera se anuncia, queria alguém que sentisse os sons da terra e os sopros que arrepiam as águas.

Tanto que esperei por ti. Tantos corpos que tive que percorrer, já cansado, já sem esperança, sentindo a noite a descer sobre o meu corpo gasto.

Enganei o ardente desejo do meu corpo em corpos comprados, em corpos oferecidos, em corpos roubados. Mas em nenhum corpo te encontrei. Espreitava o fundo do olhar e em nenhum encontrava aquela inteligência branca que procurava, aquela respiração suave que em vão perseguia.

Andei por labirintos sombrios, vielas esconsas, sem ânimo enfrentei monstros, medos, aspirei cheiros que me causavam repulsa, senti a humidade de corpos que me eram estranhos, atravessei túneis infinitos, enredei-me em círculos infernais - e em lado nenhum te encontrava. Perdia-me, então, entre sustos, pesados desalentos, frágeis equilíbrios.

Até que um dia o meu corpo sentiu que o sangue se agitava, que havia festa no meu corpo. Percebi depois que eras tu que atravessavas a névoa, rasgavas os muros e, trazida por muitas gaivotas brancas e livres, vinhas na minha direcção. Eras tu, corpo breve e ágil como um animal, olhos doces, lábios húmidos como as flores pela manhã, eras tu que vinhas até mim. Eras tu que desdobravas sonhos limpos como lençóis nupciais, que descobrias a música das árvores, que desenhavas velas brancas sobre os rios. Eras tu por quem eu tanto tinha esperado.

Ainda caminhamos assim, rente ao rio, trazidos pelas aves que se soltam do teu coração, abraçados, sem pressa. E todos os dias começamos um novo caminho porque são nossos todos os dias, todos os sonhos, todo o amor e desejo que os nossos corpos reinventam ao som da tua doce e suave respiração.



[Abaixo poderão ver um muito belo poema de amor e, logo abaixo, mais um momento de quase magia: David Fray interpreta Mozart. Les beaux esprits se rencontrent.]


Andando com gaivotas junto ao Tejo



                                               Sonhei tanto com um ardente corpo
                                               entre o fragor dos monstros e a mudez dos muros
                                               que o meu suor modelou os espectros do mundo
                                               e as sonâmbulas figuras do meu desejo errante

                                               Perdi-me tantas vezes no desespero dos labirintos
                                               na solidão da sede ou no fundo de um túnel
                                               que me senti incapaz de esperar o nupcial encontro
                                               que me libertaria dos círculos infernais

                                                Mas encontrei-te para além da névoa
                                                com o fulgor oval de um começo puro
                                                e com a fragrância dos teus olhos matinais

                                                No animal ardor o meu sangue subia
                                                e no teu rosto via uma rosácea azul
                                                e nos teus lábios um sonho de inteligência branca
                                                em que voavam duas aves na penumbra das fronteiras



[Poema de António Ramos Rosa in «Antologia Poética», O teu Rosto]

12 fevereiro, 2013

É bom sondarmos os abismos que nunca vão cicatrizando


Atravesso as águas, os lagos, deslizo pelos rios, busco o oceano. Levas-me e eu vou. Por ti eu vou. À nossa frente voam as gaivotas, mulheres como tu, e mostram-nos o caminho. Aqui vamos levados por um cortejo de pássaros de longas asas, aqui vamos, eu e tu e mil asas brancas.

Para trás deixo os veleiros, os lugares habitados, a fantasia, por ti deixo tudo, não olho para trás.

Que sei eu de abismos, de labirintos, de caminhos secretos? Que sei eu das linhas que o teu coração percorreu antes de mim? Que sei eu? Nada. Mas nada quero agora saber. Antes de ti eu não era nada, era apenas um esboço. Por isso, para que quereria eu saber dos caminhos que, então, percorrias até chegares até mim? Chegaste e só isso me interessa.

Queres que te ouça, tens muitas vidas para me contar, tens cicatrizes para curar. Mas eu trato as tuas cicatrizes sem querer saber o que as provocou. Dizes-me, ouve, sangrei, houve tantos rasgos no meu coração, junto a mim havia um rio de sangue, quero que saibas. Mas eu não quero saber. Por ti, eu ignoro a tua vida antes de mim, esqueço a minha vida antes de ti, deixo tudo, tudo, porque só os caminhos que agora atravessarei contigo me interessam.

Mas tu insistes, escuta, eu quero que saibas que não escutei avisos, quero que saibas que eu não era eu. Mas eu digo-te, shiiiiu..., agora já chega, não digas nada, nada, agora quero apenas que me leves. Por ti percorrerei todas as águas, por ti e contigo serei lago, rio, por ti atravessarei todos os oceanos, por ti irei sem saber para onde. Por ti, meu amor de todas as águas.




