Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

02 dezembro, 2013

O fácil faleante sentido. Ou por dentro da casa me consome a maior


Palavras com asas, cem asas, telhados com sonhos, casas sem sombras, voos rasantes com velas, sóis incendiados, saltos impensados e desejos abertos por onde a luz entra sem dono.

Íngremes os telhados, ascendentes os azuis, fluidos os olhares, florestas verdes e profundas, ilimites, infinitos, infindos recomeços, doces tangentes, e amores eternos, loucos, imensos, intensos.

Sons, gaivotas, suspiros, e um movimento que me eleva, me leva, me lava, me louva. 

Sei e des sei, amo e des amo, luto e nunca des luto. E ando por onde as asas me levam e vou e voo e falo e abro e bato o pé e grito e não espero porque não conheço portas nem portadas, nem torres fechadas, nem grutas loucas, ocas.

Por isso aqui estou e que venha o primeiro que me derrube que eu me levantarei mil vezes, mil vezes, e para sempre o atirarei para a escura e tormentosa torrente dos pesos mortos.

Ámen.



[Abaixo da gaivota imateria que levanta voo, um poema atípico da autoria do poeta inconstante, E.M. De Melo e Castro. Logo a seguir duas quentes vozes de África recordam Cesária Évora. Noite boa, minha gente.]


Gaivota e telhado numa casa do Ginjal

                                       

                                            falo que sei e des não sei
                                            de um eu tangente tanto ou tudo
                                            em florestas de íngremes torrentes.
                                            Ou todas as esperas são tangentes
                                            em que contando falo e digo escrevo.
                                            O projecto do tacto tacteante
                                            com as largas balizas desfilantes
                                            ou a recta rectórica do resto.
                                            O fim me vou. O fácil faleante sentido.
                                            Ou por dentro da casa me consome a maior.


[Poema da pag 65 da série 'do variante variado' de E.M. de Melo e Castro in 'resistência das palavras']


2 comentários:

  1. Que nunca des voe, porque é urgente continuar a voar... livre.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que nunca nos vejamos sem asas, sem voz, sem querer, sem crer, sem força. Que para sempre longe fiquem esses tempos.

      Eliminar