Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

16 dezembro, 2015

Assim dobrados inventamos novas formas de amar -- o sangue rejubila.




Que a música toque baixinho. Que seja ela a toada que nos há-de embalar quando nos tivermos nos braços. Mas, para já, debruça-te sobre mim. Aproxima-te até sentires o calor da minha pele. Vem devagar, vem, como se descobrisses o corpo de uma primeira mulher. Aprende-me como se nunca antes o teu corpo se tivesse acercado de um corpo de mulher. Vem, olha para mim. Vê como eu te olho a ti. Escuta como os meus lábios, quase em silêncio, desenham segredos, insinuam sonhos, vê como te cobrem de palavras invisíveis, sons inventados, flores quase transparentes de tão quentes. Dá-me a tua mão. Deixa que eu a sinta, deixa que eu a guie pelo meu rosto, deixa que eu a guie pelos meus braços nus, deixa que eu a guie pelo meu colo, deixa que eu esqueça o meu pudor. E não olhes, então, os meus olhos. Talvez se tenham fechado para melhor sentir a tua pele.

Debruça-te. Que o teu corpo se dobre sobre o meu, que os teus lábios aflorem o meu ouvido, que eu ouça palavras lentas, quentes como as flores rubras de sangue, que os meus lábios se abram para os teus, que o sol nos una, que a luz nos envolva que outros lençóis não são precisos, que o teu amor escave o meu corpo e o meu o teu, que pelos tempos inteiros nos abracemos, sempre tão longe, sempre tão perto, tão dentro de mim e eu de ti.


Olho para o meu écran
como se fosse um céu estrelado.
Coloco nele a minha mão esquerda
para que eu possa ver duas pulseiras
semelhantes. A tua e a que me ofereceste.
Depois dou um beijo na mão que pinta
e roço ao de leve a tua face direita.
Comovido, abandono o trabalho
(amar-te é um ofício de alta voltagem)
e vou para a rua; vou colher
os restos de sol que me deixaste
Amar-te, beber-te, invocar a dor
é um raio de sol escuro
que entra na tua pele. Que
no meu corpo
entra. Cavamos um no outro.
Na lama que foi seca.
Assim dobrados inventamos
novas formas de amar -- o sangue
rejubila.

......

As fotografias foram feitas no Ginjal

Os poemas são de Casimiro de Brito in 'Amar a vida inteira'  (respectivamente o 92 e o 43)

Renée Fleming interpreta de Richard Strauss: Four Last Songs - Beim Schlafengehen

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1 comentário:

  1. O apelo ao sangue, rubro, fonte de vida, que nos percorre o corpo e em cada pulsação insufla a energia que faz bater o coração e aquecer a pele.

    O seu texto e o poema de Casimiro de Brito, em comunhão perfeita.

    Aqui, o poeta, num haiku, com saudades do mar:

    "12

    Escrevo poemas, música
    perfeita: terei esquecido
    os ritmos do mar?"

    E o Ginjal, ali, um manancial de imagens e tão bem captadas que elas são.

    Bj

    Olinda

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