[Abaixo do poema de David Mourão-Ferreira, poeta a quem eu tanto gosto de ouvir dizer poesia, senhor de uma voz quente, quente e bela como é quente e bela a sua poesia (e, se escrevo no presente, não é engano: é mesmo intencional), poderão ouvir mais um belíssimo momento de David Fray. Céus, ando encantada com este miúdo, que bem que ele interpreta. Nunca agradecerei suficientemente ao Leitor que mo deu a conhecer, tal como agradeço a todos os outros com quem tanto aprendo]


O Tejo hoje em Belém, junto ao espelho de água 



                                           Quantos em ti lagos e rios
                                           Quantos em ti os oceanos

                                           Água vermelha que aos ouvidos
                                           traz o aviso
                                           de nenhuns campos

                                           É bom sondarmos os abismos
                                           que nunca vão cicatrizando

                                           E ao som da água pressentirmos
                                           de onde provimos
                                           aonde vamos



['Poema XXV' de David Mourão-Ferreira in 'O corpo iluminado']

27 janeiro, 2013

Quero. (Tarde demais)



Não olhes. Está aqui um barco, mesmo ao pé de nós.

         - E que mal tem?

Tem que está lá gente e eu não quero que te vejam.

          - E que mal tem que me vejam?

Podem querer-te também.

          - Também...!? Também como quem...?

Também como os velhos lobos do mar, como os deuses que saem do fundo do mar voando sobre cavalos azuis...

           - Ah, meu poeta, e eu que pensava que também como tu... Tu não me queres?

... Não... Eu não te quero, eu quero-te de uma maneira que é mais do que querer-te.

            - Ah, tão bonito. Diz-me o que é querer mais do que querer. 

Não, não digo. Mostro. Fecha os olhos. Sente. Sente como que te quero.

          - Ah mas eu queria ouvir as tuas palavras, as tuas palavras belas como as grandes asas dos cavalos azuis.

Não, tarde demais para palavras. Sente, sente apenas.

          - ....

Pois, não digas nada. Nada. Sente, sente. Sentes? Sentes como te quero tanto, tanto...?

           - ...



[Abaixo do casal de enamorados, um poema falado de José Luís Peixoto e, logo a seguir, abre-se um novo ciclo, o dos Grandes Intérpretes. E é uma abertura com um dos maiores, Glenn Gould, um grande intérprete de piano.]


No Ginjal, rente ao Tejo, de frente para Lisboa, o Padrão das Descobertas em fundo


                                          Queres? (No ar, a interrogação vibra como
                                          uma onda invisível.)

                                          Queres? (Pelo silêncio, não sei quem és, não
                                          sei a razão em mim que te deseja.)

                                          Queres? (É quase de manhã e poderíamos
                                           esquecer tudo, fazer as malas, dormir
                                           finalmente.)

                                           Queres? (Uma porta talvez aberta para talvez
                                           um abismo ou um deus.)

                                           Quero. (Já não podemos fugir aos nossos olhos
                                           inimagináveis, inalcançável é o cansaço.)

                                           Quero. (A luz do quarto continua acesa sobre
                                            a luz da manhã, tornarmo-nos artificiais.)

                                            Quero. (Os nossos corpos, claro, sempre os
                                            nossos corpos, sempre apenas os nossos únicos
                                            corpos.)

                                            Quero. (Tarde demais.)



                                            [Poema de José Luís Peixoto in 'Gaveta de Papéis']

30 novembro, 2012

Até ausente soube cercar a terra inteira com seu abraço


Nestes dias de pesado desalento e de medos no horizonte, atravessamos as cidades como cães sem dono. O frio arrepia-nos o pêlo, cosemo-nos às paredes, uns esfaimados, outros protegendo a medo o pouco que têm, olhamo-nos uns aos outros com olhos aflitos. O que vai ser de nós?, murmuramos quase sem voz.

Pensávamos que os mostrengos estavam no meio do mar, temíamos o escuro das profundezas e as tempestades que desciam dos céus para se abaterem sobre nós. 

Aflitos, desprotegidos, percebemos agora que, afinal, desgraçadamente, os mostrengos estão no meio de nós. Aqueles que pensávamos que eram os nossos timoneiros são afinal os verdadeiros monstros, terríveis monstros. Sobre nós abate-se agora a sua impiedosa fúria. Devastam a terra, destroem as embarcações, assaltam-nos, violentam-nos, agridem os velhos, expulsam os jovens. De olhar implacável, sorriso fixo, dentes afiados, sugam o nosso sangue, desprezam-nos, vendem-nos. Somos nada a seus olhos.

Indefesos, os mais fracos encostam-se agora uns aos outros, sem forças, sem lágrimas, apenas medo. Muito medo, um medo cobarde, um medo envergonhado. O medo da fome e da solidão.

Tempos houve em que havia nesta terra gente com visão, com determinação. Nessa altura, fazíamo-nos ao mundo, éramos ousados, galgávamos vales, atravessávamos horizontes, percorríamos os contornos do mundo. Nada nos detinha. Procurávamos o futuro e, pondo a vida em risco, lutávamos pelos mais jovens, pelos mais velhos, pela riqueza, pelo país que sempre amámos.

Mas, entre os que atravessam as ruas ganindo, chorando, tremendo de frio e medo, há alguns, não muitos mas os suficientes, os que não desistem, os que ainda lutam, os que ainda se mantêm de pé, sentindo o sangue quente a correr-lhes nas veias. 

Um dia virá! Um dia virá! Um dia virá!, dizem baixinho, tentando animar os outros. E juntos lá vão.

Acreditam que um dia virá.

Um dia virá! Um dia virá! Um dia virá!



