Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

31 agosto, 2015

Para ti serei todos os bichos da água






Não sei se existes. Não sei se te inventei. Não sei se existo para ti. Mas sei que me olhas como se me tivesses inventado ou como se quisesses conhecer o fruto da tua imaginação. E eu olho-te, ah olho-te e não sei porque deixo que me olhes assim, não sei se quero que me desvendes, se quero apenas imaginar-te navegando dentro de mim.

Quem és?

A quem pertence esse olhar que me olha, que me olha sem parar, que me procura, que me prende, que se prende a mim? Que olhos são esses, umas vezes sombrios, outras vezes luz, plena luz e riso? Que palavras são essas que me procuram, que me fazem desvendar-me? Que palavras são essas que me trazem poemas, cânticos, histórias? De onde viestes? Como chegaste até mim?

Ah que eu não sei quem tu és mas mal consigo viver sem ti. Conta-me histórias, conta-me, embala-me com o teu olhar, com o teu riso, com o som da tua voz, ah, traz-me o calor do teu corpo, o amor das tuas mãos.

E, se tiver que me justificar para que permaneças assim, junto a mim, embalando-me sobre as ondas de um mar que é só nosso, dir-te-ei que sou bicho da água e que tu és marinheiro, veleiro, âncora, vela, luz, pássaro, mar, amor meu. 

Não saias nunca do meu coração, ah não saias amor meu que não sei quem és.




Para ti serei
todos os bichos da água
até dares às costas
o teu nome de âncora
a estrela embaciada para os dias seguintes
e um rosto trágico de marinheiro
pedindo menos mar

[ Poema de Catarina Nunes de Almeida in Bailias]
...

Quarteto de Cordas Nº 2, Nocturno, de Alexander Borodin

Interpretação de Borodin Quartet
Rostislav Dubinsky e Yaroslav Alexandrov, violinos; Dmitry Shebalin, viola; Valentin Berlinsky, cello

...

1 comentário:

  1. quando vires um comboio
    passar sobre os carris
    na linha da frente dos teus olhos,
    acena.lhe, mesmo que ele
    siga a alta velocidade e não pare
    para responder ao teu gesto.
    não sabes se a memória do gesto à tua mão se revele
    apeadeiro a um rosto
    com bilhete para o suicídio
    estação a um coração
    deixado ao abandono.
    quando vires um comboio
    passar sobre os carris
    na linha da frente dos teus olhos
    acena-lhe.
    Dista Um Palmo, A Amplitude Do Peso Que Suportas; Helder Magalhães

    Parabéns pelas fotos.

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