[Abaixo da caravela de pedra que carrega um povo inteiro, encontra-se um poema da Mensagem, no dia em que passam 77 anos desde que Fernando Pessoa passou a observar-nos de longe. Logo a seguir ao poema, uma música muito límpida. É Froberger que se despede.]



O Padrão das Descobertas avistado do Ginjal




                             Dançam, nem sabem que a alma ousada
                             do morto ainda comanda a armada,
                             pulso sem corpo ao leme a guiar
                             as naus no resto do fim do espaço:
                             que até ausente soube cercar
                             a terra inteira com seu abraço.

                             Violou a Terra. Mas eles não
                             o sabem, e dançam na solidão;
                             e sombras disformes e descompostas,
                             indo perder-se nos horizontes,
                             galgam do vale pelas encostas
                             dos mudos montes.



                             ['Fernão de Magalhães - 2ª parte' de Fernando Pessoa in Mensagem]


18 outubro, 2012

Anjos, existem anjos?


Nestes dias de chumbo, em que a tragédia do fim parece abater-se sobre os pobres mortais que tentam sobreviver na terra, como se um céu carregado de um insuportável e medonho peso desabasse sobre nós, percorro a diagonal que me leva para mais perto do horizonte. Procuro, talvez, uma aresta onde ainda perdure um resto de leveza.

Se olho o céu, procurando anjos, nada vejo. O céu ora está limpo e sem nuvens onde os anjos se empoleirem, ora está carregado, nada apropriado para seres diáfanos e subtis. Não há anjos no céu.

Percorro as margens do rio e o meu olhar voa pela superfície das águas, talvez algum anjo se tivesse vindo aqui refrescar. Não, nada. Olho as paredes de pedra, olho os barcos que passam. Nada, nenhum anjo. Olho as gaivotas que dançam levadas pela brisa da tarde, espreito as longas asas brancas, talvez alguma transporte um pequeno anjo. Mas não, anjo nenhum.

Baixo os olhos, caminho em silêncio, quase sem esperança.

Passam, então, dois namorados. Falam baixinho, sorriem, vão abraçados, têm corpos saudáveis e jovens, peles certamente macias, olhos certamente felizes, corações certamente apaixonados. Olho-os com ternura. Tanta paz. 

E o rio fica mais azul e o céu mais quente e é como se, à sua passagem, se abrisse um caminho de luz.

São estes os anjos que eu procurava. Anjos de verdade, inocentes, doces, crédulos, cheios de vida. Eis que andam como se voassem, eis que quase deslizam sobre as águas, rumo à luz mais dourada, levados pelos sonhos. Sinto que, atrás deles, vai ficando um perfume muito suave, talvez seja o subtil perfume da esperança.

E, olhando-os, sinto em mim a doçura da vida, o enlevo contagiante do amor.

Procuremos, pois, os anjos na terra. A sua presença enche-nos de vida e de sonhos.




[Já aqui abaixo poderão ler mais um belo poema de António Ramos Rosa e, logo a seguir, mais uma música de Franz Biber]



Passeando à beira Tejo, ao fim de uma tarde, então, ainda quente



                                        Anjos, existem anjos? Volúveis seres
                                        que são um instante de voluptuosa brisa
                                        em que o tempo é a forma do desejo
                                        e do sono das folhas e das águas.
                                        Anjos, sim, de terra, que segredam
                                        a argila dos nomes, o movimento azul
                                        do ar. Na sua companhia eu sou o vento
                                        e o meu hálito confunde-se com as suas vozes.


                                       ['Anjos de terra' de António Ramos Rosa in Antologia Poética]

28 julho, 2012

Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor


Um dia a mulher viu aquele homem, tantas vezes visto antes, tantas vezes odiado (tantas partidas que a vida nos prega), tantas vezes invisível, e notou nele um olhar e um sorriso diferentes. E o homem olhou a mulher com uma ternura e um desejo muito cúmplices e, aos poucos, qualquer coisa começou a nascer entre os dois. 

A vida estava prestes a separá-los mas, na curva da despedida, aproximaram-se com muito amor. 

Sem perceberem como, tornaram-se inseparáveis, acordavam e adormeciam a pensar um no outro e todo o dia era uma longa espera até que se pudessem encontrar. Estarem juntos era uma felicidade, uma muito inesperada felicidade. Os sorrisos, os beijos, os afagos, as palavras, o desejo, tudo os aproximava.

O tempo parava para que as confidências fluíssem, o tempo parava para que as horas de intimidade se fixassem indelevelmente nas suas memórias. Olhavam-se com vagar, davam-se as mãos, juntavam as almas e o tempo parado, o sol fixo na parede. Atrás das portas, esquivos, roubavam-se carícias, eram meninos, eram adolescentes de primeiro amor. E a mulher sonhava que passeavam num jardim, de mãos dadas e o homem sonhava que se encontravam num hotel, numa cama com vista sobre a cidade, numa serra com vista para o mar.

E as tardes eram infinitas e o amor era apaixonado e um cavalo corria doido nos seus peitos. Na curva perigosa dos cinquenta, despediram-se um dia para nunca mais, dois imprevistos amantes, dois amantes para sempre.



[Logo abaixo da imagem de um amor em fim de tarde, poderão encontrar a beleza da música interpretada por Jordi Savall]



À beira Tejo, em Belém


                                       Na curva perigosa dos cinquenta
                                       derrapei neste amor. Que dor! que pétala
                                       sensível e secreta me atormenta
                                       e me provoca à síntese da flor

                                       que não se sabe como é feita: amor,
                                       na quinta-essência da palavra, e mudo
                                       de natural silêncio já não cabe
                                       em tanto gesto de colher e amar

                                       a nuvem que de ambígua se dilui
                                       nesse objecto mais vago do que nuvem
                                       e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

                                       verdade tão final, sede tão vária,
                                       e esse cavalo solto na cama,
                                       a passear o peito de quem ama.




['O quarto em desordem' de Carlos Drummond de Andrade in 'Nova Reunião', 23 livros de poesia]

17 julho, 2012

Num veio de luz, vê desfazer-se a açucena de açúcar, estremecida e pálida


Que dores, que dores escondes dentro desses teus olhos secos? Porque olhas assim, sem ver? Que dores são essas que te levam a essa agonia branda? Que tristeza é essa, que nem voz consegue ter?

Passam as águas a caminho do mar, passam os quase nocturnos veleiros, passam os casais abraçados, as crianças correndo, a luz vai-se esvaindo, e tu, aí, sem nada ver, a olhar com os olhos vazios.

Fazias mimos, bordados delicados, doces enfeitados, poemas de amor e agora, aqui na beira do rio, desfazes-te de tudo, de tudo, sem pressa, sem piedade. Os mesmos dedos que antes escolhiam ingredientes, com mil cuidados, uma cor suave, uma palavra gentil, o açúcar no ponto, o ponto pé de flor, são os mesmos dedos que, agora, alheados, se desfazem de tudo o que laboriosamente foi antes feito. 

Porquê? Que dor é essa?

O corpo seco, os seios tristes, a pele baça, o cabelo escorrido, os olhos parados, és a imagem de uma mulher dorida de amor.

Depois, com os lábios desolados, com um cansado gesto de mão, ouço que dizes baixinho, adeus. E uma outra vez adeus, e uma outra vez, e uma outra, até que o som se esvai e ficas parada esperando que a noite te cubra. Precisas que a noite chegue para, então, poderes velar, em silêncio e recolhimento, o corpo sem vida de um desejo e de um amor que foram fortes demais.



[Logo abaixo da imagem de uma jovem mulher sozinha na beira de um rio que caminha para o oceano, poderão ver um belo poema de Ana Marques Gastão e, logo depois, o piano traz-nos, de novo, Béla Bartók.]


Há semanas atrás, fim de tarde em Belém


                     Retirando as mãos da nuca,
                     sob a pele de exuberância
                     prudente, a mulher reconhece
                     os nós d'água, destino de queda
                     em ascensão. Num veio de luz,
                     vê desfazer-se a açucena
                     de açúcar, estremecida e pálida.

                     Já não atraídos pelo desastre,
                     os lábios retomam a consciência
                     do exagero ébrio de quem por de
                     mais ama e, por isso, a mulher
                     vai passajando a dor velada,
                     vigiando o rigor de um desejo
                     tão corporeamente espiritual.



                     ['Açucena de açúcar' de Ana Marques Gastão in 'Adornos']

28 junho, 2012

Amei-te nas fotografias obscenas


Olha para mim. Regista agora a minha imagem. Repara na cor do céu e na cor do rio, ajusta a entrada de luz. Estou bem assim?

Devo endireitar as costas? Devo deixar descair um pouco o ombro da camisola? Vê lá. Queres que me chegue mais para trás? 

Ou queres, antes, que me deite aqui em cima do muro? Ouve, vê lá como achas que fica melhor. Se quiseres tiro a blusa, não me custa nada. Sabes bem que estou habituada. Não foi assim que me conheceste? E então? Não estamos agora aqui? Tu mesmo dizias que me amavas quando me vias naquelas fotografias obscenas.

Sim, vou despir a blusa e deitar-me sobre o estreito muro e apanhas-me contra o rio como se este fosse fosse uma vasta colcha azul bordada a pontos de luz; e o céu vai parecer a cor dourada das cortinas de veludo de um dossel inventado, que nos ocultará do olhar do mundo.

O que achas? Olha, posso até tirar também as calças, e deito-me assim, não como se estivesse desmaiada mas, sim, bem viva, estátua incompleta que tu virás completar.

Olha, imagina, a minha nudez apenas coberta pelo meu cabelo, como se o meu cabelo fossem algas macias saídas destas águas. Mas coberta também pelo teu olhar. E tu enquadras o meu corpo arqueado, quase vénus ao espelho, e a torre será a parede que me ampara e a luz rosada do entardecer será a cor que dourará a minha pele ainda branca.

Depois, tu disparas e, se ficar bem, a seguir, vens com a tua espátula e começas a moldar o meu corpo, devagar. Eu sou gesso, e tu vens moldar as minhas coxas, as minhas ancas, os meios seios, o meu pescoço dobrado, o meu sexo que te espera.

Diz. Queres? Ou estou melhor assim, sentada de costas, vestida, joelhos abertos, uma mão elegantemente apoiada? Como é que preferes? Diz.

Faço como quiseres, já sabes que, perante uma paisagem assim, fico rendida.




[Bem. Logo abaixo da jovem escultura, poderão ver um belíssimo poema do mais recente livro de Nuno Júdice. Logo abaixo mais um momento de festejo da música com Heitor Villa-Lobos]



Junto à Torre de Belém, num fim de tarde ameno, com o Tejo muito azul, o céu muito limpo e suave 



                                 Amei-te nas fotografias obscenas de
                                 um limiar de acasos, quando a tua voz
                                 desmaiava numa eclosão de ecos. E uma
                                 colcha de silêncios tapou a tua nudez; o inútil
                                 flash da madrugada iluminou os teus olhos; e,
                                 de repente, o sol nasceu de uma enseada
                                 de cabelos, e subiu pelas cortinas do quarto;
                                 lentamente, encostaste a curva do teu joelho
                                 à sombra da parede como se ali ficasse,
                                 no vazio do gesso, a cor da tua pele.



['Escultura' de Nuno Júdice in 'Fórmulas de uma luz inexplicável', edição Maio 2012]

18 junho, 2012

Este rochedo que me suga os anos e morde, devagar, a memória da vida


Dias houve em que eu vinha num veleiro branco, passava por aqui, deslizava sobre a água. Havia um silêncio reverente, uma respiração fresca e azul, e as aves de grandes asas brancas acompanhavam-me, nobre companhia eu tinha, então.

O veleiro avançava e era como se fosse eu a caminhar sobre as ondas que se esbatiam para melhor eu avançar. E, ao meu lado, caminhava o menino que eu fora, a mãe que me defendia dos seus medos sombrios, a irmã que me dava a mão e sorria, protegida e inocente. 

Até que um dia a minha mãe, a minha irmã e o menino que eu fora saíram voando e entraste tu, pássaro branco, gritos de princesa em chamas.

Passei, então, a atravessar estas águas deitado no fundo do veleiro, entrando vitorioso nas noites cúmplices, às vezes cantando e gritando nos épicos entardeceres que nos envolviam, outras vezes saciado, abraçado, aconchegado, respirando o ar dourado do sol, respirando a vida que voava fremente em nossa volta.

Mas esse tempo também passou. Um dia saíste voando. 

E depois saí eu também. Desapareci. Dizem que não sabem de mim. O veleiro voltou sozinho, encontrou o seu lugar e agora ali está, parado, sem dono.

Eu, prendi-me a este rochedo à beira deste rio que tantas vezes cruzei e vivo debaixo do mar. Ninguém me vê, não vejo ninguém. Quando a noite avança sedenta, sombria, arrastando os seus fantasmas, eu saio da água e sento-me, em silêncio, sobre este rochedo à beira da água, sempre preso por pesada corrente, sempre esperando que um cão vadio, uma mulher da noite, um pássaro perdido se chegue a mim e me faça companhia. E espero que a memória de outras vidas se afogue, em silêncio também.



[Abaixo do rochedo poderão ver um belo e silencioso poema do novíssimo livro de poemas de Armando Silva Carvalho. E, logo a seguir, uma música lindíssima. É Shotakovich que, por estes dias, aqui nos maravilha]



Na beira Tejo, junto a Belém



                           Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos
                           que se afastam de mim e me fazem sentir
                           vazio no meio do mar?
                           Quem devora este ar tão benfazejo à boca
                            e ao replicar das ondas
                            nos ouvidos como sinos de água?

                            Um tempo que se curva,
                            com o início nos joelhos dobrados da infância,
                            na mãe obsessiva,
                            e vem,
                            como de onda em onda,
                            transportando as dores, até este rochedo
                            que me suga os anos
                            e morde, devagar, a memória
                            da vida.


                            ['Vazio no meio do mar' de Armando Silva Carvalho in 'De Amore', Maio 2012]

     
                         

06 maio, 2012

Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país - mas tem esta voz doce


Nesta terra que é também a minha, que tem um rio largo como um imenso mar, há um céu tão azul, mas tão azul, que corre a banhar-se nas águas que deslizam com doçura.

E, nessa água azul como um grande céu há, às vezes, pequenas plumas brancas, leves, imateriais. Quem as veja de longe mal saberá dizer se são as velas dos pequenos barcos que dançam no rio, ou puríssimos pássaros ou anjos que desceram do céu para aí flutuar.

Quando, bicho da água, desço até ao rio, passo por grandes muros detrás dos quais saem rosas bravas encarnadas ou rosas albardeiras cor de pérola, ou pequenos cardos macios e lilases ou hastes flexíveis de silvas. Na terra por detrás destes muros há grandes eucaliptos que se erguem altíssimos ou que deixam cair os seus ramos pesados e cheirosos ou pedaços da casca de que se vão desfazendo.

O meu país tem gente de vistas curtas, tem gente pequenina, vingativa, aborrecida, tem gente deselegante, pouco inteligente, tem tudo isso. Mas tem também muita gente de vistas largas, gente generosa, que olha os outros com carinho, gente abnegada, gente que se faz ao caminho de peito feito, que se faz ao mar com coração de leão, gente que ama as rosas, as silvas e as suas doces amoras escuras, gente que ama as palavras e as pontes que elas desdobram.

O meu país é pequenino mas é imenso na sua beleza luminosa e nas límpidas palavras dos seus grandes poetas. 



[A seguir à fotografia, Eugénio de Andrade fala-nos de um país com amoras que trazem o sabor do verão aos muros brancos e, logo a seguir, temos os pescadores de pérolas a abrir a semana dedicada a Bizet.]


Descendo para o Ginjal, rosas bravas e esguias silvas emoldurando a Ponte sobre o Tejo,
com pequenos veleiros brancos pontuando o rio junto à Torre de Belém 


                                     O meu país sabe às amoras bravas
                                     no verão.
                                     Ninguém ignora que não é grande,
                                     nem inteligente, nem elegante o meu país,
                                     mas tem esta voz doce
                                     de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
                                     Raramente falei do meu país, talvez
                                     nem goste dele, mas quando um amigo
                                     me traz amoras bravas
                                     os seus muros parecem-me brancos,
                                     reparo que também no meu país o céu é azul.


['As amoras' de Eugénio de Andrade in 'Os poemas da minha vida' de Miguel Veiga]

03 maio, 2012

Folheia estas imagens como quem da flor tocasse cada pétala


Ah, meus amigos, deixem-me aqui estar, não me digam nada, não me perguntem nada, deixem-me apenas aqui estar, deixem-me olhar estas imagens. Ah meus amigos que saudade, que saudade. Deixem-me aqui sozinha, sem palavras.

Eu vinha para aqui com o meu amor, vínhamos os dois, olhávamos o rio, olhávamos os grandes navios que se faziam ao mar e ele conversava comigo, dizia-me que um dia íamos os dois e eu sonhava com isso, sonhávamos os dois porque sabíamos que nunca iríamos, mas não interessa, íamos em pensamento e era bom na mesma.

E as nossas mãos tocavam-se, cúmplices, os dois a olhar o rio. E ele aproximava-se, chegava-se a mim, e eu sentia o seu cheirinho bom e o seu hálito doce, e nem precisávamos, depois, de falar. Era tão delicado o meu amor, oh meus amigos, era tão delicado. E dava-me o braço, depois, quando descíamos os degraus e eu olhava por ele e ele por mim, os dois amantes amorosos, cuidadosos. E íamos devagarinho e ele dizia, que grande barco, tinha uns cinco andares, e eu dizia que sim, que era grande e branco, tão bonito e depois ficávamos calados, felizes, tranquilos.

Mas um dia ele partiu, partiu antes de mim e eu agora vejo os navios só com os meus olhos e já não sinto a sua mão macia, tão leve, tão leve, e já não tenho quem me dê o braço nem com olhe por mim com cuidados de namorado, de amigo, de amante cuidadoso. Estou aqui e só tenho a sua lembrança por companhia. Ah, meus amigos, que saudade, que ausência, que vazio. 

Deixem-me aqui calada, sossegada, deixem-me recordar a sua presença tão amada, deixem-me tentar sentir o olhar intenso do meu amor. Ah, meus amigos, deixem-me estar atenta pode uma palavra do meu amor ter ficado solta no vento e voar agora até mim. 



[Abaixo da fotografia poderão ver um excerto de um belíssimo poema de Bernardo Pinto de Almeida e, logo a seguir, um belo trecho da Tosca na voz vibrante de Andrea Bocelli]


O Tejo e a outra banda avistados do Centro Cultural de Belém



                              Folheia estas imagens
                              como quem da flor tocasse cada pétala -
                              tal delicadeza é a que o seu rosto pede
                              se distante não se vê já senão nelas,
                              imagens que o lembram esquecendo. Basta
                              guardá-las numa caixa
                              ou desviar o olhar e já não está
                              não respira ofegante de tão próxima:
                              uma imagem não deixa em um perfume
                              o corpo singular comunicar-se,
                              não tem das mãos o toque quase etéreo,
                              dos olhos tal intensidade
                              que a nada saberia fixar,
                              da boca a presença incendiada. E
                              tendo a imagem disso
                              nada por ela se tem,
                              se na imagem vai e perde-se,
                              transfigura-se quando nela acolhe
                              a ausência e é a que relembra.

                             
[Excerto do poema 'As imagens' de Bernardo Pinto de Almeida in 'Negócios em Ítaca']

***

Adonia é um transatlântico
Alvo, grande com bandeira à proa 
Aparição gloriosa 
No rio Tejo de Lisboa 
Deslizando entre gaivotas
Que se dão no rio 
Carregava sonhos repartidos.

Vejo-o agora branco frio! 

Meu único desejo
Levantar âncora, e cair 
Nos braços de
Adonia, o navio.
           

[Poema da autoria de 'Luísa sobe a calçada' in comentário abaixo]


29 abril, 2012

Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim


Ando por aqui, confiante, vadia, extasiada, sedenta. Tanto azul deixa-me assim, doida, com vontade de mais. 

Olho este rio hoje tão azul, o céu que se pôs tão azul... e até os navios são azuis. A aragem está fria e eu ando por aqui, pela beira do rio, e começo a sentir-me perdida no meio de tanto azul, sozinha.

Tanto azul não pode ser visto assim, por uma vadia, doida, mulher sedenta, especialmente num dia tão azul, tão frio.

E, então, sem que o espere, eis que sais tu do meio do azul. Vestido de azul, lento, confiante, sorridente. Olhas os veleiros, olhas o outro lado, olhas quem passa. 

Vens na minha direcção.

E eu cheia de frio, cheia de vontade de ti que assim me apareceste vindo do azul - mas sempre tímida, sempre menina, sempre sonhadora. Ao ver-te, doce e tu, sim, vadio, a encenação de vadia de beira de rio cai por terra.

Baixo os olhos, com medo que me vejas, mas com tanta vontade de ti. Páro, olho o rio, aflita, com suores frios. Mas tu avanças e aproximas-te. E eu perco a voz, perco a força, perco a razão.

E, então, passas-me o braço pelo ombro e aqueces-me e eu deixo que me aqueças, que me abraces e fecho os olhos, não quero saber de que azul saíste, não quero saber de nada, nem quem és, nem sequer o teu nome. Nada. Quero-te a ti, apenas a ti. 

E tu dizes-me: anda, vamos sentar-nos, vamos conversar aqui, envoltos em azul. E eu sento-me. Mas tremo. De frio, de pudor, de insegurança, de medo. E tu dizes-me: tremes tanto. Vamos para ali que vou agasalhar-te, vou cobrir-te de beijos, vou entrar em ti, minha menina linda.



[A seguir a este dia de azul e amor, encontrarão o belo poema de Maria do Rosário Pedreira e, logo a seguir, é altura de ficar com os olhos bem abertos: Placido Domingo avança para abrir a semana dedicada a Puccini.]



Na beira de um Tejo incrivelmente azul, desta vez do lado de Lisboa


                                 Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
                                 está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
                                 beijos: talvez assim eu possa esquecer para
                                 sempre quem me matou de amor, ou morrer
                                 de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

                                 também: onde os teus dedos tocarem há uma
                                 ferida que o tempo não consegue transportar.
                                 Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
                                 finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que

                                 quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
                                 ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
                                 no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
                                 que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,

                                 dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
                                 teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
                                 Não, prefiro não saber como te chamas.


                                 [Poema de Maria do Rosário Pedreira in 'Nenhum nome depois']

06 março, 2012

Quando a manhã se insinua e os corpos, obstinados, não querem e não deixam e mais e mais

   
Olho as fotografias e vejo dois jovens, eu cara de menina, sorrindo sempre, por vezes os olhos quase fechados, querias fotografar-me sempre de frente para a luz e então o cabelo brilhava ao sol e eu esforçava-me para não me franzir e sorria. E tu que não querias rir para as fotografias e que eu achava tão lindo, olhavas-me de frente e esse olhar abalava as minhas entranhas. E, quando passeávamos na rua, ao passar, reparava como as mulheres te olhavam, buscando os teus olhos. Sempre evitei tentar perceber se aceitavas esse olhar. Era-me indiferente. Eras, então, meu e isso a mim bastava.

Procurávamos, por esses dias, um recanto só nosso e, por isso, percorríamos estradas desconhecidas, aceitávamos oferta de casas amigas. Passávamos horas de total descoberta, de doce intimidade, em camas que não eram as nossas, em casas que não nos pertenciam, ouvindo música escolhida por outros. E, no entanto, nessas tardes de amor e desejo, nós estávamos num mundo que era só nosso, alheados do movimento da rua, alheados de tudo. Éramos só nós, dois jovens amantes, felizes, despreocupados, inocentes, destituídos de sentido de pecado. Horas de felicidade sem mácula. 

O tempo passou. 

E passámos a receber a manhã juntos, tantas manhãs, tantos dias, tantos anos. 

E passeamos à beira-mar, tantas tardes, tantas noites, e ainda continuas a querer fotografar-me de frente para a luz e eu já não estranho quando não te ris nas fotografias e ainda não quero saber se recebes o olhar das outras mulheres. Quero lá eu saber.



[Noites de frémito, manhãs apaziguadas. Sigamos, pois, até ao poema de Rui Caeiro e depois, corpos em festa, Mahler, a grande música]

À beira-mar, mesmo rente ao Tejo


                                 Quando a manhã se insinua
                                 e os corpos, obstinados, não querem
                                 e não deixam e mais e mais
                                 se escondem dentro da cama até
                                 ao sufoco bom do fim da noite...
 
                                 Coisas que só sabemos de ouvir dizer
                                 manhãs assim não conheceremos nunca
                                 já que temos o amor, o desejo e mais
                                 nada, tempos pouco tempo e mais nada
                                e depois disso ainda a fome

                                que sempre nos sobra ou sobrevém
                                Quanto ao mais - dormir, acordar
                                 juntos, passear à beira-mar, envelhecer
                                juntos como faz toda a gente
                                - ora esquece mas é.


                                [Mais um poema de Rui Caeiro in 'O Quarto Azul e outros poemas']
                               

05 março, 2012

Fará a onda em ponto lento um manto sobre o afogamento

Saio de noite e vagueio sem rumo, sem companhia, sem horizontes. Vou, simplesmente vou. Ia escrever 'voo' mas corrigi, o que quero dizer é que 'vou'.

Não levo carteira, nem quaisquer documentos, nem números de telefone: nada. Vou sozinha, mãos nos bolsos. Uma mulher caminhando na noite.

Ninguém sente a minha falta, ninguém me que roubar porque nada tenho, ninguém tentará sequer beijar-me porque não tenho rosto. Vou em frente, sem destino. Não tenho ancas, nem seios, nem rosto. Sou uma mulher vazia, seca, sem fortuna, sem sorte.

Caminho rente ao rio. Conheço a frialdade da noite, conheço os sons, a água que bate na muralha, um veleiro tardio que entra na doca, rasgando o rio, um silêncio mágico, sombras recortadas, um ondular cúmplice, conheço os vultos que entram nos arbustos, os gemidos, conheço os pássaros que se recolhem. A mim ninguém me conhece, nem sequer alguém me vê. 

Mas se alguém, por distração, me olha, logo vira a cara, num susto, finge que não viu. Uma louca, uma mulher que atravessa a noite, sem rosto, olhos vazios, silenciosa, bravia, uma mulher-bicho, patas mal roçando o chão, asas tombadas, passo apressado.

E, então, chego ao ponto em que o muro desce até ao rio, escadas, escadas que mergulham, e eu, sem abrandar o passo, dirijo-me a elas. Desço-as, decidida. Conheço-as muito bem. Se alguém me vê, finge que não vê, uma louca a afogar-se, pensarão.

E eu entro pela água e as gaivotas quase acordam, há um rumorejar surdo, ajeitam as asas e logo voltam a adormecer, a louca pela água dentro, apenas os cabelos a boiar e, se alguém vê, finge que não viu, deixá-la ir que não faz falta nenhuma. Espero. Ninguém me vem salvar. E nem, ao menos, uma onda. Nem uma onda que cubra este corpo afogado.

Depois, desiludida, volto a sair, subo as escadas, a roupa colada ao corpo, impassível, gelada, triste; e regresso a casa, o passo determinado. Ninguém para me perguntar 'mas o que foi isso?', ninguém para me abraçar e aquecer.

Adormeço. De manhã vou trabalhar, anónima, indefesa, indiferente. À noite sairei outra vez. Todos os dias. 



[Depois da fotografia encontrará o poema Mulher ao Mar e logo a seguir a bela música de Mahler - tempos de inquietação, estes]



                                     MAYDAY lanço, porque a guerra dura
                                     e está vazio o vaso em que parti
                                     e cede ao fundo onde a vaga fura,
                                     suga a fissura, uma falta - não
                                     um tarro de cortiça que vogasse;
                                     especifico: é terracota e fractura,
                                     e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
                                     Tarde, sei, será, se vier socorro:
                                     se transluz pouco ao escuro este sinal,
                                     e a água não prevê qualquer escritura
                                     se jazo aqui: rasura apenas, branda
                                     a costura, fará a onda em ponto
                                     lento um manto sobre o afogamento.


['Mulher ao mar' de Margarida Vale de Gato in 'Mulher ao mar' da Editora Mariposa Azual]
  

22 fevereiro, 2012

Já é tarde e quedamo-nos na violência do adeus


Disse-te adeus e saí. Pouco mais tinha a dizer, fiquei sem palavras. Não te beijei, não te abracei - seria doloroso demais, seriam os últimos gestos de carinho. Assim beijei-te e abracei-te um dia antes pensando que os últimos viriam depois. Não vieram. 

Talvez um dia metade do mundo desapareça e nós dois façamos parte da metade que fica. Foste tu que um dia o disseste. Mas nem sei já se o quero. Se isso acontecesse, seria quando? Daqui por muito tempo, quando já formos outros. Nós mudamos, meu amor.

Agora, aqui sozinho sobre o rio negro, ouvindo as gaivotas, pequenos pontos brancos que esvoaçam junto a mim como se fossem pontos de esperança sob um céu negro, eu aqui perdido no meio da noite silenciosa, olho um horizonte que não vejo, e penso que perdi uma parte de mim. 

Queria ter aqui, comigo, o teu rosto de menina, o teu sorriso feliz, queria a tua mão suave sobre o meu braço, queria sentir o desejo no teu olhar, queria espreitar-te o decote, queria sentir as tuas pernas, queria ouvir a tua voz, queria sentir o teu afago nos meus cabelos, queria que me chamasses 'meu menino', queria que me quisesses para sempre, queria que a vida não nos tivesse juntado para logo nos separar, queria tão pouca coisa, minha querida, e não tenho. Palavras que assim penso, coisas que vêm e não vêm ao caso, soluços mudos, neblinas densas afogando os meus sentimentos proibidos.

Já é tarde e não consigo recuperar da violência do adeus. 



[O piano de Schumann aqui já a seguir contam o resto da história]

Em Belém à noite, mesmo sobre o Tejo


                                  Vozes e azul claro o céu, vozes ao longe,
                                  o céu de breu
                                  a tua face de anjo ou demónio
                                  o sorriso
                                  demasiado perto do meu

                                  Estalidos secos na língua
                                  março com sol e neblina
                                  no meu e no teu corpo
                                  o desejo

                                  Dizes o que vem e não vem ao caso
                                  porta fora, porta dentro,
                                  imploras mais um beijo, um abraço,
                                  uma qualquer forma de entendimento

                                 Já é tarde e quedamo-nos na violência
                                 do adeus


                                [Poema de Helga Moreira in 'Vozes e Olhares no feminino']